Rainhas do Crime (The Kitchen, 2019)

A música da abertura do filme dita o tom da história: “this is a men’s world” brada a versão da melodia de James Brown. É o final na década de 1970, em Hell’s Kitchen, na cidade de Nova York. Nesse mundo dos homens, três mafiosos são presos em uma ação do FBI, deixando suas esposas Kathy (Melissa McCarthy), Ruby (Tiffany Haddish) e Claire (Elisabeth Moss) sem um resguardo financeiro. A primeira é a esposa amorosa e mãe de dois filhos; a segunda, vítima de violência doméstica; e terceira precisa lidar cotidianamente com o racismo da família de seu marido branco. A máfia a que pertenciam prometeu cuidar delas mas o dinheiro recebido não é o suficiente sequer para pagar o aluguel. Então elas resolvem assumir os negócios locais. A trama é adaptada de uma minissérie de quadrinhos de mesmo nome, escrita por Ollie Masters e Ming Doyle. O roteiro e direção são de Andrea Berloff.

Os citados “negócios locais” nada mais são do que a prestação de serviços milicianos: proprietários de pequenos estabelecimentos comerciais pagam um valor semanal para ter seus negócios assegurados e a garantia de tranquilidade nas ruas (entenda como quiser). Kathy, bem relacionada entre as famílias irlandesas que predominam no bairro, usa as conexões previamente estabelecidas para, garantindo a confiança dos demais, passar para elas essas atividades que antes era dominada pela máfia. É curioso como o filme conecta o crime à própria noção de parentesco e a organização criminosa a uma administração doméstica ou familiar, de maneira a fazer sentido uma assim chamada “mãe de família” gerenciar os indivíduos, suas relações e ações ali implicadas.

O carisma das três ótimas atrizes e o desejo de ver suas personagens, que agem com inteligência e planejamento estratégico, cria bons momentos. Infelizmente eles são rodeados por outros em que quem assiste ao filme se vê questionando qual exatamente é sua proposta. A ideia é que, como e um filme de assalto, as três tenham, cada uma, uma função de acordo com suas habilidades. A princípio isso funciona, mas depois de um tempo vem a realidade: elas não encarnam um protagonismo anti-sistema que geralmente é adotada em filmes do sub-gênero, em que as vítimas são grandes bancos ou cassinos, o poderio financeiro ou político. Isso seria essencial para gerar a conexão entre o espectador e elas mesmas. Nesse caso, as vítimas são seus vizinhos, parte do ecossistema do bairro, que, uma vez não concordando com as práticas oferecidas, sofrem retaliações. Elas não são contra o sistema, são a favor de um sistema paralelo em que o poder lhes é garantido pela violência. Elas são a milícia.

Nesse ponto é preciso destacar que o tom incerto do filme é grande responsável pelo estranhamento. Ele poderia assumir as protagonistas como mais que anti-heroínas, como vilãs na trama. Seria instigante ver um filme protagonizado por mulheres terríveis, que não tentasse criar simpatia por elas e pelas barbaridades que cometem. Mas não é o que acontece, criando uma confusa narrativa em que devemos admirar a afabilidade, especialmente de Kathy, apesar de tudo e suas ações são justificadas por ela mesma não como uma escolha, mas como determinismo geográfico: sou assim porque cresci nesse bairro. O filme não se assume como um suspense de ação, mas falha em criar momentos cômicos, muitas vezes desconfortáveis. Claire, por exemplo, é a personagem que, após apanhar tantas vezes, passa a revidar assédios com uma arma apontada, a matar e esquartejar. Embora seja ótimo voltar a ver Elisabeth Moss em boa forma (após as duas últimas sofridas temporadas de The Handmaid’s Tale), o interesse da sua personagem por métodos de corte é mostrado em um fracassado tom de humor que é reforçado pelo olhar quase desconectado que a atriz imprime sobre suas vítimas. Já Ruby, que é usada reiteradamente para demonstrar o racismo casual daquela época e local, tem sua trajetória munida de um discurso pautado em questões étnico-raciais que nunca são aprofundadas e, ao final, que torna questionável o conhecimento da roteirista sobre tais temas.

No final, os discursos truncados, as motivações mal resolvidas e a indecisão sobre qual gênero o filme deveria se encaixar tornam a experiência de assisti-lo exaustiva. Nessas horas é difícil não pensar em As Viúvas, filme com temática similar de Steve McQueen, cujo roteiro escrito por Gillian Flynn é capaz, conforme escrevi na época, de criar “mulheres protagonistas diversas, questionáveis, multifacetadas e nada simples”.

Isso não significa dizer que não tenha seus bons momentos. A curiosidade inicial leva a querer saber sempre o que virá em seguida, esperando que ele leva a algum lugar inesperado. O trio de atrizes faz o que é possível com o material que receberam. Por fim, os figurinos estão impecáveis: calças bem cortadas, camisas com gravata em laço, estilos bem marcados para cada uma e um retrato interessante da ascensão de cada uma, dentro do contexto da moda da época.

Quando o filme termina fica a sensação que, embora ele seja centrado em mulheres e autorado por uma mulher, ele é fruto da inabilidade da indústria em lidar com as discussões recentes a respeito de gênero em Hollywood. Aparentemente o mero protagonismo de mulheres em um gênero de filmes geralmente dominado pela presença masculina deveria bastar ao público que reivindica narrativas não hegemônicas, mas será que com isso devemos comemorar nossas mocinhas matando moradores de rua em um tom cartunesco que não se define como drama ou comédia? É o feminismo liberal de mercado em grande forma: you go, girl, representatividade na máfia. É “all Gloria Steinem and shit”, como disse uma personagem sobre a postura das protagonistas, resumindo a profundidade da abordagem supostamente feminista. Com um roteiro confuso e um tom que não se acerta, Rainhas do Crime é uma grande oportunidade perdida ao desperdiçar um ótimo elenco em uma história que não define em qual direção quer mirar.

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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The Square: A Arte da Discórdia (The Square, 2017)

Postado originalmente em 9 de novembro como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 

O aguardado vencedor da Palma de Ouro em Cannes é outra obra provocativa do cineasta sueco Ruben Östlund. Dessa vez seu alvo é o mercado da arte, representado aqui por Christian (Claes Bang), um diretor de museu extremamente preocupado com sua imagem pessoal e com a relevância midiática de seu local de trabalho.

O primeiro ponto levantado pelo filme diz respeito ao que é a arte. Em determinado momento se pergunta: uma bolsa colocada em uma exposição é arte? Esse tipo de questionamento já é antigo e um tanto enfadonho: desde centenária Fonte de Duchamp já está mais do que debatida. Mas existe aqui um certo moralismo no posicionamento utilizado no filme a respeito da arte contemporânea, não entendida em seu processo, apenas em sua efemeridade. Ela é representada na obra Square (Quadrado), que dá nome ao filme. O Quadrado é espaço delimitado com mangueira de LED no chão no formato especificado. Seu interior, conceitual, é um espaço de cuidado e confiança, onde todos têm obrigações e direitos iguais.

Como a igualdade é um atributo que (teoricamente) não é polêmico, a equipe de marketing do museu tem dificuldade em criar uma campanha que possa engajar as pessoas. Segundo um criativo, se o espectador não for pego nos primeiros dois minutos de um vídeo, ele o abandona. Por isso resolvem fazer um vídeo publicitário polêmico, que viralize nas redes sociais. Ao contrário de Haneke, Östlund demonstra conhecer os preâmbulos da internet, como ele mesmo provou ao filmar um vídeo (que por acaso também viralizou) em que interpreta sua própria reação ao vivo ao não se indicado ao Oscar por Força Maior, mostrando a pretensa sinceridade que as pessoas querem ver. Aqui ele discute as diferenças entre arte e publicidade e até que ponto as pessoas estão dispostas a ir em se tratando de chamar atenção para seu produto.

Por fim existe uma discussão que diz respeito à empatia. Uma instalação do museu onde o protagonista trabalha traz a pergunta “você confia nas pessoas?” e cada um vota sim ou não. Em determinado momento é possível ver que o painel de votos tem cerca de dez vezes mais para o “sim”. Mas embora esse discurso do cuidado seja constantemente utilizado, ele é desmentido nas ações: ajudar uma pessoa pela adrenalina e ainda assim se ver traído nesse ato; ignorar os pedintes e moradores de rua; ter medo de outras pessoas apenas em virtude do lugar onde moram; desconfiar que quem se aproxima de você está querendo aplicar um golpe. Christian muito fala, mas erra um tanto quando se trata de se relacionar com outras pessoas. No final, é fácil argumentar sobre arte marcada pela confiança, quando esta permanece no campo do discurso.

Muito se falou como The Square questiona o limite da arte, e mesmo da arte performática e da própria liberdade de expressão. Mas embora esse seja um dos pontos centrais do filme, ele funciona melhor quando aborda as dinâmicas sociais de relacionamento. Com um humor ácido, pontuado pelo uso da música Ave Maria, que dialoga como o nome do protagonista do mesmo modo como suas ações criam antíteses com ele, a narrativa é mais eficiente em sua primeira metade, no sentido de deixar claro o que pretende dizer. O resultado é uma obra provocativa e instigante.

Nota: 4 de 5 estrelas

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Conspiração e Poder (Truth, 2015)

James Vanderbilt é roteirista, conhecido pelos dois filmes do Espetacular Homem-Aranha e Zodíaco, de David Fincher. Conspiração e Poder é o primeiro filme que dirigiu (além de ter roteirizado, claro) e chama a atenção o elenco de peso que embarcou no projeto. O longa aborda o jornalismo televisivo, especificamente uma história real que ocorreu envolvendo a produção do programa 60 Minutos, um dos mais tradicionais da televisão estadounidense. Em 2004 a produtora Mary Mapes (Cate Blanchett) encontrou indícios de fraude envolvendo o então presidente George W. Bush e sua alocação no exército durante a Guerra do Vietnam. Em plena corrida para a reeleição, qualquer tipo de informação negativa sobre um candidato poderia ter grande peso sobre o resultado. Além de Mapes, a equipe da investigação era composta pelo âncora Dan Rather (Robert Redford), os jornalistas Lucy Scott (Elisabeth Moss) e Mike Smith (Topher Grace) e o Tenente Coronel Roger Charles (Dennis Quaid). O roteiro é adaptado diretamente do livro Truth and Duty: The Press, the President, and the Privilege of Power, escrito pela própria Mapes.

Trata-se de uma história procedural, que mostra como funcionam as etapas investigativas de uma reportagem de grande porte e a dinâmica de relacionamentos entre os profissionais. Mapes confiou no fator humano durante as etapas de verificação das fontes e, com a pressão para fechar o conteúdo, deu por verdadeiro tudo que lhe foi apresentado. Um item essencial para credibilidade da história veio de fonte duvidosa e, em se tratando de informação que poderia encerrar a presidência de Bush, pressões políticas e econômicas que vinham anônimas de camadas superiores da hierarquia passaram a assombrar o trabalho da equipe.

A busca pela verdade é o mote da trama, mas a abordagem, até mesmo pela fonte do texto, é bastante tendenciosa. Nenhum problema: toda obra de arte é propaganda e escolhe um lado. Mas o ritmo irregular da narrativa não ajuda na imersão total. Além disso, os diálogos extremamente expositivos distraem e atrapalham em diversos momentos. Há um cena, por exemplo, em que Charles explica a Lucy como um telejornal replica o conteúdo do outro, fato que ela obviamente está ciente. Esse é apenas um exemplo entre muitos momentos em que os personagens explicam uns aos outros o que está acontecendo ou fazem perguntas deliberadas para levar a respostas que narram aos fatos, claramente tentando entregar essas informações ao espectador. Isso sem falar na tradicional cena de discurso grandioso, que também acontece.

Em um ano em que Spotlight, outro procedural de jornalismo, ganhou o Oscar de melhor filme, é difícil não comparar as duas películas. Nesse caso, Conspiração e Poder acaba funcionando como uma contra-prova às críticas de que, minimalista e elegante, Spotlight seria um filme sem direção. A qualidade da obra final lá comprova uma direção madura, em oposição à claudicante e insegura aqui. Não que Conspiração e Poder seja um filme ruim, mas ele se beneficia de uma história minimamente interessante e de atuações de peso. Cate Blanchett, mais uma vez, a despeito do roteiro que lhe é entregue, comprova a grande atriz que é.  3estrelas

truth

 

 

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