Melhores Filmes de 2014

Essa lista deu trabalho. Comecei com a ideia de mencionar 10 filmes, mas não consegui fechar neles. Ampliei para 15 e ainda senti culpa por alguns filmes terem ficado de fora. Foi, então, para 20, afinal, como escrevi na de melhores descobertas do ano, a lista é minha. Ainda fico em dúvida se os últimos listados são os melhores mesmo, já que posições ficaram mudando o tempo todo enquanto tentava elaborá-la. Outros filmes que gostei e alguns guilty pleasures ficaram de fora. Por esse motivo não estou colocando-os de forma ranqueada. Apesar disso considero as cinco primeiras colocações fixas; apenas as demais não devem ser entendidas de forma literal. Foi levada em conta a data de lançamento comercial no Brasil, por isso há alguns filmes do ano passado e coloco, também, a avaliação que dei quando assisti, de zero até cinco estrelas. Muitos filmes bem criticados não chegaram a Manaus e não tive como assisti-los, como Relatos Selvagens e O Abutre. Talvez isso tenha facilitado meu trabalho.

Posso destacar as atuações das atrizes Tilda Swinton, presente em três filmes dessa lista (Amantes Eternos, O Grande Hotel Budapeste e Expresso do Amanhã), Scarlett Johansson, em 2 (Ela e Sob a Pele) e Mia Wasikowska (Segredos de Sangue e Amantes Eternos).

Filmes sobre os quais eu escrevi algo aqui no blog tem o link em seu título (alguns possuem mais de uma postagem). Para acessar a lista dos melhores filmes vistos no ano passado, clique aqui. Para ver a versão dessa lista no Letterboxd, acesse aqui. Segue a lista:

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Boyhood- Da Infância à Juventude (Boyhood, 2014)

Direção: Richard Linklater

★★★★★

Entraria para a lista apenas pela sua execução magistral ao longo de 12 anos, mas também é um filme emocionante sobre crescimento, família e a passagem do tempo. Tecnicamente é impecável.

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Garota Exemplar (Gone Girl, 2014)

Direção: David Fincher

★★★★★

Sem dúvida esse foi o filme mais instigante do ano para mim. Intenso e bem dirigido, acabei descontando meia estrela de sua nota por aspectos de gênero que me incomodaram  (expliquei no texto a seu respeito). Mas, fora isso, é uma obra absolutamente fascinante.

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Tatuagem (2013)

Direção: Hilton Lacerda

★★★★★

Sei que para a maioria das pessoas Tatuagem pertenceu à lista de 2013, mas só estreou em Manaus em março desse ano, depois de muita campanha pedindo por isso. E o filme é apaixonante.

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Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, 2013)

Direção: Jim Jarmusch

★★★★★

Vampiros: bonitos, antigos, sedutores, amantes das artes. Atores fantásticos. O clima do filme suga o espectador e é impossível não gostar da experiência.

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Nabraska (2013)

Direção: Alexander Payne

★★★★★

Com uma bela fotografia em preto e branco, um drama familiar na estrada, que mexe com nossas emoções a respeito do envelhecimento e relações entre pais e filhos.

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O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, 2013)

Direção: Martin Scorsese

★★★★1/2

Scorsese afiado em uma comédia exagerada em todos os melhores sentidos possíveis. De vez em quando me pego rindo sozinha lembrando de certa cena do filme e isso só pode ser bom.

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Ela (Her, 2013)

Direção: Spike Jonze

★★★★

Joaquim Phoenix com ótima atuação, direção de arte competente, música bonita e uma história com coração, que aborda temas e reflexões extremamente contemporâneos.

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Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014)

Direção: James Gunn

★★★★★

Eu não costumo ter grande apreço por filmes de super heróis, especialmente agora, nessa última década, em que eles se levam a sério demais. Mas me diverti genuinamente com este, que tem um espírito de aventura oitentista, a começar pela abertura que remete a Indiana Jones e me fisgou logo de começo. Tem problemas, tem representações de gênero questionáveis, mas cumpre sua função escapista.

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X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (X-Men: Days of Future Past, 2014)

Direção: Bryan Singer

★★★★1/2

Meu ponto fraco em termos de super heróis é justamente X-Men, com seu subtexto de comentários sociais não muito sutil, mas pelo menos interessante. Essa sequência, ainda no passado, continuou o bom serviço feito em Primeira Classe.

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Até o fim (All is Lost, 2013)

Direção: J.C. Chandor

★★★★1/2

Tour de force da atuação de Robert Redford.

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O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel, 2014)

Direção: Wes Anderson

★★★★

Tenho minhas implicâncias com a estética de Wes Anderson, mas seu estilo está mais maduro e o filme é gostoso de assistir.

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Segredos de Sangue (Stoker, 2013)

Direção: Park Chan-wook

★★★★

Sim, o roteiro é raso. Mas nas mãos do diretor se torna uma obra com direção de arte fantástica e imagens que impressionam tanto que no final nada mais importa.

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Expresso do Amanhã (Snowpiercer, 2013)

Direção: Joon-ho Bong

★★★★1/2

A premissa é absurda, mas a suspensão de descrença funciona durante a todo o filme. Joon-ho Bong, assim como seu compatriota de Segredos de Sangue, consegue transformar um roteiro não muito denso em uma experiência visual interessante.

Obs: Lançado apenas em 2015.

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O Lobo Atrás da Porta (2013)

Direção: Fernando Coimbra

★★★★

É muito bom ver um ótimo filme nacional de gênero. Esse suspense subverte as expectativas de quem o vê e tem um final impactante.

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Sob a Pele (Under the Skin, 2013)

Direção: Jonathan Glazer

★★★★

Hipnotizante e intrigante.

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Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum (Inside Llewyn Davis, 2013)

Direção: Ethan e Joel Coen

★★★★

Não considero um dos melhores dos irmãos Coen, mas mesmo um filme mediano deles é um ótimo filme.

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The Babadook (2014)

Direção: Jennifer Kent

★★★★

Linda fotografia, atuação intensa da dupla de protagonistas e uma trama psicológica sobre luto que foi muito bem trabalhada. Destaque para a diretora, pois é seu primeiro trabalho.

Obs: lançado apenas em 2015.

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Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014)

Direção: Daniel Ribeiro

★★★★

Uma história leve de crescimento e amor, tingida em tons pastel que contrastam com a fase da vida retratada, geralmente tão conturbada. É difícil não se colocar no lugar dos personagens e não lembrar das próprias vivências de adolescência. A delicadeza da execução é simplesmente linda.

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O Homem Duplicado (Enemy, 2013)

Direção:Denis Villeneuve

★★★★

Jake Gyllenhaal em mais uma atuação impecável nesse filme adaptado da obra de José Saramago, que funciona como uma parábola sobre controle e liberdade dentro de um relacionamento.

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O Homem Mais Procurado (A Most Wanted Men, 2014)

Direção: Anton Corbijn

★★★★

A atmosfera do filme é tão soturna que parece que tudo se passa na Guerra Fria. (Lembrou-me de O Espião que Sabia Demais). Na verdade é uma história contemporânea e repleta de tensão. Phillip Seymour Hoffman se despede com uma atuação à altura de sua carreira. E a última sequência do filme é memorável. ida-poster01

Ida (2014)

Direção: Paweł Pawlikowski

★★★★

Assisti a esse filme no finalzinho de dezembro e gostei tanto acabei precisando coloca-lo como uma 21ª menção. Possivelmente com mais tempo para refletir sobre ele, subiria algumas posições.

 

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Interestelar (Interstellar, 2014)

Interestelar, dirigido pelo queridinho do público Christopher Nolan, é um filme que se beneficia muito da sala de cinema. A experiência de assistir em uma boa sala torna a obra grandiosa, mas ao sair, há pouco conteúdo para sustentá-la na memória. Passada uma semana da data em que o vi, já tenho a clara percepção do quão pouco memorável ele é.

Talvez seu maior problema foi ter pretendido, justamente, ser uma obra grandiosa. O drama de Cooper (Matthew McConaughey), ex-piloto da NASA que mora em um futuro desolado, onde a Terra precisa de fazendeiros e não engenheiros, mostra-se superficial. Ele abandona os filhos para juntar-se a uma NASA funcionando em frangalhos em busca de um território no espaço que pudesse ser repovoado pelos humanos. Sua filha, Murph (interpretada por Mackenzie Foy na infância e Jessica Chastain quando adulta) naturalmente se ressente dessa escolha, mas nada do que vem disso gera drama real, pois tudo se resolve facilmente.

A ação no espaço é razoavelmente boa. Há momentos bastante tensos e a ciência é utilizada de forma interessante para compor a ficção. Tudo é transparente e se por vezes os diálogos são excessivamente expositivos, pelo menos as regras do universo diegético são claras. Merecem destaque nos momentos de ação os robôs TARS e CASE, que funcionam como belos complementos aos seus companheiros humanos.

Se a primeira metade do filme é interessante e deixa o expectador com vontade de saber mais, a segunda desmorona sobre si mesma. As motivações não se sustentam e certas ações tem mão pesada dos roteiristas apenas para criarem ainda mais uma reviravolta. O personagem Dr. Mann (Matt Damon), por exemplo, tem motivações tão rasas e é tão unidimensional que é impossível comprar toda a sequência de acontecimentos que ele desencadeia. A morte de Professor Brand (Michael Cane) e a revelação por ele feita poucos momentos antes também soam clichês e desnecessárias.

A tentativa de injetar filosofia à trama é ineficaz. A alusão à Lei de Murphy relacionada ao nome de Murph é largada no meio do caminho e não leva a lugar algum. Mas o que dói mesmo é ouvir o discurso brega sobre amor de Brand (Anne Hathaway). Se até então o filme tentava usar ciência real como combustível de uma aventura espacial, aí houve uma tentativa de engrossar o roteiro com filosofia barata que não aguenta cinco minutos de análise.

No terço final, embora muitos tenham criticado, gostei do cubo pentadimensional. Ele força bastante a suspensão de descrença do espectador, mas funciona de forma poética e esteticamente agradável, que lembra o Nolan atento aos detalhes técnicos de A Origem. Mas a graciosidade desse mecanismo narrativo é jogada fora no final, em que a busca de toda uma vida se vê finalizada em meia dúzia de frases e em um desfecho aberto que não tem base ou fundamentação em nada do que aconteceu no filme até então.

Não é que o filme seja ruim: está longe disso. A fotografia é bonita, a trilha sonora de Hans Zimmer funciona muito bem, Cooper e Murph são personagens suficientemente cativantes (apesar de rodeados por seres unidimensionais) e a aventura no espaço, até determinado ponto do filme, é interessante e estabelece a possibilidade de criações de tramas satisfatórias (que nunca se concretizam). O problema de Interestelar é justamente querer ser mais que uma aventura espacial e um drama sobre a relação entre pai e filha. Ao propor uma filosofia de boteco como fator motivador e abraçar um final aberto insatisfatório, o que poderia ter sido uma trama bem executada rui pela falta de sustentação. É um filme bem feito, sem dúvida, e o elenco se sai bem com o material que lhe é dado. Talvez Nolan devesse mirar em alvos menos distantes ou, caso quisesse mesmo criar seu 2001, contratar roteiristas com mais conteúdo que seu irmão Jonathan Nolan e ele mesmo.

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Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014)

A essa altura todo mundo já comentou sobre o novo filme da Marvel/Disney, então não vou me prolongar. Não sou muito fã de filmes de heróis (com exceção de X Men) mas dessa vez , ao contrário do que geralmente acontece, não revirei os olhos, não achei (todas) as piadas forçadas e estava genuinamente interessada nos personagens. É fato que eles não são suficientemente desenvolvidos, mas já o são o suficiente para que eu soltasse “oooh” e me emocionasse com uma árvore ambulante (Groot, dublado por Vin Diesel), que é o personagem mais mágico do filme. Talvez o maior problema para mim seja a falta de desenvolvimento quase total de Gamora (Zoe Saldana). Aliás, certos aspectos de gênero e etnia continuam sendo problemáticos, como em outros filmes do estúdio. A Síndrome de Smurfette se manifesta entre “mocinhos” e “vilões”, por exemplo. Rocket (Bradley Cooper) é o melhor personagem: durão e suave ao mesmo tempo. Star Lord (Cris Pratt) é um personagem retrô: a abertura, em que busca uma relíquia, remete a Indiana Jones e seu estilo bonachão, infantil e canastrão apenas confirmam. Como um todo, o filme é engraçado e fluido e equipe é carismática. No final das contas, trata-se de uma divertida aventura espacial que sabe não se levar a sério e com uma trilha sonora muito gostosa.

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Figurino: Blade Runner- O Caçador de Androides

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 02/07/2014.

 

“All those moments will be lost in time… like tears in rain…”

 

Em 1982 estreou o terceiro longa dirigido por Ridley Scott: a ficção científica futurista Blade Runner, o Caçador de Androides, baseada no livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (também lançado no Brasil como O Caçador de Androides), de Philip K. Dick. O filme é visualmente marcante e a estética do futuro que ali se passa é criada sobre referências do passado. Os figurinistas Michael Kaplan e Charles Knode usaram como inspiração o período entre o final da década de 1930 e meados da década de 1940, bem como o film noir. Este gênero influencia todo o conjunto, da trama centrada em um protagonista moralmente ambíguo e uma femme fatale, aos constantes jogos de luz, sombra e fumaça que compõem as cenas.
A Los Angeles de 2019 é uma cidade de constante penumbra, uma Macondo de chuva sem fim. É abrigado dessa chuva, sentado sob uma marquise, que vemos Deckard (Harrison Ford) pela primeira vez. O protagonista, caçador de androides a contragosto, veste camisa cinza, calça marrom e um longo sobretudo que o acompanhará por todo o filme. A falta de cores faz com que o efeito não seja nem de combinação nem de descombinação. Deckard apenas veste as roupas, porque elas não têm importância alguma.

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De Humphrey Bogart a Dick Tracy, o uso de sobretudo é recorrente entre os personagens de film noir ou que a ele remetem. O de Deckard é remodelado, com a lapela sempre erguida, confeccionada em tecido rígido com textura listrada.

Humphrey Bogart In A Trenchcoat

Troca poucas vezes de roupa, mantendo sempre a mesma calça. Em certo momento utiliza um blazer de tweed. As camisas mudam: certa hora veste uma com estampa pontilhada com gravata xadrez; em outra é uma bicolor verde e roxa. Mas as cores são sempre muito escuras, pouco reveladoras.

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Sua aparência desleixada contrasta com a de Gaff (Edward James Olmos), que não só sempre aparece impecavelmente trajado, como com um certo exotismo, explorando combinações de estampas diferentes e fazendo uso de chapéu e bengala para incrementar sua aparência.

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Aqueles positivamente identificados como replicantes, androides escravos, recebem um tratamento desumano. Seus corpos não pertencem a eles e servem apenas ao propósito dos humanos. Não sabemos nada sobre a sociedade desse contexto, só sabemos que aos replicantes é vetado desejar por si e para si mesmos. Mas alguns deles fugiram e devem ser caçados. Zhora (Joanna Cassidy), por exemplo, disfarça-se de dançarina exótica, na companhia de uma cobra artificial como ela mesma. Seu corpo nu é coberto de cristais. Após a apresentação, veste apenas botas de cano longo, um conjunto de calcinha e sutiã, redesenhados para garantir um visual futurista, e sobre eles uma capa transparente.

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Deckard persegue-a implacavelmente pela cidade e o que vemos é ela rodeada por manequins, figuras antropomórficas sem vida como os androides, e uma mistura das transparências do vidro que se quebra e de sua capa. A sequência é quase onírica. Seu corpo no chão em meio a esse cenário não é humano e tudo é feito para nos lembrar disso, mas o sangue, ironicamente, nos passa a ideia oposta.

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Pris (Daryl Hannah) era ainda menos dona de sua própria corporalidade, já que foi criada como “modelo para prazer básico”, ou seja, para fins sexuais. Da primeira vez em que a vemos, sai do meia da névoa vestindo o que se espera para sua função: botas, meias finas com ligas, traje preto com transparências, coleira e um casaco de estampa de tigre, tudo influenciado pela estética punk. É com essa roupa, aliada ao seu ar ingênuo, que conquista a confiança de Sebastian.

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Perto do fim, pinta seus olhos dramaticamente de negro, sobre pele maquiada de branco, disfarçando-se entre bonecos criados por ele. Ao contrário do que ocorreu com Zhora, a presença desses elementos serve para ressaltar sua superioridade enquanto modelo. Sua falsa humanidade se destaca em meio ao entorno. A perfeição é que revela sua natureza, como que gerando um “vale da estranheza”.

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Mulher, com agência e autonomia na medida em que havia se libertado dos humanos, foi caçada e morta por Deckard assim como Zhora. E também o foi seminua, vestindo apenas um colant cor pele, e tendo seu corpo explorado visualmente em cena. O sangue novamente destaca a humanidade contrastante nesse futuro desumano. Quem sente sua morte e sofre é Roy (Rutger Hauer), marcando o rosto com esse sangue derramado.

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Rachael (Sean Young), como Pris, aparece pela primeira vez saindo do ocultamento; mas nesse caso é das sombras, emergindo para a luz. Nesse momento desconhece sua natureza replicante e por isso, ao contrário das outras duas, aceita a vida que recebeu e sua função de secretária. A saia lápis e blazer estruturado, bem como seu penteado são versões estilizadas do que era usado pelas mulheres em film noir. Os ombros aqui são ainda mais acentuados, criando uma silhueta de ampulheta extremada. Os detalhes em couro na gola brilham, assim, como seus lábios, no lusco-fusco que entra pelos rasgos que servem de janela no edifício.

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A inspiração parece vir dos vestidos que Joan Crowford e Katharine Hepburn utilizavam, desenhados pelo figurinista Adrian de maneira a acentuar seus ombros.

Acima Joan Crowford e abaixo Katherine Hepburn em trajes com ênfase nos ombros criados por Adrian
Acima Joan Crowford e abaixo Katherine Hepburn em trajes com ênfase nos ombros criados por Adrian

Ombros e golas realçados vão se repetir por seu figurino, que inclui outro conjunto similar ao anterior, mas em tons de cinza e um casaco de pele com lapela extravagantemente proporcionada, que aparece em duas versões (preto e cinza). Esses trajes indicam uma mudança na cor predominante que ela usa conforme envolve-se com Deckard e também a alta posição que ocupa, passando-se por humana.

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Deste último conjunto, retira o casaco em um momento de vulnerabilidade, em que também solta os cabelos, mostrando-se livre de seus escudos. É então que Deckard cria uma dinâmica de submissão, em que em nenhum momento a personagem parece à vontade. Ainda assim, é com ela que ele terá o mais próximo de um final feliz que o filme oferece. Rachael nunca chega a expressar seus desejos sem que seja inquirida e assim, ao contrário das replicantes que ousaram querer, sua existência é poupada.

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Por fim, temos Roy, um replicante construído para fins militares, mas que se tornou o líder do grupo foragido. Ele surge vestindo uma camiseta cinza e um casaco preto com gola estruturada, ambos simples e funcionais. Deve estar sempre pronto para lutar.

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Roy sente dor ao encontrar Pris e, enlutado, despe-se para procurar Deckard, permanecendo apenas com os sapatos e uma bermuda. Uma estratégia comumente utilizada para desumanizar pessoas é filmar partes de seu corpo sem um rosto que lhes confira personalidade. Na cena em que confronta Deckard é isto que acontece: vemos seu corpo enquadrado na chuva, mas sua cabeça fica fora da tela. Por estar sem cabeça, não é humano; sem roupas, despiu-se da pretensa civilidade. Isso tudo na sequência em que demonstra poeticamente ter ambas mais do que todos.

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A chuva que lava a cidade, as luzes que sempre se infiltram em raios nos ambientes soturnos, as roupas escuras e com cortes específicos, a trilha sonora certeira de Vangelis, a grandiosidade da cidade (com lindas pinturas matte de Matthew Yuricich), a fria beleza com que os corpos mortos são exibidos: tudo parece compor um clima melancólico e trágico em Blade Runner. No contexto do filme, tudo que é, pode não ser; e tudo que parece, não é. Em um jogo de espelhos com nossas próprias vidas, coletam-se momentos que um dia se esvairão. Assim vivemos todos, assim dizemos todos. Não há saída para esses personagens e se há, não parece ser por muito tempo. Tanto Michael Kaplan quanto Charles Knode são figurinistas talentosos, que aqui, juntos, ajudaram a criar esse universo que funciona de forma perfeitamente crível. Os aspectos artísticos do filme são inegavelmente belos. A arte, ao contrário da matéria orgânica, sobrevive à passagem do tempo.

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X Men: Dias de um Futuro Esquecido (X-Men: Days of Future Past/ 2014)

Quando li a série de quadrinhos na qual se baseia X Men: Dias de um Futuro Esquecido, me peguei coçando a cabeça, intrigada. A história era fraca e infantil, tendo pouco conteúdo bom que se salvasse. Pois bem, parabéns aos envolvidos na adaptação do roteiro, pois o que se vê é uma trama coesa, que descarta muito do material de origem, mas se reconstroi de forma a se conectar adequadamente com os três primeiros filmes da franquia. Aliás, combinação dos atores deles com os do último filme, Primeira Classe, são um dos pontos fortes, visto que há muito carisma no elenco e personagens saudosos que não víamos há algum tempo.

No futuro revemos Professor Xavier (Patrick Stewart) e Magneto (Ian McKellen), que se unem para, com ajuda de Tempestade (Halle Berry), Homem de Gelo (Shawn Ashmore), Bishop (Omar Sy), Kitty Pride (Ellen Page), Wolverine ( Hugh Jackman), entre outros, tentar mudar o destino dos mutantes, que foram quase totalmente dizimados. No ano de 1973 Mística (Jennifer Lawrence) matou Bolívar Trask (Peter Dinklage), dono de uma empresa que havia criado grandes robôs, chamados Sentinelas, para caçar mutantes. Acontece que tal ato, ao invés de acabar com a perseguição a eles, levou as lideranças políticas a intensificarem-na. A ideia da equipe no futuro é utilizar os poderes de Kitty Pride de forma a permitir que Wolverine volte ao passado para impedir os acontecimentos fatídicos e apagar essa linha do tempo, com ajuda versões mais novas de Xavier (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender). (Nos quadrinhos é a própria Kitty quem viaja no tempo, mas visto que o carcamano é o mais popular dos personagens na franquia cinematográfica, tal papel foi transferido a ele).

É interessante o contraponto que é feito entre o futuro e o passado. O primeiro é marcado pela desolação e já nos é apresentado com imagens que remetem ao regime nazista, o que ajudaria a justificar as motivações de Magneto em unir-se a Xavier, visto que ele é sobrevivente dos campos de concentração. O visual remete a outras distopias totalitaristas e os mutantes utilizam roupas que estilizam armaduras. Já o passado vem com uma paleta de cores bastante apropriada, contendo marrom, abóbora, vinho e verde-musgo, além de cenários e roupas adequadas ao período. Dessa forma o filme oscila entre o real e a fantasia, incorporando até mesmo elementos como a assassinato do presidente americano John Kennedy. O realismo já é indicado quando Wolverine desperta em 1973 e as duas primeiras coisas que avista são uma cortina em tons laranjas e uma lâmpada de lava; e posteriormente, ao acordar em outro momento, se depara com uma cortina em tons neutros uma lâmpada com holograma, deixando marcada, através da mudança de elementos recorrentes, a passagem de tempo.

O Xavier de McAvoy funciona como um mocinho falho, entregue a álcool e droga, quebrado por suas perdas e sem confiança nas suas capacidades. Magneto, em contraponto, é dominado pela autoconfiança e tem certeza de seus ideais. Assim temos o que considero um dos fatores que tornam os X Men os super-heróis mais interessantes: eles representam uma minoria social e os dois personagem são lideranças que simbolizam duas abordagens no ativismo: a luta legal, integrando-se pacificamente à sociedade ou através de desobediência civil; e por outro lado as táticas de enfrentamento através de guerrilha. A beleza está no fato de que se tratam de personagens tão bem desenvolvidos, que é fácil compreende-los e aceitar suas decisões como coerentes, ainda que nem sempre aprovando-as.

Com Jennifer Lawrence, Mística ganhou uma ambiguidade e uma fragilidade que não demonstrava antes. Trata-se da personagem mais interessante dos últimos dois filmes, pois trafega sob os dois pontos de vista, dividida entre duas ideologias e dois amores.

Magneto é um homem vaidoso e seu apreço por métodos menos ortodoxos fica patente na assimetria presente em diversos de seus trajes, que utiliza como que para demonstrar seus pensamentos não convencionais. Já Xavier e Wolverine entregam-se à moda setentista (o último mais que o primeiro), com camisas estampadas e jaquetas de couro (vinho para o primeiro e marrom para o segundo). Trask simboliza sua busca pelo poder em suas gravatas largas e com estampas marcantes, dignas de um homem de negócios de presença forte. Apenas Fera (Nicholas Hoult) fugiu da moda mainstream. 

As referências presentes no filme são significativas. O X dos mutantes aparece em diversos momentos, como em reflexos de luz, formato de móveis e gravadores de fita, o que confere mais peso ao fato de vermos o que parece esse formato repetido em uma viga que esmaga Xavier em certo momento, como se o próprio peso de suas escolhas estivesse ali representado. Em outro momento Capitão Kirk aparece em uma televisão, quase como uma piscadinha em relação aos recentes encontros entre Spock antigo e novo nos filmes recentes de Star Trek e os acontecimentos semelhantes deste filme.

Com momentos de humor, ação e drama bem balanceados, o filme é eficiente em fazer uso dos mutantes que aparecem e se houvesse algo a reclamar, seria justamente a ausência ou participação pequena de alguns, pois o elenco já era bastante extenso. (Vampira e Noturno, senti falta de vocês). X Men: Dias de um Futuro Esquecido demonstra que aos catorze anos de idade a franquia ainda tem fôlego para mais e o diretor Bryan Singer talentosamente permite, com o desfecho, diversas possibilidades de continuação.

Obs: Foi bastante divertida a participação de Mercúrio, o filho não declarado de Magneto.

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