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Elena (2012)

“Arte pra mim é tudo, sem a arte eu prefiro morrer”

Esta não é uma crítica.

Talvez não seja mais do que um apanhado de percepções pessoais sobre um filme que também é um apanhado de percepções pessoais.

Elena é dirigido por Petra Costa e trata de sua convivência com sua irmã, treze anos mais velha. Elena queria ser artista e cedo ganhou dos pais uma câmera. Graças a isso, Petra pode se debruçar sobre imagens que descortinam seu crescimento: a irmã ainda pré-adolescente rodopiando a dançar; aos treze, embalando-a no colo e dormindo junto a ela; aos dezesseis atuando e dirigindo filmes caseiros em que ambas se divertiam. Elena aparece como uma figura sensível, sedenta por se expressar artisticamente e por esticar os braços e alcançar as estrelas. Elena dança com a Lua.

Além das duas irmãs, a mãe também aparece como uma personagem forte. A socióloga deixa escapar uma juventude de melancolia que se fez presente até conhecer o pai delas. Menciona os momentos em que desenhava para expressar a tristeza.

Elena queria ser atriz e foi aceita na universidade de Nova York. Era perfeccionista e dedicada, mas se sentia só e triste, muito triste. Petra, tão pequena, não entendia o que estava acontecendo. As imagens de arquivo são etéreas, como se pertencessem a um passado que o tempo trata de dissolver. A estética do filme é muito bonita ao captar a mente de suas protagonistas assim, vagando pelas lembranças.

É fácil de se identificar com as personagens. O filme me afetou de uma maneira bastante pessoal. Um dia eu já fui Elena. Começou cedo, bem cedo. Às vezes eu acordava e só de olhar tudo ao meu redor, doía. Doía respirar, doía olhar o mundo, doía sentir aquele vazio. Então, anos depois, também me mudei para uma cidade fria em que não conhecia as pessoas. Queria ficar só, mas quanto mais só, mais triste. Andava pelas ruas escondendo as marcas nos braços. De noite saía do apartamento pequeno demais e olhava as estrelas. Mas eu também gritava por dentro através da minha arte. Só que não atuava, nem dançava: eu escrevia. Derramava palavras que me machucavam mas me faziam bem. Escrever virou uma necessidade. Quanto pior ficava, mais escrevia e só conseguia escrever assim. Às vezes era difícil conter as lágrimas e elas rolavam por horas sem parar, manchando as páginas marcadas pelas letras. E eu achava que assim elas ficavam até mais bonitas. Mas por algum motivo, eu permaneci.

Um dia, quando tinha lá meus vinte três ou vinte e quatro anos e bem mais de uma década de papeis manchados de lágrimas, decidi que eu precisava parar com esse ciclo. Sei que não funciona assim com todo mundo. Mas eu decidi que não escreveria mais aquelas poesias que precisavam de dor para nascer. Percebi que eu precisava continuar escrevendo, mas precisava de novas inspirações. Escrevi sobre livros que me encantaram, sobre jogos que me divertiram, sobre filmes que me levaram a outros lugares. E com os anos a escrita tomou um novo sentido para mim.

Às vezes aquela tristeza imensa e sem motivo ainda se esgueira, se infiltrando nas rachaduras do cotidiano, acenando e tentando trazer de volta tudo que a acompanha. Mas deixo-a lá, porque tanta coisa na minha vida já mudou.

Elena se apresenta como um documentário que é quase ficção, construído por memórias, pelo que foi , pelo que poderia ter sido e pelo que ficou. É um projeto visivelmente pessoal, que transborda na tela repleto da subjetividade da autora. Elena é poesia visual.

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INFERNO

as chamas
me chamam
me queimam
me abrasam
me coram
me sinto tão sem vida
me sinto tão morta
me sinto tão só
me sinto tão assassina
(matei a vida
matei a alegria
matei o riso
matei a ênclise)
fujo pelos cantos
como uma sombra
sem rumo
como um cão
sem dono
a uivar sua dor
para uma lua
indiferente
rasgo minhas vestes
rasgo minha carne
(atiro-a aos chacais)
no desespero
dos que não sabem
como andar para frente
esses meus erros
esses meus medos
essas minhas dúvidas
essas minhas perdições
essas minhas crises
essa minha falta de senso
que queimem no inferno!
eu estou lá agora…

31/05/2003

Elena

 

 

 

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Dicas de Documentários na Netflix

Esse vai ser uma postagem rápida e atípica, com sugestões de três documentários que estão no catálogo da Netflix.

As Hipermulheres (2011) é dirigido pelo antropólogo Carlos Fausto e pelos cineastas Leonardo Sette e Takuma Kuikuro. Kuikuro é um cineasta indígena formado pelo projeto vídeo nas aldeias, de Vincent Carelli. O filme aborda o ritual Jamurikumalu, tradicionalmente performado pelas mulheres do povo Kuikuro, no Alto Xingu, no Brasil. A tradição dita que no período em que ele acontece, ocorre uma inversão de papéis na aldeia, como uma espécie de ritual de rebelião. Assim, as mulheres utilizam adornos e armas masculinos, praticam suas lutas e fazem abordagens de cunho sexual, ao mesmo tempo que zombam do desempenho de seus amantes e outros homens. Tudo isso ocorre com o consentimento de todos. Mas a mulher mais velha, responsável pelas canções, já não as recorda direito e precisa lembrar delas para ensinar às mais jovens. A obra se beneficiaria de uma montagem mais ágil e uma abordagem mais contextualizada para quem não está acostumado com filmes etnográficos, mas o tema é bastante interessante. Tradição e gênero são os temas que puxam o documentário.

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Doméstica (2012), dirigido e roteirizado por Gabriel Mascaro, é outro documentário. Dessa vez o foco é a relação entre as empregadas domésticas brasileiras e a família com quem moram. Macaro entrega câmeras para que os adolescentes de cada uma das casas registrem o cotidiano daqueles que trabalham para eles, a moradia, os sonhos e as contradições que vêm de um contato tão íntimo e tão hierarquizado. Um filme interessantíssimo, que comprova que as relações de casa grande e senzala estão longe de terminar no Brasil.

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doméstica

Por fim, India’s Daughter (2015) aborda o recente estupro coletivo de Jyoti Singh, estudante de medicina na Índia, e suas consequências. O roteiro e a direção ficam por conta de Leslee Udwin. O filme se preocupa em não particularizar o ocorrido, mas sim contextualizar a cultura de estupro que permite e justifica ações como essas. Entrevistas com um dos estupradores e com um dos advogados são especialmente impactantes, assim como a fala da esposa de um dos condenados. O contexto social da favela em que cresceram é trazido à tona e mais do que indivíduos cruéis, o que vemos é uma sociedade que valida seus atos (o que em maior ou menor grau acontece em outros lugares, como no próprio Brasil).

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The True Cost (2015)

Disponível no catálogo da Netflix, The True Cost, dirigido por Andrew Morgan, é um bom documentário para refletir sobre o peso do nosso consumo. Há algumas décadas, a moda previa quatro coleções por ano: primavera, verão, outono e inverno. Agora, com a ascensão do fast fashion, com grandes redes de varejo, especialmente da Europa e Estados Unidos (C&A, H&M, Forever 21, Zara, Topshop, etc), as lojas recebem coleções novas todas as semanas, com preços baixos, material de qualidade duvidosa e acabamentos questionáveis. Mas o chamariz são os preços.

Por que pagamos o mesmo preço por uma calça ou uma regata que pagávamos há 10 anos? Porque os custos de produção foram cortados na outra ponta: mulheres e crianças de países de “terceiro mundo” são submetidas a jornadas de trabalho exaustivas, com pagamentos irrisórios e sem direitos trabalhistas. A poluição do processo de produção e as doenças causadas por ela ficam nesses países, mas não só isso: os consumidores do “primeiro mundo” exportam para outros países o lixo gerado pelo descarte dessas peças sem durabilidade. Tudo isso é mostrado no contexto europeu, mas não é difícil fazer a relação com os trabalhadores de outros países da América Latina que estão no Brasil em condições análogas à de escravidão. 

Há um tempo atrás eu li o livro chamado Fashion and Its Social Agendas: Class, Gender and Identity in Clothing, de Diana Crane, em que consta uma pesquisa que afirma que uma pessoa da classe trabalhadora britânica no final do século XIX raramente possuía mais que algo em torno de cinco peças de roupa e estas eram deixadas de herança. Por que hoje em dia as pessoas tem tantas e por que não duram uma vida? Mas mais importante, por que tantas vidas prejudicadas para isso?

Como material cinematográfico The True Cost é bastante simplista, fazendo uso quase que exclusivo de entrevistas e não respondendo questões que se propõe responder. Mesmo assim, vale a pena assisti-lo pela reflexão que proporciona.

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O Triângulo Rosa (Paragraph 175/ 2000)

Filmes que abordam a Segunda Guerra Mundial ou seus campos de concentração são diversos, sejam de ficção ou documentários, como este. Mas O Triângulo Rosa se propõe a mostrar a realidade de um grupo que viveu o período e é pouco pesquisado: os homossexuais. O parágrafo 175 da legislação alemã, presente no título original do filme, diz respeito à proibição da assim chamada sodomia. A lei entrou em vigor ainda no século XIX, mas pouco ou nada foi aplicada até o regime nazista. Segundo o que é mostrado, na década de 1920 Berlim chegou a se tornar o paraíso gay da Europa, com bares, cafés, clubes de dança e outras atividades que integravam as pessoas e animavam a vida noturna da cidade. Além disso existiam laboratórios que pesquisavam sexualidade humana e interesse pelo assunto. Depois que Hitler foi elevado a Chanceler, em 1933, os estabelecimentos voltados para o público gay foram banidos, institutos de pesquisa fechados e, largamente sabido, livros que entravam em conflito com a filosofia do governo foram queimados.

A princípio o parágrafo 175 não foi posto em vigor. Sabe-se de oficiais nazistas que eram homossexuais e não sofreram nenhuma sanção por isso. Mas, conforme a guerra avançou, a lei passou a ser aplicada. Os triângulos rosas do título referiam-se às marcas usadas na roupas dos presos homossexuais para defini-los. Mulheres lésbicas não eram alvo da lei, pois lesbianidade era vista como algo temporário e curável. Homossexuais não judeus raramente eram enviados aos campos de concentração,  sendo geralmente utilizados para trabalhos escravos ou como cobaias em testes científicos. Pelos relatos parece que muitas pessoas foram presas não exclusivamente pela homossexualidade, mas sim por uma combinação de fatores, como serem judeus ou terem posturas políticas antagônicas ao Reich, por exemplo. E esse é o ponto fraco do documentário: por ser produzido mais de meio século após o fim da guerra, não há muitos interlocutores para coletar informações. A equipe conseguiu levantar uma lista de sete homossexuais que foram presos no regime, mas apenas cindo aceitaram gravar depoimentos, o que é uma amostragem bastante baixa e pouco eficiente em termos de levantamento de dados. Apesar disso, o filme conta com relatos emocionantes e, somados aos dados obtidos através de pesquisa, consegue por aproximação formar uma perspectiva dos horrores pelos quais essas pessoas passaram. Embora com aspectos problemáticos na produção, ainda é um documentário emocionante e que revela aspectos pouco comentados do período.

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O Ato de Matar (The Act of Killing/ 2012)

Assistido para o curso Scandinavian Film and Television, disponível em Coursera.org.

O Ato de Matar é um documentário sobre o golpe militar perpetrado em 1965 na Indonésia. Na ocasião, cerca de um milhão de pessoas foram mortas por milícias e mafiosos sob a acusação de serem comunistas. Mas ao invés de relatar o que aconteceu naquele período em retrospecto, os realizadores solicitaram aos responsáveis pelas mortes que reencenassem suas práticas, utilizando os meios que achassem mais apropriados. Com ajuda de figurantes, maquiagem e alguma dedicação, inspirados por filmes de gangster e musicais, eles rememoraram o passado. A sensação ao assistir é de terrível estranhamento e dúvida. Seriam essas pessoas assim tão cínicas? Contam a respeito de seus métodos de tortura sorrindo, juram que os boatos de que os comunistas eram cruéis é mentira, pois garantem que eles sempre foram mais cruéis e por fim, arrumam maneiras engenhosas de mostrar como assassinavam seus prisioneiros. Relatam que depois de derrotados, foi fácil convencer o povo que os comunistas eram inimigos, com auxílio dos jornais que controlam. Até hoje milicianos são protegidos pelo governo. Obviamente a sensação de irrealidade aparece diante de tanto absurdo. Claro que revisitar tantos acontecimentos não deixa todos imunes ao questionamento de suas ações passadas e ver lapsos de auto-crítica traz certo alívio. Não é fácil assistir e o que você assiste é perturbador e mesmerizante, o que, obviamente era o intento dos diretores. Muitíssimo bem feito, o documentário consegue captar a atenção do expectador com o bizarro da situação que ele mesmo cria. 

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