Adoráveis Mulheres (Little Women, 2019)

Meg, Jo, Beth e Amy já foram protagonistas de diversas adaptações cinematográficas ou televisivas do livro Mulherzinhas, publicado por Louisa May Alcott em 1868. Aqui elas são interpretadas por Emma Watson, Saoirse Ronan, Eliza Scanlen e Florence Pugh, respectivamente. Greta Gerwig, que escreveu e dirigiu essa versão, tomou liberdades que se mostraram frutíferas para a história.

As quatro irmãs March vivem com sua mãe, Marmee (Laura Dern), em uma casa simples, por onde paira a lembrança de uma época em que tiveram mais dinheiro. O pai (Bob Odenkirk), está ausente, na Guerra Civil. Sua figura se materializa nas cartas que envia, mas, no final das contas, aquela é a casa das mulheres March e ele apenas pontua esse fato. Marmee é um exemplo para as meninas, abnegada e sempre preocupada com os demais. Meg, a mais velha, é ajuizada, um professora dedicada e tem grande apreço pela moda. Jo é a menina das letra, tomboy da casa, com os dedos manchados de tinta, sempre envolta em suas histórias. Beth, nas palavras delas mesmas, é a melhor de todas: doce, tímida e encantada pela música. Por fim, Amy é autocentrada, impulsiva e se interessa por desenho e pintura. Juntam-se a elas a rica Tia March (Meryl Streep), o vizinho Mr. Laurence (Chris Cooper) e seu neto Laurie (Timothée Chalamet).

O filme, como o livro, faz recortes de pequenos momentos da rotina das irmãs. E é aqui que Gerwig faz sua primeira subversão na estrutura da narrativa. Tradicionalmente o livro tem duas partes, o próprio Mulherzinhas e a segunda, que se passa 7 anos depois, chamada Good Wives (Boas Esposas, título dado na época pelo editor e não por Alcott). Ambas sempre são publicadas em um livro só e levadas as telas como tal. A diretora optou por trabalhar as duas linhas de tempo em paralelo, criando um passado que, embora não sem seus conflitos, era feliz na união de todas aquelas mulheres. No presente o que vemos são as dificuldades de cada uma já em sua vida adulta. Esse contraponto é externado esteticamente, seja na luz amarela com que os flashbacks são iluminados, em contraste com a luz fria do presente, seja pelo figurino da sempre louvável Jacqueline Durran, que concentra tons de rosa e vinho no primeiro momento e azuis e roxos no segundo, destacando cada linha temporal, também, com o contraste entre tons quentes e frios de uma mesma paleta de cores. Essa contraposição entre os dois momentos faz com que quem assiste ao filme possa entender o ponto de vista das personagens sobre seu próprio passado e ajuda a justificar determinadas escolhas. Nesse sentido, como somos apresentados a Laurie por meio de Amy, o que acontece entre os dois não parece tão abrupto, como seria em uma narrativa linear. Também permite que certas cenas do tempo presente espelhem as do passado com resultados diferentes, como quando Jo desce as escadas da casa correndo e se depara com a mãe sentada à mesa em duas situações diferentes, com uma mudança marcada de tom.

Em se tratando do já mencionado figurino, outros elementos chamam a atenção. Destaco o casaco verde militar com detalhes dourados de Jo, que remete à própria guerra que se desenrola; a cena em que a personagem, vestindo ele sobre camisola branca e calçolas vermelhas, estampa em si as cores do Natal, lembrando-nos que se trata de um filme festivo, especificamente natalino e, claro, o ostensivo uso de tricô.

A segunda das mudanças marcantes criadas por Gerwig é a abordagem metalinguística: Jo, que funciona como narradora em primeira pessoa, é escritora e a história se desenrola em sua versão dos fatos. Com o avançar do tempo, percebemos que o que vemos nos flashbacks são fruto de sua escrita, reminiscente sobre aquela época. Dessa forma os aspectos religiosos do livro podem cair fora da trama, porque seu editor afirma que “moral não vende hoje”. Por isso também se cria um embaralhamento entre a personagem e a própria autora, Alcott, que aparece refletida na trama, que por sua vez se transforma em seu próprio livro real. Sem confusão, essa camada extra celebra a capacidade criativa e o próprio exemplo da escritora, espelhando-a em Jo.

A construção das relações entre as protagonistas, desenvolvendo suas afinidades e rusgas, faz com que criemos facilmente identificação com cada uma delas. As conexões de Jo com Beth e Meg com Amy, mediadas por Marmee, se espelham e se equilibram. E se Amy poderia facilmente ocupar o papel vago de vilã, o texto mordaz, que coloca frases divertidas e sinceras em seus lábios; bem como a atuação cativante de Pugh, salvam-na de tal papel. Além disso, ela, assim como Jo em alguma medida, é a responsável por algumas análises certeiras sobre as condições e os direitos das mulheres de então, especificamente o matrimônio e, com isso, suas ações se externam adequadas à lógica da personagem.

Mas Jo, acumulando a função de narradora, acaba por ser a heroína: aquela que se emancipa e tenta a vida em Nova York, a que comemora a cada pagamento recebido por algo que escreveu, a que a princípio não tem interesse em um relacionamento amoroso como se espera dela, mas que também sente profundamente a solidão. Saoirse Ronan acerta ao não interpretá-la com dureza, como ocorreu em algumas encarnações anteriores, mas sim com uma obstinação que não deixa de permitir que alguma fragilidade se manifeste.

Por fim, o editor de Jo diz que a protagonista dela precisa ser uma mulher e estar ou casada ou morta no final, afirmando que meninas querem ver casamento e não consistência. Em se tratando de romance, Laurie é quase como uma lembrança da juventude, de quando as coisas pareciam fáceis, mas escondiam suas complexidades. Jo sempre esteve certa a esse respeito. O rejuvenescimento de pretendente do presente em relação ao livro, Professor Bhaer, vivido por Louis Garrel, ajuda a colocar em perspectiva as escolhas da personagem. Apesar disso, o romance parece isso: um anexo planejado por um editor em uma história que trata dessas mulheres.

O Adoráveis Mulheres de Greta Gerwig é encantador na forma como dispõe de suas protagonistas e nos permite imergir nas suas vidas e nas suas alegrias domésticas. Ao mesmo tempo, traz reflexões sobre independência financeira, autonomia, ambição e a busca por uma carreira que, já presentes na obra de Alcott, continuam ressoando na contemporaneidade. As decisões artísticas e narrativas da diretora fortalecem a história original, amplificando suas qualidades. Mas, no final das contas, a maior qualidade do filme talvez seja o fato de que Gerwig realizou todo esse trabalho complexo de adaptação e reconstrução do formato da narrativa de uma forma que parece sem esforço, confeccionando uma obra acessível e em certa medida familiar, de aparente simplicidade e deliciosa de assistir.

Nota: 5 estrelas de 5
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
Share

A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, 2017)

Como já diria a canção, um conto tão antigo quanto o próprio tempo: apesar de improvável dois jovens se apaixonam. Em mais uma recriação com atores de uma de suas animações clássicas, a Disney traz ao público novamente A Bela e Fera, dessa vez dirigido por Bill Condon. O pontapé inicial da trama já é conhecida do público: uma feiticeira disfarçada de idosa oferece uma rosa em troca de abrigo a um príncipe em seu castelo. Ele, repudiando a aparência da mulher, expulsa-a e é punido com sua transformação em uma besta de aparência feroz, para que aprenda que a beleza é encontrada internamente. O feitiço só é quebrado se alguém se apaixonar por ele antes que a última pétala da rosa caia. O primeiro número musical, utilizando uma canção original da animação, já puxa o espectador para dentro da história. Intenso, melódico, colorido e bonito de ver, nele somos apresentados à aldeia de Bela (Emma Watson), e ao seu hábito de leitura, estranhado por muitos. Com quase quarenta minutos de duração a mais, o filme dá conta de explicar detalhes pouco explorados ou ignorados na animação. Um deles é o fato de que a escola da cidade só aceita meninos, o que significa que provavelmente as demais moças são analfabetas. Bela canta que não quer saber dessa vida provinciana, julgando quem a rodeia, mas não parece se dar conta que para a maior parte deles essa não é uma escolha, é o que há. Além disso, sustenta-se aqui uma oposição ultrapassada entre vaidade e intelectualidade: Bela considera-se diferente das outras garotas porque ela lê. Apenas três outras jovens aparecem com destaque, sempre refestelando-se em trajes e maquiagens ridículas. A personagem é construída para nos vender a ideia de que ela é especial por não ter interesse nessas banalidades (ainda que sempre impecavelmente vestida e maquiada, apenas não mostrada no processo de obtenção de sua boa aparência). Mas se o estereótipo do “eu não sou como as outras garotas” poderia ter sido deixado de lado, pelo menos a mal-fadada síndrome de Estocolmo pela qual a personagem passa em tantas versões aqui foi atenuada. Bela tem muito mais autonomia e expressa constantemente suas opiniões e, por outro lado, a Fera (Dan Stevens, de Downton Abbey) é muito menos odiosa. Há até mesmo uma tentativa de justificar seu comportamento com um passado triste descortinado em flashback. Não é muito convincente, mas o fato é que, após a grosseria inicial, ele é mais aberto ao diálogo e ambos têm na literatura um interesse em comum. Dessa forma, o romance se parece mais justificado. Se o rosto de CGI da Fera nem sempre convence, por outro lado tanto a aparência quanto a interpretação dos objetos da casa são maravilhosos. e assim reencontramos Lumière (Ewan McGregor, inspiradíssimo), Cogsworth (Ian McKellen), Mrs. Potts (Emma Thompson), Madame Garderobe (Audra McDonald), Maestro Cadenza (Stanley Tucci) e Plumette (Gugu Mbatha-Raw), trazendo magia à história. Em meio a um elenco estelar, Luke Evans rouba a cena com seu Gaston canastrão, auto-confiante e involuntariamente engraçado. Infelizmente o personagem demonstra maldade maior nessa versão, provavelmente para amenizar a percepção que temos da Fera. Já o LeFou de Josh Gad é engraçado e não tem papas na língua, sendo sua participação ampliada. É uma pena que, propagandeado como o primeiro personagem abertamente LGBT da Disney, na verdade seja estereotipado, mantido no armário, sem direito a uma história própria e tendo os vislumbres de sua sexualidade utilizados como fonte de humor. Impressiona que isso possa ser considerada um avanço em se tratando de um filme infantil do estúdio. Mas como vilão e ajudante, ambos funcionam muito bem e tem boas sequências e diálogos juntos. Mas para além de alguns problemas de atualização de roteiro, o que mais encanta no filme é seu visual. Além da direção de arte que esbanja cores, destaca-se o figurino de Jacqueline Durran. As roupas de Bela, especificamente, são trabalhadas majoritariamente em azul, branco e vermelho, sempre com uma cor contrastando em pequenos elementos com a outra. Destacam-se primeiro três conjuntos: um simples com avental que usa em casa, um com corpete bordado de flores e detalhes azuis já no palácio da Fera e depois um traje vermelho e capa da mesma cor, quando passeia no jardim. Os tons de azul a ligam à própria Fera, pois essa é a cor de seu traje. Por fim, há um belíssimo vestido amarelo com apliques de flores, que remete ao original da animação. O vestido do baile final também é coberto com detalhes florais. Todas esses elementos da flora remetem tematicamente à própria rosa da maldição. Com uma estética apurada, um elenco competente, músicas vigorosas e roupas bonitas, A Bela e a Fera é visualmente impressionante, encanta, enche os olhos e diverte. Nem tudo são acertos, mas com uma narrativa repaginada, tornando a Fera mais humana e a Bela mais plena em agência, o filme consegue se traduzir de maneira mais adequada às audiências contemporâneas.      
Share

Dois Anos de “Vestindo o Filme”

Mais ano ano passou voando e a coluna Vestindo o Filme, que escrevo para o Cinema em Cena, completa seu segundo aniversário hoje, dia 8 de julho de 2015. Ao longo desse segundo ano, foram dezoito textos escritos, contendo análises de trinta e dois filmes (contra vinte e cinco textos e quarenta e um filmes durante o primeiro ano). Houve uma diminuição no ritmo motivada pelo meu mestrado, mas vou continuar escrevendo conforme a possibilidade.

Para comemorar, vou novamente escolher os dez textos que mais gostei de escrever. Como no ano passado, não são necessariamente aqueles que tiveram os melhores comentários, mas os que o processo de escrita foi mais divertido ou interessante. A escolha é subjetiva. A ordem deles é cronológica, pois sou incapaz de ranqueá-los. Eis os meus preferidos:

Silêncio dos Inocentes e Hannibal

4444

Atendendo ao pedido de um leitor, revi boa parte dos filmes que contam com Hannibal Lecter em seus personagens e escolhi dois para escrever a respeito. Foi muito bom me colocar novamente nessas histórias e perceber o quão mais ricas elas eram do que a percepção que eu tinha quando era mais nova. Dos figurinos, passando pelas composições de cenas, ao uso de closes, tudo funciona, especialmente no primeiro filme.

Drácula de Bram Stocker 

Dracula 1992 1080p x264.mkv_000898691

Sou apaixonada por esse filme e sua estética. Elementos teatrais, utilizados devido ao baixo orçamento, o gótico vitoriano aliado a influências orientais: tudo funciona para que seja uma obra única. Claro que o talento da figurinista Eiko Ishioka é indispensável para que assim seja.

… E o Vento Levou

Gone.With.The.Wind.1939.720p.BluRay.x264.YIFY.mkv_008052557

O eterno clássico, que conta a história da mimada belle do sul Scarlett O’Hara sobrevivendo à penúria e relações turbulentas, conta com vestidos memoráveis desenhados por Walter Plunkett. Mesmo quem nunca o viu facilmente conhecerá o famoso vestido de cortina. Com uma ligação a essas roupas que vem da infância, foi um prazer escrever sobre o filme.

Amadeus

Amadeus.1984.DC.1080p.Bluray.x264.anoXmous_.mp4_001656279

Cores! Excentricidade! Estampas! Nada como uma pitada de glam, aliada ao rococó da corte vienense do século XVII. O protagonista do filme, Mozart, é apresentado como um homem genial, de pendores artísticos e com gostos vistosos, e aqui cabe a mistura entre referências históricas e anacrônicas, compondo um grande filme, sem jamais perder o senso de humor.

Yuppies e feminismo no cinema dos anos 80

Working.Girl.1988.720p.WEB-DL.AAC2.0.H.264-ViGi.mkv_000148948

Falar de feminismo é sempre bom e necessário, ainda que às vezes ele seja vendido em uma forma mais branda pela indústria. Isso aconteceu com frequência nos anos 80 e escolhi dois filmes do tipo para analisar. De qualquer forma, eles possuem roupas que marcaram época. Destaque para o figurino e maquiagem de Joan Cusack, que quase merecia um texto só para ela.

Oldboy

Oldboy.2003.1080p.BluRay.x264.anoXmous_.mp4_002030915

O uso de cor tem papel essencial nesse filme coreano e o figurino de Sang-gyeong Jo é capaz de criar camadas e simbolismos impressionantes.

Dublê de Anjo

The Fall (2006) 1080p BDRip AAC x264 (multisubs)-tomcat12.mp4_001842401

Eiko Ishioka ataca novamente. Sim, ela realizou poucos trabalhos no cinema, infelizmente, mas todos são de uma beleza intricada. Seu figurino, aliado ao visual fantástico, beirando o surrealista, do diretor Tarsem Singh, compõe uma estética que casa perfeitamente com o tom da narrativa. Há muitas críticas à respeito do roteiro desse filme, mas, problemas à parte, assisti-lo é uma experiência visual das mais prazerosas.

Precisamos Falar Sobre o Kevin

Redes sociais

O padrão estético vai muito além do figurino criado por Catherine George, embora ele tenha papel importante. Talvez os motivos visuais presentes no filme possam ser considerados muito pesados ou muito óbvios. Ainda assim, são padrões interessantes, que ampliam sensações na hora de assisti-lo. E tem Tilda Swinton.

Amantes Eternos

Only.Lovers.Left.Alive.2013.1080p.BluRay.x264.YIFY.mp4_20150505_204419.453

Como Tilda Swinton nunca é demais na vida de ninguém, mais um filme incrível estrelado por ela. Nele, a figurinista Bina Daigeler experimenta com conceitos de ocidental e oriental, novo e antigo, criando identidades para esses seres que se amam há tantos séculos.

Anna Karenina

Anna.Karenina.2012.1080p.BRrip.x264.GAZ.mp4_20150602_171246.295

A figurinista Jacqueline Durran é uma das minhas preferidas entre os profissionais contemporâneos. Transitando com tranquilidade entre períodos, ela domina como poucos o uso de cores e formas. Dentro de um contexto de teatralidade específico, construiu a imagem de Anna, uma mulher que está desmoronando em meio a sociedade conservadora. Anna Karenina, apesar do moralismo de Tolstoi em alguns aspectos, é um de meus livros preferidos e foi divertido buscar nele referências sobre os trajes e as reações que eles despertam. Acho que esse foi o texto que deu mais trabalho em dois anos de coluna, mas o resultado final me deixou bastante feliz.

É isso! Espero que venham mais alguns anos de textos para escrever pela frente. Obrigada a todos que tem lido e acompanhado tanto este blog quanto a coluna Vestindo o Filme.

 

 

Share

Figurino: Anna Karenina

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira (Leon Tolstoi- Ana Karenina, parte 1, capítulo I)

Um clássico da literatura russa, o romance realista Ana Karenina, de Leon Tolstoi, já recebeu uma variedade de adaptações diferentes no cinema. A mais recente, de 2012, é dirigida por Joe Wright e tem Keira Knightley no papel principal. O livro conta com dois personagens principais que se contrapõem e se equilibram. De um lado temos Ana Arkadyevna Karenina, uma mulher urbana, casada com Alexei Karenin e apaixonada pelo conde Alexei Vronsky. Ao longo da história ela passa a viver de uma forma que a sociedade da época julgava imoral. Já Konstantin Levin, em contraponto, é um idealista, pertencente a uma família de riqueza antiga e rural, que vive com simplicidade, ceifando as lavouras junto aos camponeses, em busca de um sentido para a vida, de uma Rússia ideal e do amor de Kitty Scherbatskaya. A vida de Anna ainda é contrastada pela de seu irmão, Stepan Oblonsky, casado com Dolly (irmã de Kitty) e um infiel inveterado.
A trama começa em 1874. Em se tratando do figurino, apesar da obra original contar com vastas descrições das vestimentas, elas não foram utilizadas de forma literal. A figurinista, Jacqueline Durran, misturou referências da moda da década de 70 do século XIX, com suas saias estreitas e anquinhas volumosas; com a alta costura, especialmente derivada do New Look criado pela Maison Dior, da década de 1950, que primava por cinturas estreitas e marcadas com uso de corpete e saias rodadas. Essa discrepância entre as silhuetas é utilizada para marcar os diferentes papéis sociais das personagens.

Exemplo da moda da década de 1870.
Exemplo da moda da década de 1870.

 

New Look, de Dior, caracterizado por saias amplas e cintura marcada.
New Look, de Dior, caracterizado por saias amplas e cintura marcada.

A Anna do filme, por exemplo, faz uso de vestidos que se aproximam muito mais da representação de 1950 do que de 1870. As saias rodadas, as alças estreitas e caindo pelos ombros, as formas assimétricas e os drapeados que parecem se desmanchar organicamente marcam uma modernidade que a colocam como uma mulher à frente de seu tempo, ainda que com elementos que a localizem no período da história.
Os dois homens de sua vida não poderiam ser mais distintos. O marido, Karenin, veste trajes com corte simples e poucos detalhes. Seu poder não precisa de signos para se externar e sua frieza fica patente na falta de detalhes. 003

Já Vronsky, jovem e vaidoso, utiliza roupas de inspiração militar (a carreira que segue), com abotoamento duplo e ombros largos, em azul ou branco.

004

Outras personagens também são chave para a trajetória de Anna. A primeira delas é a Princesa Betsy, que, segundo o livro, sempre se veste com o maior rigor da moda. Ela intermedia os primeiros encontros entre Anna e Vronsky e seu comportamento liberal em relação aos romances é marcado nos trajes. Se Anna é um misto entre os dois períodos utilizados como inspiração, Betsy foge de qualquer rigor de um retrato época, com roupas vistosas que poderiam ter saído da alta costura contemporânea.

005

Em oposição, a bondosa Dolly, cunhada de Anna, representa o mais próximo a uma representação realista do período. Seu comportamento se rende às convenções, permanecendo ao lado de seu marido infiel, por mais que isso lhe traga sofrimento. À adequação à sociedade é manifestada em sua silhueta convencional.

006

Em fases diversas de sua vida, Anna vai utilizar trajes em tons frios de azul e roxo. Essa seria sua paleta de cores padrão, que será quebrada nos momentos certos, marcando as mudanças na vida da personagem.

007

Esta [Ana] não estava vestida de lilás, como tanto teria desejado Kitty. Um toilette de veludo preto, muito decotada, desnudava-lhe os ombros esculturais, que lembravam velho marfim, assim como o colo e os braços roliços, de pulsos finos. Rendas de Veneza guarneciam-lhe o vestido. […] Kitty, fascinada, todos os dias, em imaginação, via Ana vestida de lilás. Mas só agora, ao vê-la de preto, percebia que não apreendera todo seu encanto. Via-a sob um aspecto novo e inesperado. Agora compreendia que o lilás não lhe ficasse bem. O seu grande encanto resultava precisamente desse relevo de sua personalidade. O que vestia passava despercebido. Enquanto um vestido lilás a teria exibido, este, ao contrário, não obstante as suntuosas rendas, era apenas uma moldura discreta que lhe punha em evidência a inata elegância, o encanto, a perfeita naturalidade.
(Leon Tolstoi- Ana Karenina, parte 1, capítulo XXII)

O primeiro momento de impacto em sua vida foi quando aceitou o convite para o baile em que Kitty foi apresentada a sociedade. Todas as jovens em cena vestem-se em tons pastel, mas Anna está de preto, como no relato do livro, embora também seja. Essa peça marca o momento em que conhece Vronsky e se apaixona, marcando seu destino. Ela é construída com a modernidade já citada, repleta de detalhes assimétricos que refletem o estado de espírito da personagem, daí em diante atormentada e sempre torta em relação à sua própria vida. O vestido passa a sensação de que vai cair, tal a fragilidade das alças que o prendem aos ombros e a maneira com o tecido flui organicamente em sua construção. Após dançar com Vronsky, Anna vê sua própria tragédia refletida em um espelho. O filme constantemente nos chama atenção para o desfecho que está por vir.

008

Sua segunda grande decisão foi comparecer à festa na casa da Princesa Betsy, onde Vronsky também estaria presente. Seu vestido, em um tom fechado de vermelho, tem o corte similar ao preto, mas parece estar se desmanchando ainda mais. As alças mal param nos ombros e mesmo a anquinha é assimétrica, adquirindo o formato de um tecido amarrado à sua cintura. Nesse momento Anna toma conscientemente a decisão de se deixar levar pelo amor e começar um relacionamento com Vronsky.

009

E se azul e branco são as cores de Vronsky é interessante notar que na sequência da corrida de cavalos, em que ele é o centro das atenções, todos os presentes se vestem nessas cores, o que ajuda, também, a destacar Anna, ainda utilizando em público o azul escuro de seu casamento. Nesse momento ela deixa transparecer aos demais membros da sociedade sua ligação com ele.

010

Daí em diante, suas roupas serão predominantemente brancas, com exceção do período em que volta aos cuidados de Karenin e, portanto, ao azul. Mas esse branco vai ter sentidos diversos e até mesmo irônicos, marcando fases distintas em sua vivência. À princípio é a cor de uma visão primaveril de amor concretizado, onde tudo vai dar certo e a entrega é total. Passa a ser o branco de uma mulher que se vê casada, mas que não é aceita como tal pela sociedade. Por fim, é a cor da loucura de Anna, confinada em casa, privada de seu círculo de relações sociais, corroída pelo ciúme e tendo como único espelho Vronsky, seu amor, que também se veste branco. Anna se apequena e sua expressão corporal é de quem quer fugir desse lugar e de si.

011

Mas a narrativa da personagem principal não é feita apenas através de seus vestidos: os acessórios também ajudam a construir sua imagem. A começar pelas joias, todas de marca Chanel, que são visivelmente contemporâneas, como uma estética que diverge do que seria esperado para então. O destaque é o colar com camélias, símbolo da marca, utilizado em mais de uma ocasião.

012

Outro elemento importante são seus trajes íntimos, que refletem o estado de espírito da personagem, aquilo que não se vê pela aparência exterior. Logo em uma das primeiras cenas do filme, Anna é vestida com o auxílio de uma criada. Camisa, corpete, meias, calçolas, crinolina com anquinha (no chão) e anágua (em um manequim) são todos brancos, em meio a um quarto em um azul claro de calmaria. Anna ainda não havia se dado conta do marasmo que compunha seu casamento e vivia seus dias placidamente. Já ao final, perturbada por pensamentos destrutivos e moralmente condenada por suas ações pela sociedade, como mulher caída, utiliza corpete amarelo com detalhes em vermelho, mesma cor da crinolina. A combinação grita desconforto visual, especialmente contrastando com as paredes em azul intenso de seu quarto com Vronsky, que demonstram o estado conturbado de seu relacionamento.

013

Mas o mais interessante dentre os acessórios é o véu. Em uma sociedade em que tudo é farsesco e as pessoas vivem de aparências, nada mais razoável que o uso de véu ocultando os verdadeiros sentimentos. Anna, com véus cada vez mais espessos, não permite que os demais a conheçam por inteiro. É significativo do que o momento em que chega em casa e chora ao lado de seu filho dormindo, sem remover o véu, mostrando que nem em um ambiente íntimo ela está livre de suas máscaras.

014

Levin, o contraponto de Anna na história, veste-se de uma maneira que o aproxima a uma visão folclórica da Rússia. Ele quer se afastar da sociedade urbana e por isso apenas em raras ocasiões se veste de maneira adequada a ela. Na maior parte do tempo utiliza roupas que o aproximam aos camponeses.

015

Embora o vestido, o penteado e os demais preparativos para o baile lhe tivessem custado muitos esforços, o certo é que Kitty entrava agora no salão de baile tão natural e simples, no seu complicado vestido de tule sobre um forro cor-de-rosa, como se todas quelas rosinhas e rendas, todos aqueles enfeites não lhe tivessem custado, e aos seus, um minuto de atenção. Dir-se-ia ter nascido assim mesmo, já com aquele vestido de tule e aquele penteado alto coroado por uma rosa com duas folhas.
(Leon Tolstoi- Ana Karenina, parte 1, capítulo XXII)

Já Kitty, como boa mocinha da sociedade e interesse romântico do jovem idealista, se veste de branco com detalhes em rosa esmaecido. As cores claras dizem respeito ao seu caráter. Kitty jamais deixou as regras do mundo ao seu redor contaminarem seu coração e mesmo quando as desafia, o faz por bondade e não por egoísmo.

016

Duas criadas que passavam, voltaram-se para lhe admirar o porte e disseram qualquer coisa uma para a outra em voz alta a respeito do seu vestido: “são verdadeiras”, disse uma delas, referindo-se às rendas. Os rapazolas não a deixavam em paz. Passaram por ela e voltaram a olha-la com descaro, gritando e rindo em voz de falsete (parte 7 Cap XXXI).

Durante as ações finais de Anna, ela volta a usar um vestido vermelho e um véu. Anna já não consegue suportar o peso do julgamento e do escárnio alheio. Novamente a cor vai marcar suas decisões de grande peso emocional. Se antes foi a decisão consciente de embarcar em uma relação extraconjugal, agora demonstra a turbulência de emoções provocadas por ciúmes, desespero e solidão, antecipando seu final trágico.

017

Anna Karenina é um romance absolutamente cínico nos seus comentários à sociedade russa e infelizmente parte disso se perde na adaptação de Joe Wright. Ainda assim, o uso de uma estética teatral das ações que ocorrem na cidade, em oposição à naturalidade do campo, pontua adequadamente essa crítica presente no livro. O filme é esteticamente belo, como quase todos os trabalhos de Joe Wright. O figurino de Jacqueline Durran (que já havia trabalhado com o Diretor em Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação) é essencial para a percepção que a plateia tem deste vasto universo de personagens.

Share

O Duplo (The Double, 2013)

Não é incomum ver filmes sobre pessoas lidando com dificuldades em relação a maneira como são percebidas pelas demais. O Duplo, dirigido por Richard Ayoade, é um exemplo bem realizado disso, trabalhando não uma realidade crível, mas uma espécie de distopia com um protagonista que projeta suas expectativas. Não li a obra de Dostoievsky em que ele foi baseado, mas o tom da adaptação parece ser menos do autor russo e mais kafkiano, com seus absurdos burocráticos. Brazil, de Terry Gilliam também vem a mente diversas vezes pelo mesmo motivo.

A trama traz Simon James (Jesse Eisenberg), que trabalha há sete anos em uma empresa de processamento de dados sem nenhuma forma de reconhecimento. As pessoas sequer reconhecem seu rosto, graças a sua presença balbuciante e pouco marcante. A sequência inicial estabelece sua solidão no caminho de volta para casa, mas também seu comportamento stalker em relação à vizinha Hannah (Mia Wasikowska), que trabalha como copiadora na mesma empresa. A profissão da moça tem relação direta com o que acontece depois: um novato chamado James Simon (também Eisenberg) começa a trabalhar na empresa e graças ao seu grande carisma e presença ascende rapidamente, usurpando as habilidades de Simon.

Em termos de arquétipos, Simon é superego: excessivamente cauteloso e James é id, todo desejos e impulsividade. Já Hannah serve como uma projeção de imagem idealizada por Simon, mas jamais se torna uma personagem plenamente desenvolvida. Sua doçura e feminilidade parecem servir como padrão de garota ideal para ele ao mesmo tempo que presa fácil para James, que facilmente faz pouco dela. Torna-se um joguete entre as necessidades do id e do superego. E o problema só pode ser resolvido, nesse caso, se o segundo conseguir se livrar do primeiro na esperança de que, assim, o ego se sobressaia.

O visual do filme é bastante bonito, com uma fotografia envelhecida, quase sépia, que remete a tempos passados, combinando com os cenários com estética retrô que remete a uma União Soviética dos anos 1960. O figurino da sempre competente Jacqueline Durran reafirma o papel de Hannah como mulher idealizada, quase uma manic pixie dream girl que deu errado, com suas golas estilo peter pan e roupas claras, projetando a imagem de ingenuidade. Já Simon/ James veste um paletó que marca seu desconforto na própria pele, grande demais, mal cortado e ajustada de forma que parece que o está engolindo. O visual é de claro desconforto.

Com boas atuações e direção de arte eficiente, às vezes sombrio, às vezes cômico, o filme consegue segurar bem sua trama baseada nesses arquétipos até o final.

the-double-poster

Share