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As Mulheres que Ele Despiu (Women He’s Undressed, 2015)

As Mulheres que Ele Despiu é o título da autobiografia jamais publicada do premiado figurinista Orry-Kelly. O documentário homônimo dirigido por Gillian  Armstrong descortina sua vida e obra desde o vilarejo natal na Austrália, passando pelo período em que morou em Nova York e trabalhou na Broadway até chegar à consagração na época de ouro de Hollywood.

Kelly começou a sua carreira como aspirante a ator e foi dessa forma que se mudou para os Estados Unidos. Usou sua experiência com os bastidores do teatro e o contato profissional com as coristas para se alçar primeiro ao papel de cenógrafo e finalmente de figurinista. Foi nessa época, durante a década de 1920, que conheceu o jovem Archie Leach, que também havia migrado em busca de uma carreira dramática. Leach e Kelly rapidamente começaram um relacionamento e moraram juntos por alguns anos. Foi também junto que se mudaram para Los Angeles na tentativa de alcançar maior sucesso. A crise de 1929 e a preocupação com o lucro que os filmes geravam aliadas ao Código Hays e ao Sistema das Estrelas dificultaram a vida de artistas abertamente homossexuais. Kelly jamais ocultou quem era, mas Leach fez concessões e após alcançar o sucesso com o nome de Cary Grant foi gradualmente se afastando das relações homossexuais do passado. O filme foca no relacionamento entre o figurinista e o astro, utilizando-o como pano de fundo para as consequências dele na carreira do primeiro.

Mas para além da vida afetiva, também retrata o gênio dos tecidos, vencedor de três Oscars e que transformou a carreira de atrizes como Bette Davis, Ingrid Bergman, Marilyn Monroe, Jane Fonda e Angela Lansbury, por exemplo. As duas últimas fornecem depoimentos ricos sobre sua convivência com ele nos sets  de filmagem, bem como histórias de bastidores. As falas das estrelas do passado são trazidas com uso de interpretações vocais, que no contexto do documentário funcionam.

Somam-se às vozes das grandes atrizes diretamente afetadas pelo talento de Kelly a visão de grandes figurinistas, como Deborah Nadoolman, Catherine Martin, Michael Wilkinson, Colleen Atwood, entre outros. Utilizando o tradicional formato de cabeças falantes, eles podem analisar com calma e precisão o papel do seu trabalho na sétima arte e como Kelly lidou com obstáculos e criou um estilo seu, bastante particular.

Felizmente o documentário não faz uso apenas de cabeças falantes, que pode se tornar tedioso: utiliza também bonitas encenações que elevam o filme a uma dimensão poética, com destaque para a interpretação de Darren Gilshenan como o próprio Kelly. Tomadas externas se unem a outras gravadas em ambientes internos que misturam uma espécie de encenação teatral com projeções  e elementos cenográficos. O resultado engaja o espectador é visualmente instigante, beirando o experimental.

Orry-Kelly teve uma vida intensa, com suas divas, seus amores e seus três Oscars. Dentre os amores, Cary Grant certamente se destaca e o filme aborda lindamente a trajetória de ambos rumo ao sucesso e à inevitável separação. Como um todo, essa obra é no mínimo interessante, especialmente para quem tem apreço pela Hollywood antiga ou por figurinos. Mas não deixa de ter, também, sua forte carga emocional e engajar por meio dela.

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Figurino: Carol

Muitas vezes, nesse espaço, coloquei ênfase no uso de cores vinculado às trajetórias dos personagens e em como a mudança delas pode marcar momentos importantes da trama. (Cito como exemplo alguns dos textos que mais gostei de fazer: Precisamos Falar Sobre o Kevin , Segredos de Sangue e Drácula de Bram Stoker). É comum que filmes em cores sejam entendidos como representações realistas, pura e simplesmente, uma vez que o meio ao nosso redor também é colorido. Mas nem sempre isso é verdade, porque as cores dispostas em cena são escolhas deliberadas, para servir à narrativa, criar atmosfera ou destacar elementos específicos. O que vemos na película pode não ter um equivalente no mundo real.

Em Carol, filme dirigido por Todd Haynes, baseado no romance de Patricia Highsmith e roteirizado por Phyllis Nagy, fica clara a decisão de retratar a história como um conto natalino. A personagem-título é uma dona de casa com boa situação financeira que está se divorciando do marido e Therese, por quem ela se apaixona, é vendedora e fotógrafa nas horas vagas. Uma boa parte dos acontecimentos ocorrem pouco antes do Natal no ano de 1952, até pouco depois do Ano Novo. A narrativa se encerra alguns meses depois. A paleta de cores em tons terrosos é contida, suave e pontuada por tons de verde e vermelho aqui e acolá, como a época de festividades pede. A fotografia é granulosa e esverdeada.

O figurino (e a direção de arte como um todo) vão muito além da escolha de cores a serem dispostas quando se trata de compor os personagens. Tomemos a sequência em que Therese (Rooney Mara) e Carol (Cate Blanchet) se vêm pela primeira vez. Rooney trabalha como balconista em uma loja de departamentos. O balcão é a materialização das diferenças entre elas: cada uma de um lado, separadas por marcadores sociais. Therese veste uma camiseta de manga comprida e gola alta sem detalhes e de tecido simples, sob um vestido escuro e o gorro de natal obrigatório para uso das funcionárias, compondo uma aparência comum, ordinária. Nenhum acessório, apenas um pequeno relógio de pulso. Quando ela avista Carol, fica hipnotizada por sua presença, mesmo do outro lado do salão. A figura se veste com um casaco de peles de aparência macia, usa chapéu, echarpe e unhas na mesma cor e brincos, colar e anéis de ouro, além de uma luva de couro. O resultado final do conjunto é uma elegância sóbria, clássica. Esses poucos segundos de oposição entre as duas personagens são o suficiente para informar o espectador a respeito das diferenças de classe social e de idade entre as duas protagonistas, sem a necessidade de maiores explicações.

Carol Todd Haynes Cate Blanchet Rooney Mara

A figurinista do filme é Sandy Powell, cujos trabalhos em Velvet Goldmine (também dirigido por Haynes) e Cinderela já foram abordados aqui no blog. Seu figurino ajuda a construir Carol como uma mulher madura, decidida e sem floreios. Embora a trama se passe na década de 50, ela não usa saias rodadas, optando por cortes retos e junto ao corpo. Além de cores neutras, como bege e cinza, tons de vermelho pontuam o figurino, quase sempre composto de tecidos lisos.

Carol Todd Haynes Cate Blanchet Rooney Mara red

Em determinado momento do filme, em uma festa de amigos, a simplicidade da linha dos trajes de Carol contrasta com os de sua amiga, extremamente adornados.

Carol Todd Haynes Cate Blanchet Rooney Mara piano

Já o figurino de Therese destaca sua trajetória de crescimento. A estampa xadrez, a boina listrada, o seu casaco volumoso com capuz: todos os trajes do começo da história remetem a roupas de colegial, ressaltando a juventude da personagem, mas também sua situação profissional, uma vez que, após a escola, não se estabeleceu em um emprego que lhe exigisse um vestuário mais maduro. Quando Therese vai à casa de Carol pela primeira vez, sua roupa tem os mesmos padrões e cores do que as usadas pela filha desta, novamente realçando sua juventude, em contraste com a elegância de Carol.

Carol Todd Haynes Cate Blanchet Rooney Mara

O uso de verde nas roupas de Therese torna-se ainda mais interessante quando percebemos ser a mesma cor utilizada por Abby (Sarah Paulson) amiga de Carol com quem esta teve um relacionamento no passado. Abby cuida de Carol e de certa forma também cuida de Therese, uma vez que ela ocupa agora o lugar de afeto na vida de Carol. A cor aproxima ambas, conectando-as a ela.

Carol Todd Haynes Cate Blanchet Rooney Mara Sarah Paulson

A conexão se estabelece também pelo fato de verde e vermelho serem cores complementares, ou seja, cores que visualmente se harmonizam em sua oposição. Quando Carol conhece o apartamento de Therese fica clara essa relação, não só nas cores, mas no posicionamento das atrizes.

Carol Todd Haynes Cate Blanchet Rooney Mara apartment

Essa combinação de cores vai se inverter no primeiro momento em que as duas saem em viagem juntas, Therese em vermelho e Carol em verde.

Carol Todd Haynes Cate Blanchet Rooney Mara cafe

Além disso, o verde aparece marcadamente pelos lugares onde passam. Não é à toa que quando Therese retorna para seu apartamento, a cor é reforçada em suas paredes.

Carol Todd Haynes Cate Blanchet Rooney Mara green

Na cena de abertura, que cronologicamente é uma das últimas, ambas têm um breve encontro como em Desencanto (1945), de David Lean. Desde a última vez que se viram, Therese se estabeleceu como fotógrafa de um jornal e sua mudança profissional já transparece em suas roupas. Agora ela já usa brincos, ainda que discretos e suas roupas estão mais elegantes. Rooney Mara emula a sofisticação sem esforços de Audrey Hepburn com precisão.

Carol Todd Haynes Cate Blanchet Rooney Mara

Mais uma vez trabalhando juntos, Todd Haynes e Sandy Powell constroem um mundo que exibe o período retratado, realçando os elementos narrativos e a trajetória das personagens. O resultado é um filme elegante e esteticamente prazeroso, que encanta pela delicadeza com que aborda o romance entre as duas mulheres, digna do new queer cinema de Haynes.

Três anos de “Vestindo o Filme”

Mais um ano se passou e minha coluna no Cinema em Cena aniversaria hoje. Em 8 de julho de 2013 foi ao ar sua primeira edição, em que escrevi sobre O Grande Gatsby. Tive uma redução de ritmo considerável dessa vez: no primeiro ano foram vinte e cinco textos comentando quarenta e um filmes; no segundo dezoito e trinta e dois, respectivamente. Dessa vez foram treze artigos que abordaram trinta e duas obras. O espaçamento foi maior, mas pelo menos incluí mais filmes em cada um. Todo ano eu escolho os dez que mais gostei de escrever: não necessariamente os melhores, mas os que mais me diverti ou me interessei. Com o número reduzido, dessa vez vou escolher cinco, todos com links para o texto na íntegra. Vamos a eles:

Herói

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Nada como um uso espetacular de cores para auxiliar a narrativa. Esse filme de Yimou Zhang com figurino de Emi Wada é puro deleite para os olhos.

Garota Exemplar

Gone Girl

Figurinos de época geralmente são mais vistosos e chamam mais atenção, mas na sutileza e na minúcia de um bom figurino contemporâneo se esconde muita coisa. Trish Summerville é uma figurinista ainda com poucos filmes no currículo, mas que tem se mostrado consistente. Sua colaboração com David Fincher é uma prova da qualidade do seu trabalho.

Personagens femininas e seus figurinos em filmes de ação

Furiosa Mad Max

Nós sabemos que a representação feminina em filmes é problemática em geral, mas o que dizer das roupas pouco práticas utilizadas em filmes de ação ou aventura?

Juventude Transviada

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Roupas que marcaram época e gerações e uma direção de arte impecável em um filme clássico que eternizou James Dean como ícone que é.

Carol

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“Elegante” é o adjetivo que melhor descreve o último filme de Todd Haynes. Sandy Powell, figurinista veterana, criou para ele peças bonitas e que casam com a estética do conjunto. Como não se apaixonar por Carol (ou Therese)?

Para ler os demais textos sobre figurino no blog, acesse aqui.

Análise dos Indicados ao Prêmio do Sindicato dos Figurinistas 2016

Durante a temporada de premiações do cinema, o foco do público muitas vezes se desloca para o Oscar, o prêmio da indústria que mais chama atenção. Mas é interessante também acompanhar as premiações dos sindicatos, pois elas dizem muito sobre como os profissionais enxergam seu próprio trabalho. No dia 23 de fevereiro foi a vez do 18ª Costume Designers Guild Awards, prêmio do Sindicato dos Figurinistas dos Estados Unidos, premiar seus destaques no cinema, televisão e publicidade. Os votantes são os próprios figurinistas, bem como assistentes de figurino e ilustradores que sejam afiliados ao sindicato.

Farei um breve comentário sobre os indicados ao prêmio nas categorias de cinema neste ano. Para ler a respeito dos concorrentes de 2015 e de 2014 acesse aqui e aqui. Segue abaixo os indicados de cada categoria, com o vencedor em destaque:

Excelência em Filme de Fantasia:

Costume Designers Guild Awards 2016 Fantasy Nominees

Cinderela – Sandy Powell

Ex_Machina: Instinto Artificial – Sammy Sheldon Differ

Jogos Vorazes: A Esperança – O Final – Kurt e Bart

Mad Max: Estrada da Fúria – Jenny Beavan

Star Wars: O Despertar da Força – Michael Kaplan

 Três dos filmes indicados nessa categoria são partes de franquias, o que significa que seguem critérios estéticos de universos que foram estabelecidos anteriormente. Não é o caso de Cinderela, da veterana Sandy Powell, embora graças à clássica versão animada dos Estúdios Disney, além dos contos de Perrault e dos irmãos Grimm, sua imagem faz parte do ideário de grande parte das pessoas. Ainda assim a figurinista consegue trabalhar criando trajes memoráveis, como o vestido de baile, que garante que a personagem-título se destaque entre tantas moças presente no evento. Mas as roupas mais notáveis são da madrasta, que utiliza silhuetas que correspondem à metade do século XX, ao invés do século XIX. Isso, aliado aos tons fortes, em cor de joias, lhe garante uma aparência elegante, fria e dura, que contrasta com o ridículo de suas filhas e os elementos naturais e detalhes delicados que compõem Cinderela. (Leia mais sobre o figurino de Cinderela aqui).

Ex_Machina: Instinto Artificial é o único dos indicados nessa categoria que provém de material original e sem referências anteriores. É curioso como a composição da androide Ava é feita através da união de figurino com efeitos digitais. Alicia Vikander vestiu, durante as gravações, uma espécie de roupa de mergulho com a estampa que pode ser conferida no filme. Anéis pretos recobertos de tachinhas adornam o traje, mas eles também tiveram a função de ajudar na captura de movimento da atriz de forma que ela não precisasse usar as tradicionais bolinhas ou tela verde. Seu corpo foi escaneado, para depois ser parcialmente substituído pelos componentes robóticos. O visual criado para a personagem é marcante. Além disso, as roupas também cumprem seu papel nos momentos em que ela advoga pela sua humanidade, buscando uma aparência praticamente saída de uma comédia romântica, para tornar-se atrativa. Esse mecanismo funciona quase como um meta-figurino.

Dentre todos os indicados, penso que o mais fraco é Jogos Vorazes: A Esperança – O Final, o quarto da série baseada nos livros de Suzanne Collins. A dupla Kurt e Bart, que já havia trabalhado no filme anterior, aqui basicamente repete elementos já vistos e o faz de forma inconsistente com a jornada da protagonista. Enquanto nos capítulos anteriores da história sempre houve espaço para se brincar com a dubiedade do uso da roupa para a criação da imagem dos personagens, uma vez que a propaganda e a mídia são parte essencial da trama, neste, toda forma de ironia é deixada de lado. Se Katniss não se veste mais para um público ou para criar uma imagem para os demais, o fatídico vestido amarelo da cena final torna-se indefensável. (Leia aqui a análise completa do figurino de Jogos Vorazes: A Esperança – O Final).

O responsável pelo figurino de Star Wars: O Despertar da Força, Michael Kaplan, já havia trabalhado com o diretor J.J. Abrams nos dois filmes de Star Trek, criando os novos uniformes da tripulação, que funcionam bem ao remeter à série clássica, ainda que com uma nova estética. Abrams deve ter pedido para Kaplan fazer algo similar com Star Wars, só que dessa vez não é um reboot e as diretrizes dos filmes anteriores tiveram que ser seguidas à risca. O figurinista respeitou o uso de tons claros e tecidos rústicos, além dos laranjas pontuais para os mocinhos e o preto, juntamente com uma estética militar para os vilões. As roupas de Rey, que parecem ser cobertas por tiras de tecidos que se enrolam em seu corpo, parecem adequadas ao local e às atividades que ela exerce. Já os trajes de Kylo Ren têm imponência e sua máscara claramente o conecta a Darth Vader, antes que qualquer explicação seja necessária. Kaplan mais uma vez conseguiu trabalhar em cima de uma franquia estabelecida e expressar seu próprio ponto de vista. (Para ler a respeito dos figurinos dos episódios IV, V e VI acesse aqui, e dos episódios I, II e III, aqui).

Por fim, o merecido ganhador do prêmio foi Mad Max: Estrada da Fúria. Jenny Beavan é uma veterana na indústria e trabalhou especialmente com filmes de época. Por isso o cenário pós-apocalíptico do universo retratado parece sair de sua zona de conforto, mas ela soube lidar com a novidade. Os tecidos claros e corpos expostos das noivas de Immortan Joe mostram a objetificação a que eram submetidas e ao mesmo tempo a falta de contato com o inóspito mundo exterior. Já Max e Furiosa vestem roupas práticas e que protegem das intempéries. O peitoral e a máscara de Immortan Joe têm função de sobrevivência, mas também criam um visual específico do personagem. Se levarmos em conta personagens secundários e figurantes, a quantidade de trabalho impressiona. Elementos metálicos que podem ser feitos com peças de automóveis reaproveitadas são usados como adornos. O trabalho de tingimento e envelhecimento dos tecidos é fácil de ser percebido. Trata-se de um figurino rico em detalhes, coerente com a narrativa que está sendo contada e que ajuda a criar a estética particular do universo em que a história se passa. (Para ler mais sobre o figurino de personagens femininas em filmes de ação, acesse aqui).

Mad Max Fury Road Costume Designers Guild Awards 2016 Fantasy Winner

Excelência em Filme de Época:

Costume Designers Guild Awards 2016 Period Nominees

 Brooklyn – Odile Dicks-Mireaux

Carol – Sandy Powell

A Colina Escarlate – Kate Hawley

A Garota Dinamarquesa – Paco Delgado

Trumbo – Lista Negra – Daniel Orlandi

Dentre esses indicados, considero que Trumbo – Lista Negra é o menos relevante da lista. Mas é uma boa recriação de época, e traz à vida de forma eficiente o protagonista bem como antagonista Hedda Hopper contando, claro, com o talento dos atores.

A Colina Escarlate é marcado pelo cuidado visual e tem uma paleta de cores controlada, condizente com o cuidado estético do diretor Guillermo del Toro. É fácil perceber as silhuetas contidas de Lucy em oposição aos trajes cada vez mais diáfanos de Edith marca visualmente as diferenças entre as personagens, assim como o uso do vermelho, que passa por outros elementos do filme e chega aos vestidos da primeira, contrastando com o branco e o amarelo da segunda. Esteticamente, o filme é consegue evocar o período retratado enquanto cria a atmosfera fantasmagórica. (Para ler mais sobre o figurino de A Colina Escarlate acesse aqui).

Além de ser um drama de época, Brooklyn também pode ser entendido como uma fábula sobre o lar e o pertencimento. Os bonitos trajes apropriados ao começo da década de 1950, retratada no filme, tratam de situar espaço e tempo. Mas é o uso de cores marcantes que cria uma ambientação quase onírica para Eilis, a protagonista. Azuis e verdes a destacam das demais pessoas, como na cena em que embarca no navio para a cidade de Nova York, mas rosas, amarelos e vermelhos também ajudam a criar um mundo de fantasia em que a migração não encontra barreiras. As diferenças entre a Irlanda e os Estados Unidos são ressaltadas pelos figurinos de cada lugar. Assim como A Colina Escarlate, é difícil entender como esse filme não foi indicado ao Oscar na categoria de Figurino.  É um conjunto obtido com um orçamento bastante reduzido e cujo resultado final merece atenção.

É o mesmo caso de Carol, dirigido por Todd Haynes e que também tem um orçamento enxuto e um figurino competente, desenhado por Sandy Powell. Logo na cena em que as duas protagonistas se conhecem, se estabelece o uso predominante de verde para Therese e vermelho para Carol. Essas são cores complementares, que declaram que as duas combinam em sua oposição. Essa percepção é garantida pelo contraste entre as roupas em estampas xadrez e boinas, que remetem a roupa escolar, que a primeira utiliza e as peles e a sofisticação da segunda. As diferenças de classe social e de idade são, dessa forma, estabelecidas. Com o avançar da trama, Therese amadure e a qualidade e estilo de suas roupas se alteram. O figurino é essencial para expressar o romance entre as personagens, bem como sua trajetória. Nessa categoria, é o trabalho de minha preferência, mas se Brooklyn ou A Colina Escalate tivessem levado o prêmio, não teria oposição.

Mas o vencedor foi A Garota Dinamarquesa. No filme, que se passa na década de 1920, a roupa tem papel fundamental para a percepção de Lili, a protagonista, sobre sua identidade de gênero. Alguns detalhes são importantes, como um paletó com corte que poderia ser considerado feminino utilizado quando ainda se apresentava com o nome de Einar e os robes estampados de sua esposa Gerda, que evocam o orientalismo da época e estilo de vida boêmio de artistas de ambas. Infelizmente a roupa é utilizada de forma fetichizada no filme, mas isso não é culpa do figurinista. De toda forma, me parece menos interessante que os três concorrentes citados anteriormente.

Danish Girl Costume Designers Guild Awards 2016 Period

 Excelência em Filme Contemporâneo:

Costume Designers Guild Awards Contemporary 2016 Nominees

 Beasts of No Nation – Jenny Eagan

Joy – O Nome do Sucesso – Michael Wilkinson

Kingsman: Serviço Secreto – Arianne Phillips

Perdido em Marte – Janty Yates

Juventude – Carlo Poggioli

A categoria de Filmes Contemporâneos é geralmente a mais complicada de avaliar, porque é fácil interpretar o que são escolhas deliberadas para a criação de uma estética específica como sendo um simples ato de pegar roupas das araras de lojas atuais. Apesar disso, esse ano ela conta com indicações bastante diversas. Não comentarei a respeito de Juventude, uma vez que o filme ainda não chegou ao Brasil.

A escolha de colocar filmes de ficção científica entre os contemporâneos e não os de fantasia, faz com que eles pareçam deslocados em meio aos demais. Foi o caso de Interestelar no ano passado e Ela no anterior. Este ano é a vez de Perdido em Marte e novamente há todo um cuidado com a criação de roupas especiais que aparentem resistir ao ambiente em que são utilizadas e que ao mesmo tempo sejam leves o suficiente para os atores se movimentarem e críveis para o olhar do espectador.

Joy é uma história de uma mulher que é amálgama de várias e por isso pode se passar em qualquer época e local. O ponto mais marcante do filme é quando a protagonista é colocada em um estúdio de televisão em que todas as apresentadoras estão com cabelos em penteados elaborados e roupas espalhafatosas. Ela apresenta-se com calças e uma camisa branca simples, porque esse é o seu estilo. Dessa forma estabelece-se que ela deve representar a mulher comum, com quem o espectador deveria criar uma conexão. Em seu momento de vitória, usa uma jaqueta de couro preta e óculos escuros, também simples, mas marcando sua força. A personagem está lá, o figurino serve ao seu propósito: nesse caso a conexão não é criada por problemas de roteiro e direção.

Dentre os indicados, Kingsman: Serviço Secreto é o mais vistoso e contou com a colaboração de algumas marcas de roupas masculinas fornecendo peças para Arianne Phillips. Todos os cavaleiros utilizam paletós bem cortados com abotoamento duplo. Esse modelo pode parecer datado e por isso eles são percebidos como um establishment ultrapassado, em oposição às roupas joviais do protagonista. Os demais candidatos a entrar para o grupo são almofadinhas provindos das universidades mais tradicionais, por isso utilizam paletós de modelagem informal, gravatas listradas que lembram de uniforme escolar e também tweed, que indicaria origem nas riquezas rurais. Há um número bastante variado de trajes e situações, mas a trama do filme é bem atendida pelo figurino. Seria um vencedor interessante para a categoria.

Assim como Joy, Beasts of No Nation não tem sua época e local identificados, mas o que é deixado claro é que se passa em alguma localidade da África em guerra civil. Os uniformes dos jovens soldados, uma espécie de túnica bordada com conchas, são inspirados pelos kamajors da vida real, tradicionais caçadores da Serra Leoa. De acordo com a figurinista, os apliques nas vestimentas significam proteção. Claramente houve um grande trabalho de tingimento e envelhecimento, para deixar todos os tecidos com aparência puída necessária para a percepção de que se desgastaram. São cerca de duzentos soldados e há o cuidado de apresentar cada um de forma diferente, uma vez que os recursos devem vir da pilhagem e consequentemente as roupas devem parecer que foram customizadas individualmente por cada usuário. É um trabalho imenso que foi premiado de forma justa e representa uma vitória importante para a Netflix, produtora do filme.

Esse ano os indicados ao Oscar de Melhor Figurino foram os já citados Carol, Cinderela, Mad Max: Estrada da Fúria e A Garota Dinamarquesa, acrescidos de O Regresso. Em minha opinião, retiraria os últimos dois indicados para incluir Brooklyn e A Colina Escarlate. O vencedor, acompanhando o Sindicato, foi o trabalho marcante de Jenny Beavan em Mad Max: Estrada da Fúria.

Beasts of No Nation Costume Designers Guild Awards 2016 Contemporary Winner

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Figurino: A Colina Escarlate

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Fantasmas são reais, isso eu sei. Eu os vi toda a minha vida …

Em cartaz nos cinemas, A Colina Escarlate é um romance gótico que se disfarça de história de terror. A protagonista, uma escritora chamada Edith Cushing (Mia Wasikowska), fala sobre suas obras algo que também se estende ao filme: são histórias com fantasmas, não histórias de fantasmas, pois eles representam o passado. O diretor Guillermo del Toro confeccionou a trama entremeada de elementos visualmente marcantes. A figurinista é Kate Hawley, que já havia trabalhado com ele em seu filme anterior, Círculo de Fogo.
Edith, filha única de um homem rico, é cortejada por Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), um misterioso baronete vindo da Inglaterra. Quase nada se sabe sobre ele, mas sua situação financeira precária é percebida através de suas roupas. Isso é ressaltado pela própria Edith, que fala para seu pai que elas, embora bem cortadas, são de pelo menos uma década atrás.
A história se passa na segunda metade da década de 1890. Os trajes femininos deixavam de ter anquinhas e faziam a transição para as saias em forma de sino e os bustos volumosos que iriam caracterizar a primeira década de 1900.

Exemplos de vestidos utilizados na época.

 

As cinturas são marcadas e os ombros são destacados, o que pode ser percebido nos vestidos de Edith. Apesar disso, eles não restringem seu corpo: as camisas sempre são folgadas e os tecidos fluídos. Em um flashback, a vemos ainda criança, no enterro de sua mãe, trajada totalmente de preto, com um chapéu com uma textura rugosa na parte inferior, semelhante a um cogumelo visto por baixo. Essas rugosidades ou ranhuras são a textura que predominará nos tecidos usados em seus trajes, que também são por vezes adornados com dobras, como origamis.

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É possível ligar a personagem ao amarelo e outros tons claros. Na mesma cena de infância já mencionada, os botões frontais de seu vestidinho são de pérolas. Elas aparecem posteriormente em botões e outros detalhes, como nas mangas do vestido que utiliza para ir a um baile com Thomas. Mas não é apenas isso: o tom perolado, como do vestido citado, bem como o branco, vai dominar sua paleta de cores, garantindo sua imagem de inocência. A parte da trama que transcorre nos Estados Unidos é fotografada com uma cálida iluminação amarela. Essa é outra cor que vai marcar a personagem, nesse momento em elementos como saias e acessórios, ligando-a a sua terra.

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Para destacar o amarelo, as paredes da casa de seu pai são predominantemente vermelhas. Já as figurantes na cena do baile formam uma massa em tons acobreados e de verde e amarelo pastel, compondo um degradê que emoldura a valsa dos dois enamorados.

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A leveza dos trajes de Edith contrasta com a restrição dos trajes de Lucille Sharpe (Jessica Chastain), irmã de Thomas. Seus vestidos são justos, com corpetes marcados, gola alta e mangas longas, confeccionados em veludo ou cetim. Não há um só movimento em Lucille que seja espontâneo. Tudo precisa ser calculado e sua roupa conota isso. Ainda nos Estados Unidos, vermelho vivo e preto são as cores que utiliza. Elas transmitem um senso de morbidez e perigo adequado à personagem.

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Edith e Thomas se casam rapidamente e se mudam para a mansão dos dois irmãos, na Inglaterra. A construção é um personagem por si só, responsável por criar a atmosfera adequada para o encaminhamento da trama. A falta do telhado no saguão principal traz para dentro da casa o clima de fora, seja as folhas secas ou a neve caindo. As paredes, manchadas e predominantemente verdes destacam o vermelho que aparecerá recorrentemente. A casa foi construída sobre uma mina de argila vermelha, que no inverno vem à tona manchando a neve e conferindo o nome ao cenário: a colina escarlate.

Lucille, em casa, prioriza o uso de cores escuras. Se nos Estados Unidos vestiu preto e seu irmão também, aqui ela usa frios tons fechados de azul e novamente é acompanhada por ele. Essa estratégia trata de ligar os dois. 007

No dia de sua chegada, Edith veste um casaco longo cinza, adornado com violetas e segura uma espécie de buquê da mesma flor. Tradicionalmente a violeta e sua cor são usados como símbolo de luto. Mas por baixo do casaco, ela usa um vestido de cor amarela.

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Desse momento em diante, os trajes de Edith seguem esse padrão: o amarelo cada vez mais intenso, beirando a cor de mostarda, ligando-a a sua casa, e elementos em tons escuros de luto, que a trazem para a casa nova.

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Quando está despida, utiliza uma longa camisola branca, com mangas bufantes, de tecido vaporoso e novamente com textura enrugada. A peça destaca a fragilidade da personagem, que se torna pequena em contraste com detalhes da cenografia, como os longos corredores, os grandes cômodos e a enorme poltrona da sala. A casa por si só parece ameaçadora, pois os adornos e esculturas projetam-se como estacas das paredes ou estalactites dos tetos.

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Comparar A Colina Escarlate com outros filmes, em virtude de sua temática ou estética, não é difícil. Thomas, com seus óculos escuros, remete facilmente ao personagem título de Drácula de Bram Stocker, de Francis Ford Coppola, especialmente por também se tratar de um romance gótico.
Edith, que não deseja ser uma Jane Austen, mas sim uma Mary Shelley, nada fala sobre as irmãs Brontë, responsáveis por clássicos da literatura gótica. Mas sua própria história guarda grande semelhança com Jane Eyre, livro escrito por Charlotte Brontë. Talvez Edith não seja tão decidida quanto Jane para manter distância daquele que ama, mas o clima fantasmagórico e sobrenatural, o romance trágico e mesmo a temática da mulher louca no sótão podem, em maior ou menor grau, ter paralelos em sua história. Coincidentemente Mia Wasikowska também encarnou a última versão de Jane Eyre, de 2011, dirigida por Cary Fukunaga. Ela e Tom Hiddleston também interpretaram cunhados em outro romance com clima trágico, Amantes Eternos, de Jim Jamursch, com figurino também analisado aqui.
Por fim, é fácil ver semelhanças entre Lucille e a Sra. Denvers, governanta do filme Rebecca de Alfred Hitchcock, bem como entre as casas de ambos os filmes. E se Lucille é contida pelos seus trajes, é a partir de quando tira seu corpete e liberta o próprio corpo que deixa de restringir suas ações e dá início ao ato final.

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Apesar de todas essas possíveis comparações, a estética de A Colina Escarlate é bastante única. Del Toro demonstra todo o cuidado com a criação de ambientação que case com a atmosfera fantasmagórica que deve emanar da história. O figurino de Kate Hawley não só é adequado para a época retratada, como, através de suas formas e paleta de cores, acrescenta camadas de interpretação aos personagens principais. O perigo, o trágico, o calor do pertencimento, a fragilidade, a sintonia: todos esses elementos são externados através das roupas dos personagens, tornando A Colina Escarlate uma narrativa ainda mais interessante visualmente.

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