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Praça Paris (2017)

Publicado originalmente em 3 de novembro como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Dirigido por Lúcia Murat, Praça Paris tem como protagonista Glória (Grace Passô), que é ascensorista em uma universidade na cidade do Rio de Janeiro. Dos prédios de arquitetura marcante onde trabalha, é possível ver a favela onde reside: são duas cidades em uma só, dois territórios com leis diferentes e com diferentes perspectivas de trajetória para seus moradores. Glória convive com a violência, na forma do abuso sexual impingido pelo seu pai, desde muito cedo. Hoje visita sempre o irmão, Jonas (Alex Brasil), na cadeia, onde cumpre pena pelo seu envolvimento com o tráfico, levando a ele uma marmita com comida caseira que prepara com carinho.

Devido às grandes dores que carrega consigo, Glória passa a se consultar semanalmente com a psicóloga Camila (Joana de Verona), uma portuguesa que veio ao Brasil para pesquisar os efeitos da violência. Seu cotidiano é justamente preenchido pela violência, seja no tiroteio que a impede de voltar para casa, seja na surra levada da polícia, que sabe do papel que seu irmão ocupa, mesmo encarcerado. Mas a conexão entre as duas é difícil: nada que Camila já tenha vivido abarca as experiências de Glória. Em cima de sua mesa é enquadrado um livro sobre psicanálise e empatia, mostrando sua vontade de criar canais de comunicação. Mas ela mesma se descobre perdida, espelhando sua avó, sempre presente, na beira do abismo.

A relação entre as duas, descompassada, não é pautada só nas diferenças étnico-raciais e de classe, mas também em um certo olhar colonial da estrangeira que anedoticamente ainda pensa no Brasil como um lugar exótico de hábitos bárbaros, como confrontada por um comentário de seu namorado. As trajetórias das duas protagonistas se entrelaçam, ao mesmo tempo que se distanciam nos mínimos detalhes: nas roupas, nos meios de transporte, na configuração de suas casas.

O elenco todo é competente, mas Grace Passô se destaca: o que ela consegue fazer apenas com o olhar não é para muitos, especialmente quando transmite os momentos de doçura da personagem. Ela merecia mais espaço na trama, em relação à outra protagonista, igualmente necessária, mas menos interessante.

O filme flerta com o cinema de gênero, construindo suspense na paranoia branca da psicóloga. Ao conviver com os relatos de Glória, passa a acreditar que ela mesma será envolvida por aquelas violências. Não consegue entender os contextos relacionais que os levam a acontecerem. Trancafiada em seu consultório, suando com o ventilador ligado e o ambiente repleto de fumaça de cigarro, vive um noir tropical. A beleza está no fato de que o suspense só é possível se o espectador comprar o discurso que está sendo vendido, como se ao ajudar as pessoas que morem na favela, invariavelmente algo de ruim se voltará contra você. Utilizando, no limite, estereótipos que podem ser perigosos, o filme se segura na direção para que eles não se confirmem, apoiando-se, também, na cumplicidade de quem o assiste.

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

Nota: 4 de 5 estrelas

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Um Lugar Silencioso (A Quiet Place, 2018)

Poster do filme, que mostra a atriz Emily Blunt com olhar assustado, chorando, cobrindo a boca com as mãos. O Título do filme está arranhado por 3 garras, como se tivesse cortado o papel.

Em um futuro pós-apocalíptico, uma família sobrevive morando em uma antiga fazenda, vivendo em silêncio para não ser atacada por criaturas que agem motivadas pelo ruído. Não sabemos o que aconteceu: a única pista é que grande parte das demais pessoas já foram dizimadas. Com essa premissa começa Um Lugar Silencioso, dirigido por John Krasinski.

Krasinski também interpreta o protagonista Lee, que é casado com Evelyn (vivida por Emily Blunt, sua esposa também fora das telas). Somam-se a eles os filhos Marcus (Noah Jupe) e Regan (Millicent Simmonds). A sobrevivência do quarteto funciona melhor que a dos demais, o que é demonstrado pelas tentativas frustradas de conexão via rádio com outros possíveis sobreviventes. Para manter o silêncio constante, objetos foram adaptados, brincadeiras alteradas, mas eles ainda têm um diferencial apresentado como uma vantagem: Regan é surda e a família se comunica silenciosamente por meio de sinais. É dessa forma que Emily Blunt brilha: com poucas falas espalhadas ao longo do filme, a atriz consegue expressar muito por meio de suas expressões faciais.

A rotina familiar é extremamente controlada: Evelyn lava roupa, estende no varal, cozinha a janta, ensina os filhos; enquanto Lee sai para pescar e caçar. Era de se supor que após todos os pilares de tradição que mantém a sociedade estagnada em papéis tradicionais ruirem, as divisões de tarefas altamente generificadas não fossem mais necessárias. A mãe chega, mesmo, a trocar a jardineira adequada aos trabalhos braçais, por um vestido longo e fluido para uma cena romântica, enquanto o pai tem a chance de mostrar, em determinado momento, todo seu valor e coragem de protetor da família. Para os sobreviventes, apegar-se à esse modo de vida é como uma forma de manter-se conectados a um mundo que não existe mais.

O filme fala muito sobre o medo de ter filhos no mundo atual, em que muita coisa ainda não pode ser dita, e a necessidade de protege-los das violências provenientes disso. Por isso, a ideia de colocar mais uma criança no mundo para viver nessa condição de medo perpétuo e sobrevivência improvável parece não só pouco razoável como cruel. Mas não deixa de ser irônico pensar que essa família é a escolhida para ilustrar o temor: aquela com o pai provedor e a mãe cuidadora, que se une em oração de mãos dadas em torno da mesa. Justamente a família que não tem trabalho em circular por nossa realidade. Dito isso, talvez até pelo relacionamento entre os atores, a dinâmica e o amor expresso entre eles é bastante crível. Além disso, toda essa desconfortável rigidez tem seu momento de ruir e para isso a jovem Millicent Simmonds brilha.

Mas nem tudo é idílico durante a história: o medo é real. A construção da tensão por meio de cada pequena ação dos personagens, diferenciando os ruídos que são aceitáveis para os monstros daqueles que os atraem, abstendo-se de jump scares desnecessários, faz com que o próprio espectador se contorça na cadeira, evitando o menor barulho em solidariedade ao que se desenrola na tela.

A mixagem de som tem forte papel na inquietação provocada no espectador. A estratégia de abafar os sons quando a câmera se volta para Regan, por exemplo, é eficiente, assim como os silêncios de todo o primeiro ato, interrompidos por um barulho artificial estratégico e inquietante. Depois disso, cada pequeno ranger faz diferença, criando expectativas e alimentando o medo. Outro destaque é a fotografia de Charlotte Bruus Christensen, fotógrafa dinamarquesa em ascensão em Hollywood.

Existe, aqui, uma boa dose de A Vila e mesmo uma pitada de Jurassic Park (que, inclusive, é melhor homenageado do que em Jogador Nº 1)Um Lugar Silensioso é um filme realizado de forma a potencializar a tensão, suspender a respiração e gerar um medo patente, sem subestimar o espectador.

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

Nota: 4 de 5 estrelas

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Zama (2017)

Publicado originalmente em 1º de novembro como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Diego de Zama (Daniel Giménez Cacho) é um funcionário da coroa espanhola na Argentina, a quem foram prometidas riqueza e honrarias que jamais se concretizaram. Morando em um local ermo, tenta manter a aparência europeia com uma peruca desgrenhada, utilizada apenas quando necessária, e uma casaca mal cortada. A solidão e o ridículo são suas companheiras, enquanto constantemente solicita poder voltar para casa. Os planos de Lucrecia Martel são trabalhados com academicismo e o desenrolar da história é lento.

O personagem-título é retratado como uma figura sem grandes méritos e o empreendimento “civilizatório” da colonização aparece fracassado, perdido na inutilidade da função burocrática de seus responsáveis. Curiosamente, apesar desse posicionamento marcado, pouca voz é dada aos povos de outras etnias retratados: pessoas negras e indígenas perpassam a trama sem agência real ou como a confirmação dos medos e preconceitos trazidos da Europa.

Filmes recentes, como O Abraço da Serpente Z: A Cidade Perdida, apesar de também terem seus problemas, especialmente no que tange à exotização, abordam de maneira mais interessante o contato entre homens brancos e populações ameríndias. O filme ganha fôlego no terceiro ato, com a materialização da ameaça que ronda à boca pequena sob o nome de Vicuña Porto (Matheus Nachtergaele), mas, como um todo, o resultado final é árido e até mesmo enfadonho.

Nota: 3 de 5 estrelas

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Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me by Your Name, 2017)

 

Como você vive sua vida só interessa a você, apenas lembre que nossos corações e nossos corpos só nos são dados uma vez. E antes que você perceba, seu coração está desgastado e quanto ao seu corpo, chega um ponto em que ninguém olha para ele, muito menos quer chegar perto dele. Agora mesmo, há tristeza, dor. Não a mate e com ela a alegria que você sentiu.

Crescer pode ser confuso e dolorido. Amar também. Talvez por isso os amores que temos em determinadas fases da vida sejam tão marcantes. Narrativas LGBT tendem a abordar as dores e as perdas, potencializando o sofrimento dos personagens sob o perigo de criar uma história única. Mas não é nela que Luca Guadagnino está interessado aqui. Com roteiro de James Ivory baseado no livro de André Aciman, ele busca as primeiras experiências de um adolescente em um mundo em que as coisas são mais fáceis.

O ano é 1983 e Elio (Timotheé Chalamet), um rapaz de dezessete anos, passa o verão na Itália, onde seu pai, Sr. Perlman (Michael Stuhlbarg) trabalha como pesquisador e arqueólogo. A família franco-judeu-americana tem uma vida privilegiada, com uma bela casa e acesso a bens culturais. Nesse contexto acontece a chegada de Oliver (Armie Hammer), o bolsista de seu pai para aquele verão.

Desde em Um Sonho de Amor, mas especialmente em Um Mergulho no Passado e aqui, Guadagnino demonstra gostar de exibir corpos. Ele os desnuda e os filma belos e sexuais. Ele trabalha com imagens as ideias de calor: frutas suculentas, água, a mosca insistente que teima em se aproximar e a pele desnuda, implicando um romance que se desenvolve com o mesmo apelo estético que as esculturas pesquisadas pelo pai de Elio: corpos masculinos perfeitos.

Se Oliver tem a experiência e o conhecimento, Elio exibe suas habilidades como menino levemente faceiro sobre suas capacidades, como quando o desafia a perceber a diferença entre uma mesma música tocada no estilo de artistas diferentes. Até então ele passava os verões transcrevendo partituras e estudando compositores clássicos, mas agora outros interesses aparecem. O primeiro deles é Marzia (Esther Garrel), com quem tem sua primeira experiência sexual. Ele tem apreço pela garota e externa o gosto que teve pela relação sexual com ela, mas não há espaço para os desejos dela: as mulheres no filme são construídas como se fossem sexualmente passivas, seus corpos não são embelezados da mesma forma nem as suas vontades externadas de maneira veemente.

Em oposição a ela, o que sente por Oliver, o segundo interesse, é diferente em intensidade. É com Oliver que acontecem as negociações: tudo é sondado e perguntado, não existe imposição de nenhuma parte. O peso das decisões é maior. Elio entende o que se passa, mas não sabe o que realmente importa e, por isso, cobra respostas. Usando a profundidade de campo para destacar os dois jovens, Guadagnino emoldura dúvidas e escolhas com paisagens de beleza inenarrável. É claro que nem sempre um amor descoberto aos dezessete anos vai durar até a chega do inverno e justamente a mudança de estação marca o fim de um ciclo.

E esse é um aspecto extra-filme mas que precisa ser lembrado: é injusto a forma como a narrativa apresentada vem sendo sequestrada com o discurso de que não importa o que vai acontecer com Elio no futuro ou com quem ele vai se relacionar: o que importa seria somente o relacionamento entre essas duas pessoas abordado no filme. É conveniente que quando o livro deixa claro e o filme subentende que se trata de um personagem bissexual, a definição de sua sexualidade deixe de ser importante, especialmente levando-se em conta quantas lindas histórias com personagens gays existem e quão poucos personagens bissexuais bem construídos aparecem no cinema.

Por isso também o último ato é tão importante ao mostrar que a mãe de Elio (Amira Casar) estava ciente do que ocorria em sua casa e desejava apenas o bem de seu filho e seu pai, em um monólogo emocionante, o lembra de que o que importa é jamais deixar de sentir. O apoio e compreensão dos pais e a forma como ocorre o desfecho garante a ele a possibilidade de esperança e de felicidade futura, algo que poderia ser mais presente em narrativas LGBT.

O filme trata de forma doce e respeitosa as descobertas e o romance de Elio. De certa forma trata-se de uma obra utópica e idílica, gentil com seus personagens, mas precisamos de outras que abordem o tema dessa forma. Pode-se dizer que sou romântica, mas gosto de cinema assim: gosto desse tipo de escapismo, de cor, de beleza. De uma direção de arte e fotografia que criam imagens extraordinárias ou de histórias que me afetam porque afeto é o que precisamos. Cinema que enleva e que envolve: esse é Me Chame Pelo Seu Nome. 

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A Forma da Água (The Shape of Water, 2017)

Contos de fadas são um gênero literário bastante particular e devem ser entendidos e avaliados como tal. Eles não são realistas, não devem explicações ao público (como a ficção científica), nem precisam ter uma moral da história (como uma fábula). E A Forma da Água, dirigido por Guillermo del Toro, com roteiro dele em parceria com Vanessa Taylor, é um conto de fadas, que, conforme o narrador, conta a história de uma princesa sem voz, Elisa (Sally Hawkins).

Elisa sonha que que está flutuando embaixo da água e trata com verdadeira arte sua rotina matinal, que inclui cozinhar ovos, preparar sanduíches, levar comida a seu vizinho Giles (Richard Jenkins), um artista solitário, tomar banho e se masturbar antes de ir ao trabalho. É a década de 1960, auge da Guerra Fria e ela trabalha como zeladora, limpando os cômodos de um prédio governamental de pesquisas. É assim que conhece a Criatura (Doug Jones), um ser anfíbio capturado na Amazônia e utilizado em testes. Em seu silêncio, Elisa conversa com a Criatura e dessa comunicação, somada à sua empatia, nasce o amor.

Embora seja um conto de fadas e, por isso, os temas sejam abordados de maneira simples, o filme se propõe a discutir vários deles. O mais claro é forma como a personagem principal é tratada em virtude de sua deficiência, como se a mudez implicasse em alguma perda de capacidade intelectual. E é uma prática comum e capacitista em Hollywood a escalação de atores que não possuem a deficiência que interpretam, deixando de dar oportunidade para aqueles que já tem mais dificuldade no mercado. Mesmo com essa ressalva é preciso dizer que Sally Hawkins está impressionante em seu papel, emanando um misto de força e vulnerabilidade que compõe a personagem.

Mas não é só ela que se sai bem: Octavia Spencer, como Zelda, sua amiga e colega de trabalho que é um apoio e chega mesmo a lhe emprestar a voz em certos momentos, está muito bem. É questionável, inclusive, porque a atriz quase sempre é alocada no papel de coadjuvante, muitas vezes como alívio cômico. Mas o filme não perpassa apenas o capacitismo e ela, juntamente com Richard Jenkins, encarna o tema das outras opressões daquela sociedade patriarcal, machista e racista, com o bônus de ser ambos mulher e negra. O personagem de Jenkins, por sua vez, precisa lidar com a homofobia raivosa que lhe é dirigida. São detalhes sutis, que não são o foco da trama, mas que ajudam a aprofundar o contexto histórico sobre o qual ela se desenrola.

E para se opor esse trio, representando a masculinidade tóxica e a branquitude soberba, posiciona-se o vilão Richard Strickland (Michael Shannon). Embora o personagem possa em alguma medida ser considerado caricato, o fato é que ele encarna de maneira esquemática, ao modo das histórias infantis, o provedor que não tem emoções em relação a sua esposa e seus filhos, mas que enxerga na tradição e no american way of life o único caminho possível. O casamento é uma obrigação e não uma parceria e isso explica seu desconforto manifestado na forma como está sempre girando a aliança, em uma constante lembrança de sua presença e seu peso em seu dedo.

As relações de Elisa, por outro lado, são estabuladas por afinidades e por carinho. Além disso, o fato de querer exercer sua sexualidade, aquela que lhe é tão natural em sua própria rotina, é visto como um desequilíbrio na forma como as coisas deveriam funcionar segundo Richard (perceptível no tratamento conferido a sua esposa): uma mulher, especialmente uma mulher com deficiência, não pode, em sua visão, ter desejos, mas sim aguardar passivamente a sua própria iniciativa.

A epítome da postura do personagem é simbolizada em sua arma fálica, que violenta aquilo que lhe é diferente. A diferença é apresentada por ele como aquilo que é distante de Deus. Em suas palavras, se a criação foi feita a sua imagem e semelhança, Deus se parece com ele, especificamente, excluindo nesse discurso, tanto a Criatura, como as pessoas negras e as mulheres dessa semelhança.

A ironia é que a Criatura, em sua própria terra, era adorada como um deus. Arrancada de lá para ser torturada e estudada, passa por um processo que é não só contrário a sua divinização, como também é marcado pela masculinidade tóxica, dessa vez sob a forma de um imperialismo institucional.

O contraponto à violência é a ternura (e a compaixão). O sentimento pode ser externado em relação ao outro e o exercício de alteridade de Elisa é marcado pelo carinho. Elisa ama seus Outros. E também ama o cinema. Não é à toa que sua casa fica sobre uma antiga sala, onde se projetam filmes clássicos. O sapateado, brincadeira que compartilha com Giles, traz ritmo à sua rotina e o espectador é auxiliado pela trilha sonora mágica de Alexandre Desplat, que não passa despercebida nem para quem, como eu, não costuma reparar tanto nos aspectos sonoros de um filme.

Giles liga a televisão e opta por ver um um musical ao invés de um noticiário sobre pessoas sofrendo violência. Sem julgar os personagens, a escolha é fugir da dor, já que ela já está sempre presente e nessa fuga escolher a arte, a música, a vida. Assim como esse filme, que delineia suas críticas de maneira fabulesca sem aprofunda-las, a opção dos personagens é do escapismo em relação às lutas políticas. E tudo bem, nesse contexto, já que essa é uma decisão artística: a de mostrar o belo que muitas vezes é necessário.

É quase um clichê escrever isso, mas Del Toro, como sempre, se esmera na direção de arte, mostrando que se Elisa e Giles se encantam com os filmes antigos, nós também podemos nos encantar com esse atual. Em determinado momento é falado que verde é o futuro. É interessante reparar como a cor é utilizada nos azulejos, nos uniformes, no gelatina pedida pelos filhos de Richard, na torta de limão. Mesclado à sujeira e a ferrugem torna crível a umidade criada nos cenários. É a cor da água, a cor da criatura, casada com o ocre que aparece como contraponto. O carro que encarna todos os ideais que Richard tenta alcançar pode ser visto como verde, mas é vendido como não sendo e no final ele o perde, porque não se adapta a essa realidade. Em oposição, o amarelo inunda a sua casa, reafirmando seu deslocamento nos tempos futuros que virão.

A Forma da Água é um filme que retroalimenta a fantasia, usando a crença dos personagens na força do cinema para encantar o espectador. O amor representado no filme é mais ternura que paixão, e embora seja lamentável que Elisa tenha pouca chance de escolher seu destino ao final, até então ela que comandou suas escolhas, seu encantamento e sua aproximação com a Criatura. E apesar de apresentada como uma princesa sem voz, mostrou-se alguém cujos desejos estão lá: apenas não são todos que querem e sabem ouvi-la. Com grande doçura, Guillermo Del Toro descartou a masculinidade hegemônica e o modo de vida americano e abraçou o exercício de empatia e o amor pelo cinema.

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

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