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X-Men: Apocalipse (X-Men: Apocalypse, 2016)

Em meio a uma enxurrada de filmes de heróis que chegam aos cinemas todo verão americano, os da franquia X-Men costumam se destacar por trazerem ao gênero subtextos que o tornam mais interessante. Com tramas que remetem à luta pelos direitos civis, temos papéis que não são necessariamente de heróis e vilões, mas sim de pessoas com abordagens diferentes para um mesmo problema: a discriminação contra os mutantes. Dessa forma, Xavier (James MacAvoy) seria o representante da vertente pacifista por vias legais e Magneto (Michael Fassbender) da luta armada, e Mística (Jennifer Lawrence) divide-se entre as duas possibilidades e o afeto que tem pelo dois. Mas o terceiro filme da nova trilogia abandonou completamente o tom político.

Dessa vez a narrativa se passa no começo da década de 1980. O vilão é Apocalipse (Oscar Isaac), uma entidade com poderes praticamente ilimitados, pois consegue absorver aqueles dos demais. Considerado o primeiro mutante da história, Apocalipse já era adorado como divindade no Egito Antigo, onde permaneceu enterrado até ser liberado novamente. Acompanhado de seus Quatro Cavaleiros, Tempestade (Alexandra Shipp), Psylocke (Olivia Munn), Anjo (Ben Hardy) e o próprio Magneto, planeja, como todo vilão padrão, dominar o mundo.

Por outro lado, a Escola Xavier para Jovens Superdotados está estabelecida e com ela temos uma gama de novos alunos para integrar o elenco, incluindo Jean Grey (Sophie Turner), Ciclope (Tye Sheridan), Destrutor (Lucas Till) e Jubilee (Lana Condor). A dinâmica entre a nova turma é ótima e com isso se garante que, em possíveis filmes futuros, a transição de elenco possa ser feita de maneira adequada.

Como se pode perceber, o elenco desse filme é imenso e por isso nem todos são aproveitados como poderiam ser. Sem a questão política como plano de fundo, mas com uma divindade como vilão, o filme desperdiça também a oportunidade de debater questões religiosas mais a fundo. Magneto, por exemplo, vive afastado de todos com sua esposa e filha, que são mortas por forças policiais. O clichê da mulher na geladeira, que demonstra preguiça no tratamento do roteiro, é utilizado para motivar o personagem, que se une ao grupo de Apocalipse. Em determinado momento ele olha para o céu e grita “É isso que você quer?”, questionando um deus que nada lhe responde, indiferente. A religião do personagem, o judaísmo, é intrinsecamente conectada à sua trajetória, que passa por um campo de concentração alemão na II Guerra Mundial. Noturno (Kodi Smit-McPhee), cujo catolicismo também marca sua caracterização, também não é explorado nesse sentido. Apocalipse, por sua vez, ao despertar revela ter sido chamado de Rá, mas também de Pushan (divindade solar hindu) e Elohim (um dos termos utilizados para se referir a Javé, deus judaico-cristão, no Antigo Testamento). Não deixa de ser estranho, já ele foi enterrado antes dessas religiões terem se estabelecido. De qualquer maneira, o que poderia ser uma abordagem que trouxesse à tona as crenças dos personagens limita-se a esse breve verniz mitológico.

Outro problema do filme é a passagem de tempo: são vinte anos entre ele e X-Men: Primeira Classe, mas os atores pouco ou nada envelheceram nessas décadas. Magneto, que presenciou, como já mencionado, a II Guerra Mundial, deveria ter em torno de 50 anos. Mercúrio, que era um jovem em Dias de um Futuro Esquecido, dez anos antes, segue sem mudar de aparência. Poderia citar um a um os atores que participaram da trilogia, porque o problema é generalizado.

Por fim, Oscar Isaac foi desperdiçado em um vilão desinteressante, escondido atrás de uma maquiagem de qualidade duvidosa. Sem motivações fortes, seu plano maligno de dominação é genérico e culmina em uma batalha anticlimática, em que tudo se resolve fácil demais ante a ameaça que ele parecia oferecer.

Por outro lado, a direção de arte do filme, como nos anteriores, é competente e a recriação da década, especialmente através das roupas, é muito bem realizada. Além disso, Sophie Turner e Alexandra Shipp se mostraram ótimos acréscimos ao elenco.

Esse foi o quarto filme da franquia X-Men dirigido por Bryan Singer, o segundo na atual trilogia e o mais fraco dentre eles. Em uma cena os mutantes adolescentes saem do cinema, onde assistiram a O Retorno de Jedi um deles desfere um comentário afirmando que “o terceiro filme é sempre o pior”. Synger provavelmente não se deu conta de que isso poderia se referir a sua própria obra. De toda forma, o carisma dos personagens e a empatia que sentimos por eles ajudam a sustentar a carregar o expectador pela trama que nem sempre entrega todo o seu potencial.

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P.S. Hugh Jackman faz uma breve participação, que além de desnecessária demonstra o desgasto de Wolverine enquanto personagem na franquia.

 

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Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World, 2015)

Em 1993 uma geração de crianças foi marcada pelo clássico absoluto Parque dos Dinossauros, dirigido por Steven Spielberg, adaptado do ótimo livro homônimo de Michael Crichton. Após isso, vieram duas sequências que não fizeram jus ao original e o descanso para a franquia. Agora, passados alguns anos, o universo dos dinos está de volta em Jurassic World, dirigido por Colin Trevorrow. A trama começa com um menino, Gray (Ty Simpkins) e seu irmão adolescente, Zach (Nick Robinson) se despedindo dos pais para passar alguns dias no parque temático, onde sua tia Claire (Bryce Dallas Howard) trabalha. O parque está em funcionamento há duas décadas e em três semanas será exposto para o público uma nova espécie, um ser geneticamente híbrido criado em laboratório chamado Indominus rex.

Claire, que é uma espécie de diretora do local, é apresentada como sendo muito ocupada com o trabalho e por isso não tem tempo para passear com os garotos. Sua rigidez é externada no figurino impecavelmente claro, acompanhado de sapatos de salto alto beges, que destoam das roupas de lazer dos visitantes e das práticas dos demais que trabalham nos bastidores do funcionamento. De fato, ela é uma pessoa incapaz de conexão emocional e de preocupação maternal. Trata animais e visitantes como números e gráficos, sem a percepção de que são formas de vida interagindo sob sua batuta.

Esse é o maior problema do filme: personagens caricatos e unidimensionais. Claire é uma yuppie clichê saída de um filme dos anos 80. Mas não é só ela que funciona dessa forma: há o ricaço excêntrico indiano (Irrfan Khan); o cientista malvado japonês (BD Wong) vindo do primeiro filme e que nada aprendeu com os acontecimentos de então; o militar (Vincent D’Onofrio) capaz de sacrificar quantas vidas forem necessárias para chegar ao seu intento; e mesmo os já citados meninos: um menor emotivo e um adolescente que não tira o olho do celular e das meninas de sua idade. E para coroar, existe Owen (Chris Pratt), o bravo treinador de velociraptors pronto para salvar o dia. Ele é descolado, anda de moto, usa camisa com a manga arregaçada e colete do Han Solo: enfim, é o herói de ação destemido e bonitão. A comparação com Harrison Ford é fácil, uma vez que certas cenas até mesmo remetem a Indiana Jones. Mas para que a similaridade fosse completa, o personagem precisaria de uma camada extra de carisma e humanidade, que lhe falta graças ao pouco desenvolvimento, assim como os demais.

É claro que em um local repleto de feras de grandes proporções, que são constantemente subestimadas, e de seres humanos que tomam as decisões mais estúpidas possíveis, o desastre está fadado a acontecer. Indominus Rex escapa e perpetra uma matança sem igual dentro da franquia.

Claire acaba se revelando a verdadeira protagonista do filme, em uma jornada em que demonstra coragem e que, novamente de maneira clichê, vai suavizar sua relação com as crianças e os demais (o que vai se refletir em sua roupa e seus cabelos). A aventura tem um quê de anos 80, ao remeter a filmes como Tudo por Uma Esmeralda (mas mesmo lá Kathleen Turner tem os saltos de seus sapatos quebrados, porque é humanamente impossível correr por muito tempo com eles).

Uma das sequências finais, com clara referência a Os Pássaros, é divertida, mas ao mesmo tempo contem a morte mais gratuitamente violenta do filme: uma personagem secundária que foi arrastada por torturas prolongadas antes de ser devorada pelo que se revelou o herói da história, no final.

Um ponto positivo do filme são as referências ao original, que funcionam ao nos lembrar de momentos marcantes daquele, mas que ao mesmo tempo nos fazem perceber a falta de momentos novos neste. O mesmo ocorre com a trilha sonora de Michael Giacchino, que funciona na medida em que remete à original de John Williams.

Mas apesar do que foi escrito até aqui, Jurassic World não é um filme ruim. A aventura e a ação são boas e conferem um ritmo adequado. Os dinossauros, mesmo com o excesso de CGI, despertam o saudosismo.

Na abertura, a primeira coisa que vemos no filme é uma pata rugosa que é revelada ser de uma ave. Trata-se de uma alusão interessante, uma vez que posteriormente um cientista vai falar que todos os animais do parque são modificados geneticamente, justificando a falta de penas na aparência dos dinossauros. Um argumento utilizado é que as pessoas, depois de vinte anos, vêm um dino da mesma forma que olham para um elefante em um zoológico: perdeu-se a capacidade de encantamento e tornou-se banal. Por isso criaram o Indominus: precisavam de algo maior, com mais dentes, mais aterrorizante. É assim que esse filme funciona: em maior escala, com dinossauros maiores, mais efeitos especiais, mais mortes. Mas talvez o que queríamos mesmo eram os bons e velhos dinossauros.  
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Os Primeiros Longas de von Trier

Dando continuidade à análise da filmografia do diretor Lars von Trier, do qual já escrevi sobre os primeiros curtas de sua carreira, chego agora aos primeiros longas que produziu.

Pode-se dizer que Befrielsesbilleder (1982) é uma obra de transição e por isso também foi citado no texto anterior. Encaixa-se na proposta de seus curtas, mas já se relaciona estética e tematicamente com os filmes seguintes. Pode-se dizer que o começo de sua filmografia será marcada pelo monocromatismo, já aqui presente. O filme é dividido em três fases: vermelho, amarelo e verde. A história, sobre a Europa na II Guerra Mundial, indica o tema que vai marcar sua primeira trilogia, como falarei adiante.

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Fase vermelha de Befrielsesbilleder.

Fase vermelha de Befrielsesbilleder

Fase vermelha de Befrielsesbilleder.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fase amarela de Befrielsesbilleder

Fase amarela de Befrielsesbilleder.

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Fase amarela de Befrielsesbilleder.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fase verde de Befrielsesbilleder

Fase verde de Befrielsesbilleder.

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Fase verde de Befrielsesbilleder.

 

 

 

 

 

 

 

O próximo filme é Elemento de um Crime (1984), o primeiro da Trilogia Europa, que trata dos traumas do continente no passado e no futuro. Esse noir em sépia se passa em uma Europa distópica em que um detetive investiga assassinatos de um serial killer com auxílio de um veterano autor de um livro sobre como solucionar crimes. A chuva cai o tempo inteiro, criando um clima melancólico. Existe um desnível de hierarquia entre os personagens masculinos e os femininos, sendo que os primeiros são os que perpetram a violência. Em determinada cena essa diferença é salientada pelo fato de o protagonista estar completamente vestido, enquanto a mulher que lhe faz companhia está vulnerável, nua, sem nada para proteger-se. Há muita experimentação com o movimento de câmera e com os enquadramentos. Como em muitos filmes do diretor, ele faz uma pequena participação. Algumas rimas visuais perpassam a história e destaco o momento chave em que uma mulher quebra uma janela para fugir e posteriormente, uma garotinha faz o mesmo, ressaltando o papel de vilão daquele que lhes faz companhia.

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Elemento de um Crime e seu tom sépia.

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Lars von Trier, à direita, fazendo uma ponta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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As duas mulheres quebrando o vidro da janela, em momentos distintos, para fugir de quem se revela o vilão do filme.

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As duas mulheres quebrando o vidro da janela, em momentos distintos, para fugir de quem se revela o vilão do filme.

 

 

 

 

 

 

 

O filme seguinte, Epidemic (1987) cria uma meta-trama interessante, em preto e branco, com elementos de história, ficção científica e terror. Dois jovens roteiristas, Lars e Niels, interpretados por Lars von Trier e o roteirista Niels Vørsel, perdem o roteiro em que estavam trabalhando há um ano e meio e se fecham no apartamento por alguns dias para criar algo novo para mostrar aos investidores. Quando Niels datilografa o título “Epidemic” na folha de papel em branco, as letras aparecem uma a uma na tela, formando uma marca d’água que permanecerá até o fim do filme. A história por ele proposta é a respeito de um jovem idealista, em uma Europa medieval, que abandona sua fortificação pensando em buscar a cura para a praga que se espalha e, dessa forma, acaba por condenar sua cidade. Enquanto a narrativa avança, sinais apontados para o avanço da praga aparecem no momento contemporâneo aos autores, com consequências extremas ao final. Em se tratando de roteiro é o que se estrutura de forma mais arrojada dentre seus primeiro trabalhos.

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Niels escrevendo.

Marca d'água com o nome do roteiro e do filme

Marca d’água com o nome do roteiro e do filme.

 

 

 

 

 

 

Após Epidemic, vem um filme que não faz parte da trilogia Europa, uma fez que foi feito para televisão. Trata-se de Medea, baseado na personagem mítica grega que foi companheira de Jasão (dos Argonautas) e foi abandonada por ele com seus dois filhos, pois ele pretendia tornar-se rei ao casar-se com Glaucia, a filha de um rei. O roteiro é de Carl Theodor Dreyer e apesar das limitações técnica da mídia então, von Trier consegue construir um filme intenso e que utiliza a paisagem como ambiente mental da protagonista, da maneira como Dreyer fazia em seus filmes, como A Palavra. O sofrimento feminino, que aparece em obras posteriores de von Trier, aqui é derramado nas palavras da trágica protagonista: “Silenciosamente submissas em corpo e dever, que direitos tem as mulheres?” e “Se pelo menos os homens pudessem ter filhos sem mulheres”. O filme faz uso de projeções ao fundo da imagem, o que vai marcar seu trabalho seguinte.

A última parte da trilogia Europa é composta por Europa (1991), outro noir, dessa vez em preto e branco. A sua história se passa na Alemanha em 1945, logo após o fim da guerra e tem mais um protagonista idealista, que pretende ajudar mas se vê impotente. O jovem veio dos Estados Unidos para o país pensando em ajudar nesse período conturbando e acreditando, erroneamente, que conseguiria fazê-lo sem se envolver com a situação política. O clima é tão carregado de irrealidade que quase parece se tratar de uma distopia. Utilizando projeções, o diretor acrescenta cor em cenas que se mostram chave para a narrativa; e marca em vermelho elementos de grande importância. Em determinada cena, o casal conversa e apenas o homem é colorido quando ele está no controle do diálogo. No equilíbrio, ambos se apresentam em cor e quando, por fim, a mulher passa a dominar a negociação de poder, apenas ela se colore. Em outro momento, um personagem se corta e as gotas de seu sangue caem vermelhas na água da banheira, antecedendo uma sequência em que tudo adquire cor (apesar do cenário e figurinos preto e branco, antecipando uma enchente de vermelho.

Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores

Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores.

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Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores.

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Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue

Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue.

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Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue.

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Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aliás, o uso de personagens agitando a placidez da água parada para se verem refletidos no espelho irregular que se forma, refletindo a sua própria agitação mental, é outro elemento visual recorrente desses filmes, presente em Elemento de um Crime, Medea e neste Europa. 

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Elemento de um Crime.

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Elemento de um Crime.

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Medea.

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Medea.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Europa.

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Europa.

 

 

 

 

 

 

 

 

O que todos estes filmes tem em comum, além da temática relacionada ao continente europeu, é um grande rigor estético por parte de Lars von Trier, bem como grande experimentação em termos técnicos, típica de um jovem diretor em busca de uma linguagem própria.

Para saber mais sobre a obra de Lars von Trier, ouça o podcast do Cinema em Cena sobre o diretor.

 

 

 

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Melhores Filmes de 2014

Essa lista deu trabalho. Comecei com a ideia de mencionar 10 filmes, mas não consegui fechar neles. Ampliei para 15 e ainda senti culpa por alguns filmes terem ficado de fora. Foi, então, para 20, afinal, como escrevi na de melhores descobertas do ano, a lista é minha. Ainda fico em dúvida se os últimos listados são os melhores mesmo, já que posições ficaram mudando o tempo todo enquanto tentava elaborá-la. Outros filmes que gostei e alguns guilty pleasures ficaram de fora. Por esse motivo não estou colocando-os de forma ranqueada. Apesar disso considero as cinco primeiras colocações fixas; apenas as demais não devem ser entendidas de forma literal. Foi levada em conta a data de lançamento comercial no Brasil, por isso há alguns filmes do ano passado e coloco, também, a avaliação que dei quando assisti, de zero até cinco estrelas. Muitos filmes bem criticados não chegaram a Manaus e não tive como assisti-los, como Relatos Selvagens e O Abutre. Talvez isso tenha facilitado meu trabalho.

Posso destacar as atuações das atrizes Tilda Swinton, presente em três filmes dessa lista (Amantes Eternos, O Grande Hotel Budapeste e Expresso do Amanhã), Scarlett Johansson, em 2 (Ela e Sob a Pele) e Mia Wasikowska (Segredos de Sangue e Amantes Eternos).

Filmes sobre os quais eu escrevi algo aqui no blog tem o link em seu título (alguns possuem mais de uma postagem). Para acessar a lista dos melhores filmes vistos no ano passado, clique aqui. Para ver a versão dessa lista no Letterboxd, acesse aqui. Segue a lista:

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Boyhood- Da Infância à Juventude (Boyhood, 2014)

Direção: Richard Linklater

★★★★★

Entraria para a lista apenas pela sua execução magistral ao longo de 12 anos, mas também é um filme emocionante sobre crescimento, família e a passagem do tempo. Tecnicamente é impecável.

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Garota Exemplar (Gone Girl, 2014)

Direção: David Fincher

★★★★★

Sem dúvida esse foi o filme mais instigante do ano para mim. Intenso e bem dirigido, acabei descontando meia estrela de sua nota por aspectos de gênero que me incomodaram  (expliquei no texto a seu respeito). Mas, fora isso, é uma obra absolutamente fascinante.

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Tatuagem (2013)

Direção: Hilton Lacerda

★★★★★

Sei que para a maioria das pessoas Tatuagem pertenceu à lista de 2013, mas só estreou em Manaus em março desse ano, depois de muita campanha pedindo por isso. E o filme é apaixonante.

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Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, 2013)

Direção: Jim Jarmusch

★★★★★

Vampiros: bonitos, antigos, sedutores, amantes das artes. Atores fantásticos. O clima do filme suga o espectador e é impossível não gostar da experiência.

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Nabraska (2013)

Direção: Alexander Payne

★★★★★

Com uma bela fotografia em preto e branco, um drama familiar na estrada, que mexe com nossas emoções a respeito do envelhecimento e relações entre pais e filhos.

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O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, 2013)

Direção: Martin Scorsese

★★★★1/2

Scorsese afiado em uma comédia exagerada em todos os melhores sentidos possíveis. De vez em quando me pego rindo sozinha lembrando de certa cena do filme e isso só pode ser bom.

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Ela (Her, 2013)

Direção: Spike Jonze

★★★★

Joaquim Phoenix com ótima atuação, direção de arte competente, música bonita e uma história com coração, que aborda temas e reflexões extremamente contemporâneos.

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Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014)

Direção: James Gunn

★★★★★

Eu não costumo ter grande apreço por filmes de super heróis, especialmente agora, nessa última década, em que eles se levam a sério demais. Mas me diverti genuinamente com este, que tem um espírito de aventura oitentista, a começar pela abertura que remete a Indiana Jones e me fisgou logo de começo. Tem problemas, tem representações de gênero questionáveis, mas cumpre sua função escapista.

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X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (X-Men: Days of Future Past, 2014)

Direção: Bryan Singer

★★★★1/2

Meu ponto fraco em termos de super heróis é justamente X-Men, com seu subtexto de comentários sociais não muito sutil, mas pelo menos interessante. Essa sequência, ainda no passado, continuou o bom serviço feito em Primeira Classe.

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Até o fim (All is Lost, 2013)

Direção: J.C. Chandor

★★★★1/2

Tour de force da atuação de Robert Redford.

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O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel, 2014)

Direção: Wes Anderson

★★★★

Tenho minhas implicâncias com a estética de Wes Anderson, mas seu estilo está mais maduro e o filme é gostoso de assistir.

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Segredos de Sangue (Stoker, 2013)

Direção: Park Chan-wook

★★★★

Sim, o roteiro é raso. Mas nas mãos do diretor se torna uma obra com direção de arte fantástica e imagens que impressionam tanto que no final nada mais importa.

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Expresso do Amanhã (Snowpiercer, 2013)

Direção: Joon-ho Bong

★★★★1/2

A premissa é absurda, mas a suspensão de descrença funciona durante a todo o filme. Joon-ho Bong, assim como seu compatriota de Segredos de Sangue, consegue transformar um roteiro não muito denso em uma experiência visual interessante.

Obs: Lançado apenas em 2015.

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O Lobo Atrás da Porta (2013)

Direção: Fernando Coimbra

★★★★

É muito bom ver um ótimo filme nacional de gênero. Esse suspense subverte as expectativas de quem o vê e tem um final impactante.

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Sob a Pele (Under the Skin, 2013)

Direção: Jonathan Glazer

★★★★

Hipnotizante e intrigante.

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Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum (Inside Llewyn Davis, 2013)

Direção: Ethan e Joel Coen

★★★★

Não considero um dos melhores dos irmãos Coen, mas mesmo um filme mediano deles é um ótimo filme.

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The Babadook (2014)

Direção: Jennifer Kent

★★★★

Linda fotografia, atuação intensa da dupla de protagonistas e uma trama psicológica sobre luto que foi muito bem trabalhada. Destaque para a diretora, pois é seu primeiro trabalho.

Obs: lançado apenas em 2015.

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Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)

Direção: Daniel Ribeiro

★★★★

Uma história leve de crescimento e amor, tingida em tons pastel que contrastam com a fase da vida retratada, geralmente tão conturbada. É difícil não se colocar no lugar dos personagens e não lembrar das próprias vivências de adolescência. A delicadeza da execução é simplesmente linda.

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O Homem Duplicado (Enemy, 2013)

Direção:Denis Villeneuve

★★★★

Jake Gyllenhaal em mais uma atuação impecável nesse filme adaptado da obra de José Saramago, que funciona como uma parábola sobre controle e liberdade dentro de um relacionamento.

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O Homem Mais Procurado (A Most Wanted Men, 2014)

Direção: Anton Corbijn

★★★★

A atmosfera do filme é tão soturna que parece que tudo se passa na Guerra Fria. (Lembrou-me de O Espião que Sabia Demais). Na verdade é uma história contemporânea e repleta de tensão. Phillip Seymour Hoffman se despede com uma atuação à altura de sua carreira. E a última sequência do filme é memorável. ida-poster01

Ida (2014)

Direção: Paweł Pawlikowski

★★★★

Assisti a esse filme no finalzinho de dezembro e gostei tanto acabei precisando coloca-lo como uma 21ª menção. Possivelmente com mais tempo para refletir sobre ele, subiria algumas posições.

 

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Interestelar (Interstellar, 2014)

Interestelar, dirigido pelo queridinho do público Christopher Nolan, é um filme que se beneficia muito da sala de cinema. A experiência de assistir em uma boa sala torna a obra grandiosa, mas ao sair, há pouco conteúdo para sustentá-la na memória. Passada uma semana da data em que o vi, já tenho a clara percepção do quão pouco memorável ele é.

Talvez seu maior problema foi ter pretendido, justamente, ser uma obra grandiosa. O drama de Cooper (Matthew McConaughey), ex-piloto da NASA que mora em um futuro desolado, onde a Terra precisa de fazendeiros e não engenheiros, mostra-se superficial. Ele abandona os filhos para juntar-se a uma NASA funcionando em frangalhos em busca de um território no espaço que pudesse ser repovoado pelos humanos. Sua filha, Murph (interpretada por Mackenzie Foy na infância e Jessica Chastain quando adulta) naturalmente se ressente dessa escolha, mas nada do que vem disso gera drama real, pois tudo se resolve facilmente.

A ação no espaço é razoavelmente boa. Há momentos bastante tensos e a ciência é utilizada de forma interessante para compor a ficção. Tudo é transparente e se por vezes os diálogos são excessivamente expositivos, pelo menos as regras do universo diegético são claras. Merecem destaque nos momentos de ação os robôs TARS e CASE, que funcionam como belos complementos aos seus companheiros humanos.

Se a primeira metade do filme é interessante e deixa o expectador com vontade de saber mais, a segunda desmorona sobre si mesma. As motivações não se sustentam e certas ações tem mão pesada dos roteiristas apenas para criarem ainda mais uma reviravolta. O personagem Dr. Mann (Matt Damon), por exemplo, tem motivações tão rasas e é tão unidimensional que é impossível comprar toda a sequência de acontecimentos que ele desencadeia. A morte de Professor Brand (Michael Cane) e a revelação por ele feita poucos momentos antes também soam clichês e desnecessárias.

A tentativa de injetar filosofia à trama é ineficaz. A alusão à Lei de Murphy relacionada ao nome de Murph é largada no meio do caminho e não leva a lugar algum. Mas o que dói mesmo é ouvir o discurso brega sobre amor de Brand (Anne Hathaway). Se até então o filme tentava usar ciência real como combustível de uma aventura espacial, aí houve uma tentativa de engrossar o roteiro com filosofia barata que não aguenta cinco minutos de análise.

No terço final, embora muitos tenham criticado, gostei do cubo pentadimensional. Ele força bastante a suspensão de descrença do espectador, mas funciona de forma poética e esteticamente agradável, que lembra o Nolan atento aos detalhes técnicos de A Origem. Mas a graciosidade desse mecanismo narrativo é jogada fora no final, em que a busca de toda uma vida se vê finalizada em meia dúzia de frases e em um desfecho aberto que não tem base ou fundamentação em nada do que aconteceu no filme até então.

Não é que o filme seja ruim: está longe disso. A fotografia é bonita, a trilha sonora de Hans Zimmer funciona muito bem, Cooper e Murph são personagens suficientemente cativantes (apesar de rodeados por seres unidimensionais) e a aventura no espaço, até determinado ponto do filme, é interessante e estabelece a possibilidade de criações de tramas satisfatórias (que nunca se concretizam). O problema de Interestelar é justamente querer ser mais que uma aventura espacial e um drama sobre a relação entre pai e filha. Ao propor uma filosofia de boteco como fator motivador e abraçar um final aberto insatisfatório, o que poderia ter sido uma trama bem executada rui pela falta de sustentação. É um filme bem feito, sem dúvida, e o elenco se sai bem com o material que lhe é dado. Talvez Nolan devesse mirar em alvos menos distantes ou, caso quisesse mesmo criar seu 2001, contratar roteiristas com mais conteúdo que seu irmão Jonathan Nolan e ele mesmo.

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