Tatuagem (2013)

Essa crítica foi escrita em outubro de 2017 para um módulo que ministrei do curso A Crítica de Cinema por Dentro, realizado no SESC.

Depois da abertura ruidosa em que vemos um mestre de cerimônias apresentando o grupo de teatro Chão de Estrelas, o silêncio. Fininha (Jesuita Barbosa), um dos protagonistas, aparece visualmente aprisionado entre as grades das camas de ferro do quartel onde serve, sentado enquanto seus colegas ainda dormem. A dualidade entre o caos e a ordem será uma constante em Tatuagem, que é bonito nas diversas facetas que a palavra pode expressar ao ser aplicada a um filme. Trata-se do primeiro trabalho de direção de Hilton Lacerda, que até então havia trabalhado como roteirista, função também ocupada por ele nessa produção.

O ano é 1978 e a cidade é Recife. Fininha é atormentado por seus colegas porque sempre se esquiva quando eles propõem uma escapada para um prostíbulo. O quartel é um ambiente marcado pela fisicalidade de seus soldados: as roupas são poucas e reveladoras e os corpos se tocam rotineiramente. Mas todo contato é seguido por uma demonstração de masculinidade. A heteronormatividade é uma constante e esses mesmos corpos são regrados, controlados por meio da rotina e por meio da contenção dos desejos.

 Em oposição a eles, existem os corpos livres que compõem a trupe do já citado grupo Chão de Estrelas, que alimenta a alma do povo do Recife com suas criações, que vão do teatro ao burlesco. São corpos que se despem, que se pintam, que dançam, que riem e fazem rir e que se tocam sem a necessidade de retroceder no gesto. O filme é recheado das apresentações dos artistas: números musicais, esquetes, declamações de poemas e citações de autores clássicos. Elas se aproximam do público como obras populares, rasgadas e que fogem de linguagens que poderiam ser cansativas.

Certa hora o grupo todo se muda para uma casa onde podem morar todos e ensaiar juntos para apresentações. Os ambientes internos dos locais exibidos são escuros e coloridos, flertando com o brega e o kitsch, também presentes na trilha sonora. O líder criativo do grupo é Clécio (Irandhir Santos), que conta com a amizade e apoio do ator Paulete (Rodrigo García), irmão da namorada de Fininha. É dessa forma que o homem conhece o rapaz.

O romance entre os dois é de uma troca constante. Por um lado, Fininha é mais novo, por outro, parece se entusiasmar com as novidades, enquanto Clécio se envolve de forma profunda. Em um determinado momento Fininha veste uma máscara de inseto e assim fantasiado, sua juventude parece ser destacada. Nesse momento o modo como Clécio se dirige a ele é condescendente. Mas em outra cena Fininha busca por outras experiências e Clécio se enciúma. Mas o Chão de Estrelas é o lugar onde tudo é experimentação e justamente onde os corpos não devem ser reprimidos. O jovem está vivendo uma idade pela qual Clécio já passou há anos. “Ciúme é quando o desejo vira mercadoria”, ressalta outro personagem. E assim ambos os amantes se deslocam e reposicionam dinamicamente no relacionamento.

O fato de ambos já terem se relacionado com mulheres não é comentado e não há necessidade dessa informação. É com essa leveza que a conexão entre eles é abordada. Nas cenas de sexo os corpos masculinos aparecem coreografados com sensualidade, conectados, retratados em abandono total. O sentido é de afeto, exibido nos pequenos atos, nos erros, nos perdões e no crescimento. O toque é fotografado com poesia, captando o brilho de pele na pele.

O envolvimento dos dois levanta outras questões: Fininha é acusado de ser olheiro dos militares e Deusa (Sylvia Prado), mãe do filho de Clécio, diz que não quer que o menino cresça em contato com gente que vai para a rua reprimir. Porque Tatuagem é, sim, um romance, mas também é uma obra que trata do fazer arte e do criar em meio à violência. A ditadura aparece de maneira velada: fala-se na censura, mas no Chão de Estrelas a dor da perda jamais chega de verdade. Aqui é que aparece marcada a dualidade entre a arte e o militarismo, a liberdade e as regras, expressos na oposição entre o modo de vida dos artistas e a rigidez e a truculência da força militar utilizada para extingui-la.

A narrativa contrapõe o poder transformador e a resistência da arte com a força da repressão, que não se limita aos muros do exército, mas que está presente nas ruas, nas casas, na sociedade como um todo. Fininha, no quartel, tatua um C dentro de um coração no peito. Clécio, emotivo, desmorona. Fininha vai para São Paulo e escreve que não consegue emprego como segurança. “Para quem tem tatuagem é mais difícil”.  Muito cedo ele aprendeu que a tatuagem é a marca na pele, indelével, de seu amor e que este não seria aceito, mas mesmo assim ele o levaria consigo para todo lugar.

“O Brasil o país do futuro”, declamam os artistas. “Respeitamos nossa mãe, mas amamos nossa pátria”, bradam os soldados. Nada mais contemporâneo pensar na arte sendo pautada por valores como família, pátria, moral, bons costumes, que ditam o que é aceitável e que querem definir o que é arte e o que é o belo. Justamente a beleza, essa que se considerava um paradigma superado há bem mais de um século. É como se Hilton Lacerda tivesse previsto os anos que se seguiram ao lançamento de Tatuagem. Quando os artistas, nus, dançam uma música chamada Polca do cu é difícil não refletir sobre o processo que levou, nesses quatro anos, um corpo nu a ser afrontoso e a ele ser negado o status de arte. Mas nem todos os corpos nus são afrontosos: apenas aqueles que não são obedientes nem normativos. Política e Nação intervindo na expressão artística. “Colocar os nossos cus na reta, esses são nossos únicos meios”, afirma um personagem. E talvez sejam.

Nota: 4 de 5 estrelas
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Dumbo (2019)

Vindo na esteira de outras reimaginações em live action de clássicos dos estúdios Disney, como Malévola, Cinderela e A Bela e A Fera, Dumbo chega aos cinemas trazendo uma nova versão da história do bebê-elefante que pode voar. Dirigido por Tim Burton, com roteiro de Ehren Kruger, o filme se passa no pós-guerra em 1919, no circo de Max Medici (Dany DeVito), que comprou uma elefanta grávida com o intuito de lucrar com as apresentações do futuro bebê. Ele afirma que em um circo é necessário ser prático, fala que parece entrar em choque com a própria ideia de espetáculo que se propõe a realizar. A decadência do local, tanto em seu objetivo como estética, é marcada na direção de arte, que destaca a estrutura desgastada e as cores desbotadas.

Quando o bebê nasce as coisas não saem como o idealizado, já que suas orelhas enormes são motivo de escárnio por conta da plateia. Criado digitalmente com uma aparência lindinha de fofura e fragilidade, apesar de seu tamanho, é difícil entender como alguém faria troça da criaturinha. Mas é o que acontece, e apenas as crianças Milly (Nico Parker) e Joe (Finley Hobbins) inicialmente se preocupam com sua situação e, depois, descobrem suas habilidades. A menina é curiosamente colocada como o pivô da ciência (sugerindo “pesquisar, estudar e testar” o animalzinho) e da fé (quando afirma que “Dumbo é um milagre”) ao mesmo tempo. É ela quem crê nas possibilidades que podem advir do filhote.

Infelizmente parte dessa possibilidade perpassa Dumbo ser colocado reiteradamente em perigo pelos humanos apenas para maravilhamentos deles mesmos, sempre em situações além daquilo que ele tinha sido preparado. O pai das crianças, Holt (Colin Farrell), tem um importante papel nesse sentido. Ele também está deslocado de seu lugar no circo: anteriormente uma estrela das acrobacias com cavalos, voltou da guerra sem um dos braços e agora foi limitado ao treinamento dos animais e aos números dos palhaços. O militarismo é colocado como algo honroso (chega mesmo a chamar de covarde certo personagem que não se alistou) e seu sentimento de humilhação em relação às novas atividades é usado para traçar um paralelo entre ele e Dumbo. Ele preocupa-se com o elefantinho e ambos não querem estar ali. E quando Dumbo voa, maravilha a todos, transmitindo a quem o assiste a sensação de que tudo é possível. Esse mundo de possibilidades é, de certa forma, metalinguístico, porque é possibilitado pela ação diegética, mas também pela suspensão de descrença de quem assiste ao filme.

Dessa forma o filme adota o discurso bem-estarista de que, estando bem cuidado, não há problema em explorar o filhote. O problema não é Holt, nem as crianças, nem o circo, suas apresentações e truques por si só. O problema são os outros: os gananciosos que só se importam com dinheiro e não nutrem afeto por Dumbo, em especial Vandevere (Michael Keaton), que representa um reluzente mundo de maravilhamento art nouveau saído de um musical de Busby Berkeley. Sua Dreamland, um parque de diversões com inúmeras atrações, é apresentada como um entretenimento gigante, vistoso e sem alma, o que novamente pode ter uma leitura metalinguística, mas dessa vez provavelmente não intencional.

Mas o bem-estarismo não é a única coisa antiquada do filme. O fato de uma mulher ser gorda ou um homem negro ser capaz de atividades intelectuais é usado como algo cômico reiteradas vezes. Além disso, lembro quando da gravação do Feito por Elas sobre Penelope Spheeris, em que, ao comentarmos sobre A Família Buscapé, ressaltamos como a presença de um macaco de verdade, domesticado e treinado para fazer cenas cômicas, era algo datado e que, no final das contas, sequer era engraçado. Eis que aqui se utiliza o mesmo recurso vinte e seis anos depois. Sem contar os cachorros, também reais, tingidos com cores-fantasia.

Nesse sentido, quando é falado que esse é um estilo de vida que está morrendo, não há como não expressar certo alívio. Curiosamente o cinema é apresentado como o mundo de maravilhas do futuro: aquele que une a ciência e a fé de Milly para a diversão e deslumbramento de todos. Mas se Dumbo (animal de computação gráfica) se vê livre, afinal, da exploração em 1919, o mesmo não de pode dizer dos demais animais (de carne e osso) usados na filmagem em 2019. A pecha de abolicionista das falas finais fica no meio do caminho quando se diz que nenhum animal será usado no circo dali para a frente, mas os cavalos, que curiosamente são os únicos animais que não ganham traços de personalidade humanizados, são entregues à guisa de prêmio de bom comportamento para Holt, para que volte a usá-los em suas apresentações.

Não quero, com isso, dizer que Dumbo seja desprovido de charme. É um filme colorido que tem bons momentos de humor e aventura e deve divertir as crianças. Mas não é possível negar que como discurso sobre a relação entre o uso de animais e o entretenimento, não consegue superar suas próprias incoerências.

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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Vidro (Glass, 2019)


Você já foi a a uma convenção de quadrinhos?

[spoilers moderados à frente]

Corpo Fechado (Unbreakable, 2000), foi vendido como um filme de suspense que se revelou um filme de super-heróis, e talvez por isso tenha decepcionado tanta gente na época, logo depois do sucesso estrondoso de Sexto Sentido. Sem efeitos digitais vistosos, sem collants e (quase) sem capas, o filme retratava David Dunn (e a dupla de iniciais coincidente não é por acaso), interpretado por Bruce Willis, descobrindo seu poder de indestrutibilidade, guiado por Elijah Price, que é vivido por Samuel L. Jackson. Elijah tentava ao mesmo tempo ser seu amigo e seu oposto e o filme lidava com a crença nos poderes sobre-humanos: Denis compartilha sua certeza com o filho, Joseph (Spencer Treat Clark), enquanto com um gesto de silêncio pede a ele para não contar a mais ninguém. Dezesseis anos depois é lançado Fragmentado (Split, 2016), dessa vez apresentando o jovem Kevin Wendell Crumb (James McAvoy), que tem Transtorno Dissociativo de Identidade e abriga em si vinte e quatro diferentes personalidades. Uma das personalidades, A Fera, metade humano, metade animal, só é piedoso com quem já sofreu. A surpresa foi descobrir, ao final, que ambos os filmes se passavam no mesmo universo. E agora o diretor M. Night Shyamalan retorna com Vidro como uma forma de dar fechamento à trajetória desses personagens.

Em Corpo Fechado, por mais que a história central pertença a Dunn, é Elijah, posteriormente Senhor Vidro, quem organiza a narrativa. Sua infância dá conta de mostrar um menino temeroso, que, sofrendo com a fragilidade de seus ossos, não consegue brincar como os outros garotos, até se encontrar nos gibis. Depois do desfecho daquele filme, em que temos um vislumbre do que ele é capaz de planejar e executar, é agora que percebemos seu papel como mentor e regente em um plano muito maior.

Os três personagens são apresentados como corpos enquanto potência: a força física, a fragilidade e o descontrole. Denis, Vidro e Kevin são internados em um hospital psiquiátrico, analisados pela Dra. Ellie Staple (Sarah Paulson). Um herói relutante, um vilão e um agitador, nas suas palavras, enquadrando-os em arquétipos de narrativas heroicas. Todo herói precisa virar um vigilante para se esconder? Todo vilão precisa fazer o mal, nesses termos, raso e absoluto, para compensar as dores sofridas? A psiquiatra, com seu tratamento humano (em todos os sentidos) deseja que os pacientes entendam que seus potenciais são isso, habilidades e não superpoderes. Como em outros de seus filmes, Shyamalan trabalha com a oposição entre fantasia e realidade, colocando na crença das pessoas em algo além do lógico a possibilidade de um mundo diferente. Ele faz isso explorando a própria estrutura de história em quadrinhos, usando Senhor Vidro como uma espécie de narrador-comentarista: quando começamos a questionar uma virada na história, ele aponta qual mecanismo de gibis servem de molde para isso, tudo de acordo com seus planos. As conexões estabelecidas muitas vezes são óbvias ou convenientes, mas é uma apropriação, novamente, da lógica de gibi, com suas mitologias e formulações muito próprias. Ser igual ou ser diferente, para Senhor Vidro, acaba sendo estratégico na forma como se vê em relação aos demais. Ele sabe que os alinhamentos podem mudar se assim for necessário.

Shyamalan também parece à vontade brincando com o imagético dos personagens. Ele rotoma o padrão de cores usado para significá-los anteriormente: Denis usa verde, Vidro é marcado pelos elementos roxos e Kevin e suas demais personalidades se vinculam ao amarelo, todos ampliando para suas variações, como o lilás e o mostarda para os últimos dois. As cores se espalham para as pessoas próximas: Joseph, a mãe de Elijah (sem nome, interpretada por Charlayne Woodard) e Casey (Anya Taylor- Joy). Mas esse filme pertence a Senhor Vidro. O roxo é presente nos flashbacks e até na sacola da loja de quadrinhos, já que a explicação para tudo sempre está neles. O elemento novo, aqui, é Ellie, com suas roupas de corte impecável que vão do branco ao azul-bebê, mas cuja posição nessa narrativa ainda não conhecemos. Os tons pastel a circundam e por isso é significativo que na cena que foi divulgada antes do filme, em que está de frente para os três pacientes, a sala em que se encontram é rosa e as roupas deles são nas versões claras de suas próprias cores. Mas mesmo assim, no pijama amarelo de Kevin, a gola é roxa, e no verde de David é lilás, pois Senhor Vidro não só criou os dois como antecipa os movimentos dos personagens, controlando essa história.

Vidro é mesmo a chave para a composição de diversas cenas. O vidro é a lente removida da máquina que forçaria a realidade na mente de fantasia do paciente a ser operado. Vidro são as lentes das câmeras de vídeos que captam e as telas das televisões que projetam as imagens, ambas cruciais (e não à toa David passou a trabalhar com segurança domiciliar). Vidro é a transparência da pequena janela pela qual os protagonistas, presos a seus quartos hospitalares, são constantemente enquadrados. Mas vidro (glass) também é espelho e pode refletir versões deformadas deles, aprisionados a suas dúvidas. É também por um espelho que Ellie se dá conta de que um plano fácil de ser detectado sempre esconde um outro real. E, por fim, quando Senhor Vidro testemunha e comprova a existência da Fera, não o faz olhando diretamente para ele. É no vidro da porta de um armário em que o vê refletido: a superfície que revela a verdade. A matéria-prima espelha o arco do personagem a quem dá nome.

Em se tratando de quadrinhos, o arco de um herói é marcado por sua ascensão, queda e ressurgimento. Senhor Vidro destaca, mesmo, que nas edições limitadas sempre é necessário um confronto entre as forças opositoras em um lugar público com grande concentração de pessoas, para que todos possam testemunhar. Aqui tudo acontece no hospital, numa escala menor, com menos pessoas. A violência, como nos gibis juvenis, não é mostrada de forma gráfica.

O fato do diretor afirmar que não pretende fazer outro filme dessa série é interessante, porque os elementos estão todos postos. Joseph, na loja de quadrinhos, encontra uma revistinha que mostra em sua um personagem chamado Whispers (Sussurros) se comunicando com outros dois. Da mesma forma ele, que desde criança acreditava que seu pai era um herói, utiliza o microfone para manter contato com ele em suas andanças.

Quando David é institucionalizado e Joseph é informado por Ellie que eles precisam ter senso de realidade, o rapaz, questionado em suas crenças, sai do hospital filmado de cabeça para abaixo, externando seu desajuste naquele momento. Mas Senhor Vidro avisa, essa não é uma edição limitada, era a uma história de origem o tempo inteiro. E, por outro lado, a chave para entender o surgimento de um personagem de quadrinhos está sempre seus pais. No desfecho do filme vemos, pela imagem de uma câmera de segurança, três corpos abraçados por seus queridos. Marcado pela crença e pela perda, esse poderia ser o começo de uma nova história.

Mesmo assim, Shyamalan impregnou o desfecho com aquilo que parece ser objeto de seu interesse enquanto cineasta: a capacidade das pessoas acreditaram e o poder do deslumbramento. Senhor Vidro chega mesmo a dizer a Hedwig que seu poder é ter para sempre nove anos de idade. Isso porque as crianças ainda têm a capacidade de se maravilharem: não se adequaram às regras de um mundo normativo e normalizado. O diretor dialoga com o público. Às vezes o faz de forma óbvia, como quando coloca o próprio personagem que interpreta dizendo que superou os tempos sinistros do passado com a força do pensamento positivo. Mas é por meio das imagens de vídeos, captadas pelas lentes certas, transmitidas e replicadas de tela em tela (de vidro em vidro), que mostra que somos capazes crer na fantasia e nas suas possibilidades, jogando essa promessa das pessoas da diegese para a própria plateia (mediada, ainda, por mais um conjunto de lentes que colocam seu próprio trabalho como diretor). Cada um dos personagens centrais aqui tem alguém que acredita neles e que pode dizer ao mundo a verdade sobre suas capacidades. Dessa forma também destaca a força do contato humano e do carinho, especialmente na relação entre A Fera/ Kevin e Casey, que o toca e demonstra se importar. Sempre um pouco megalomaníaco em suas propostas, Shyamalan aparece mais controlado, alfinetando menos (embora o professor de cinema japonês dos anos 50 a 80 ainda esteja lá) e confiando mais, até mesmo no público. Vidro é sua forma de encerrar essa trilogia com otimismo.

Nota: 4 de 5 estrelas
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As Viúvas (Widows, 2018)

Baseado na minissérie britânica As Damas de Ouro (Widows, 1983), As Viúvas é o quarto longa do diretor Steve McQueen, que escreve o roteiro em parceria com Gillian Flynn. As protagonistas são Veronica (Viola Davis), Linda (Michelle Rodrigues), Alice (Elizabeth Debicki) e Amanda (Carrie Coon), cujos maridos, liderados por Harry Rawlings (Liam Neeson) morreram na explosão de uma van utilizada em um roubo.

Logo na primeira sequência a montagem contrasta a calmaria doméstica com o caos nas ruas. O relacionamento harmonioso de Harry e Veronica vai até o limite das atividades realizadas por ele: embora ela pareça saber de onde vem o dinheiro que sustenta o padrão de conforto em que vivem, prefere não ter detalhes e nem se envolver com elas. Vê-se obrigada a fazer isso quando a morte de seu marido revela uma dívida referente aos dois milhões de dólares que foram queimados juntos com a explosão e que serão cobrados por quem é devido.

Aqui a narrativa revela funcionar na estrutura do sub-gênero de filme de assalto: cada uma das mulheres terá que usar seus conhecimentos e habilidades para conseguir criar o último golpe planejado por seus maridos. Mas nenhuma delas tem experiência nessas atividades, ao contrário de outros filmes do sub-gênero em que são especialistas executando o plano. Apenas Veronica, Alice e Linda optam por dar continuidade às açõe e elas utilizam dos próprios esterótipos com que são enxergadas para conseguir o que precisam. Dessa forma, Linda apresenta-se como uma mulher latina subserviente em certo momento e em outro Alice passa-se por uma noiva de polonesa de encomenda. Se é isso que a sociedade espera delas, é isso que elas serão se for preciso. Nesse sentido a escrita de Flynn mostra-se essencial, já que está acostumada com a construção de mulheres protagonistas diversas, questionáveis, multifacetadas e nada simples, como as que aqui aparecem. E os pequenos detalhes ocultos nos diálogos contam muito, como quando Jack diz a Veronica “Antes de morrer?”, em um ato falho que revela mais do que deveria.

Além do roteiro, a força das atuações se destaca. Debickis é quem consegue conferir mais camadas à sua personagem, mas Viola Davis encarna com perfeição sua Veronica, de maneira sisuda, mas com ímpetos de emoção quando necessário. Daniel Kaluuya, que interpreta Jatemme Manning, por sua vez, faz dele um vilão explosivo que rouba a cena quando aparece, com destaque para o longo plano em que a câmera rodeia ele e dois rappers enquanto interagem, abrindo espaço para sua reação assustadora.

A trama fica mais interessante quando mistura as questões políticas locais, como a eleição para o cargo de vereador que tem como candidatos Jamal Manning (Brian Tyree Henry) e Jack Mulligan (Colin Farrell), a criminalidade que perpassa essa mesma política a tensão constante provocada pela violência (incluindo policial) de cunho étnico-racial e de classe e a cidade de Chicago como um todo, em que, como diz um personagem certa hora, nepotismo não é ilegal, é celebrado. A câmera de McQueen passeia sem pressa em um longo plano em que Jack volta para sua casa vindo do distrito para o qual é candidato. Ela não está posicionada dentro do carro e por isso a conversa que ela capta deixa de ter importância. O que importa são as casas que rodeiam as ruas, que começam pequenas e miseráveis e vão-se expandindo até tornarem-se verdadeiras mansões conforme se faz a transição para o bairro em que realmente mora.

Veronica, Linda e Alice são mulheres inteligentes que sabem que precisam sobreviver em um mundo de homens desprezíveis. Ao final, são mulheres no espelho umas das outras, conectadas por acontecimentos absurdos. Em As Viúvas, McQueen cria um filme que não se furta de ser cinemão, eletrizante e hipnótico, mas o destaca de tantos outros pela qualidade de sua direção e pela dimensão conferida ao roteiro de Flynn.

Nota: 4 de 5 estrelas

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

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42ª Mostra de São Paulo- Poderia Me Perdoar?

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 18 e 31 de outubro na cidade. 

O ano é 1991. Lee Israel é uma autora de livros biográficos de moderado sucesso, que nunca se estabeleceu como uma figura importante no mercado. Até que resolve mudar suas práticas profissionais e fica tão famosa por isso que sua autobiografia, Poderia Me Perdoar?, é adaptada para o cinema em 2018. O roteiro é de Nicole Holofcener e a direção fica por conta de Marielle Heller (de O Diário de uma Adolescente).

Israel é interpretada Melissa McCarthy, que se entrega ao papel sem maneirismos e, com ajuda do figurino, que nos joga diretamente para essa passagem entre décadas e constrói a personagem de maneira tridimensional. Ela é uma mulher de cinquenta e um anos, ranzinza, que gosta de ficar sozinha, não tem paciência para lidar com as demais pessoas e vive com seu gato em um, apartamento grande, decadente e triste. Recusa convites para eventos de colegas, mas quando vai, é para cobrar trabalho de sua agente, que a lembra de sua irrelevância no mercado, não deixa de revirar os olhos diante do pedantismo que enxerga em seus companheiros de profissão. As dívidas se acumulam, seus poucos pertences, que são livros, não valem quase em sebos.

É quando tem uma ideia: acostumada a pesquisar com profundidade a vida de celebridades a ponto de saber seus trejeitos e estilos de escrita, datilografa uma carta falsa entre famosos e descobre que objetos como esse valem uma fortuna. Daí para frente elabora com esmero e humor diversas cartas, fazendo-as circular entre vendedores de memorabilia. Além de Israel, participa da ação Jack Hock, seu amigo e comparsa, interpretado por Richard E. Grant com ares de canastrão e uma certa melancolia pontuada de acidez.

As pessoas estão dispostas a pagar por algo que sintam que as aproximem de seus ídolos. Katherine Hepburn, Noël Howard, Dorothy Parker: as cartas voam da máquina de escrever e o dinheiro flui. É interessante pensar como funciona a mentalidade humana em torno de uma obra. A estátua de Davi, de Michelangelo, por exemplo, exposta na Piazza della Signoria em Florença é, na verdade, uma réplica. Mas nada disso importa e diariamente centenas (milhares?) de pessoas posam para fotos diante dela. O que importa é o senso de autoria, é a percepção de estar diante de algo grandioso e histórico. O que Lee Israel vende é essa historicidade aliada à sensação de espiar a intimidade de alguém famoso. Ela é auxiliada pelo culto à celebridade e pela fascinação projetada sobre famosos. Não necessariamente o que se quer é a verdade. O que importa não é a autoria, mas a ideia que o objeto é capaz de projetar.

Nesse sentido, Israel usa as regras do próprio jogo para ganhar nele, não, claro, livre de punição posterior. Poderia Me Perdoar? atrai, em grande medida, pelo tratamento conferido a seus protagonistas e o resultado é uma biografia interessante e divertida.

Nota: 4 de 5 estrelas

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