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Como Era Verde o Meu Vale (How Green Was My Valley/1941)

Assistido em 06/10/2013

Esse pobre filme é injustamente odiado por ter ganhado o Oscar de melhor filme no em que Cidadão Kane concorreu. Obviamente que o segundo tem importância muito maior hoje em dia, mas isso não torna o primeiro um filme ruim. Além do que, quantas outras injustiças aconteceram nessa premiação? Crepúsculo dos Deuses perdeu para A Malvada, apenas para citar um exemplo, mas pode-se dizer que foi injusto ou que esse último é um filme ruim? Tratam-se de obras diferentes.

Como Era Verde Meu Vale é dirigido por John Ford, e, assim como Vinhas da Ira, do ano anterior, tem certo caráter político. A história do protagonista, o menino Huw (Roddy McDowall), é narrada por ele mesmo aos cinquenta anos de idade. Huw é galês e mora com o pai, Sr. Morgan (Donald Crisp), a mãe, Sra. Morgan (Sara Allgood) e mais cinco irmãos mais velhos e uma irmã, Angharad (Maureen O’Hara). Todos os seus irmãos e seu pai trabalham em uma mina de carvão. Certo dia o proprietário da mina anuncia corte de salários e os trabalhadores entram em greve. Os irmãos de Huw apoiam a greve, mas seu pai não. Para ele sindicatos e greves são coisas de comunistas. Quando digo que o filme tem “certo caráter político”, o faço porque ele trata a política de forma leviana e superficial. Comparemos a situação da família com os mineradores de Germinal (filme ou livro), por exemplo. Sei que trata-se de outro país, mas acredito que a revolução industrial afetou igualmente a Inglaterra em relação à França, se não de forma pior. Em Como Era Verde Meu Vale a família vive em uma casa bonita, bem mobiliada, com louças de cerâmica pintada, taças de cristal lapidado e usam roupas bem feitas, incluindo ternos para os homens. Os homens tomam banho no quintal após o trabalho, felizes, com abundância de água. Já em Germinal, onde uma escadinha de filhos também trabalha na mineração, vive-se em um casebre, os homens tomam banho do mais velho ao mais novo na mesma tina de água, cada vez mais suja, trabalha-se um dia pela comida do outro, veste-se trapos e quando os trabalhadores entram em greve, passam fome. Claro que tratam-se de visões diferentes, mas me chamou muito a atenção esse contraste (até porque considero Germinal um livro poderoso e é um dos meus preferidos).

Mais tarde Angharad casa-se com o filho do proprietário da mina. É um casamento infeliz, causado diretamente pelo orgulho do pastor da vila, Sr. Gruffydd (Walter Pidgeon), que embora apaixonado por ela, não quis casar-se para não deixá-la viver de doações da comunidade, como ele fazia. Essa decisão gerou consequências que afetaram todos até o final do filme.

A produção em si é muito bem feita. As casas de pedra, recriadas para a filmagem, são muito bonitas. As canções galesas cantadas por um coral de lá ajudam na criação da ambientação. As atuações, especialmente de Donald Crisp e Sara Allgood, são muito boas. Roddy McDowall é uma criança extremamente expressiva e sua atuação também impressiona. A fotografia é belíssima. Mas por não adaptar a totalidade do material em que se baseou (um livro de mesmo nome), o filme peca pela falta de fechamento de certas histórias. Por exemplo, ao começar, o Huw diz que está partindo do vale, depois de cinquenta anos vivendo ali, mas esse momento ao final jamais chega ou é explicado.

Trata-se de uma história sobre crescimento e descobrimento. Huw fala que no dia em que os trabalhadores entraram em greve, algo no vale se foi e não vai mais voltar. Foi-se a inocência, a crença no ser humano, ceio o conhecimento e com ele a dor. “Como era verde meu vale naquela época”, pois na infância tudo é belo, mesmo o que não é. Tudo é belo, mas nada voltará.

how green was my valley

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Lírio Partido (Broken Blossoms/ 1919)

Assistido em 06/08/2013

Depois de tantas pirotecnias de filmes contemporâneos (ruins) achei interessante assistir um filme mudo para descansar. O escolhido foi Lírio Partido, um drama de D. W. Griffith. Confesso que foi o seu primeiro filme que assisti inteiro, pois depois de algumas tentativas, nunca passei da metade de O Nascimento de uma Nação, considerado o seu maior.

Lírio partido conta a história de rapaz identificado apenas como O Homem Amarelo (Richard Barthelmess), chinês que vê marinheiros ocidentais brigando e resolve pregar a paz de Buda na Inglaterra. Mas lá só encontra pobreza, falta de perspetiva e vícios e acaba deixando sua própria fé de lado. Passado algum tempo, sendo proprietário de uma pequena loja em um bairro a beira de um cais, ele se encanta com a beleza da mocinha Lucy (Lilian Gish). Ela tem 15 anos e é filha de um boxeador beberão e violento, Battling Burrows (Donald Crisp) que a espanca e chicoteia rotineiramente. Certo dia, após um sessão de chicotadas, sai caminhando trôpega pelas ruas e cai desmaiada dentro da loja do Homem Amarelo. Ele passa a cuidar dela como nunca fez na vida e assim eles se apaixonam.

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Lilian Gish é uma atriz absolutamente fantástica. Expressa intensamente a doçura, a tristeza e o terror de sua personagem. O gesto em que empurra o canto dos lábios para cima com os dedos, obrigando-se a sorrir, é muito bonito, embora tenha sido usado demasiadamente ao longo do filme. A cena em que se tranca dentro de um armário para fugir da violência de seu pai é intensa e impressiona (e faz lembrar O Iluminado…). Donald Crisp já não segue esse mesmo realismo: sua atuação é mais exagerada e teatral. Mas considerando o período em que o filme foi feito e o tipo de violência retratada, acho justificável e não atrapalha o desenrolar da história. O que atrapalha um pouco para meus olhos contemporâneos é Richard Barthelmess, com maquiagem amarelada, olhos esticados, atuando com eles semicerrados e postura corcunda, para dar vida ao seu chinês. É um caso de “yellow face” que, como todos, pode ser explicado pelo racismo de Hollywood, já que diversos atores chineses são vistos fazendo figuração ao longo do filme. De qualquer forma não deixa de ser irônico pensar no escândalo que seria um casal inter-racial protagonizando um filme que trata justamente do preconceito racista e xenofóbico contra os chineses.

bbliliangish As cores do filme são muito interessantes. Cores, sim, pois apesar de ser filmado em preto e branco, as cenas são tingidas eventualmente, amarelo ou vermelho, criando um efeito interessante em relação aos cenários. Em outros momentos tudo permanece no preto e branco padrão.

Belíssimo o último ato, quando O Homem Amarelo redescobre sua fé e reorganiza seu altar para Buda, enquanto na China, um monge toca os sinos em um mosteiro. O final, trágico, como era de se esperar, casa com a história.

broken blossoms

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