Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire/ 1951)

Assistido em 08/09/2013

Esse filme é adaptado da intensa peça teatral Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, que ficou em cartaz na Broadway entre 1947 e 1949. Foi dirigida por Elia Kazan, que viria a dirigir essa versão Hollywoodiana. Já em Londres a direção ficou por conta de Lawrence Olivier, cuja esposa, Vivian Leigh, interpretava a protagonista Blanche. A própria Vivian Leigh acabou obtendo o papel na adaptação cinematográfica.

Blanche é uma moça solteira, professora, que perdeu as terras de seus pais e se muda para a casa de sua irmã Stella (Kim Hunter) em busca de apoio, pois está emocionalmente abalada. Sua aparência física e suas roupas são preocupações constantes. Mas Stella é casada com um operário “polaco”, bruto, beberrão e sem modos, Stanley (Marlon Brando, que também atuou na peça). Stanley imediatamente antagoniza Blanche, questionando a origem de suas roupas caras, já que ela não tem dinheiro. E Blanche revida incitando a irmã a deixar o marido violento. Mas a dinâmica do casal é baseada em uma atração física intensa, contra a qual Blanche não tem como lutar. Ela  demonstra interesse no amigo dele, Mitch, pois esse aparenta ser melhor que os demais trabalhadores, morando com a mãe e sempre bem vestido e sem gestos rudes.  Mas Mitch vai provar não ser tão bom assim, e Stanley coroará as violências pelos quais Blanche passa e das quais não se recupera.

É importante a forma como a sequência inicial dá a pista da trajetória da personagem: ela aparece envolta no vapor do trem, já que seu passado é uma incógnita, e tem que pegar um bonde chamado Desejo e depois trocar por outra linha, chamada Cemitério. Conforme descobrimos os seus segredos percebemos que Desejo é o que motivou as ações dela no passado e que lhe trouxeram graves consequências e Envelhecimento e Morte é um medo constante, representado muito bem pela senhora vendendo rosas aos mortos que vê na rua. Seus gritos de “não, ainda não“, são muito representativos nesse aspecto.

A violência contra a mulher nesse contexto machista é uma constante. Não só Blanche sofre todo tipo de humilhação e violência pelo seu passado, como as mulheres casadas, como Stella e a vizinha Eunice, lidam diariamente com maridos abusivos. Nem a gravidez as poupa. É um ciclo contínuo de pobreza, jogos, bebida e agressão. A forma que Blanche tenta negar a realidade e criar seu próprio mundo de mágica, suas mentiras e suas verdades é uma ferramenta de defesa da personagem. Conforme mencionado no comentário a respeito de Tudo Sobre Minha Mãe, a ligação entre ambos os filmes é patente. Não só a peça é encenada lá, mas as ações de Stella se refletem naquelas de Manuela e a fala de Blache “Seja lá quem você for, eu sempre dependi da gentileza de estranhos.” espelha as ações das personagens naquele filme. 

O filme tem interpretações poderosas, embora algumas vezes Vivian Leigh escorregue para o excesso de teatralidade. A composição em cima de um texto ótimo ajuda e ele ainda conta com um a produção extremamente competente. Os cenários, praticamente restritos a um cortiço na vizinhança operária, são muito bem feitos e transmitem ao mesmo tempo a limitação de espaço, a claustrofobia e uma certa teatralidade herdada do original. Os figurinos, especialmente de Blanche, são muito bem feitos e a camiseta de Marlon Brando acabou por tornar-se peça incorporada ao guarda-roupa masculino. Para ler mais a respeito do figurino do filme, acesse aqui. A fotografia em preto e Branco é belíssima e uso de sombras chama a atenção. É fácil entender por Uma Rua Chamada Pecado tornou-se um clássico e é interessante perceber a influência que certos elementos do filme (como as camisetas de Stanley, seus gritos chamando por Stella e as falas de Blanche) exercem até hoje na cultura popular.

streetcar_named_desire

Share

Tudo Sobre Minha Mãe (Todo Sobre mi Madre)

Assistido em 02/09/2013

Mergulhado nas cores de Almodóvar, Tudo Sobre Minha Mãe é um filme que exala intensidade. A estética por si só já é intensa: cenários coloridos e vibrantes e suas mulheres de vermelho. O filme aborda suas trajetórias e essas também são provocativas. A protagonista é Manuela (Cecilia Roth), uma mãe solteira com ótima relação com o filho, apaixonado pela escrita. Na noite do aniversário dele, vão assistir à encenação da peça Um Bonde Chamado Desejo, estrelada pela grande atriz Huma Rojo (Marisa Paredes). Huma não está interessada em receber fãs, em uma clara referência à personagem Margot de A Malvada (All About Eve, referenciado também no título do filme). Ao correr atrás do carro da atriz, o rapaz é atropelado e morre. Manuela resolve voltar para sua cidade de origem e procurar o pai de seu filho, a travesti Lola, que não sabia da existência dele. Lá conhece e passa a ajudar a freira Rosa (Penélope Cruz), que está grávida, e reencontra a amiga Agrado (Antonia San Juan), travesti que conheceu na época de convivência com Lola.

Todas as mulheres tem histórias fortes e momentos interessantes. Todas, em maior ou menor grau, estão atuando, fingindo alguma parte de suas vidas. Da irmã Rosa que mente para os pais para ocultar a gravidez, passando por Manuela, que lida com múltiplos papéis ao longo da película, à Agrado, que, como diria Judith Butler, faz do gênero uma performance. A dedicatória final deixa clara essa conexão com a atuação: “A Bette Davis, Gena Rowlands, Romy Schneider, a todas as atrizes que interpretaram atrizes, a todas as mulheres que atuam, aos homens que atuam e se tornam mulheres, a todas as pessoas que querem ser mães. À minha mãe”.

Quando Manuela passa a frequentar os camarins de Huma, cheguei a pensar que, como Eve no filme homenageado, ela se aproveitaria de suas fragilidades para de alguma forma se beneficiar ou se vingar. Almodóvar optou por não compor paralelo entre as duas obras de forma tão óbvia. Já a relação com Um Bonde Chamado Desejo fica clara quando Manuela menciona que a peça é parte de sua vida. Na história, Stella deixa o marido e vai embora com seu bebê, como ela havia feito dezoito anos antes. Alem disso, a icônica fala ” Seja você quem for, eu sempre dependi da bondade de estranhos” se reflete na vida de todas as personagens, que terminam por formar uma malha de apoio mútuo, mesmo sem se conhecerem verdadeiramente.

Com temas como  maternidade, feminilidade, morte, gênero, AIDS, atuação e relacionamentos, Tudo Sobre Minha Mãe é um melodrama tocante e memorável, que fico feliz por ter conhecido apenas agora e não à época do lançamento.

Recomendo a quem tiver interesse o ótimo artigo de Sonia Maluf chamado Corporalidade e desejo: Tudo sobre minha mãe e o gênero na margem, em que aborda o fenômeno transgênero com foco na personagem Agrado e suas falas no filme. Interessantíssimo, vale a pena a leitura.

Todo sobre mi madre

Share

A Cor Púrpura (The Color Purple/ 1985)

Assistido em 29/06/2012

Acho que Deus fica lixado quando passas pela cor púrpura num campo qualquer e não dás por isso.

Alice Walker- A Cor Púrpura

Alice Walker, autora de A Cor Púrpura, é mulher negra e feminista e ativista de Direitos Humanos. O livro, lançado em 1982, carrega fortemente os seus ideais. Trata-se de uma história tocante de crescimento e busca da própria voz, onde questões de gênero desempenham papéis fundamentais. A protagonista, Celie, é uma menina de 14 anos que acabou de ter o segundo filho proveniente dos estupros do homem que considerava pai. Ambos os bebês, Adam e Olivia, são levados para longe dela. Ela é entregue em casamento a um viúvo, a quem chama apenas de Sr., que já possui três filhos pouco mais novos que ela. Sua irmã mais nova, Nettie, sai de casa para fugir do avanço do pai, mas, abrigada na casa Celie,  quando o Sr. começa a fazer o mesmo, tem que partir novamente. Celie apanha do marido, faz todas as tarefas domésticas, trabalha na roça e nunca reclama de nada. Um dia Sr. chega em casa com sua amante Shug Avery, uma mulher livre, cantora, dona de seu próprio destino. Shug passa a ser uma influência positiva na vida de Celie. A sororidade delas e outras personagens também é rara de se ver em obras de ficção.  O livro é relatado através de cartas que Celie escreve a Deus e a Nettie e, posteriormente, também aquelas que Nettie escreve a ela. Embora seja bastante dramático, a maneira como tudo é relatado, em linguagem coloquial, cativa o leitor. Difícil não mergulhar na jornada de Celie em busca de sua própria vida e autonomia ao longo das décadas.

Não podes amaldiçoar ninguém. És preta, és pobre, és feia, és mulher. Raios te partam, não és nada.

Por esse motivo eu assisti ao filme querendo amá-lo.  Infelizmente tal não se deu. O diretor, Steven Spielberg, optou por diluir a força da trama. Talvez tenha a ver com o fato de tanto ele quanto o roteirista serem homens brancos. Talvez seja apenas implicância minha e ele apenas tenha seguido seu instinto para filmes açucarados.

the-color-purple

Um decisão acertada foi o elenco, que é primoroso. Whoopi Goldberg, em seu primeiro papel, brilha como Celie. Na cena em que Shug insiste para que sorria sem esconder os dentes com as mãos (coisa que fazia porque seu pai falava que eles eram horríveis), o brilho inocente de seu olhar é tão bonito que dá vontade de abraçá-la pela tela. Ela transmite toda a fragilidade que Celie deveria ter. Sr., interpretado por Denny Glover e Shug, por Margareth Avery também estão ótimos. A única pena é que optaram por apenas delinear a relação da última com Celie como sendo amorosa, excluindo o que no livro é expresso abertamente: foram parceiras ao longo dos anos, apoiando-se mutuamente. Oprah Winfrey como Sophia, nora do Sr., parece um pouco deslocada. Sua primeira aparição, marchando em direção a casa dele para falar que ia casar com seu filho, exibindo uma gestação avançada, é ótima. Mas por algum motivo algo em sua interpretação me desconectou dela no desenrolar da história. 

Eu comecei a pensar por que precisamos de amor. Por que é que sofremos. Por que é que somos pretos. Porque é que uns somos homens e outros mulheres.

Algo que me incomodou bastante foi o fato de os homens, todos negros, aparecerem como alívio cômico. Harpo, marido de Sophia e filho do Sr., cai do telhado incontáveis vezes e sempre parece desastrado, fraco e pequeno em comparação à esposa. Mesmo o Sr. atrapalhado pela chegada de Shug, é mostrado usando querosene para aumentar o fogo do fogão (com resultados previsivelmente ruins). Isso, aliado ao fato de que só vemos Celie levar um tapa uma vez, parece enfraquecer a violência que recai sobre ela (afinal, são apenas patetas), além de diminuir, de forma incômoda, todo um grupo de pessoas que aparece em cena.

Cá estamos nós, pensei, como dois velhos loucos que não passam de sobras de amor, a fazer companhia um ao outro à luz das estrelas.

As locações do filme são belíssimas e as tomadas nos campos funcionam muito bem. Destaco a cena de abertura, com as jovem Celie e Nettie correndo em meio às flores. Toda parte técnica, incluindo cenários e figurinos é muito boa (e esse é considerado uma das maiores esnobadas do Oscar, com onze indicações e nenhuma estatueta). A verdade é que é um filme bom e bem realizado e provavelmente eu teria gostado bem mais se não tivesse lido o livro, já que em comparação aparece pálido e diluído. Mas ambos merecem um olhar, nem que seja para conferir obras em que mulheres são protagonista, agentes e multidimensionais.

a cor purpura

Share

Livro: Fun Home

Fun Home é um romance gráfico autobiográfico de Alison Bechdel, lançado em 2006. No quadrinho ela conta sobre a passagem da infância para a adolescência e sua convivência com a família, especialmente seu pai. O nome Fun Home referencia a casa em que foram morar, onde funcionava um estabelecimento funerário. A casa era do século XIX e seu pai, através de coleta de móveis e objetos descartados, decorava-a como um museu. Esse foi seu primeiro conflito, já que Bechdel queria modernidade e não gostava de limpar todos aqueles lustres de cristal. Tudo na casa funcionava pela aparência: seu pai era um perfeccionista em se tratando de estética. Embora se desentendesse com ele, ele parecia fasciná-la. Ambos os seus pais eram professores de inglês, de modo que ela cresceu cercada por autores clássicos, que são constantemente citados e usados para amarrar a história. Fun Home é ao mesmo tempo seco e comovente: é autobiográfico mas contado quase com distanciamento. É uma leitura que prende e que passa rápido por esse motivo. O crescimento de Bechdel no livro acaba abordando assuntos como amor, sexualidade, gênero e perda. 

Share

Bombadeira (2007)

Assistido em: 25/01/2013


Assisti esse documentário em um evento realizado pelo PPGAS-UFAM, que contou com a presença do diretor, Luis Carlos de Alencar, para debate. A “bombadeira” do título é pessoa que aplica silicone (industrial) em travestis para depois moldar seus corpos. Às vezes é chamada também de fada-madrinha.Os depoimentos emocionam e algumas cenas incomodam visualmente (é mostrado, por exemplo, um procedimento completo de aplicação de silicone  no quadril). As personagens entrevistadas possuem as histórias de vida mais diversas, o que garante que não haja uma estereotipagem em relação ao fato de serem travestis. O que fica conosco após assisti-lo é a empatia e questionamentos. Será que esse tipo de prática não deveria ser feita de forma segura em ambientes hospitalares?

Share