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Figurino: … E o Vento Levou

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 03/09/2014.

Por que uma garota precisa ser tola para arrumar um marido?

…E o Vento Levou é o tipo de clássico atemporal, pleno de qualidade técnica, que passa de geração em geração e permanece uma obra impressionante, seja pela grandiosidade da escala, seja pela força de seus personagens e cenas memoráveis. Três diretores trabalharam durante os três anos de pré-produção e produção: George Cukor, Sam Wood e por fim Victor Flaming, único creditado no lançamento do filme. O figurino foi criado por Walter Plunkett, conhecido também por outros clássicos como King Kong, No Tempo das Diligências, Sete Noivas para Sete Irmãos e Cantando na Chuva.
A trama passa por momentos históricos dos Estados Unidos e retrata a história de Scarlett O’Hara (Vivien Leigh), uma mimada belle do sul que luta para sobreviver e vencer as adversidades; e sua relação com Tara, a fazenda de sua família. No começo do filme a personagem é em torno de uma década mais nova do que a atriz que a interpreta. Por esse motivo os trajes são feitos para conferir-lhe aparência jovial. Tecidos delicados, branco e babados volumosos predominam, bem como cabelos soltos adornados por fitas coloridas.

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Em determinada cena, se preparando para um piquenique, Scarlett é mostrada junto com Mammy (Hattie McDaniel), que puxa a amarração para deixar seu corpete o mais apertado possível. Na mesma sequência ela veste a ampla anágua que dava forma às saias volumosas utilizadas naquela década de 1860. A falta de praticidade das roupas íntimas femininas da época fica bastante clara.

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Transbordando coquetismo, Scarlett é o centro das atenções dos rapazes de sua idade. Melanie (Olivia de Havilland), a noiva de Ashley (Leslie Howard), parece sem atrativos em comparação a ela, com seu vestido de cor apagado, fechado e volumoso.

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Scarlett nunca aceitou o comportamento socialmente esperado para as moças da época. Queria usar vestido de ombros de fora, casou-se para provocar os ciúmes Ashley, foi a um a baile ainda em luto pela sua viuvez e flertou com Rhett Butler (Clark Gable). No baile é possível ver o contraste entre seu pesado traje negro e as roupas coloridas das demais moças de sua idade. Ela sente mais a perda da liberdade do que do próprio marido, que mal conheceu.

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Significativamente é com um chapéu verde, presente de Rhett, que quebra seu luto.

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Com o avanço da Guerra da Secessão e o empobrecimento da família O’Hara, Scarlett passa a utilizar vestidos de algodão relativamente simples, sem as volumosas anáguas de antes. Em certa cena, ela e Prissy (Butterfly McQueen), empregada da fazenda, utilizam vestidos não só de corte semelhante mas de tecidos similares, para marcar esse declínio financeiro. Ela e suas irmãs se tornam responsáveis pela colheita de algodão. Seus trajes são sujos, desbotados e rasgados.

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Precisando de dinheiro para manter Tara e almejando projetar a aparência de uma mulher bem sucedida em meio a miséria, Scarlett utiliza uma velha cortina de veludo verde com franjas amarelas e pede a Mammy que lhe confeccione um vestido.

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Mas a salvação só vem com o casamento com o noivo de sua irmã, Frank Kennedy (Carroll Nye), um homem mais velho e dono de uma loja, que poderia salvar-lhe financeiramente. O período de necessidade tornou-a uma figura materialista e capaz de fazer qualquer coisa para salvar Tara. A ousadia do casamento, traindo laços familiares, foi marcado no vestido vermelho com que aparece logo depois. Melanie, sempre bondosamente ao seu lado, usa azul, contrastando com ela em ainda outro vestido vermelho. Scarlett conta o dinheiro proveniente de seus negócios, mostrando sua nova visão de mundo, calcada na promessa feita em Tara:
Juro por Deus, Juro por Deus que eles não vão me derrotar. Eu vou passar por isso e quando tudo terminar, jamais sentirei fome de novo. Não, nem minha família. Se eu tiver que mentir, roubar, trair ou matar, juro por Deus, eu jamais sentirei fome de novo.

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Após sua segunda viuvez a narrativa se mostra cíclica, repetindo elementos anteriores da história. Assim, quem a retira de seu luto é novamente Rhett, dessa vez com um pedido de casamento. De novo é significativo o fato de que, momentos antes, ele adorna sua lapela com uma flor recolhida de uma coroa do velório de Kennedy, tomando rapidamente o lugar do falecido marido.

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Após o casamento viajam, mas Scarlett passa a ter pesadelos e pede para voltar para sua verdadeira casa, Tara. O primeiro vestido que usa ao chegar é um branco e verde, como na tarde do piquenique há alguns anos, em um passado que ficou para trás.

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Com o nascimento de sua filha Bonnie, novamente vemos Mammy puxando-lhe as fitas do corpete. Dessa vez Scarlett fica amuada diante da constatação de que nunca vai ter a cintura de antes da gravidez. Os trajes íntimos não são mais brancos e simples de moça da fazenda, mas em extravagante e estampado amarelo, condizente com sua nova condição social.

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O veludo verde com detalhes em amarelo reaparece em seu robe. Mas dessa vez ela não precisa mais passar a aparência de riqueza ou pedir por dinheiro: ela visivelmente tem tudo isso, mas ainda assim está infeliz.

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Em mais uma situação de escândalo, veste-se outra vez de vermelho, dessa vez obrigada por Rhett. Scarlett tenta manter a pose, mas o vestido é extravagante e parece querer condená-la diante das acusações. Correu o boato de que teria um caso com Ashley, mas Melanie, com um vestido claro com detalhes em azul, marcando sua bondade, fica ao seu lado.

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Scarlett aparece uma última vez de vermelho em uma sequência em que sofre violência psicológica e ameaça de violência física, culminando em uma indicação de estupro marital. Novamente a cor marca sua força em relação à difícil convivência com Rhett.

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Rhett viaja com a filha Bonnie, mas esta, como a mãe, tem pesadelos, chora e pede para voltar para Tara, enquanto ele a abraça. A semelhança entre as duas é frisada pela fala dele: “Bonnie era tu, uma menininha novamente, antes que a guerra e pobreza tivessem feito coisas a ti. Ela era como tu e eu podia cuidar dela e mimá-la, como eu quis mimar-te”. Por isso, a morte de Bonnie é o fim do casamento. Uma terceira vez Scarlett veste o negro do luto. Rhett oferece-lhe seu lenço, como havia feito uma vez no passado e, ao partir, a tira do luto pela última vez, pois ela se dá conta que Tara é sua motivação e sempre lutará por ela.

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Scarlett O’Hara é uma personagem icônica, que por vezes é considera uma anti-heroína. Suas ações refletem seus pensamentos e são a demonstração de sua força, lutando por autonomia em um local e uma época adversos a uma mulher com opiniões próprias. O Technicolor de três cores era ainda uma invenção relativamente recente na época da filmagem e o figurino de Walter Plunkett ainda não explorava plenamente as possibilidades simbólicas que a cor proporcionaria dali para frente. Ainda assim os trajes de Scarlett ajudam a contar sua história e são lembrados até hoje, dada sua beleza. … E o Vento Levou é fruto de sua época e como tal, contém elementos que podem causar algum desconforto no contexto atual. Mas como produção cinematográfica é uma obra de qualidade inegável que ultrapassa gerações.

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Afinal… amanhã é outro dia.

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Núpcias de Escândalo (The Philadelphia Story/ 1940)

Assistido em 22/08/2013

Núpcias de Escândalo é uma comédia romântica gostosa e  um tanto quanto ousada. Ela começa com a ricaça Tracy (Katharine Hepburn) se separando de C. K. Dexter Haven (Cary Grant). Antes de ir embora de sua casa, ele a empurra ao chão com violência. Depois é explicado que ele havia tornado-se alcoólatra e ela não mais tolerava seus vícios, como não perdoa nenhum tipo de falha. Dois anos depois ela está de casamento marcado com George Kittredge (John Howard). O dono de uma revista de fofoca chamada Spy possui uma história que poderia arruinar o pai de Tracy e chantageia Dexter, já curado do alcoolismo,  para conseguir infiltrar repórteres para cobrir o casamento. O jornalista é o aspirante a escritor Macaullay  Connor (James Stewart) e a fotógrafa é Elizabeth Imbrie (Ruth Hussey), sua namorada nunca assumida. Ambos chegam à casa dos pais de Tracy se passando por amigos de seu irmão. Percebendo que se tratavam de profissionais de tabloide, Tracy combinou com a família que encenariam o lar perfeito de milionários, com sua irmãzinha mais nova dançando balé, tocando piano e falando francês enquanto ela mesma se comporta de forma descompromissada e avoada. Nos três dias que se seguem Tracy e Macaully desenvolvem um interesse mútuo, que culmina com uma bebedeira na festa à véspera do dia do casamento e a especulação de que ele teria dormido no quarto dela.

Obviamente que os resultados de todas as ações são bem mais convencionais do que essa descrição acima pode levar a pensar. O sagrado matrimônio é resguardado, bem como a moral da mocinha. Mas de qualquer forma a maneira como o suposto escândalo é apresentado é divertida e a química entre os protagonista é fantástica. Aliás, que elenco! As roupas que Hepburn usa no filme são a quintessência da elegância da época.  A direção fica a cargo de George Cukor, que anos depois faria My Fair Lady.

Obs: Desconsideremos John Howard. Entre James Stewart e Cary Grant, quem você escolheria?

philadelphia story

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Minha Bela Dama (My Fair Lady/ 1964)

Assistido em 16/04/2013

My Fair Lady é um filme adaptado do musical homônimo, que por sua vez é uma adaptação da peça de teatro de George Bernard Shaw. Na lenda da mitologia grega, Pigmalião é um homem que esculpe uma escultura de uma mulher tão perfeita que se apaixona por ela. Na peça e no musical, ao invés da estátua ele cria uma dama da sociedade à partir de uma moça pobre e sem bons modos. A história se passa na década de 1910. No filme o professor Henry Higgins (Rex Harrison), que estuda fonética, faz uma aposta com um colega, coronel Pickering (Wilfrid Hyde-White), ao ver Eliza Doolittle (Audrey Hepburn) na rua vendendo flores e falando com um sotaque forte e uma ogramática truncada. A aposta consiste em provar sua capacidade de em seis meses transformá-la em uma dama que ninguém duvidaria apenas alterando sua forma de falar. Segundo ele, o que mantém as pessoas pobres sendo pobres são a forma que elas falam e então, o preconceito linguístico. Higgins nunca enxerga Eliza como um ser humano. Ela é sempre tratada com uma coisa, um experimento. Apenas o coronel Pickering e a governanta Sra. Pearce a defendem. Higgins tem uma casa cheia de parafernálias maquinários para ajudar a chegar aos fonemas perfeitos. Ao tentar alterar a forma de falar de Eliza, Higgins parece se esforçar em podar a originalidade e individualidade dela. Ao final do experimento ela mesmo questiona qual é o seu lugar agora, já que é “dama demais” para voltar a vender flores, mas nunca será uma dama de verdade na sociedade.

O design de produção do filme é fantástico. Ele inteiro foi filmado em estúdio, mesmo as cenas externas, como da corrida de Ascot, por exemplo. Ascot é retratada de maneira estilizada, com todo os homens em cinza e as mulheres em preto e branco, tudo muito afetado e teatral, como deve ser a classe alta. Já no baile da embaixada, quando Eliza recriada é apresentada à sociedade, o que se destaque é a entrada com as escadarias e todos os homens de preto e as mulheres em tons pastel. A beleza da composição das cenas ganha ainda mais destaque pelo uso da câmera Super Panavision 70, que gera uma imagem bastante larga, aumentando o campo de visão e trazendo grandiosidade para os cenários. Assistir à versão restaurada em HD é impressionante. A qualidade da imagem é perfeita e transparece todo o carinho que foi colocado nos cenários e figurinos.

As músicas são memoráveis: eu já conhecia uma porção delas sem nunca ter visto o filme, apenas porque são de conhecimento geral. As de Rex Harrisson, que também interpretou Higgins no palco, são praticamente faladas, e não cantadas, para demostrar a característica mais técnica do personagem. Também foram todas gravadas diretamente em cena, com um dos primeiros modelos de microfone sem fio. Tome, Os Miseráveis!). Já Audrey Hepburn teve quase todas as suas canções dubladas (algo também bastante comum). Aliás, ela está muito bem no papel e convence muito como a Eliza sem traquejo no início do filme. Stanley Holloway, que interpreta seu pai, Alfred Dootlittle também é ótimo. Destaque para ele reclamando que o obrigaram a entrar na moral da classe média.

A duração poderia ser menor, já que as quase três horas são um pouco cansativas.

My Fair Lady não é um romance. Você não vai ver os personagens declarando seu amor um ao outro. O máximo que você vai ver é Higgins cantando que “se acostumou com o seu rosto” por perto. George Bernard Shaw escreveu que pretendia que ambos não terminassem juntos, e sim que Eliza abrisse sua própria loja de flores e se cassasse com outro, demonstrando soberania sobre si mesma e tornando-se uma mulher independente. Mas isso não aparece no final da peça, que fica em aberto. No filme, o final também é aberto, mas menos sutil, parecendo que o diretor quer que acreditemos que esse casal insólito ficou junto.

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