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As Mulheres que Ele Despiu (Women He’s Undressed, 2015)

As Mulheres que Ele Despiu é o título da autobiografia jamais publicada do premiado figurinista Orry-Kelly. O documentário homônimo dirigido por Gillian  Armstrong descortina sua vida e obra desde o vilarejo natal na Austrália, passando pelo período em que morou em Nova York e trabalhou na Broadway até chegar à consagração na época de ouro de Hollywood.

Kelly começou a sua carreira como aspirante a ator e foi dessa forma que se mudou para os Estados Unidos. Usou sua experiência com os bastidores do teatro e o contato profissional com as coristas para se alçar primeiro ao papel de cenógrafo e finalmente de figurinista. Foi nessa época, durante a década de 1920, que conheceu o jovem Archie Leach, que também havia migrado em busca de uma carreira dramática. Leach e Kelly rapidamente começaram um relacionamento e moraram juntos por alguns anos. Foi também junto que se mudaram para Los Angeles na tentativa de alcançar maior sucesso. A crise de 1929 e a preocupação com o lucro que os filmes geravam aliadas ao Código Hays e ao Sistema das Estrelas dificultaram a vida de artistas abertamente homossexuais. Kelly jamais ocultou quem era, mas Leach fez concessões e após alcançar o sucesso com o nome de Cary Grant foi gradualmente se afastando das relações homossexuais do passado. O filme foca no relacionamento entre o figurinista e o astro, utilizando-o como pano de fundo para as consequências dele na carreira do primeiro.

Mas para além da vida afetiva, também retrata o gênio dos tecidos, vencedor de três Oscars e que transformou a carreira de atrizes como Bette Davis, Ingrid Bergman, Marilyn Monroe, Jane Fonda e Angela Lansbury, por exemplo. As duas últimas fornecem depoimentos ricos sobre sua convivência com ele nos sets  de filmagem, bem como histórias de bastidores. As falas das estrelas do passado são trazidas com uso de interpretações vocais, que no contexto do documentário funcionam.

Somam-se às vozes das grandes atrizes diretamente afetadas pelo talento de Kelly a visão de grandes figurinistas, como Deborah Nadoolman, Catherine Martin, Michael Wilkinson, Colleen Atwood, entre outros. Utilizando o tradicional formato de cabeças falantes, eles podem analisar com calma e precisão o papel do seu trabalho na sétima arte e como Kelly lidou com obstáculos e criou um estilo seu, bastante particular.

Felizmente o documentário não faz uso apenas de cabeças falantes, que pode se tornar tedioso: utiliza também bonitas encenações que elevam o filme a uma dimensão poética, com destaque para a interpretação de Darren Gilshenan como o próprio Kelly. Tomadas externas se unem a outras gravadas em ambientes internos que misturam uma espécie de encenação teatral com projeções  e elementos cenográficos. O resultado engaja o espectador é visualmente instigante, beirando o experimental.

Orry-Kelly teve uma vida intensa, com suas divas, seus amores e seus três Oscars. Dentre os amores, Cary Grant certamente se destaca e o filme aborda lindamente a trajetória de ambos rumo ao sucesso e à inevitável separação. Como um todo, essa obra é no mínimo interessante, especialmente para quem tem apreço pela Hollywood antiga ou por figurinos. Mas não deixa de ter, também, sua forte carga emocional e engajar por meio dela.

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Paris is Burning (1990)

Paris is Burning é o perfeito retrato de uma cultura em um local e época específicos. O documentário de 1990, dirigido por Jennie Livingston, foi filmado entre 1985 e 1989 nos bailes queer do Harlem, em Nova York. Seus protagonistas são os participantes deles, majoritariamente compostos por homens gays e mulheres trans, negros e latinos.

O filme possibilita a reflexão sobre as exclusões sistêmicas de cunho étnico-racial e de classe a que seus personagens são submetidos. Sonhando com riqueza, aceitação e uma vida melhor, eles competem em desfiles de drag em categorias como “empresário”, “estudante universitário”, “magnata do campo”, entre outras, mostrando que se ainda não ocupavam esses espaços, pelo menos poderiam se mostrar capazes de imitar a aparência que os caracteriza. É a aí que surge o conceito de realness, que é vinculado à passabilidade de cada um e cada uma dentro das categorias escolhidas. Com cortes que mostram os competidores e as pessoas de classe média andando pela cidade, o filme trata de estabelecer que todos igualmente montam um personagem.

Outra competição existente é de vogue, em que dois rivais se enfrentam em uma dança que emula as poses encontradas nos ensaios da famosa revista. Até o final das filmagens o vogue já havia se tornado mainstream e sido absorvido pelo mercado fonográfico. Pouco depois do lançamento do documentário, Madonna lança uma música com esse mesmo nome.

Os competidores são divididos em casas com uma matriarca. A estrutura funciona como a de uma família e fornece uma rede de apoio e uma identidade para cada um. De certa forma eles substituem pela cena LGBT o contato e o carinho familiar que geralmente deixam de ter quando saem do armário. Os personagens são incrivelmente carismáticos em seus relatos de vida e na abordagem de seus sonhos. Apesar de todos os problemas no mundo exterior, no baile eles brilham e são estrelas. É triste pensar que não muitos anos depois muitos deles já não estariam vivos, em virtude especialmente do HIV/AIDS, que roubou uma geração de jovens criativos e com espírito artístico.

Se você gosta de RuPaul Drag’s Race, vai perceber que foi nesse contexto que foram criadas muitas das gírias e expressões que agora, graças ao programa e sua apresentadora, chegaram ao mainstream. A assimilação contemporânea também tem a ver com o declínio da cena no começo dos anos 1990. No filme, a câmera não é invasiva e parece mergulhar quase despercebida em seu universo, capturando reflexões, desabafos, mas também força e alegria. Paris is Burning  é um documentário interessante e apaixonante como seus protagonistas.

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Elena (2012)

“Arte pra mim é tudo, sem a arte eu prefiro morrer”

Esta não é uma crítica.

Talvez não seja mais do que um apanhado de percepções pessoais sobre um filme que também é um apanhado de percepções pessoais.

Elena é dirigido por Petra Costa e trata de sua convivência com sua irmã, treze anos mais velha. Elena queria ser artista e cedo ganhou dos pais uma câmera. Graças a isso, Petra pode se debruçar sobre imagens que descortinam seu crescimento: a irmã ainda pré-adolescente rodopiando a dançar; aos treze, embalando-a no colo e dormindo junto a ela; aos dezesseis atuando e dirigindo filmes caseiros em que ambas se divertiam. Elena aparece como uma figura sensível, sedenta por se expressar artisticamente e por esticar os braços e alcançar as estrelas. Elena dança com a Lua.

Além das duas irmãs, a mãe também aparece como uma personagem forte. A socióloga deixa escapar uma juventude de melancolia que se fez presente até conhecer o pai delas. Menciona os momentos em que desenhava para expressar a tristeza.

Elena queria ser atriz e foi aceita na universidade de Nova York. Era perfeccionista e dedicada, mas se sentia só e triste, muito triste. Petra, tão pequena, não entendia o que estava acontecendo. As imagens de arquivo são etéreas, como se pertencessem a um passado que o tempo trata de dissolver. A estética do filme é muito bonita ao captar a mente de suas protagonistas assim, vagando pelas lembranças.

É fácil de se identificar com as personagens. O filme me afetou de uma maneira bastante pessoal. Um dia eu já fui Elena. Começou cedo, bem cedo. Às vezes eu acordava e só de olhar tudo ao meu redor, doía. Doía respirar, doía olhar o mundo, doía sentir aquele vazio. Então, anos depois, também me mudei para uma cidade fria em que não conhecia as pessoas. Queria ficar só, mas quanto mais só, mais triste. Andava pelas ruas escondendo as marcas nos braços. De noite saía do apartamento pequeno demais e olhava as estrelas. Mas eu também gritava por dentro através da minha arte. Só que não atuava, nem dançava: eu escrevia. Derramava palavras que me machucavam mas me faziam bem. Escrever virou uma necessidade. Quanto pior ficava, mais escrevia e só conseguia escrever assim. Às vezes era difícil conter as lágrimas e elas rolavam por horas sem parar, manchando as páginas marcadas pelas letras. E eu achava que assim elas ficavam até mais bonitas. Mas por algum motivo, eu permaneci.

Um dia, quando tinha lá meus vinte três ou vinte e quatro anos e bem mais de uma década de papeis manchados de lágrimas, decidi que eu precisava parar com esse ciclo. Sei que não funciona assim com todo mundo. Mas eu decidi que não escreveria mais aquelas poesias que precisavam de dor para nascer. Percebi que eu precisava continuar escrevendo, mas precisava de novas inspirações. Escrevi sobre livros que me encantaram, sobre jogos que me divertiram, sobre filmes que me levaram a outros lugares. E com os anos a escrita tomou um novo sentido para mim.

Às vezes aquela tristeza imensa e sem motivo ainda se esgueira, se infiltrando nas rachaduras do cotidiano, acenando e tentando trazer de volta tudo que a acompanha. Mas deixo-a lá, porque tanta coisa na minha vida já mudou.

Elena se apresenta como um documentário que é quase ficção, construído por memórias, pelo que foi , pelo que poderia ter sido e pelo que ficou. É um projeto visivelmente pessoal, que transborda na tela repleto da subjetividade da autora. Elena é poesia visual.

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INFERNO

as chamas
me chamam
me queimam
me abrasam
me coram
me sinto tão sem vida
me sinto tão morta
me sinto tão só
me sinto tão assassina
(matei a vida
matei a alegria
matei o riso
matei a ênclise)
fujo pelos cantos
como uma sombra
sem rumo
como um cão
sem dono
a uivar sua dor
para uma lua
indiferente
rasgo minhas vestes
rasgo minha carne
(atiro-a aos chacais)
no desespero
dos que não sabem
como andar para frente
esses meus erros
esses meus medos
essas minhas dúvidas
essas minhas perdições
essas minhas crises
essa minha falta de senso
que queimem no inferno!
eu estou lá agora…

31/05/2003

Elena

 

 

 

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Dicas de Documentários na Netflix

Esse vai ser uma postagem rápida e atípica, com sugestões de três documentários que estão no catálogo da Netflix.

As Hipermulheres (2011) é dirigido pelo antropólogo Carlos Fausto e pelos cineastas Leonardo Sette e Takuma Kuikuro. Kuikuro é um cineasta indígena formado pelo projeto vídeo nas aldeias, de Vincent Carelli. O filme aborda o ritual Jamurikumalu, tradicionalmente performado pelas mulheres do povo Kuikuro, no Alto Xingu, no Brasil. A tradição dita que no período em que ele acontece, ocorre uma inversão de papéis na aldeia, como uma espécie de ritual de rebelião. Assim, as mulheres utilizam adornos e armas masculinos, praticam suas lutas e fazem abordagens de cunho sexual, ao mesmo tempo que zombam do desempenho de seus amantes e outros homens. Tudo isso ocorre com o consentimento de todos. Mas a mulher mais velha, responsável pelas canções, já não as recorda direito e precisa lembrar delas para ensinar às mais jovens. A obra se beneficiaria de uma montagem mais ágil e uma abordagem mais contextualizada para quem não está acostumado com filmes etnográficos, mas o tema é bastante interessante. Tradição e gênero são os temas que puxam o documentário.

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Doméstica (2012), dirigido e roteirizado por Gabriel Mascaro, é outro documentário. Dessa vez o foco é a relação entre as empregadas domésticas brasileiras e a família com quem moram. Macaro entrega câmeras para que os adolescentes de cada uma das casas registrem o cotidiano daqueles que trabalham para eles, a moradia, os sonhos e as contradições que vêm de um contato tão íntimo e tão hierarquizado. Um filme interessantíssimo, que comprova que as relações de casa grande e senzala estão longe de terminar no Brasil.

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doméstica

Por fim, India’s Daughter (2015) aborda o recente estupro coletivo de Jyoti Singh, estudante de medicina na Índia, e suas consequências. O roteiro e a direção ficam por conta de Leslee Udwin. O filme se preocupa em não particularizar o ocorrido, mas sim contextualizar a cultura de estupro que permite e justifica ações como essas. Entrevistas com um dos estupradores e com um dos advogados são especialmente impactantes, assim como a fala da esposa de um dos condenados. O contexto social da favela em que cresceram é trazido à tona e mais do que indivíduos cruéis, o que vemos é uma sociedade que valida seus atos (o que em maior ou menor grau acontece em outros lugares, como no próprio Brasil).

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The True Cost (2015)

Disponível no catálogo da Netflix, The True Cost, dirigido por Andrew Morgan, é um bom documentário para refletir sobre o peso do nosso consumo. Há algumas décadas, a moda previa quatro coleções por ano: primavera, verão, outono e inverno. Agora, com a ascensão do fast fashion, com grandes redes de varejo, especialmente da Europa e Estados Unidos (C&A, H&M, Forever 21, Zara, Topshop, etc), as lojas recebem coleções novas todas as semanas, com preços baixos, material de qualidade duvidosa e acabamentos questionáveis. Mas o chamariz são os preços.

Por que pagamos o mesmo preço por uma calça ou uma regata que pagávamos há 10 anos? Porque os custos de produção foram cortados na outra ponta: mulheres e crianças de países de “terceiro mundo” são submetidas a jornadas de trabalho exaustivas, com pagamentos irrisórios e sem direitos trabalhistas. A poluição do processo de produção e as doenças causadas por ela ficam nesses países, mas não só isso: os consumidores do “primeiro mundo” exportam para outros países o lixo gerado pelo descarte dessas peças sem durabilidade. Tudo isso é mostrado no contexto europeu, mas não é difícil fazer a relação com os trabalhadores de outros países da América Latina que estão no Brasil em condições análogas à de escravidão. 

Há um tempo atrás eu li o livro chamado Fashion and Its Social Agendas: Class, Gender and Identity in Clothing, de Diana Crane, em que consta uma pesquisa que afirma que uma pessoa da classe trabalhadora britânica no final do século XIX raramente possuía mais que algo em torno de cinco peças de roupa e estas eram deixadas de herança. Por que hoje em dia as pessoas tem tantas e por que não duram uma vida? Mas mais importante, por que tantas vidas prejudicadas para isso?

Como material cinematográfico The True Cost é bastante simplista, fazendo uso quase que exclusivo de entrevistas e não respondendo questões que se propõe responder. Mesmo assim, vale a pena assisti-lo pela reflexão que proporciona.

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