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Figurino: O Grande Gatsby – cores e ruídos na década de 20 estilizada de Luhrmann

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o filme em 08/07/2013.

E assim nós prosseguimos, barcos contra a corrente, empurrados incessantemente de volta ao passado. (F. Scott Fitsgerald – O Grande Gatsby, capítulo 9)

Quando falamos em um figurino de época temos que ter em mente duas coisas: ele não se presta a recriação literal e acurada de um período e sim à composição de determinada ambientação servindo aos propósitos do diretor e do design de produção como um todo; apesar disso alguns elementos que remetam ao período retratado devem se fazer presentes, especialmente quando se trata do século XX, em que as características de cada década são mais facilmente distinguíveis para o grande público.

O Grande Gatsby (The Great Gatsby), adaptado do livro homônimo de F. Scott Fitzgerald e dirigido por Baz Luhrmann, se passa em 1922, período de efervescência econômica e hedonismo dos Estados Unidos no pós-guerra, em que fortunas se criavam nas bolsas e eram gastas à rodo (e em breve ruiriam na crise de 1929). Quando pensamos em uma roupa feminina característica da época, alguns elementos se destacam: o corte reto, cintura baixa e saia plissada ou com franjas abaixo dos joelhos. A silhueta em voga era andrógena: a cintura baixa, na altura do quadril, servia para esconder as curvas, pouco desejadas, favorecendo um visual esguio. Da mesma forma os colares de contas ou pérolas alongavam a forma. Para completar, cabelos curtos acima do queixo (popularizados no Brasil com o nome Chanel) e cloches, chapéus redondos, em forma de sino.

Catherine Martin não só foi figurinista nesse filme, como designer de produção, podendo trabalhar de forma completa a visão barulhenta, rica e anacrônica de Luhrmann sobre o período retratado. De todas as personagens em cena, provavelmente Jordan (Elizabeth Debicki) é a que melhor encarna o período, do corte de cabelo ao porte. Na primeira cena que a vemos, ela veste calças pantalonas, combinadas com um túnica clara e longilínea. Calças ainda não eram itens comuns do vestuário feminino dessa época. Suas roupas são moderna e deixam claro que não só se trata de uma pessoa de riquezas, mas também uma mulher esportista, de carreira, independente nesse muito tão masculino.

 Percebi que ela envergava o vestido de noite, na verdade todos os seus vestidos, como se fossem roupas esportivas. Movimentava-se com extraordinária vivacidade, como se tivesse aprendido a caminhar, desde criança, nos gramados de campos de golfe, durante manhãs frias e límpidas. (F. Scott Fitsgerald – O Grande Gatsby, capítulo 3)

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O figurino de Daisy (Carrey Mulligan) é tratado de forma bastante convencional: dentro do que se espera de um determinado padrão de feminilidade pautado na fragilidade, com rendas, pedrarias e pérolas, além de uma paleta de cores predominantemente esmaecida. Daisy tem vinte e três anos, é casada e é uma jovem sofrida e inocente (por vezes tola, como deseja que sua filha seja), que exala o aroma das antigas riquezas. Embora as suas sejam as peças mais divulgadas e retratadas na mídia, são, também, a parte mais problemática do conjunto. Seus vestidos são ajustados ao invés de ter o corte solto esperado. O modelo lilás acinzentado que utiliza quando vai à casa de Nick, é um tubinho de renda com apliques nos ombros e nas saia, criando franjas e uma faixa amarrada ao quadril, para compor uma falsa cintura baixa que parece ser um pensamento posterior ao design.

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Algo semelhante acontece em relação ao vestido utilizado no baile, em tom champanhe e coberto por uma trama de cristais, com um laço na frente. Embora lindíssimo, ele não ajuda a dar o tom ou definir em que momento se passa o filme. Acontece que Martin trabalhou em colaboração com a estilista Miuccia Prada para criar um número de roupas para o filme. As roupas da grife Prada não foram criações exclusivas e sim adaptadas de coleções passadas. É o caso do vestido de festa. Há que ficar claro que moda e figurino funcionam de formas absolutamente diferentes. Moda é orgânica, figurino é criado com propósitos determinados. Parcerias entre figurinistas e estilistas são comuns, mas costumam funcionar melhor em filmes que se passam em período contemporâneo. Nesse caso, embora as roupas encham os olhos, pecam por não ter conexões com os pontos básicos de design da época, citados acima.

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Dentre as personagens femininas, Myrtle (Isla Fisher) é a menos desenvolvida e talvez a mais interessante da história. Infeliz no seu casamento de doze anos, vivendo na beira da estrada sobre uma oficina mecânica, apaixonada pelo seu amante, Tom (Joel Edgerton) e pela vida para a qual eventualmente escapa em Nova York, ela representa um oásis de cor em meio à pobreza do Vale das Cinzas. Seus vestidos chamativos e com babados e suas bijuterias de plástico são predominantemente vermelhos. Seu figurino conversa diretamente com o apartamento que Tom mantém para ela na cidade, recheado com decoração kitsch e na mesma cor. As roupas e o apartamento refletem diretamente sua personalidade.

 Um pouco antes, a sra. Wilson tinha trocado de roupa, e agora ostentava um elaborado vestido de tarde, confeccionado em uma tonalidade creme de chiffon, que farfalhava o tempo todo enquanto ela zanzava pela sala. Sob a influência do vestido, sua personalidade também havia sofrido uma mudança. A intensa vitalidade que tinha sido tão notável na garagem se convertera em uma impressionante altivez. Seu riso, seus gestos e suas afirmações tornavam-se pouco a pouco mais afetados, à medida que ela se soltava, e a sala dava a impressão de ficar menor ao redor dela, até que parecia estar girando em torno de um eixo, que estalava ruidosamente em meio ao ar enfumaçado. (F. Scott Fitsgerald – O Grande Gatsby, capítulo 2)

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O Gatsby (Leonardo di Caprio) de Lurhmann é caloroso e apaixonado. Utiliza ternos bem cortados e chapéu palheta. Seus trajes também foram feitos através de parceria, dessa vez com Brooks Brothers, empresa de alfaiataria. Dentre todas as roupas que utiliza, a que mais se destaca é o terno de linho rosa claro, com calça ajustada (pouco utilizada na época) e aparência de frescor para aquele verão insuportavelmente quente. A cor, pouco tradicional, seria um indicativo de que ele não teria sido criado em meio a uma família de posses.

 – Um oxfordiano? Ele? – falou, incrédulo. – Mas que inferno, ele não estudou em Oxford coisa nenhuma! Ele usa um terno cor-de-rosa! (F. Scott Fitsgerald – O Grande Gatsby, capítulo 7)

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Apesar de todos esses detalhes anacrônicos, de alguma forma o conjunto parece funcionar em cena. A primeira metade do filme é, talvez, demasiadamente vertiginosa e gera algum estranhamento. Mas posteriormente Catherine Martin consegue unir os elementos do design de produção de uma forma em que ao mesmo tempo transmite a riqueza excessiva daquele momento e trabalha perfeitamente para criar um filme que traduz a estética de Baz Lurhrmann.

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O Grande Gatsby (The Great Gatsby/ 1974 e 2013)

Assistidos em 11 e 12/06/2013

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Festança e riqueza!

Antes de mais nada devo dizer que não, eu não li o livro homônimo de F. Scott Fitzgerald antes de ver essas adaptações cinematográficas. Ano passado, quando comecei a ver notícias sobre o filme, me propus a ler, mas isso acabou ficando pelo caminho. Logo não comentarei a respeito da qualidade das adaptações entre as mídias, resumindo-me a falar da minha percepção à respeito das obras cinematográficas.

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Robert Redford e Mia Farrow, Gatsby e Daisy insossos

O Grande Gatsby de 1974 tem roteiro de Francis Ford Coppola e foi dirigido por Jack Clayton. Já a versão de 2013 foi co-roteirizada e dirigida por Baz Luhrmann. Para quem não está familiarizado com a história, trata-se de uma crítica à sociedade americana consumista da década de 20, em que grandes fortunas se criavam rapidamente (e que veio a ruir com a crise de 1929). O ano é 1922 e Jay Gatsby é um novo milionário que sempre organiza enormes festas luxuosas em sua mansão em frente ao mar, onde comparecem todos os ricaços da época. Todos se perguntam quem ele é e de onde veio sua fortuna. Nick Carraway é seu vizinho, tendo alugado uma casa simples ao lado da dele. Gatsby tem interesse no contato com Nick pois este é primo de Daisy, o seu grande amor que não via há cinco anos. Ela agora está casada com Tom Buchanan, um marido infiel, e mora do outro lado da baía. Luhrmann acrescenta à narrativa uma visão completamente desnecessária de Nick no futuro, em tratamento contra alcoolismo e depressão, falando dos acontecimentos para seu médico.

Como era de esperar, a versão de Luhrmann (que já havia nos entregado Romeu + Julieta e Moulin Rouge) é colorida e ruidosa, seguindo seu estilo. A primeira metade, onde os personagens são apresentados, bem como as festas, é vertiginosa. Como em seus filmes anteriores, ele utiliza de uma trilha sonora contemporânea, mas ao contrário de em Moulin Rouge, aqui ela não funciona. O primeiro tratava-se de um filme musical e além disso, sobre teatro (e teatral), então as liberdades tomadas não destoaram da ambientação dele; já nesse as músicas atrapalham na criação da época nas cenas.

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No filme de de 1974 as festa são tratadas de maneira realista, dos trajes, aos passos de dança à escala. Em 2013, tudo é excessivo também: da quantidade de pessoas nas festas, ao figurino, aos cenários gigantescos. Nesse caso, entendo que ajudaram no retrato dos exageros e torna as cenas visualmente interessante. Apesar disso o figurino extremamente anacrônico realmente prejudicou em certas horas, já que a maior parte dos trajes, especialmente femininos, são peças de passarela contemporâneas, muitas com silhuetas muito distantes da época retratada. Em ambos, o fato de a história se passar ao longo do verão, o uso de tons pastel predomina. O terno rosa de Leonardo DiCaprio rouba a cena: lindo e bem cortado. Interessante como hoje em dia o conservadorismo domina o guarda-roupa masculino e dificilmente alguém teria coragem de vestir algo assim.

Apartamento de Myrtle

Apartamento de Myrtle

O 3D é muito bonito e em várias cenas percebemos o cuidado do diretor em utilizá-lo corretamente, como quando vemos janelas de um prédio se destacando de sua fachada ou o próprio texto do narrador, Nick, voando na tela. Os cenários são ricos em detalhes, mas destaco um dos menores: o apartamento kitsch alugado por Tom para sua amante, Myrtle: todo colorido em tons de vermelho, casando com a o vestido de babados dela (e suas bijuterias de plástico). A cor viria se repetir depois no quarto de hotel ao fim do filme, mas dessa vez com uma carga bem mais dramática e opressiva.

Quarto do hotel

Quarto do hotel

Leonardo DiCaprio é um Gatsby caloroso e simpático, de uma forma que Robert Redford não consegue ser. Redford parece estar atuando no automático, enquanto DiCaprio encarna um personagem fácil de defender. Sobre Daisy, a versão de Mia Farrow também é problemática: parece tolinha, com a cabeça sempre nas nuvens, enquanto a de Carrey Mulligan funciona melhor, num misto de fragilidade e doçura, que, embora sejam características de sua interpretação por vezes monotônica, prestaram-se muito bem ao papel. O Tom Buchanan de 2013 é fantástico, graças à interpretação de Joel Edgerton. Já a Myrtle, amante de Tom, é melhor desenvolvida no filme anterior.

A Daisy de Carey Mulligan

A Daisy de Carey Mulligan

A segunda metade do filme de Luhrmann desacelera e torna-se mais tenso. Com menos interferência das músicas, flui melhor. Não tenho certeza, mas tenho a impressão que o desfecho do filme contém uma leve homenagem a Crepúsculo dos Deuses.

Em resumo, sobre os filmes, a história em si parece ter bastante potencial (e é certo que agora lerei o livro). Ao final temos uma versão raquítica e desinteressante e uma excessivamente barulhenta. Entre as duas, fico com a mais recente, já que, problemas à parte, em nenhum momento enfada o espectador; muito pelo contrário: nos deixa sem fôlego e imersos em sua linguagem. Oferece interessantes poemas visuais, boas interpretações, imagens bonitas, emocionantes e instigantes que ficam martelando na mente e um conjunto que permanece em nossa memória muito depois de o filme terminar. Mesmo com tantos erros, Baz Luhrmann chegou bem perto do acerto.

Obs: Se você quiser ler minha análise sobre o figurino do filme, acesse o link.

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A Origem dos Guardiões (Rise of the Guardians/ 2012)

Assistido em 20/04/2013

Jack Frost (Chris Pine) é o responsável por trazer neve e diversão para os invernos das crianças. Nenhuma delas podem vê-lo, porque ninguém mais acredita na sua existência, ele é só uma “expressão” para explicar que vai nevar. Desiludido com isso, ele se vê convidado a integrar o time do Guardiões, o grupo que protege as crianças e suas fantasias, composto por Norte, o Papel Noel (Alec Baldwin), Coelhão, o Coelho da Páscoa (Hugh Jackman), A Fada dos Dentes (Isla Fisher) e Sandy, o Sandman. Breu, o Bicho-Papão (Jude Law) conseguiu adulterar a areia de Sandy e transformar os sonhos das crianças em pesadelos. Após isso ele trabalha para arruinar a Páscoa e assim fazer as crianças duvidarem dos Guardiões e enfraquecê-los definitivamente. Alguns desses seres não fazem parte do panteão de entidades do imaginário popular no Brasil, mas isso não é empecilho para entrar no clima do filme. Jack Frost segue o estilo garotão dos protagonista de animações da Dreamworks, mas ainda assim o filme é divertido e até mágico. Fez-me pensar nos mundos de fantasia em que imergia quando criança, onde tudo era possível, até os sonhos virem da Pedra dos Sonhos. A animação é belíssima e as dublagens são um ponto forte. Destaque para Alec Baldwin, que está incrível interpretando Norte e Hugh Jackman com o sotaque mais australiano que jamais teve.

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