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A Chegada (Arrival, 2016)

Diversas vezes o cinema de ficção científica explorou as possibilidades trazidas pelo encontro entre nós, humanos, e formas de vida extraterrestres. O medo de que com sua tecnologia superior (afinal conseguem atravessar galáxias) possam nos dominar é uma constante. Por isso é comum que sejam retratadas como uma metáfora para o invasor estrangeiro e para o horror de modos de vida que não compartilhamos em nossas comunidades, como uma forma de alteridade radical.  Embora também não seja exatamente única, em A Chegada, o diretor Denis Villeneuve parte da perspectiva oposta: e se o nosso problema é interno, marcado pela nossa incapacidade de confiar e cooperar?

Quando naves aportam em doze cidades diferentes ao redor do globo, cada país tenta ao seu modo entender o que está acontecendo e trabalhar em equipe com os demais com informações. Nos Estados Unidos, a linguista Louise Banks (Amy Adams) é requisitada pelo exército para que decifre a linguagem dos seres que tentam se comunicar.

Nesse momento Villeneuve acerta ao não atender às expectativas de seu público: quando a notícia da chegada de possíveis naves visitantes é transmitida na televisão, ele não mostra o que está acontecendo na tela, apenas a reação de quem a assiste. Assim, nosso interesse é despertado pela criação de atmosfera e não pelo fetichismo visual. A percepção da grandeza do todo é deixada para quando Louise e aqueles que a acompanham chegam ao descampado onde se encontra a nave sobre o solo estadunidense, em um momento facilmente relacionável com Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (1993), embora talvez não com a mesma grandeza. Da mesma forma, quando Louise entra na nave pela primeira vez, não temos noção quais são suas ações e seus resultados: só voltamos a ver a personagem do lado de fora. As sensações despertadas por cada momento são intensificadas pela trilha sonora composta por Jóhann Jóhannsson.

A criação de atmosfera prossegue com o confinamento da personagem, primeiramente nas barracas do exército e depois em seu traje de proteção, mostrando-a presa à estrutura conflituosa imposta por aquela situação e desconfortável com a rigidez e um complexo de homens ao seu redor esperando resultados concretos, encabeçados por Coronel Weber (Forest Whitaker). Nesse sentido, é fácil traçar um paralelo com Contato (1997), outro filme em que uma protagonista mulher e cientista precisa utilizar seus conhecimentos empíricos para lidar com a hierarquia e com a aproximação de uma nova realidade.

E se em Contato a fé na ciência demonstrada por Ellie é contraposta pela figura de um religioso, aqui Louise tem ao seu lado Ian Donnelly (Jeremy Renner), um físico teórico que não funciona narrativamente como seu oposto, mas como seu apoio. Louise tem espaço para ser uma personagem complexa e bem escrita. Ela não apenas reage, ao contrário de Kate, protagonista de Sicario: Terra de Ninguém (2015), também de Villeneuve. Ela toma decisões que são importantes para si e para os demais, mesmo que elas desafiem as ordens recebidas ou tragam consequências não necessariamente positivas, mas esperadas. Por outro lado está longe de ser uma mulher combativa perfeita: é alguém que tem dúvidas e medos, como mostra sua mão tremendo, enquadrada em close algumas vezes durante a película. A delicadeza com que Amy Adams modela sua atuação, explorando todas essas facetas, fazem a personagem crescer como uma figura humana e palpável. Por fim, a atenção que é dada em determinado momento à sua vida afetiva e amorosa, não desmerece seus feitos profissionais e acadêmicos, mas destaca os aspectos humanos da trama de maneira eficiente, conseguindo fazer o que Interestelar (2014) falhou em alcançar.

Um ponto a se destacar no filme é seu design de produção, que contribui para o trabalho atmosférico da direção. As naves são criadas com robustez visual e formato pouco convencional, mas flutuando sobre o solo, ao mesmo tempo pesadas e leves e a sensação em seu interior é de clausura, como se o ambiente que nos é mostrado fosse uma caverna. O contraste entre o azul do hospital, o amarelo das barracas militares e o verde do descampado destacam cada momento da vida de Louise. As criaturas, carinhosamente apelidadas de Abbott & Costello, por sua vez possuem um visual interessante e é bonito como se apresenta sua comunicação gestual, traçando paralelos entre seus tentáculos e nossos dedos. A relação entre a linguagem e a forma como compreendemos o mundo é explorada de maneira poética: se nossa língua e nossa escrita são lineares, nosso pensamento e entendimento sobre o tempo e o mundo também o são; mas se fossem circulares e cíclicas, o que aconteceria com a forma como percebemos, sentimos e descrevemos?

A Chegada conta com atuações sólidas e um belo design de produção. Pode parecer que ele trata do destino, mas a verdade é que é sobre escolhas. Conhecendo os percalços e as dores que o passado lhe trouxe, você faria o mesmo novamente, se tivesse escolha? E se não fosse o passado? Dessa forma memória, comunicação, conhecimento, busca e trajetória se entrelaçam poeticamente. As comparações com outros filmes do gênero, como essa crítica demonstra, são levantadas facilmente, mas o filme consegue se destacar como único, com sua própria identidade. A direção competente de Villeneuve garante uma obra contida, climática, extremamente elegante e acima de tudo otimista.

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Star Trek: Sem Fronteiras (Star Trek Beyond, 2016)

“Damn it, Jim, I’m a doctor, not a…”

Em pleno clima de comemorações pelos cinquenta anos da série original, mais um filme da série Star Trek chega aos cinemas, trazendo às telonas os velhos personagens conhecidos do público. Essa nova geração (ops) conta com Star Trek, um reboot de 2009, e Além da Escuridão: Star Trek, uma sequência de 2013, ambas dirigidas por J. J. Abrams. A direção dessa terceiro capítulo fica por conta de Justin Lin, conhecido por dirigir filmes franquia Velozes e Furiosos. E se no trailer havia a sombra do que parecia ser uma ação genérica, o resultado final é bastante agradável.

De fato, dentro os recentes, esse é o que mais se aproxima da estrutura de um episódio clássico, apresentando a exploração de um planeta desconhecido e o contato com o povo alienígena que nele habita. Após cinco anos navegando pelo espaço, Kirk (Chris Pine) tem dúvidas sobre o que deseja de sua carreira. Em uma tentativa de salvar a tripulação de outra nave, a Enterprise é parcialmente destruída e os personagens vão parar na superfície de um planeta sem comunicação, após uma nebulosa. Lá eles se deparam com Krall (Idris Elba), um vilão com um propósito um tanto quanto genérico: destruir a Frota Estelar.

Com os personagens separados, há espaço para todos os principais se destacarem individualmente e em grupo. Uhura (Zoe Saldana) continua sendo a menos desenvolvida do quarteto principal, mas pelo menos dessa vez seu arco deixou de ser atrelado ao interesse amoroso de Spock (Zachary Quinto). Ele, por sua vez, aparece menos como dupla de Kirk e mais na companhia de McCoy (Karl Urban), que teve seu papel ampliado graças a pedidos do ator.

Entre os personagens novos, o destaque é Jaylah (Sofia Boutella), sobrevivente de uma nave que colapsou e dona de grandes habilidades em mecânica e engenharia, que, assim como Kirk, tem que lidar com questões relacionadas ao seu pai. Já o relacionamento homoafetivo de Sulu (John Cho), inserido na trama como uma homenagem ao ator George Takei, intérprete original do personagem, foi feita de maneira orgânica, com um resultado bastante positivo. Chekov, personagem de Anton Yelchin, tem bastante visibilidade e o filme é dedicado à memória do ator. Scotty, interpretado por Simon Pegg, teve sua participação ampliada, provavelmente graças ao papel dele como roteirista da película. Aliás, afeito às comédias, Pegg injetou uma dose de humor à trama sem tirar o ritmo da ação.

Os uniformes da Frota novamente sofreram pequenas alterações. A mais notável é o acréscimo de mangas longas nos trajes femininos. Tradicionalmente a patente dos personagens é disposta nesse trecho da roupa. Nos dois capítulos anteriores não havia como diferenciar que cargo cada mulher ocupava. É um pequeno detalhe que conta muito. Os figurinos dos personagens à paisana também dizem muito sobre eles: a camiseta carcomida e a jaqueta de couro surrada utilizadas por Kirk, por exemplo, casam com a personalidade construída para o personagem.

As cenas de luta nem sempre são bem executadas e em alguns momentos são enquadradas excessivamente de perto, tornando o que acontece confuso. O vilão, como citado, tem um plano genérico, mas se torna vívido graças à boa interpretação de Idris Elba. Vale dizer, ainda, que há uma sequência muito bem executada próxima ao final que faz uso da música Sabotage dos Beastie Boys.

Star Trek: Sem Fronteiras é um filme gostoso e fácil de assistir. Possui boas referências que vão agradar os fãs antigos e é divertido, com um bom timing nos diálogos e uma dinâmica de equipe que flui de maneira adequada, reservando espaço para todos.

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X-Men: Apocalipse (X-Men: Apocalypse, 2016)

Em meio a uma enxurrada de filmes de heróis que chegam aos cinemas todo verão americano, os da franquia X-Men costumam se destacar por trazerem ao gênero subtextos que o tornam mais interessante. Com tramas que remetem à luta pelos direitos civis, temos papéis que não são necessariamente de heróis e vilões, mas sim de pessoas com abordagens diferentes para um mesmo problema: a discriminação contra os mutantes. Dessa forma, Xavier (James MacAvoy) seria o representante da vertente pacifista por vias legais e Magneto (Michael Fassbender) da luta armada, e Mística (Jennifer Lawrence) divide-se entre as duas possibilidades e o afeto que tem pelo dois. Mas o terceiro filme da nova trilogia abandonou completamente o tom político.

Dessa vez a narrativa se passa no começo da década de 1980. O vilão é Apocalipse (Oscar Isaac), uma entidade com poderes praticamente ilimitados, pois consegue absorver aqueles dos demais. Considerado o primeiro mutante da história, Apocalipse já era adorado como divindade no Egito Antigo, onde permaneceu enterrado até ser liberado novamente. Acompanhado de seus Quatro Cavaleiros, Tempestade (Alexandra Shipp), Psylocke (Olivia Munn), Anjo (Ben Hardy) e o próprio Magneto, planeja, como todo vilão padrão, dominar o mundo.

Por outro lado, a Escola Xavier para Jovens Superdotados está estabelecida e com ela temos uma gama de novos alunos para integrar o elenco, incluindo Jean Grey (Sophie Turner), Ciclope (Tye Sheridan), Destrutor (Lucas Till) e Jubilee (Lana Condor). A dinâmica entre a nova turma é ótima e com isso se garante que, em possíveis filmes futuros, a transição de elenco possa ser feita de maneira adequada.

Como se pode perceber, o elenco desse filme é imenso e por isso nem todos são aproveitados como poderiam ser. Sem a questão política como plano de fundo, mas com uma divindade como vilão, o filme desperdiça também a oportunidade de debater questões religiosas mais a fundo. Magneto, por exemplo, vive afastado de todos com sua esposa e filha, que são mortas por forças policiais. O clichê da mulher na geladeira, que demonstra preguiça no tratamento do roteiro, é utilizado para motivar o personagem, que se une ao grupo de Apocalipse. Em determinado momento ele olha para o céu e grita “É isso que você quer?”, questionando um deus que nada lhe responde, indiferente. A religião do personagem, o judaísmo, é intrinsecamente conectada à sua trajetória, que passa por um campo de concentração alemão na II Guerra Mundial. Noturno (Kodi Smit-McPhee), cujo catolicismo também marca sua caracterização, também não é explorado nesse sentido. Apocalipse, por sua vez, ao despertar revela ter sido chamado de Rá, mas também de Pushan (divindade solar hindu) e Elohim (um dos termos utilizados para se referir a Javé, deus judaico-cristão, no Antigo Testamento). Não deixa de ser estranho, já ele foi enterrado antes dessas religiões terem se estabelecido. De qualquer maneira, o que poderia ser uma abordagem que trouxesse à tona as crenças dos personagens limita-se a esse breve verniz mitológico.

Outro problema do filme é a passagem de tempo: são vinte anos entre ele e X-Men: Primeira Classe, mas os atores pouco ou nada envelheceram nessas décadas. Magneto, que presenciou, como já mencionado, a II Guerra Mundial, deveria ter em torno de 50 anos. Mercúrio, que era um jovem em Dias de um Futuro Esquecido, dez anos antes, segue sem mudar de aparência. Poderia citar um a um os atores que participaram da trilogia, porque o problema é generalizado.

Por fim, Oscar Isaac foi desperdiçado em um vilão desinteressante, escondido atrás de uma maquiagem de qualidade duvidosa. Sem motivações fortes, seu plano maligno de dominação é genérico e culmina em uma batalha anticlimática, em que tudo se resolve fácil demais ante a ameaça que ele parecia oferecer.

Por outro lado, a direção de arte do filme, como nos anteriores, é competente e a recriação da década, especialmente através das roupas, é muito bem realizada. Além disso, Sophie Turner e Alexandra Shipp se mostraram ótimos acréscimos ao elenco.

Esse foi o quarto filme da franquia X-Men dirigido por Bryan Singer, o segundo na atual trilogia e o mais fraco dentre eles. Em uma cena os mutantes adolescentes saem do cinema, onde assistiram a O Retorno de Jedi um deles desfere um comentário afirmando que “o terceiro filme é sempre o pior”. Synger provavelmente não se deu conta de que isso poderia se referir a sua própria obra. De toda forma, o carisma dos personagens e a empatia que sentimos por eles ajudam a sustentar a carregar o expectador pela trama que nem sempre entrega todo o seu potencial.

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P.S. Hugh Jackman faz uma breve participação, que além de desnecessária demonstra o desgasto de Wolverine enquanto personagem na franquia.

 

Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World, 2015)

Em 1993 uma geração de crianças foi marcada pelo clássico absoluto Parque dos Dinossauros, dirigido por Steven Spielberg, adaptado do ótimo livro homônimo de Michael Crichton. Após isso, vieram duas sequências que não fizeram jus ao original e o descanso para a franquia. Agora, passados alguns anos, o universo dos dinos está de volta em Jurassic World, dirigido por Colin Trevorrow. A trama começa com um menino, Gray (Ty Simpkins) e seu irmão adolescente, Zach (Nick Robinson) se despedindo dos pais para passar alguns dias no parque temático, onde sua tia Claire (Bryce Dallas Howard) trabalha. O parque está em funcionamento há duas décadas e em três semanas será exposto para o público uma nova espécie, um ser geneticamente híbrido criado em laboratório chamado Indominus rex.

Claire, que é uma espécie de diretora do local, é apresentada como sendo muito ocupada com o trabalho e por isso não tem tempo para passear com os garotos. Sua rigidez é externada no figurino impecavelmente claro, acompanhado de sapatos de salto alto beges, que destoam das roupas de lazer dos visitantes e das práticas dos demais que trabalham nos bastidores do funcionamento. De fato, ela é uma pessoa incapaz de conexão emocional e de preocupação maternal. Trata animais e visitantes como números e gráficos, sem a percepção de que são formas de vida interagindo sob sua batuta.

Esse é o maior problema do filme: personagens caricatos e unidimensionais. Claire é uma yuppie clichê saída de um filme dos anos 80. Mas não é só ela que funciona dessa forma: há o ricaço excêntrico indiano (Irrfan Khan); o cientista malvado japonês (BD Wong) vindo do primeiro filme e que nada aprendeu com os acontecimentos de então; o militar (Vincent D’Onofrio) capaz de sacrificar quantas vidas forem necessárias para chegar ao seu intento; e mesmo os já citados meninos: um menor emotivo e um adolescente que não tira o olho do celular e das meninas de sua idade. E para coroar, existe Owen (Chris Pratt), o bravo treinador de velociraptors pronto para salvar o dia. Ele é descolado, anda de moto, usa camisa com a manga arregaçada e colete do Han Solo: enfim, é o herói de ação destemido e bonitão. A comparação com Harrison Ford é fácil, uma vez que certas cenas até mesmo remetem a Indiana Jones. Mas para que a similaridade fosse completa, o personagem precisaria de uma camada extra de carisma e humanidade, que lhe falta graças ao pouco desenvolvimento, assim como os demais.

É claro que em um local repleto de feras de grandes proporções, que são constantemente subestimadas, e de seres humanos que tomam as decisões mais estúpidas possíveis, o desastre está fadado a acontecer. Indominus Rex escapa e perpetra uma matança sem igual dentro da franquia.

Claire acaba se revelando a verdadeira protagonista do filme, em uma jornada em que demonstra coragem e que, novamente de maneira clichê, vai suavizar sua relação com as crianças e os demais (o que vai se refletir em sua roupa e seus cabelos). A aventura tem um quê de anos 80, ao remeter a filmes como Tudo por Uma Esmeralda (mas mesmo lá Kathleen Turner tem os saltos de seus sapatos quebrados, porque é humanamente impossível correr por muito tempo com eles).

Uma das sequências finais, com clara referência a Os Pássaros, é divertida, mas ao mesmo tempo contem a morte mais gratuitamente violenta do filme: uma personagem secundária que foi arrastada por torturas prolongadas antes de ser devorada pelo que se revelou o herói da história, no final.

Um ponto positivo do filme são as referências ao original, que funcionam ao nos lembrar de momentos marcantes daquele, mas que ao mesmo tempo nos fazem perceber a falta de momentos novos neste. O mesmo ocorre com a trilha sonora de Michael Giacchino, que funciona na medida em que remete à original de John Williams.

Mas apesar do que foi escrito até aqui, Jurassic World não é um filme ruim. A aventura e a ação são boas e conferem um ritmo adequado. Os dinossauros, mesmo com o excesso de CGI, despertam o saudosismo.

Na abertura, a primeira coisa que vemos no filme é uma pata rugosa que é revelada ser de uma ave. Trata-se de uma alusão interessante, uma vez que posteriormente um cientista vai falar que todos os animais do parque são modificados geneticamente, justificando a falta de penas na aparência dos dinossauros. Um argumento utilizado é que as pessoas, depois de vinte anos, vêm um dino da mesma forma que olham para um elefante em um zoológico: perdeu-se a capacidade de encantamento e tornou-se banal. Por isso criaram o Indominus: precisavam de algo maior, com mais dentes, mais aterrorizante. É assim que esse filme funciona: em maior escala, com dinossauros maiores, mais efeitos especiais, mais mortes. Mas talvez o que queríamos mesmo eram os bons e velhos dinossauros.  
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Os Primeiros Longas de von Trier

Dando continuidade à análise da filmografia do diretor Lars von Trier, do qual já escrevi sobre os primeiros curtas de sua carreira, chego agora aos primeiros longas que produziu.

Pode-se dizer que Befrielsesbilleder (1982) é uma obra de transição e por isso também foi citado no texto anterior. Encaixa-se na proposta de seus curtas, mas já se relaciona estética e tematicamente com os filmes seguintes. Pode-se dizer que o começo de sua filmografia será marcada pelo monocromatismo, já aqui presente. O filme é dividido em três fases: vermelho, amarelo e verde. A história, sobre a Europa na II Guerra Mundial, indica o tema que vai marcar sua primeira trilogia, como falarei adiante.

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Fase vermelha de Befrielsesbilleder.

Fase vermelha de Befrielsesbilleder

Fase vermelha de Befrielsesbilleder.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fase amarela de Befrielsesbilleder

Fase amarela de Befrielsesbilleder.

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Fase amarela de Befrielsesbilleder.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fase verde de Befrielsesbilleder

Fase verde de Befrielsesbilleder.

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Fase verde de Befrielsesbilleder.

 

 

 

 

 

 

 

O próximo filme é Elemento de um Crime (1984), o primeiro da Trilogia Europa, que trata dos traumas do continente no passado e no futuro. Esse noir em sépia se passa em uma Europa distópica em que um detetive investiga assassinatos de um serial killer com auxílio de um veterano autor de um livro sobre como solucionar crimes. A chuva cai o tempo inteiro, criando um clima melancólico. Existe um desnível de hierarquia entre os personagens masculinos e os femininos, sendo que os primeiros são os que perpetram a violência. Em determinada cena essa diferença é salientada pelo fato de o protagonista estar completamente vestido, enquanto a mulher que lhe faz companhia está vulnerável, nua, sem nada para proteger-se. Há muita experimentação com o movimento de câmera e com os enquadramentos. Como em muitos filmes do diretor, ele faz uma pequena participação. Algumas rimas visuais perpassam a história e destaco o momento chave em que uma mulher quebra uma janela para fugir e posteriormente, uma garotinha faz o mesmo, ressaltando o papel de vilão daquele que lhes faz companhia.

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Elemento de um Crime e seu tom sépia.

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Lars von Trier, à direita, fazendo uma ponta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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As duas mulheres quebrando o vidro da janela, em momentos distintos, para fugir de quem se revela o vilão do filme.

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As duas mulheres quebrando o vidro da janela, em momentos distintos, para fugir de quem se revela o vilão do filme.

 

 

 

 

 

 

 

O filme seguinte, Epidemic (1987) cria uma meta-trama interessante, em preto e branco, com elementos de história, ficção científica e terror. Dois jovens roteiristas, Lars e Niels, interpretados por Lars von Trier e o roteirista Niels Vørsel, perdem o roteiro em que estavam trabalhando há um ano e meio e se fecham no apartamento por alguns dias para criar algo novo para mostrar aos investidores. Quando Niels datilografa o título “Epidemic” na folha de papel em branco, as letras aparecem uma a uma na tela, formando uma marca d’água que permanecerá até o fim do filme. A história por ele proposta é a respeito de um jovem idealista, em uma Europa medieval, que abandona sua fortificação pensando em buscar a cura para a praga que se espalha e, dessa forma, acaba por condenar sua cidade. Enquanto a narrativa avança, sinais apontados para o avanço da praga aparecem no momento contemporâneo aos autores, com consequências extremas ao final. Em se tratando de roteiro é o que se estrutura de forma mais arrojada dentre seus primeiro trabalhos.

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Niels escrevendo.

Marca d'água com o nome do roteiro e do filme

Marca d’água com o nome do roteiro e do filme.

 

 

 

 

 

 

Após Epidemic, vem um filme que não faz parte da trilogia Europa, uma fez que foi feito para televisão. Trata-se de Medea, baseado na personagem mítica grega que foi companheira de Jasão (dos Argonautas) e foi abandonada por ele com seus dois filhos, pois ele pretendia tornar-se rei ao casar-se com Glaucia, a filha de um rei. O roteiro é de Carl Theodor Dreyer e apesar das limitações técnica da mídia então, von Trier consegue construir um filme intenso e que utiliza a paisagem como ambiente mental da protagonista, da maneira como Dreyer fazia em seus filmes, como A Palavra. O sofrimento feminino, que aparece em obras posteriores de von Trier, aqui é derramado nas palavras da trágica protagonista: “Silenciosamente submissas em corpo e dever, que direitos tem as mulheres?” e “Se pelo menos os homens pudessem ter filhos sem mulheres”. O filme faz uso de projeções ao fundo da imagem, o que vai marcar seu trabalho seguinte.

A última parte da trilogia Europa é composta por Europa (1991), outro noir, dessa vez em preto e branco. A sua história se passa na Alemanha em 1945, logo após o fim da guerra e tem mais um protagonista idealista, que pretende ajudar mas se vê impotente. O jovem veio dos Estados Unidos para o país pensando em ajudar nesse período conturbando e acreditando, erroneamente, que conseguiria fazê-lo sem se envolver com a situação política. O clima é tão carregado de irrealidade que quase parece se tratar de uma distopia. Utilizando projeções, o diretor acrescenta cor em cenas que se mostram chave para a narrativa; e marca em vermelho elementos de grande importância. Em determinada cena, o casal conversa e apenas o homem é colorido quando ele está no controle do diálogo. No equilíbrio, ambos se apresentam em cor e quando, por fim, a mulher passa a dominar a negociação de poder, apenas ela se colore. Em outro momento, um personagem se corta e as gotas de seu sangue caem vermelhas na água da banheira, antecedendo uma sequência em que tudo adquire cor (apesar do cenário e figurinos preto e branco, antecipando uma enchente de vermelho.

Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores

Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores.

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Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores.

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Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue

Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue.

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Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue.

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Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aliás, o uso de personagens agitando a placidez da água parada para se verem refletidos no espelho irregular que se forma, refletindo a sua própria agitação mental, é outro elemento visual recorrente desses filmes, presente em Elemento de um Crime, Medea e neste Europa. 

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Elemento de um Crime.

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Elemento de um Crime.

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Medea.

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Medea.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Europa.

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Europa.

 

 

 

 

 

 

 

 

O que todos estes filmes tem em comum, além da temática relacionada ao continente europeu, é um grande rigor estético por parte de Lars von Trier, bem como grande experimentação em termos técnicos, típica de um jovem diretor em busca de uma linguagem própria.

Para saber mais sobre a obra de Lars von Trier, ouça o podcast do Cinema em Cena sobre o diretor.