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Figurino: Jogos Vorazes: A Esperança- Parte 1

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 26/11/2014.

Em novembro chegou aos cinemas Jogos Vorazes: A Esperança- Parte 1, terceiro filme baseado nos livros de temática distópica de Suzanne Collins. Dirigido por Francis Lawrence, como o anterior, ele estabelece a sua franquia entre os grandes e bons produtos hollywoodianos, uma vez que aprofunda temas pesados e contemporâneos de forma raramente feita em narrativas supostamente juvenis.

Mais uma vez houve troca de figurinista: se no ano passado a responsável foi Trish Summerville (leia aqui a análise do figurino de Jogos Vorazes: Em Chamas), que orquestrou uma composição certeira dos exageros da Capital, dessa vez temos o trabalho minimalista da dupla Kurt & Bart, que recentemente trabalharam em Clube de Compras Dallas e Segredos de Sangue (leia a análise do último aqui), já aqui analisado. Apesar disso, o estilo do figurino apresentado seguiu as linhas deixadas anteriormente e alguns elementos, como os uniformes dos guardas pacificadores e as roupas simples de algodão em tons de cinza e bege utilizadas na maior parte dos Distritos, não foram alterados.

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Dessa vez a moda extravagante sai de cena e entram em seu lugar roupas mais simples e funcionais. A história recomeça pouco depois do fim dos Jogos Vorazes anteriores. Katniss (Jennifer Lawrence), resgatada pelos rebeldes do 13º Distrito, aceita seu papel como Tordo, símbolo da revolução contra a Capital. E no contexto da trama, ela não se faz apenas com armas em punho, mas também através de propaganda. Cinna, antes de morrer, havia deixado prontos croquis de roupas feitas para que ela tenha a imagem adequada de liderança. O traje de combate preto, que permite movimentos amplos, possui reforços nas canelas e nos braços e uma placa peitoral assimétrica, todos na mesma cor. Os ombros recebem tratamento em forma de escamas e nas costas, além das flechas, asas, lembrando seu papel. Cinna obviamente era estilista e não um designer de vestuário de guerra. Além disso, não é esperado que Katniss entre em combate real. Apenas isso explica o formato da placa peitoral, com a curvatura de seios delineada. Embora seja comum tal uso em figurinos, na prática isso só torna a armadura menos segura, pois armas pontiagudas deslizariam e seriam guiadas para o centro do tórax, tornando mais fácil acertar o coração.

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Além da roupa de combate, Katniss veste calças de cintura alta e camisas com bolsos, ambos cinzas. Os trajes são o uniforme de todos os moradores do Distrito 13 e remetem àqueles utilitários usados pelas mulheres americanas trabalhando na 2ª Guerra Mundial. O período é constantemente referenciado através dos figurinos na franquia em virtude da relação que pode ser feita entre o governo de Presidente Snow (Donald Sutherland) e os regimes fascistas de então.

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Mulheres trabalhando na 2ª Guerra Mundial

Mulheres trabalhando na 2ª Guerra Mundial

A cor neutra é proposital, para criar a impressão de falta de individualidade entre os habitantes do Distrito. Essa aparente uniformidade é quebrada por pequenos detalhes: Katniss, por exemplo, nunca vai abotoar todos os botões de sua camisa. Isso demonstra que embora esteja participando dos planos, há um leve desconforto que não a permite se encaixar plenamente.

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Com o uniforme se coloca a questão do bem estar coletivo versus a expressão da individualidade. Effie Trinket (Elizabeth Banks), acostumada que está com a moda exagerada da Capital e a possibilidade que ela lhe dava de sempre se apresentar de forma diferente, não pode aceitar usar um uniforme. As pessoas têm o hábito de se expressarem através das roupas que vestem e mesmo a negação de qualquer forma diferenciada é um posicionamento. Com essa tela em branco em mãos, ela adapta as roupas, transformando-as em outras peças e incrementando com os acessórios que conseguiu manter. Na ausência de suas tradicionais perucas coloridas, usa lenços em amarrações diferentes na cabeça.

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Outro contraste com o padrão uniforme do Distrito 13 são os dissidentes fugidos para se juntar à revolução por causa de Katniss. A diretora Cressida (Natalie Dormer) se destaca, pois suas tatuagens a diferenciam visualmente daqueles que se criaram no distrito.

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Por outro lado, a elite política, representada pela Presidente Coin (Juliane Moore) e seu propagandista Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman), apesar de em um primeiro olhar parecer utilizar o mesmo traje dos outros, na verdade não o faz. O colarinho é fechado e o tecido é um pouco mais grosso, garantindo aparência mais estruturada. A camisa de Coin fica por fora da calça, assemelhando-se mais a um paletó. É possível perceber nas cenas em que discursa, que ela tem ombreiras. Sua imagem é mais polida que a dos demais moradores do Distrito: a imagem confiável de uma líder política. Todos são iguais, mas uns são mais iguais que os outros.

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Se Katniss se torna garota propaganda da revolução em curso, Peeta (Josh Hutcherson) é utilizado pela Capital com a função de dissuadir as pessoas a fazerem parte do levante. Ele participa do programa de televisão de Caesar Flickerman (Stanley Tucci) e em sua aparição apresenta o mesmo estilo que anteriormente utilizava quando em turnê: paletó e acessórioss todos em branco, com formas estruturadas e arquiteturais. Parece que está tudo certo, com exceção de um detalhe: o adorno pontiagudo em sua lapela, que espeta levemente sua garganta enquanto fala. É a pista que o figurino dá para a situação desconfortável em que o personagem foi colocado, como porta-voz de Presidente Snow.

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Na aparição subsequente suas roupas se tornam escuras e mantém um adorno pontiagudo na lapela. Na última, seu blazer é recoberto de rosas e ele segura uma na mão. A flor é o símbolo de Snow e, junto com a mudança no estilo e na cor de sua roupa, além de sua aparência doente, externam o fato de que ele está sendo controlado pelo presidente. Esse traje final é rebuscado de uma forma que o aproxima de Caesar, que, afinal, é um apresentador chapa-branca. Vale lembrar que o próprio presidente não se veste dessa forma e sim de maneira minimalista, com formas simples e apenas a rosa na lapela como adorno. O rebuscamento passa uma imagem frívola que não condiz com aquela desejada por um bom governante.

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Os filmes da franquia Jogos Vorazes sempre contaram com bons figurinistas e uma boa cobertura midiática em relação aos trajes exibidos. O trabalho no primeiro ficou por conta da veterana Judianna Makovsky e no segundo, de Trish Summerville. Esta é um ás da publicidade e os trajes que seriam exibidos na película foram amplamente divulgados antes de sua estreia. Mesmo tendo uma carreira sólida e esse ser um trabalho em uma franquia já plenamente estabelecida, é curioso perceber o quão pouco foi comentado ou divulgado sobre o figurino desenvolvido por Kurt &Bart. Apesar disso, a qualidade do que é exposto continua elevada e a continuidade estética entre os filmes permaneceu. Se nesse jogo de guerra a imagem dos participantes é essencial para a criação de empatia, nada como um bom figurino para ajudar a projetá-la e o de A Esperança- Parte 1 é funcional, tem elementos visuais interessantes, cria pontos pistas importantes na narrativa e faz jus aos seus antecessores.

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Uma Aventura Lego (The Lego Movie/ 2014)

Serei breve. Deixa eu ver se entendi: o filme critica quem é comum e segue as regras, mas quem é comum e segue as regras salva o dia no final. Critica a perfeição e falsa alegria de uma sociedade controlada, enquanto mostra a alegria perfeitamente perturbadora de uma terra em que a única regra é não ter regras (enquanto uma personagem admite que isso é incoerente). Mostra que música popular robotiza as pessoas mas no final diz que ela é motivadora e boa. Critica o domínio de uma grande corporação e o entretenimento barato que chega à população, mas é protagonizado por brinquedos de uma marca gigante do setor e produzido pela Warner, sendo que a Time Warner controla uma infinidade de canais de TV, produz programação imbecilizante e detém direitos de diversas franquias milionárias, como Batman, Harry Potter, Senhor dos Anéis, entre outros (que inclusive possuem personagens que fazem aparições em suas versões Lego). O filme tem um protagonista comum: tão comum que não possui nenhuma característica marcante. Sua sidekick segue o tropo de guerreira solitária badass,  mas se resume a uma fachada sem grande desenvolvimento, que regride até se tornar o prêmio do herói ao final. Ideologicamente, trata-se de incoerência do início ao fim.

Para não parecer tão ranzinza, devo dizer que o visual da animação é muito bonito e deve ser o filme do gênero em que eu mais ri dos últimos tempos. Aliás, as crianças quase não riam no cinema, porque muitas das gags são piscadinhas para os adultos. Se você não prestar atenção à trama, é bastante agradável. Sabe como é, como diz a música-tema do filme, “tudo é incrível”.

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Figurino: Jogos Vorazes- Em Chamas: moda e ambiguidade na Capital

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 20/11/2013.

Chegou às telonas Jogos Vorazes: Em Chamas, segundo filme adaptado da série de livros distópico-futuristas de Suzanne Collins. Entre o primeiro e este, muitas mudanças ocorreram: o orçamento quase dobrou, de 78 para 140 milhões de dólares (o que transparece no resultado final); trocou-se o diretor (de Gary Ross para Francis Lawrence) e com ele parte da equipe técnica, incluindo a figurinista, que era Judianna Makovsky (de A Princesinha) e passou a ser Trish Summerville, nome em ascensão após Millenium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres.

Summerville possui um método de trabalho que é pouco apreciado por outros figurinistas: busca parcerias com estilistas e coordena seus trabalhos. Geralmente quando isso ocorre, o nome do estilista sobressai-se ao do figurinista (como Miuccia Prada em O Grande Gatsby) ou há polêmicas em relação à autoria (como ocorreu em O Cisne Negro). (links para ambas as colunas) Ela orquestra os envolvidos e suas estéticas de uma maneira que o que sobressai ao final ainda é sua visão e o que fica gravado é o seu nome. Sabe se beneficiar como ninguém dessa prática mercadológica de explorar o mundo da moda no cinema. Em Jogos Vorazes: Em Chamas, aproveitou o universo criado por Makovsky e avançou, ampliando a escala.
Nos distritos, predominam materiais naturais, como linho, algodão e couro, em cores esmaecidas e tons de cinza e bege. A modelagem continua remetendo às décadas de 1930 e 1940, em uma clara alusão aos regimes totalitaristas que dominavam a Europa nesse período. A vida ali não é fácil e as roupas devem ser práticas, visando as atividades cotidianas.
O uniforme dos guardas pacificadores passou por pequenas alterações. Mantém-se a alvura (que contrasta com as roupas dos habitantes dos distritos), mas a bota passa a ser também branca e acrescenta-se uma placa peitoral e uma nas costas com textura de esqueleto, além de joelheiras, aumentando a organicidade do conjunto.

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Enquanto está em casa, Katniss (Jennifer Lawrence) continua usando a jaqueta de couro do primeiro filme, mas sobre ela é acrescentada uma espécie de cachecol-colete, executado pela designer de tricô Maria Dora. A peça tem um formato interessante, deixando clara a influência da Capital, ao mesmo tempo em que é confeccionada em lã (fibra natural, do distrito), e tem aparência de feita em casa.

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Ao longo da Turnê dos Vitoriosos Katniss utiliza outras peças de lã, bem como outras roupas que seguem o mesmo conceito: minimalistas, como as do distrito, mas com detalhes que despertem o interesse, remetendo à Capital. Seu estilo de se vestir amadureceu. Afinal, após ter vencido a 74ª edição dos Jogos Vorazes, ela não só não é mais a mesma garota do ano anterior, como passa a ser uma pessoa pública, de interesse coletivo e apelo televisivo.

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Um exemplo é o macacão azul-marinho com cinto marrom utilizado no dia do sorteio: ele quase parece uma roupa de trabalho, mas o corte ajustado confere-lhe elegância e demonstra haver design por trás de sua criação.
Peeta (Josh Hutcherson) também começa a usar roupas mais maduras: Summeville o veste em camadas e utiliza muitas jaquetas de maneira a destacar seu porte físico. Seu terno de casamento, feito pelo estilista coreano Juunj, tem corte estruturado, arquitetural: a lapela fendida gera tridimensionalidade à roupa. O toque futurista é acentuado pelo colarinho da camisa, seus punhos e o lenço, substituídos por versões metálicas.

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Para a festa antes dos jogos, o vestido preto com detalhes vermelhos de Katniss aproveita de forma pouco sutil seu apelido de “garota em chamas”.

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O mesmo ocorre com o vestido de casamento, utilizado na transmissão televisiva. Volumoso e com muitas camadas, ele possui uma trama metálica próxima ao ombro em forma de chama, ao mesmo tempo em que tem adornos feitos com penas, lembrando o papel de Katniss como o tordo, símbolo da revolução que ocorre nos distritos. O traje foi desenhado e confeccionado por Tex Saverio, estilista indonésio. Quando Katniss rodopia, o vestido é consumido pelas chamas, transformando-se em outro, negro e com asas. Dessa forma o papel duplo (e dúbio) da personagem é frisado: o povo da Capital a vê como entretenimento: a garota em chamas da televisão; mas sob o espetáculo, esconde-se o símbolo da esperança e da revolução nos distritos.

Croqui do vestido de casamento por Tex Saverio

Croqui do vestido de casamento por Tex Saverio

Entre os novos personagens, dois se destacam. Finnick Odair (Sam Claflin) e Johanna Manson (Jenna Malone). Finnick é do Distrito 4, responsável pela pesca, e por isso, para sua apresentação, usa uma saia de tricô dourado, para lembrar uma rede de pesca, acompanhada de um cinto e, como acessório, um colar de conchas. Já Johanna, do distrito 7, responsável pela produção de lenha e madeira, veste um longo vestido marrom, com lascas de tronco de árvore subindo pelo seu pescoço, criando uma aparência de desconforto.

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A personagem com guarda-roupa mais variado e interessante não poderia ser outra: Effie Trinket. No primeiro filme da série, Joadianna Makovsky teve como inspiração para a moda da capital a obra da estilista Elsa Schiaparelli, marcada pelo surrealismo. Agora, Summerville tem uma inspiração mais próxima de nossos tempos: a marca Alexander McQueen, conhecida pelos excessos em sua estética e que atualmente tem suas coleções criadas por Sarah Burton.

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A inspiração é patente no vestido de casamento de Katniss, mas literal no vestuário de Effie: Seus vestidos são todos retirados de coleções recentes da marca. Não deixa de ser uma escolha interessante, porque o povo da capital vive para o espetáculo e isso coloca a alta-costura como símbolo dessa futilidade.

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Ao mesmo tempo, Effie representa nós mesmos, a plateia sedenta por entretenimento e coisas bonitas aos olhos, por vezes sem perceber as implicações políticas disso. Para Effie, a primavera já chegou (por isso as borboletas monarcas em seu vestido) e não parece se dar conta de que o povo fora da Capital vive um longo inverno de fome, opressão e medo.

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Ao fazer uso de roupas de grife para compor o figurino, e levando-se em conta a temática do filme, Trish Summerville fez uma crítica (talvez inconsciente) às próprias indústrias da moda e do entretenimento. Demonstra talento ao unir trabalhos tão diversos e manter a unidade da proposta visual. Jogos Vorazes: Em Chamas evoluiu muito os conceitos utilizados no primeiro filme e apresenta-se como um produto melhor acabado. E nós, como o povo da Capital, o assistimos, sedentos por ver o desfile de belos trajes utilizados em cena, enquanto em algum lugar dos distritos, faz-se a revolução.

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Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire/ 2013)

Assistido em 15/11/2013

Post sem spoilers!

Jogos Vorazes: Em Chamas, segundo filme da franquia, teve quase o dobro do orçamento do primeiro: de 78 milhões de dólares passou para 140 milhões. Desses, 10 milhões foram o cachê de Jennifer Lawrence, pois nesse meio tempo ganhou fama e tornou-se oscarizada. Um belo salto em relação aos 500 mil que recebeu no anterior. Mas mesmo assim, a verba extra é perceptível em todas os momentos na produção.

O filme começa alguns meses depois do fim dos Jogos Vorazes. Katniss (Jennifer Lawrence) e Peeta (Josh Hutcherson) moram em casas contíguas na vila dos vencedores, onde também reside Haymitch (Woody Harrelson). Após encarnarem os amantes trágicos diante de toda a nação e saírem ambos vitorioso, agora eles mal sem falam. Ela voltou às caçadas com Gale (Liam Hemsworth) e tem visíveis sintomas de stress pós-traumático. Ninguém sabe exatamente o que está acontecendo, mas têm a percepção de que algo está mudando por conta da última edição do jogos. As consequências de seus atos são ponto central da trama. Para Katniss isso fica patente quando o Presidente Snow (Donald Sutherland) aparece em sua casa e a avisa que a turnê dos vitoriosos logo se iniciará e que nos distritos muitos não acreditam na história de amor entre ela e Peeta, vendo, sim, um desafio ao poder da Capital. Ameaçando a vida de sua mãe (Paula Malcomson)  e de Prim (Willow Shields), a sua irmã, além da de Gale, Snow quer ter certeza de que ela se esforçará para representar satisfatoriamente a sua relação com Peeta, para não causar mais levantes na turnê dos vitorioso que virá. Apenas lá Katniss e Peeta começam a ter noção da dimensão do que vem acontecendo.

Com um novo gamemaker, Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman), a 75ª edição será um Massacre Quartenário, jogo que acontece a cada vinte e cinco anos com regras diferentes. O presidente está decidido a enfraquecer a figura dos tributos vencedores. Assim Plutarch sugere que relembrem que o motivo dos jogos existirem é para mostrar aos distritos o que ocorre com quem se rebela contra a Capital. Os contornos políticos da distopia fortalecem-se.

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Katniss está fragilizada nesse ponto da história. Ela se tornou o símbolo de uma revolução sem ter querido ou percebido. Aqui ela, com o auxílio de Cinna (Lenny Krevitz), liteiralmente encarna o mockinjay. O que ela queria era sobreviver com sua família, mas se viu mergulhar em uma trama complexa que não sabe como lidar. Jennifer Lawrence encarna esse momento da personagem com precisão. Embora eu não tenha concordado com a escalação da atriz para o papel (por trata-se de um embranquecimento da personagem em relação ao livro), não há como negar seu talento.

Gale e Effie Trinket (Elizabeth Banks) tem suas participações ampliadas nesse filme. Ela tem até mesmo o nome mencionado algumas vezes, fato que não ocorreu no primeiro filme. Essa presença é bastante positiva, pois ela nos representa nesse contexto. Ela é o povo da Capital, sedento por coisas bonitas e entretenimento, assim como, ironicamente, a plateia que o assiste. Se ela não tem noção da dimensão política dos acontecimentos, não é por mal: embora alienada, tem bom coração.

Entre os novos personagens, uma surpresa positiva foi o de Finnick Odair (Sam Claflin). Ao ver as fotos do ator na escalação do elenco, não achei ele combinasse com o personagem, mas sua atuação me desmentiu. Além disso, uma cena do livro envolvendo outra personagem nova, Johanna (Jena Malone), que havia comentado no dia anterior que tinha certeza que seria cortada em virtude da classificação etária do filme, não só foi executada, como melhorada.

Aliás, em termos de adaptação, o filme como um todo se saiu muito bem. O livro Em Chamas é fortemente prejudicado por ser o meio da série, além de ter uma parte de trama repetida do primeiro livro.  Para o filme, houve a percepção de que essa parte não funcionaria e houve uma redução considerável, embora não pudesse ser extirpada da trama. (Ainda assim citaria esse como o maior ponto fraco da película). Todas as alterações feitas serviram para melhorar a história e, por vezes, dar mais impacto às ações dos personagens. Levando-se em conta que, como já mencionei, o aumento de recursos transparece na tela, o segundo filme parece melhor que o primeiro, mesmo sendo apenas um elo de ligação.

Sobre os aspectos técnicos, tudo mudou de escala. Os espaços da Capital estão mais grandiosos. A computação gráfica melhorou bastante, embora o fogo ainda não seja realista. Os figurinos estão ainda mais vistosos. Novamente, paguei minha língua. A figurinista do primeiro filme, Judianna Makovsky (de A Princesinha), foi substituída nesse por Trish Summerville (que já havia feito Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, onde abusou de uma estética exagerada que caricaturou a personagem Lisbeth). Aqui ela novamente cometeu excessos, mas que casaram com o contexto da Capital. A fotografia está muito melhor, sem o uso de câmeras tremidas.

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O final do filme deixa claro que muito mais está por vir. Embora tenha escrito para jovens, Suzanne Collins não diluiu os conceitos que norteiam sua trama. A Esperança, o terceiro e mais forte dos livros, será dividido em dois filmes e se o nível da produção permanecer o mesmo, tudo indica que será algo memorável em termos de produto para o público infanto-juvenil (e, porque não, adulto). Em Chamas provou que o aumento da escala da produção apenas beneficiou-a. A verba extra não se perdeu em efeitos especiais vazios, mas possibilitou a execução aprimorada das ideias e a ampliação do senso de urgência e do suspense, pois algo se agita abaixo aparente calmaria.

Quem só queria ler meu comentário sobre o filme, pode encerrar por aqui. Agora vou relatar a experiência antropológica que foi assistir a ele no dia de estreia. O cinema que geralmente frequento abriu uma sala dublada e uma legendada. Dirigi-me sozinha até ele no início da tarde. Todas as sessões dessas salas já estavam esgotadas, mas havia sido aberta uma terceira sala, legendada. Consegui ingresso para o segundo horário, 15:20. Passei nas Americanas para comprar um salgadinho e percebi que o shopping estava lotado de grupinhos de pré-adolescentes e adolescentes. Faltando meia hora para a sessão segui para a sala. Para minha surpresa, era muito pequena: provavelmente a menor sala de cinema que já frequentei na vida. Quando entrei a maioria dos lugares já estavam ocupados e muitos estavam reservados com bolsas e pipocas. Sentei-me próxima ao corredor, no alto, e agucei os ouvidos. À minha esquerda um grupos composto por duas meninas e um menino, com aproximadamente catorze anos, relatavam o segundo livro inteiro! Fiquei com pena de quem assiste o filme sem ler os livros. À minha direita, do outro lado do corredor, um grupelho de cinco meninos com em torno de 10 anos faziam algazarra. Atrás de mim, algumas adolescentes e uma criança muito pequena, que mau sabia pronunciar palavras ainda. Em algum ponto da sala um bebê chorava. (Porque as pessoas levam bebês para sessões que sabem que serão tumultuadas?). Uma das meninas do meu lado tecia comentários apaixonados a respeito de Peeta. A segunda negou veementemente cada frase dela. Alegou que preferia Gale, porque foi o único que lutou pela revolução. Segundo ela, Katniss lutou pela Prim, Peeta, (mais ou menos) lutou pela Katniss e Gale foi o único que lutou por todos. “Você não lembra no primeiro filme, que no começo ele já sugere pra Katniss?”. A primeira, a contragosto, concordou com os argumentos, mas diz ainda preferir Peeta. Os trailers começaram mas foram interrompidos por problema na projeção, que estava sem foco e com som estourado. Alguém no fundo grita “liga pra Net!” e a sala toda cai na gargalhada. Eu já estava meio tensa, pensando que ia me incomodar horrores com essa plateia. Acontece que, assim como eu, a maior parte era composta por fãs. Fãs um tanto mais efusivos e sem controle do que essa quase balzaca que vos escreve, claro, mas fãs. Irritei-me e soltei palavrões quando a menina ao meu lado ATENDEU o celular não uma, mas três vezes! Sua mãe estava a sua procura, aparentemente. Além disso a criança pequena atrás de mim simplesmente não sabia o que estava acontecendo. A cada meia dúzia de cenas ela perguntava “ela morreu? ele morreu?”. Mas no final estava mais engraçado que irritante. O grupo de meninos chamou Ceasar de gay algumas vezes. Fora isso, foi até muito interessante, quase como uma experiência além do filme. É claro que beijos despertaram risinhos. Mas em dois momentos importantes em que eu me contraía com um sentimento de “fuck yeah” na cadeira, o pessoalzinho menos reprimido aplaudiu fervorosamente, o que contribuiu com o clima da cena. Em outros dois momentos, pelo menos metade do cinema ergueu os braços e até mesmo alguém talentoso atrás de mim fez o assovio do mockinjay. Perguntaram-me se eu achava que esse público entendia que não era só uma aventura ou um triângulo amoroso, se percebiam o aspecto político, ainda que leve, na obra. Pelo que ouvi ao meu redor, os mais novos estão alheios e estão lá pela diversão, mas a política certamente faz parte das discussões entre os mais velhos. Geralmente eu sou chata, muito chata, em relação ao comportamento das pessoas no cinema. Quero ver meu filme com silêncio total em torno de mim. Mas nesse caso, em que os próprios livros (e a Jennifer Lawrence) me transformam em fangirl adolescente, em minha opinião, essa experiência coletiva foi extremamente válida, porque é um filme que desperta essa empolgação. É uma geração sortuda (essa e a anterior com Harry Potter), pois a minha não teve nenhum produto cultural para gerar esse tipo de paixão.

Para ler minha análise do figurino de Jogos Vorazes: Em Chamas, acesse aqui.

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