Tag Archives: figurino

Figurino: Juventude Transviada

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Vocês estão acabando comigo!

James Dean é um dos rostos mais icônicos da história do cinema. Mesmo quem nunca assistiu a um filme seu, facilmente reconhecerá sua imagem. Símbolo da juventude de uma época, faleceu jovem, aos vinte e quatro anos. Em Juventude Transviada encarna justamente o sentimento de impotência, de dúvida e de falta de sentido dessa mesma juventude. O filme foi dirigido por Nicholas Ray e o figurino é de Moss Mabry, em um de seus primeiros trabalhos.
Os três personagens principais são Jim (interpretado pelo próprio James Dean), Judy (Natalie Wood) e John, apelidado de Platão (Sal Mineo). A história toda se passa em apenas um dia e os três se vêm pela primeira vez uma mesma delegacia durante a madrugada. Jim foi detido por estar bêbado causando desordem na rua. Judy foi encontrada vagando sozinha e Platão havia atirado em cachorrinhos. Apesar da prosperidade financeira da sociedade estadunidense de então, os adolescentes do filme tinham suas dúvidas e seus medos, em grande parte causados pelos próprios pais.

01

No caso de Platão, eles jamais estão em casa e quem toma conta dele é uma empregada doméstica (interpretada por Marietta Canty). A personagem é escrita de acordo com o estereótipo de uma Mammy, e não possui sequer um nome.

02

O problema de Judy é relacionado ao seu pai. Ele ao mesmo tempo se recusa a aceitar o crescimento de sua filha e se nega a manter uma relação afetuosa em virtude dele. Judy relata que ao vê-la maquiada para sair, ele esfregou os lábios dela, espalhando batom vermelho em seu rosto e chamando-a de vagabunda. Foi por isso que ela estava andando sozinha de noite. Mas quando, mais tarde, ela o beija, ele a esbofeteia, afirmando que não tem mais idade para esse tipo de demonstração. A maturidade sexual da garota, que perturba o pai, é expressa em sua roupa completamente vermelha, destacando-a das demais pessoas da delegacia.

03

Jim, por sua vez, tem problemas em aceitar seu pai, a quem vê como um homem fraco, que se esforça para ser seu amigo e não assume o papel de uma figura de autoridade. Para ele, a postura condescendente da mãe e da avó é disfarçada por afeto superficial, respingado por mentiras. Quando os pais o buscam, vieram de um baile e o smoking, as peles e as joias externam sua condição financeira privilegiada. A dominação por parte da mãe é expressa através do próprio jogo de câmera, em um plano que a enquadra de baixo para cima, destacando seu lugar de poder.

04

O responsável por cuidar dos jovens na delegacia apresenta-se, à princípio, como mais um dos adultos, com seu insosso paletó marrom. Ele retira a jaqueta quando chama Jim para falar a sós e este tenta agredi-lo. Nesse momento ele também ainda é enquadrado como uma figura de poder, visto de baixo para cima, mas logo fica claro que é ele quem mais se conecta com os jovens. Lado a lado, sem o paletó, ele e Jim são iguais, ainda que o rapaz exiba a gola da camisa levantada, como marcador de diferença de geração. Para manter a postura diante dos pais, ele volta a vestir o paletó antes de reencontrar com eles.

05

Jim guarda o espalho de bolsa de Judy, que encontrou na delegacia. Esse momento vai se refletir posteriormente quando ele o devolver a ela, conectando os dois.

06
Em seu primeiro dia de aula na nova vizinhança, novamente é possível ver a boa situação financeira de Jim: ele veste uma camisa branca sobre uma camiseta e um blazer de lã, como um rapaz comportado de classe média. Suas roupas são muito mais formais e convencionais que as dos demais rapazes à porta da escola, com suas jaquetas de camurça e couro e seus suéteres. As garotas usam saias rodadas, rabos de cavalo, sapatilhas e sapatos Oxford com meia. Em determinado momento o foco é dado aos pés dos membros da gangue de Buzz, namorado de Judy. O grupo faz uso de calças jeans, alguns com a barra dobrada para fora, além de botinas, de acordo com a imagem de rebeldia pretendida por eles.

07

Em mais uma briga com os pais, Jim, que mais cedo não havia se incomodado em ver sua mãe com um avental amarelo adornado com babados servindo o café da manhã, agora observa o pai com a mesma peça e irrita-se com isso. O fato de pai não se encaixar no padrão hegemônico de masculinidade faz com o interprete como um covarde, e essa covardia é expressa no uso do avental materno. O pai é visto como subalterno e preso à casa. Isso é literalmente expresso pela câmera subjetiva representando seu olhar sobre a figura paterna. Jim pede ao pai que se erga do chão, como se limpar não fosse serviço adequado a ele.

08

Em outro momento, quando discute com os pais e confronta, especificamente, seu pai, o ângulo holandês externa que para Jim algo não está certo. A escada garante visualmente o posicionamento da hierarquia doméstica, com a mãe acima dos dois e o filho desafiando o pai.

09

Quando sai de casa, Jim finalmente externa seu descontentamento através das roupas. Ao invés da camisa anterior, veste apenas uma camiseta. A peça de vestuário até pouco tempo era considerada apenas uma roupa íntima, mas se tornou popular entre os jovens usada dessa maneira, à mostra, especialmente por conta do personagem de Marlon Brando em Uma Rua Chamada Pecado, cujo figurino já foi analisado aqui. Ao invés de blazer ou paletó, agora também veste uma jaqueta como os demais rapazes. O vermelho dela é uma maneira, também, de externar sua angústia.

10

Platão, por sua vez, continua usando camisa e gravata, mas dessa vez com uma jaqueta de veludo cotelê que parece muito grande para ele. Os ombros são mais largos que os seus próprios. É como se ela fosse emprestada de algum adulto, esses que quase totalmente se ausentam de sua vida. Ele parece mais jovem que os outros garotos, mas não por isso menos melancólico. Os pais estão distantes, não tem amigos e sua homossexualidade, sugerida na narrativa, é literalmente escondida dentro do armário.

11

Jim, Judy e Platão fogem juntos para uma mansão abandonada. Este é o momento em que os três compõem uma família ao seu jeito, ainda que com interesses amorosos cruzados que se delineiam; e riem, sem o peso do mundo exterior sobre os ombros. Platão havia recusado o casaco que Jim lhe ofereceu na delegacia, mas agora aceitou a jaqueta vermelha que lhe foi ofertada. Esse é outro momento que espelha o contato inicial dos personagens.

12

Tudo acontece muito rápido no final. Platão possui um revolver e a polícia, a autoridade máxima dos adultos sobre os adolescentes, age primeiro para depois perguntar. O mundo de Jim novamente se desloca para um ângulo holandês, pois as coisas novamente deixam de fazer sentido, com ele e Judy desfocados em segundo plano enquanto Platão cai baleado. John, que viveu só, morreu entre aqueles que gostavam dele e Jim fecha a jaqueta vermelha para que possa continuar com ela, como um elemento que os uniu.

13

Todos os três personagens principais do filme tem boa situação financeira, mas não é dinheiro ou conforto que desejam. Querem compreensão e afeto. Querem externar sua raiva e sua angústia. Querem não ter medo do futuro e não ter que esperar por ele para que as coisas fiquem bem, afinal, dez anos é muito tempo, como salienta Jim. James Dean com sua jaqueta vermelha se tornou uma imagem marcante, símbolo de uma geração que realmente era rebelde sem causa, como indica o título original. Eles não lutavam por direitos civis ou pelo fim de uma guerra. Eles queriam expressar sua individualidade e não serem como seus pais. Sessenta anos após a morte do ator, Juventude Transviada segue sendo um filme memorável.

Share

Figurino: Garota Exemplar

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Aviso: esse texto contém revelações de detalhes da trama do filme.

“Sim, eu te amei e então tudo que fizemos foi nos ressentir, controlar um ao outro. Nós nos causamos dor. ”

“Isso é casamento. ”

Garota Exemplar é um filme fascinante e manipulativo, que brinca com as expectativas de quem o assiste. Dirigido por David Fincher, seu roteiro foi adaptado por Gillian Flynn do livro homônimo escrito por ela mesma. O figurino é de Trish Summerville, relativamente novata na indústria e que antes desse filme trabalhou em Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, também com Fincher, e Jogos Vorazes: Em Chamas. (Para ler a análise do figurino deste último, acesse aqui). Embora com poucos filmes creditados em seu currículo, Summerville mostra segurança em seus trabalhos. O cuidado que teve para com a narrativa de Garota Exemplar é uma prova. Figurinos confeccionados para filmes de época ou mesmo de fantasia são facilmente elogiados, uma vez que geralmente tem maior apelo visual para o público. Muitas vezes a beleza de um figurino contemporâneo pode passar despercebida, justamente por ser mais sutil. Neste filme, cada detalhe ajuda a contar a história.

Acompanhamos a história sob o ponto de vista de Amy (Rosamund Pike), que, em seu diário, relata sua vida com Nick (Ben Affleck). Eles se conhecem de uma maneira que parece saída de uma comédia romântica, com direito a diálogos afiados e literalmente uma nuvem de açúcar os envolvendo. Amy veste uma camiseta listrada branca e preta, saia, botas de cano alto e sobretudo preto. Ela é uma típica nova-iorquina urbana, que dá preferência a roupas escuras e bem cortadas. Seguindo esse padrão, no dia em que Nick a pediu em casamento, usava um vestido preto e no aniversário de 2 anos de casamento, um floral preto e branco.

01

Tudo ia bem na vida do casal, até Amy perceber que Nick não se esforçava como deveria. Desempregado, não tinha ambição nem objetivos, mas mantinha um padrão de consumo bastante elevado. O ápice da decepção veio com a necessidade de se mudar para o interior, para ficar mais perto da família dele. Trabalhando em casa e sem amigos, ela troca suas roupas modernas por calças, camisetas e pulôveres confortáveis. Amy deixa de ser quem ela realmente desejava ser. É assim, vestida inteiramente de preto que ela relata a primeira agressão de Nick e o medo constante decorrente dela.

02

É no aniversário de cinco anos de casamento que Amy desaparece. Nick se torna o principal suspeito. Durante a manhã, ele sai de casa vestindo uma camiseta azul e uma camisa azul claro por cima. Dois dias depois ele ainda está com a mesma roupa, já amarrotada. Ao longo dos anos as roupas dele pouco vão mudar. Sua paleta é composta de azuis e cinzas, às vezes com estampas xadrez e suas roupas são camisetas, camisas de botão, moletons e calças jeans. Lembrando que o relato é sob o ponto de vista de Amy, ele é apresentado como um homem mediano, que não ousa, não a surpreende nem desafia. É um homem comum, apesar de tudo.

03

Os pais de Amy aparecem para ajudar na busca da filha. Eles são apresentados como pessoas rígidas, que acham que ela jamais era boa o suficiente. Ainda quando ela era criança, criaram a personagem de livros infantis Amazing Amy como uma versão melhorada dela. Por serem entendidos por Amy como essas pessoas insípidas e incapazes de ter laços reais com ela, eles sempre aparecem vestidos em tons de bege.

04

Amy, que como é revelado, fugiu de casa, ganha peso e começa a vestir roupas desleixadas, largas e sem muito apelo estético, para passar despercebida por onde vai.

05

Ao ser roubada, precisa recorrer à ajuda de seu ex-namorado Desi (Neil Patrick Harris). Ele é passivo-agressivo e controlador e por isso escolhe as roupas que ela usa e a cor e o corte de seu cabelo. Não deixa de ser irônico, após seu discurso sobre a cool girl, que se adapta aos homens ao seu redor, já que de certa forma ela fez isso, mas por sobrevivência.

06

Acompanhando pela televisão as notícias e investigações a respeito de seu suposto sequestro, Amy descobre em Nick o homem que aspirava que ele fosse quando casaram. Por isso ela resolve voltar e transformar esse retorno em um verdadeiro espetáculo midiático.

07

Em um primeiro momento ela vende uma imagem de fragilidade, além de uma feminilidade tradicional, com tecidos fluidos e rendas.

08

Ao final, quando revela a Nick sua gravidez, ela volta a assumir o controle da situação, a despeito da violência dele, e por isso retoma sua versão nova-iorquina, com um vestido em preto e branco, com corte reto e poucos detalhes. Dessa forma ela demonstra novamente quem é de verdade.

09

O trabalho de Trish Summerville é impressionante: embora minimalista, casa com perfeição com a narrativa proposta por David Fincher. Até mesmo o fato de todos os personagens principais se vestirem em tons frios ou neutros dialoga com a total ausência de tons quentes no filme. Mesmo o filtro amarelo, que é intercalado ao branco-azulado na fotografia, não é cálido. Em um filme em que a construção dos personagens e nossa percepção a respeito deles é essencial para comprarmos as justificativas de suas ações e entendermos as negociações e reviravoltas, as roupas, mesmo que pouco percebidas, são de extrema importância.

“No que você está pensando? Como está se sentindo? O que fizemos um ao outro? O que faremos?”

10

Share

Personagens Femininas e Seus Figurinos em Filmes de Ação

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Esse espaço sempre foi utilizado para discutir figurinos no cinema, oras partindo para interpretações subjetivos, oras pensando em termos de contexto histórico ou social. Invariavelmente escapam análises que vão para além do figurino e se estendem para a direção de arte como um todo, mas também para temas relacionados à representação, especialmente em se tratando de gênero. Dessa vez a proposta desse texto vai ser um pouco diferente: ao invés de focar em um filme, vou levantar alguns pontos a respeito dos figurinos utilizados por personagens femininas em filmes que envolvem ação e aventura, especialmente a falta de praticidade e de conforto proporcionada por eles. O foco é o cinema, mas como muitas vezes as mídias dialogam entre si, quadrinhos, videogame e televisão serão citados também.

Star Wars: Episódio VII- O Despertar da Força não estreou ainda, mas muitas pessoas já o esperam ansiosamente. Há poucos dias, na página de facebook do Star Wars, um fã da série deixou um comentário a respeito de uma nova personagem, Capitã Phasma, também chamada de Chrome Trooper, cuja imagem já havia sido divulgada. Ele afirmou o que pode ser traduzido como: “Não quero ser sexista, mas é realmente difícil para mim dizer que essa é uma armadura feminina”. O “não quero ser sexista, mas…” já era sintomático, mas a equipe de social media da página respondeu de forma clara: “É uma armadura. Em uma mulher. Ela não precisa parecer feminina”.

01

Imagem do comentário deixado na página do Star Wars e resposta da mesma.

 

Capitã Phasma, em foto divulgada pela revista Vanity Fair.

Capitã Phasma, em foto divulgada pela revista Vanity Fair.

O figurino de Star Wars é desenhado por Michael Kaplan, que começou sua carreira em Blade Runner (cujo figurino já foi analisado aqui) e essa personagem em particular tem o visual claramente inspirado nas roupas de stormtroopers dos outros filmes da franquia. Mas mesmo que não fosse o caso, a questão aqui é a sua proteção. Independente do gênero, essa é (ou deveria ser) a função de uma armadura. Uma armadura tradicional, feita para uma narrativa que se passa em um contexto medieval, de ficção científica ou de fantasia, vai ter, basicamente, as mesmas características. As placas principais vão cobrir cada parte das pernas e braços, um elmo ou capacete para a cabeça e uma grande placa peitoral para o tronco. As juntas sempre são o ponto fraco em se tratando da segurança, pois não podem ser rígidas, para preservar a mobilidade.

Mas o mais importante é: quem veste a armadura não está nu por baixo. Aparentemente, pela expectativa de certa parte do público, esse fato pode parecer inacreditável, mas a verdade é que seios no peitoral não fazem sentido, uma vez que a placa não está em contato direto com o corpo, seguindo suas formas. Uma mulher ou homem não só utilizarão pelo menos um tipo de camisa por baixo da armadura, como também algum material acolchoado, para evitar o impacto, de maneira que suas formas se perdem dentro da proteção. Mas, mais que isso, o ideal é que as laterais do peitoral tenham uma angulação maior que o peito da pessoa, para que lanças, flechas e outras armas arremessadas sobre ele deslizem sobre a superfície. Uma placa que tivesse o formato de seios faria sua portadora correr o risco de fraturar o esterno, pois a depressão entre eles funcionaria como uma cunha sob o impacto de um golpe.

Com seus impressionantes 1,91m de altura, a atriz Gwendoline Christie, que interpreta a Capitã Phasma, também encarna Brienne de Tarth, na série de televisão Game of Thrones. Lá a figurinista Michele Clapton também providenciou a ela uma armadura funcional e adequada às atividades da personagem. Percebe-se que a peça tem uma linha central no peitoral, marcando a inclinação para as laterais que ajuda na proteção.

03

Existem bons exemplos de mulheres vestindo armaduras funcionais no cinema. A rainha Elizabeth I da Inglaterra, interpretada por Cate Blanchett com figurino de Alexandra Byrne no filme Elizabeth: A Era de Ouro, de 2007 é uma delas. A Branca de Neve de Kristen Stewart em Branca de Neve e o Caçador, de 2012 é outra. Nesse caso o figurino fica por conta de Colleen Atwood, que também foi responsável por O Silêncio dos Inocentes, cuja análise pode ser lida aqui. Ambas as personagens contam com proteções nos ombros e usam cotas de malha. A rainha veste uma peça decorada e talvez a cintura marcada não seja uma boa decisão, mas o peitoral tem um formato adequado. Branca de Neve ainda conta com calças de couro, bem como o braço de segurar o escudo no mesmo material.

04

Entre os lançamentos dessa última temporada do verão americano, Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros também gerou muitos comentários a respeito de sua protagonista, Claire (Bryce Dallas Howard). Ela é retratada como uma pessoa rígida, focada no trabalho de administradora do parque e incapaz de se conectar com os sobrinhos que a estão visitando. Essas características são externadas pelo figurino impecavelmente claro, acompanhado de sapatos de salto alto beges, que destoam das roupas de lazer dos visitantes e das práticas dos demais trabalhadores dos bastidores do funcionamento. A personagem passa por todas as desventuras retratadas no filme sem jamais remover os fatídicos sapatos dos pés.

05

A ideia parece ser de mostrar que ela é capaz de tudo: administrar o parque, correr na mata e atrair um tiranossauro sem jamais tirar o salto, como se isso fosse empoderador. Não que se deva cobrar realismo em um filme repleto de dinossauros vivos, mas exigir resistência sobre-humana de uma personagem (que, como tal, foi escrita e idealizada dessa maneira por alguém) reflete apenas os padrões irreais com que as mulheres são retratadas no cinema. E isso é válido mesmo que a ideia tenha partido da atriz, afinal, esse é o meio em que ela está envolvida. Uma pessoa que tenha passado pela experiência de andar sobre um salto sabe que é humanamente impossível correr como Claire corre e por tanto tempo. O contraste com a Doutora Ellie Sattler (Laura Dern) não poderia ser maior. A paleobotânica foi representada à vontade com sua roupa adequada ao trabalho de campo no primeiro Jurassic Park, de 1993.

06

Não é à toa que, em Tudo Por uma Esmeralda, de 1984, dirigido por Robert Zemeckis, o aventureiro John T. Colton (Michael Douglas) quebra o salto dos sapatos de Joan Wilder (Kathleen Turner), quando ambos estão na selva.

gif esmeralda

Quando uma personagem é construída para ser uma profissional que tem que lidar com ação cotidianamente, isso tem que ser levado em conta. Por isso a construção de Ilsa Faust, interpretada por Rebecca Ferguson no novo Missão Impossível- Nação Secreta funciona quase como uma resposta a Claire. Espiã experiente, em determinado momento da trama Ilsa se veste com vestido longo e fluido, que não impede seus movimentos, além de sandálias de salto alto. O conjunto é necessário como disfarce, uma vez que ela está em uma ópera, o que pede traje de gala. Ainda assim, quando ela precisa fugir ao lado de Ethan Hunt (Tom Cruise), prontamente pede que ele retire seus calçados, pois sabe que eles não são ideais. Essa sequência pode ser vista no vídeo abaixo. No restante do filme a espiã sempre utiliza botas sem salto, adequadas para corrida.

07

Há pouco tempo foi revelada a aparência da nova Mulher Maravilha (Gal Gadot), que vai participar do filme Batman vs Superman: A Origem da Justiça, previsto para o ano que vem; e de Liga da Justiça e do filme solo Mulher Maravilha, ambos previstos para 2017. O figurino é desenhado por Michael Wilkinson, que também já trabalhou em Noé e Trapaça, cujos figurinos podem ser conferidos aqui e aqui.

08

Em primeiro lugar a bota possui um salto bastante alto, disfarçado como anabela. Também é possível perceber que o corpete da personagem é feito de um material rígido, como uma carapaça. Ora, detentora de super-força garantida pela deusa Deméter e multiplicada por dez vezes pelo seu bracelete de Atlas, a heroína não tem necessidade de uma roupa com armadura. Se fosse o caso, uma com o contorno dos seios, como essa, seria mais perigosa do que segura, conforme já explicado. Além disse ela necessitaria proteger braços e pernas também.

Como não precisa desse tipo de proteção, poderia se pensar em algum tipo de roupa mais prática para a movimentação. Os saltos definitivamente não se encaixam nesse quesito. É possível que sua hot pant tradicional também não seja a melhor opção e talvez calças confeccionadas em tecido com boa elasticidade o fossem. Foi assim que ela foi vestida no seriado de 2011 Wonder Woman, nunca lançado, quando foi interpretada por Adrianne Palicki.

09

Mesmo assim, ambas contam com outro ponto de desconforto: o corpete tomara-que-caia. Novamente, qualquer pessoa que já teve a experiência de usar essa peça de vestuário sabe que ela não é a ideal para correr e pular e provavelmente a personagem levaria a mão mecanicamente ao decote, puxando-o para cima de tempos em tempos.

Ainda que o tomara-que-caia faça parte do visual clássico da personagem, em se tratando de uma adaptação de cinema, tudo é possível. Os uniformes dos heróis nos quadrinhos foram originalmente inspirados pelas roupas de artistas circenses, mas cada um passou por diversos modelos e formas ao longo dos anos e a pessoa responsável pelo figurino tem liberdade para tomar decisões a respeito do resultado final que almeja. Tanto é que que as cores escuras dessa versão cinematográfica, nesse caso, em nada correspondem ao azul e vermelho abertos comumente associados à heroína. E de toda forma, em sua última encarnação nos quadrinhos ela já aparece com calças e uma blusa fechada, que jamais teimariam em cair.

10

Mesmo a Supergirl (Melissa Benoist), da série homônima que deve estrear esse ano, mantem o uniforme tradicional, mas com botas sem salto, saia mais longa e camiseta simples, com punhos presos aos dedos, passando a ideia de que nenhum tecido atrapalha seus movimentos. As meias-calças provavelmente vão puxar um fio e desfiar na primeira atividade física, mas, no geral, é o tipo de roupa que não é imprópria à ação. O figurino, aqui, também é desenhado por Colleen Atwood.

11

As expectativas em termos de representação dos gêneros são bastante diferentes quando se leva em consideração o cinema de ação e aventura em geral. Tomemos um exemplo que talvez possa ser visto como extremo, mas que ilustra tal fato. Os dois personagens abaixo têm a mesma profissão, ainda que à primeira vista pareçam ter pouco em comum: ambos são arqueólogos.

12

Indiana Jones (Harrison Ford) teve seu visual, com chapéu e jaqueta de couro, estabelecida em Os Caçadores da Arca Perdida, de 1981, pela figurinista Deborah Nadoolman (que também trabalhou no clássico da sessão da tarde Um Príncipe em Nova York). Enquanto busca por suas relíquias entre as décadas de 1930 e 1950, o personagem tem as pernas resguardadas de qualquer eventual arranhão, enquanto a jaqueta protege seus braços e tronco.

Já Lara Croft (Angelina Jolie), personagem contemporânea adaptada dos videogames, apareceu em dois filmes: Lara Croft: Tomb Raider, de 2001 e Lara Croft: Tomb Raider – A Origem da Vida, de 2003. Em ambos ela foi vestida pela figurinista Lindy Hemming. O que mais chama atenção é que suas pernas estão completamente desprotegidas para qualquer tipo de impacto que possa receber. Novamente optou-se por manter a aparência que ela possuía nos jogos, ignorando que uma nova mídia permitiria a alteração desta. Vale notar que em 2013 a personagem passou por uma remodelação, deixando seu físico mais realista e trocando os shorts por calças.

13

Muitas vezes figurinistas, diretores e demais responsáveis pela aparência de personagens femininas em filmes que envolvem cenas de ação e aventura as colocam em um papel fetichizado, desnecessário para o desenvolvimento da trama e especialmente das próprias personagens. Outras vezes esse pode até não ser o caso, mas o retrato é preguiçoso e parece não levar em conta o ambiente em que elas estão inseridas e suas ações. As roupas de qualquer personagem, independente de gênero, deveriam ser pensadas de maneira a refletir as atividades que ele precisa desempenhar em cena. Personagens como Sarah Connor (Linda Hamilton)  e Ripley (Sigourney Weaver) sempre são lembradas quando os gêneros de seus filmes são citados e vestem uma roupa prática  e um macacão de uniforme, respetivamente.

14

Ainda esse ano Imperatriz Furiosa, interpretada por Charlize Theron, roubou a cena em Mad Max: Estrada da Fúria, vestindo figurino de Jenny Beavan. A personagem fácil e rapidamente se transformou em um novo ícone feminista, tudo isso com uma roupa que não só não a objetifica, como faz todo sentido estética e conceitualmente no cenário distópico proposto pelo filme. Pelo menos metade do público consumidor de cinema é composto por mulheres, mas a quantidade de pessoas não deveria importar quando o que está em jogo é a construção de personagens. Todos os grupos deveriam ter direito de verem na tela constructos que façam sentido e não sejam meras caricaturas, fabricadas para o olhar de um público específico. Sim, trata-se de ficção e muitas vezes em mundos fantásticos, mas ainda assim, a representação de personagens femininas importa, e muita. Com um pouco mais de empatia por parte dos responsáveis é possível fazer filmes melhores.

?????????????????????????????

 

Share

Figurino: Velvet Goldmine

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Nós nos propusemos a mudar o mundo… e no final só mudamos nós mesmos. 

O ano é 1974. Brian Slade (Jonathan Rhys Meyers) está no auge de seu sucesso quando é baleado no palco, em uma apresentação. Dez anos depois, Arthur (Christian Bale), que ainda adolescente presenciou tudo da plateia, agora um jornalista britânico morando nos Estados Unidos, é alocado para investigar o acontecimento, que se sabe ter sido uma grande farsa que permitiu Brian sumir do mapa. Assim começa Velvet Goldmine, dirigido por Todd Haynes. A figurinista é Sandy Powell, colaboradora nos últimos filmes de Scorsese e também responsável por trabalhos memoráveis como Orlando, entrevista com o Vampiro, A Jovem Rainha Vitória e, recentemente, Cinderela, que já foi analisado neste espaço.

001

Velvet Goldmine, filme de 1998, é um mergulho em uma época específica sob o olhar de Arthur, que, como jovem, está em busca de seu espaço e de sua identidade. Brian Slade é um astro do glam rock, movimento do começo da década de 70 marcado pelo excesso, a teatralidade e a androginia. O filme ainda brinca como uma cronologia de pessoas e movimentos que ficaram marcados como exuberantes, começando pelo escritor Oscar Wilde. Powell trabalhou basicamente com suas próprias memórias da época, mas as similaridades entre os personagens com pessoas da vida real auxiliaram em sua tarefa. O próprio Brian tem semelhanças com David Bowie, de quem toma emprestado os macacões colados e botas de plataforma, por exemplo.

David Bowie em 1972.

David Bowie em 1972.

Outras referências para os figurinos de suas apresentações são as bandas Slade (de onde, obviamente, veio a inspiração para o nome do personagem) e Sweet.

Em cima, a banda Slade em data não determinada e embaixo a banda Sweet em 1973.

Em cima, a banda Slade em data não determinada e embaixo a banda Sweet em 1973.

No começo de sua carreira, no final dos anos 60, Brian Slade toca em um festival usando um vestido roxo acompanhado de botas, similares aos que Bowie usa na capa de seu disco The Man Who Sold the World. O vestido era uma tentativa do personagem de transgredir os padrões da época, especialmente no que diz respeito às fronteiras entre masculino e feminino. A recepção da plateia à sua performance é morna.

004

Capa do álbum The Man Who Sold the World.

Capa do álbum The Man Who Sold the World.

Na sequência, o cantor Curt Wild (Ewan McGregor) entra em palco com uma apresentação que, esta sim, quebra barreiras e diverte. Usando calça de couro, Curt joga óleo sobre seu corpo, simula masturbação em um vidro que goza purpurina sobre seu corpo e, por fim, fica nu.

006

A persona com sexualidade aflorada de Curt é baseada em Iggy Pop, que nesse período era vocalista da banda The Stooges; porém tem contornos de Lou Reed, vocalista e guitarrista da banda The Velvet Underground que era abertamente homossexual. Bowie, Reed e Iggy Pop eram amigos costumeiramente vistos juntos na década de 1970. No filme, Curt e Brian começam um relacionamento, o que faz com que o segundo lance a carreira do primeiro na Inglaterra.

Em cima, Iggy Pop e embaixo, da esquerda para a direita, David Bowie, Iggy Pop e Lou Reed.

Em cima, Iggy Pop e embaixo, da esquerda para a direita, David Bowie, Iggy Pop e Lou Reed.

Quando sua carreira decola, Brian cria um personagem para si, chamado Maxwell Demon, uma alusão ao Ziggy Stardust de Bowie. Já não usa mais os cabelos longos, nem vestidos. Estes são trocados por um corte curto, desfiado e paletós espalhafatosos.

008

No ápice de sua carreira, aproximando-se da decadência, o cantor passa a exibir cabelos azuis.

009

A banda de Brian chama-se Venus In Furs, nome de uma canção de The Velvet Underground. Os absurdos em relação à forma como eles se vestem no palco são demonstrados em uma cena em que uma moça pede emprego como secretária e acaba contratada como figurinista, mesmo afirmando que não tem experiência alguma com isso. As combinações são propositalmente esdrúxulas e chamativas.

010

Mandy (Toni Collete), esposa de Brian, acompanha os estilos de cada época, mas seu apreço é por brilho, peles e estampas de oncinha. Quando conhece Brian ela veste um vestido prateado, mas quando ele se apresenta no festival, muda para um estilo pós-hippie com gola de pelos, adaptando-se melhor ao que se espera no local. Na primeira turnê de sucesso, ela usa uma roupa que combina com a dele, novamente mostrando apoio à carreira de seu companheiro.

011

O auge é marcado por roupas que mais parecem fantasias, um volumoso casaco de pele e um sobretudo de oncinha em duas cores. Já o anonimato é marcado por trajes pretos e nenhuma maquiagem, ainda que com muitos acessórios.

012

Para Arthur há o completo contraste entre a liberdade, o uso de maquiagens, as roupas justas e o colorido de sua adolescência; em oposição ao marrom sem graça do presente.

013

Pelo seu trabalho como figurinista em Velvet Goldmine, Sandy Powell foi indicada ao Oscar em 1999. O prêmio foi para Shakespeare Apaixonado, também desenhado por ela. Em seu discurso, ela conseguiu mencionar o primeiro filme e não dizer o nome do segundo. Em entrevistas posteriores, é notório o fato de ter comentado que ela foi premiada pelo filme errado. Com um figurino inspirado, colorido e extravagante, Velvet Goldmine nos oferece o recorte de uma época que marcou a história da música e uma juventude, especialmente ao desafiar padrões pré-estabelecidos de gênero e de sexualidade. Como em outras gerações antes e depois desta, o sonho acabou sem que o mundo tivesse mudado em sua totalidade, mas o seu impacto é inegável.

Share

Figurino: Herói

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme

Wuxia é um gênero da ficção chinesa que engloba histórias de cavaleiros ou heróis praticantes de artes marciais em um período passado. No cinema, era conhecido por filmes com baixo custo de produção, até que O Tigre e o Dragão chegou ao mercado ocidental, em 2000, abrindo as portas para filmes posteriores. Herói, de 2002, foi lançado no Brasil apenas em 2005 e é outro exemplo do gênero. A direção é de Yimou Zhang e a trama faz uso do Efeito Rashomon, que, conforme comentado no Podcast Cinema em Cena #139: Grandes Filmes: Rashomon, consiste no uso de várias versões de narrativas que se contradizem para uma mesma história, como no clássico filme de Kurosawa. O diferencial, nesse caso, foi o uso marcado de cor para ressaltar cada uma das versões, tanto no figurino de Emi Wada quanto nos demais elementos presentes em cena.

Há mais de dois mil anos, em uma China dividida em sete províncias, o herói Sem Nome é recebido pelo Imperador da província de Qin (Daoming Chen), uma vez que afirma ter matado três famosos assassinos pelos quais recompensas foram oferecidas. O monarca é marcado pelo preto, que é não só a cor que usa em suas vestes, como a que aparece no uniforme de seu exército e mesmo seus cavalos.

001

Essa cor também vai predominar no flashback que mostra Nameless (“Sem Nome”, interpretado por Jet Li) derrotando Sky (“Céu”). Até mesmo os figurantes se vestem de cinza, o que ajuda a destacar o ocre da roupa de Sky.

002

Quando Nameless começa a narrativa a respeito de como conseguiu derrotar Flying Snow (“Neve Que Voa”, interpretada por Maggie Cheung) e Broken Sword (“Espada Quebrada”, interpretado por Tony Chiu Wai Leung), a cor predominante passa a ser o vermelho. A sua história diz que Flying Snow foi amante de Sky em algum momento passado e Broken Sword, ao descobrir, se envolve com Moon (“Lua”), sua ajudante. Enciumada, a própria Flying Snow o mata e, confrontada por Moon, acaba por assassiná-la também. Emocionalmente abalada e desestabilizada, é facilmente derrotada por ele em um duelo. Repleta de trajes vermelhos e detalhes em tons próximos de laranjas e amarelos, além de uma iluminação quente, é um relato de passionalidade e mentira.

003 O Imperador rapidamente o desmente, afirmando que guerreiros tão bem treinados jamais seriam derrotados dessa maneira tola. Por isso, ele apresenta a sua versão dos fatos, em que ao invés de traição, o que se tem é companheirismo e dedicação a uma causa. As roupas e cenários agora são azuis, e a luz passa a ser fria.

004

Nameless reconhece que parte da versão do Imperador está correta, mas o corrige em alguns detalhes importantes. Recomeça seu relato, mostrando onde estavam os erros. A verdade vem vestida de branco e agora paisagens e cenários assumem cores naturais, não mais marcadas por tintas carregadas de versões fantasiosas.

005

Dentro dessa sessão da trama, há um breve flashback que conta quando, três anos antes, Broken Sword encontrou com o Imperador. Nesse caso a cor utilizada é o verde, que vai marcar memórias passadas.

006

A história verdadeira é contada até o final, mas dessa vez manchada com o amarelo da bandeira que indica um plano que falhou. A verdade ainda é branca, mas agora filtrada por tons quentes.

007

Herói é um belo experimento narrativo, em que a cor possui papel essencial na construção de versões de uma mesma história.  É um filme esteticamente marcante, grande parte em virtude do trabalho da figurinista Emi Wada, que dialoga com o restante da direção de arte de maneira a marcar motivos e criar sensações a eles relacionados.