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Figurino: Cinderela em Paris

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 17/09/2014.

Banish the black, burn the blue, and bury the beige. From now on, girls, think pink!

Cinderela em Paris, de 1957, é um filme que reúne múltiplos talentos em sua execução. O diretor é Stanley Donen, que cinco anos antes havia entregue Cantando na Chuva, um dos melhores musicais de todos os tempos. Os atores principais são Audrey Hepburn, que se estabelecia como estrela após o sucesso de A Princesa e o Plebeu e Sabrina; e Fred Astaire, já veterano. A figurinista é Edith Head, figura mítica da profissão, com nada menos que trinta e cinco indicações ao Oscar no currículo, das quais ganhou oito estatuetas.
Os créditos de abertura apresentam belas fotos de Richard Avedon, fotógrafo de moda que prestou consultoria ao filme e que inspirou o personagem principal.

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A trama deste musical é uma história de “patinho feio”: Audrey Hepburn é Jo Stockton, uma livreira que não se importa com a aparência, mas que é apontada como modelo em potencial pelo fotógrafo Dick Avery (Astaire), que convence a editora da revista Quality, Maggie Prescott a leva-la para Paris. Quem interpreta esta última é Kay Thompson, instrutora de técnica vocal da Paramount, que raramente aparecia diante das câmeras.
Maggie está insatisfeita com a edição da revista que está sendo preparada e se preocupa com a “mulher americana, que está lá, nua, esperando que eu diga o que ela deve vestir”. Todas as trabalhadoras do mundo editorial vestem cores neutras. Para salvar a revista, Maggie decide que a nova cor da moda será o rosa.

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Logo em seguida as assistentes do escritório passam a vestir-se de maneira monocromática, todas de rosa, aderindo prontamente ao mando da editora. É interessante perceber que ela mesma não faz o mesmo: dita a moda, mas não necessariamente a segue. A sequência musical é viva e memorável.

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Dick Avedon está preparando um ensaio fotográfico com Marion, interpretada por Dovima, grande modelo da época. Para alterar a aparência clássica de Fred Astaire, conferindo-lhe um ar um pouco mais artístico, utiliza-se um lenço vermelho amarrado em sua cintura, ao invés de um cinto. Mas não há engano: ele não é um fotógrafo da boemia, e sim do establishment. Por isso jamais se veste de maneira totalmente informal.

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Com a ideia de utilizar uma antiga livraria como cenário para as fotos, vemos Jo pela primeira vez, trabalhando no local escolhido. Quando a avistamos pela primeira vez, o que vemos é um mocassim desgastado e meias grossas, além de uma saia longa, todos marrons. Sua roupa é completada por uma blusa preta de gola alta e uma espécie de colete longo e cinza. No trabalho se veste apenas de não-cores e com formas simples e antiquadas.

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Por causa de sua figuração nas fotos de Marion, Jo é apontada como a nova face da revista Quality.

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Já em Paris, Jo mostra-se conhecedora das últimas modas entre os intelectuais da época: ao ir para um bar, veste-se como uma autêntica beatnik, com calça cigarrete, blusa de gola alta e mocassim, todos pretos, acompanhados de meia branca. O movimento, tão alheio à moda mainstream, ainda assim possuía uma maneira de vestir fortemente codificada e padronizada. O ambiente é sempre cheio de fumaça de cigarro e as pessoas que o frequentam são apresentadas como sendo estranhas. Dick permanece deslocado com sua roupa excessivamente formal. A cena de dança que se segue é marcante e inspirou muitas obras posteriores.

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Quando voltam para a pousada, ele veste uma capa com forro vermelho, providencial para execução da próxima dança, que emula uma tourada.

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Após a sua transformação em modelo profissional, Jo veste o tom de rosa ditado pela revista, mostrando ainda manipulada por esse novo mundo em que adentra.

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Em seguida Dick e ela preparam o editorial para a revista. Todas as roupas vestidas por Audrey são criações de Hubert de Givenchy, estilista da marca homônima que vestia Audrey Hepburn dentro e fora das telas. A aliança favoreceu ambos e alçou a atriz a ícone da moda, lembrada especialmente com o “pretinho básico” da marca em Bonequinha de Luxo. As roupas exibidas mostram a variedade de criações da alta-costura e refletem a moda de então.

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Jo escapa de sua agenda de atividades para conhecer o professor Emile Flostre (Michel Auclair), filósofo responsável pelo empaticalismo, corrente filosófica que a atrai. Dick e Maggie vão procura-la e para isso também se disfarçam, com direito a golas altas pretas, boina e xadrez. Dick é extremamente controlador em relação a modelo.

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De volta ao desfile, Jo veste mais alguns vestidos Givenchy. Ela não mais exibe o rosa da revista, mas a equipe que trabalha nos bastidores, incluindo Maggie, é que passou a se vestir de preto e branco, influenciados pela estética beatnik, mostrando que Jo se estabeleceu como modelo, dessa vez mantendo seu próprio estilo e influenciando os demais.

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Mas o arco de desenvolvimento da personagem só termina com a confirmação do romance até então delineado, após desfilar trajando um vestido de noiva

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Cinderela em Paris tem bela fotografia, trajes bonitos e cenas de dança bem realizadas. Infelizmente, como Sete Noivas para Sete Irmãos, também dirigido por Stanley Donen, é prejudicado por um roteiro que se mostra datado e machista. Apesar disso, graças a tantos grandes talentos envolvidos, a execução é tecnicamente impecável. A leve crítica ao mesmo tempo ao mundo dos editoriais de moda e suas escolhas aleatórias e ao esnobismo da intelectualidade e do movimento existencialista, quer dizer, empaticalista, é divertida. Nessa lógica, o que é válido é o colorido escapismo provido pelos musicais da década de 50.

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Figurino: A Arte de Fazer Roupas Retratada no Cinema

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 03/01/2014.

Há algumas semanas estreou nos cinemas brasileiros Carrie, a Estranha, nova adaptação do livro homônimo de Stephen King. Na película, a jovem protagonista é convidada para seu baile de formatura e decide ir, contra a vontade de sua mãe. Para tal, precisa de um vestido e costura-o ela mesma. Planejar a peça, desenhá-la, cortar os moldes, perceber o toque e a textura do tecido, sentir a tesoura deslizar por ele gerando um barulho áspero através do suave roçar, alfinetar, dar forma, alinhavar e, por fim, costurar: criar uma roupa é um processo bonito, trabalhoso e que exige um trabalho meticuloso, mas o resultado final, o prazer da criação, é algo imensurável. Alguns filmes mostram essas etapas, criando quase que uma metalinguagem do figurino: ele é montando em cena, diante de nossos olhos. Claro que se trata de uma ilusão, mas é interessante ver isso acontecendo. Então aqui seguem alguns filmes onde o processo de concepção e feitio da roupa é mostrado.
O primeiro que devemos lembrar é o já citado Carrie, a Estranha, em suas duas versões para o cinema. A primeira é de 1976, dirigida por Brian de Palma e com figurino de Rosanna Norton e a segunda, de 2013, dirigida por Kimberly Peirce e com figurino de Luis Sequeira. Carrie é uma menina isolada dos demais na escola e com uma mãe repressiva. Essa última também vem a ser costureira e por esse motivo a jovem tem a seu dispor todo o material necessário para a confecção de um vestido para o baile, dos moldes à máquina de costura. Carrie não tem contato com a moda atual, então seu vestido deve ser bonito, mas remetendo a tempos passados. Em ambas as versões, foram feitos vestidos semelhantes a camisolas, remetendo à moda da década de 1930. Ambos são, também, confeccionados em cetim rosa claro, cortado em viés, para melhor caimento.

Carrie

Carrie de 1976 (esquerda) e 2012 (direita).

Outra personagem que precisava de um vestido de baile é Andie, do filme A Garota de Rosa-Shocking, um clássico da Sessão da Tarde, dirigido por Howard Deutch. Andy utiliza como base para sua criação um vestido antigo, possivelmente da década de 1950. Ela o corta, desenha uma nova versão, que considera mais moderna e costura. Pode-se questionar seu senso estético, mas não se pode negar sua criatividade.

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Vestido rosa: o antes e o depois.

Os desenhos da Disney costumavam ter cenas que envolviam costura. Duas de suas princesas tem vestidos confeccionados com ajuda de terceiros. Em A Bela Adormecida, de 1959, as fadas-madrinhas Flora, Fauna e Primavera não demonstram ter muita habilidade para o ofício sem o uso de mágica. De qualquer forma, elas sequer conseguem decidir de qual cor será a roupa, rosa ou azul.

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Já Cinderela, do filme homônimo de 1950, recebe ajuda de ratos e passarinhos, que costuram com primor um vestido para que possa ir ao baile. Infelizmente a bondade dos animaizinhos de pouco adiantou, pois essa versão do traje é destruída por sua madrasta.

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Ainda nos desenhos animados, em Os Incríveis, temos a estilista Edna Moda, que parece ter sido inspirada pela figurinista Edith Head. Edna é mostrada em pleno processo de criação e ensina o Sr. Incrível uma máxima de incrível sabedoria: nada de capas! Capas apenas atrapalham a movimentação dos heróis. Forma e função devem caminhar juntos.

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Edna Moda e Edith Head

Em … E o Vento Levou a protagonista Scarlett O’Hara precisava de um vestido que garantisse a ela a aparência da riqueza que possuía em tempos passados e para conseguir o efeito não hesitou em pedir para Mammy costurar-lhe um fazendo uso da antiga e pesada cortina de veludo verde com detalhes dourados. A indumentária final, obra do figurinista Walter Plunkett, inspirou gerações de aficionados por figurino e certamente é um trajes mais memoráveis do cinema.

Vestido confeccionado com cortina de veludo e detalhe do chapéu com ranjas douradas.

Vestido confeccionado com cortina de veludo e detalhe do chapéu com ranjas douradas.

Giselle, a protagonista de Encantada, vem da tradição das princesas da Disney (canta, conversa com animais, espera por seu príncipe), mas de certa forma homenageia Scarlett ao utilizar as cortinas de Robert para criar sua vestimenta.

(L_R)  PATRICK DEMPSEY, AMY ADAMS

Representando os profissionais que trabalham com costura, temos Coco Chanel, em sua cinebiografia Coco Antes de Chanel, dirigido por Anne Fontaine e com figurino de Catherine Leterrier. O filme apresenta um interessante retrato de sua vida antes de se tornar uma estilista renomada. Em diversos momentos a personagem principal é mostrada costurando, seja remodelando uma camisa social masculina para si ou fazendo um blazer, até que, ao final, supervisiona cada detalhe da produção manual das peças de sua marca, já uma grande casa de moda. É um belíssimo filme para quem tem interesse na área.

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Por fim, temos uma personagem para quem o processo de costurar sua roupa nova fez parte de uma grande virada em sua vida. Em Batman – O Retorno, cujo figurino é desenhado por Bob Ringwood e Mary E. Vogt, parte importante da transformação de Selina Kyle em Mulher-Gato passa pelo feitio de sua icônica roupa, adotando postura sedutora que a primeira não possuía e se tornando uma vilã da trama.

Selina Kyle e Mulher-Gato.

Selina Kyle e Mulher-Gato.

Selina Kyle e Mulher-Gato.

Através desses exemplos é interessante perceber como geralmente a costura aparece em filmes como uma atividade doméstica, vinculada ao universo feminino. Em nenhum dos filmes citados algum homem aparece realizando o ofício. Além disso, poucos são os exemplos de costura profissional e pouca ênfase é dada a habilidade e destreza necessárias para sua prática.

Quais outros filmes mostram as etapas de produção de uma roupa ou a costura em si e não foram citados? Deixe seu comentário abaixo.

Observação: Nos comentários da coluna original foram acrescentados à listas O Homem Aranha e Kickass, em que seus protagonistas confeccionam seus uniformes; Flawless, onde uma mulher é mostrada fazendo um vestido; Os Miseráveis, onde há um grupo de costureiras; A Noviça Rebelde, em que as crianças recebem roupas feitas de cortina; E por fim, O Poderoso Chefão, que tem Kay costurando suas roupas.

Acrescento ainda as moças de Sete Noivas para Sete Irmãos. Elas aparecem constantemente costurando e a cabana é repleta de cortinas e toalhinhas feitas por elas. Utilizam vestidos de retalhos (patchwork), cujo feitio não é mostrado, mas pode-se deduzir que sejam, também, de suas costuras. Além disso, o filme Revolução em Dagenham, embora não aborde vestimentas, trata da greve das costureiras da indústria automobilística britânica na década de 60 e mostra como a profissão é considerada pouco especializada.

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A Malvada (All About Eve/ 1950)

Assistido em: 02/02/2013
(para ler ouvindo Bette Davis Eyes hahaha)
Bette Davis interpreta Margo, uma veterana atriz de teatro um tanto quanto amarga, que chegou aos 40 anos com uma carreira de sucesso e um namorado oito anos mais jovem. Ele é diretor da peça em que atua. Sua amiga Karen, a esposa de um roteirista renomado, a apresenta a uma fã, a aspirante a atriz Eve (Anne Baxter). Eve é doce, bonita e prestativa e logo se torna sua assistente. Mas ela quer mais mais: quer brilhar nos palcos e ser a estrela. É um interessante retrato do bastidores do teatro, em uma época em que o cinema tomava o lugar deste. Acredito que Bette Davis nunca esteve tão bem em cena, nem mesmo em Jezebel, que eu adoro. As cenas em que está bêbada em uma festa são fantásticas. Marlilyn Monroe também aparece, interpretando uma personagem secundária, Miss Casswell, outra aspirante a atriz, e rouba a cena quando está presente. Eu tendo a achar suas interpretações fracas, mas é impressionante sua presença de tela aqui, três anos antes de estourar em Os Homens Preferem as Loiras. O figurino de Edith Head é, como sempre, extremamente competente. Até hoje A Malvada detém, juntamente com Titanic, o recorde de indicações ao Oscar. São 14 no total: ator coadjuvante (George Sanders), figurino em preto e branco, direção, filme, mixagem de som, roteiro, duas para atriz (Bette Davis e Anne Baxter), duas para atriz coadjuvante (Celeste Holm e Thelma Ritter), direção de arte em preto e branco, fotografia em preto e branco, montagem e trilha sonora. Foi premiado nas seis primeiras. Percebe-se a força do elenco, especialmente feminino e diz-se que Bette Davis não ganhou por ter dividido votos com Anne Baxter. Vale a pena assistir.

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Cinderela em Paris (Funny Face/ 1957)

Assistido em 22/01/2013


Vou chamar de Funny Face mesmo, porque não acho que ninguém use o nome em português. Funny Face, estrelado por Audrey Hepburn e Fred Astaire não é um bom filme, na maneira como as pessoas entendem bons filmes. Para começar, é um musical. Quase todo mundo odeia musicais! Eu não, mas nesse caso, não é um bom musical. As músicas não empolgam, Audrey cantando é apenas OK e Fred Astaire é totalmente desperdiçado, pouco dançando. A história não é lá das mais inspiradas: uma revista de moda (inspirada na Harper’s Bazaar) está à procura de uma modelo que represente suas leitoras e quando estão fazendo um ensaio em uma livraria, o fotógrafo Dick (Astaire) se convence que a livreira Jo (Hepburn) é perfeita para isso, com um rosto desconhecido e bonito. Aí vem a parte patinho feio, em que ela é tirada de seus trajes marrons e largos e vai para Paris ser fotografada. O romance da história consegue ser mais sem química que o do personagem de Audrey em Sabrina. Astaire é 30 anos mais velho, e seu personagem é controlador e ciumento. Fica difícil engolir.
Agora, o filme não deve ser descartado completamente, pois ele se tornou referência visual para muita coisa posterior. Paris fica linda na fotografia bem executada. A cena de dança que Audrey executa em um café é marcante, com aquela atmosfera beatnik e a calça cigarrete preta com mocassim igualmente preto com meias brancas (alô Michael Jackson!). Essa cena já serviu de inspiração para clipes de Whitney Houston e Beyoncé. E sei que é clichê elogiá-la, mas o figurino de Edith Head é perfeito e muito bem complementado pelas roupas de Givenchy que Jo veste em Paris. O estilista nãop oderia ter melhor garota propaganda e melhor veículo de mídia que esse. Há também que se prestar atenção nos créditos de abertura, com belas fotos de Richard Avedon, fotógrafo em quem o personagem Dick foi inspirado.

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