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Figurino: Lovelace

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 25/09/2013.

Cinebiografias geralmente demandam trabalhos intensos de recriação de período por parte da equipe de design de produção. O figurino fica aí incluído e, além da recriação da época através de roupas com cortes familiares ao expectador, por vezes é necessário refazer peças específicas utilizadas pela pessoa retratada. Esse ano de 2013 está repleto de filmes do gênero, começando com Behind the Candelabra, Jobs e Rush, até os ainda não lançados Grace of Monaco e Diana. Lovelace é mais um deles: dirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman, é baseado na história da atriz Linda Lovelace, que protagonizou o sucesso pornográfico Garganta Profunda. Através do trabalho da figurinista Karyn Wagner, temos uma visão do período, que vai de 1972 até o final da década. Considerada uma década de excessos, com resquícios de influência da estética hippie e da contracultura e a ascensão da discoteca, muitos consideram-na um momento em que o mal gosto predominou. A verdade é que com as influências certas, muitas roupas bonitas foram marcaram o período. Wagner trabalhou com as modelagens da época e apenas evitou o excesso de cores fortes. O resultado é um figurino realista, interessante e muito bonito.
Ao começo da película Linda (Amanda Seyfried), ainda com sobrenome Boreman tinha 21 anos e morava com os pais, Dorothy (Sharon Stone) e John (Robert Patrick). Com uma vida regrada e horários controlados por eles, eventualmente saía com as amigas para se divertir. Linda é retratada como uma jovem recém-saída da adolescência e que veste roupas bastante casuais. Shorts curtos e de cintura bem alta utilizados com camisetas ou batas floridas compõem seu guarda roupa. Um destaque é o short de camurça, acompanhado de botas de cano longo que usa para dançar na pista de patinação. Também veste para sair um casaco longo de tricô com padronagem geométrica que terá significado posterior.

FIG 01

Após casar-se com Chuck Traynor (Peter Sarsgaard) ela deixa de ser a garota que era. Chuck passa a controlar suas roupas e, pelo menos em público, ela deve se vestir de forma provocante. Uma peça que se destaca é o macacão de veludo roxo, usado com uma blusa de renda branca. O veludo é considerado um tecido sofisticado e sensual, mas aqui aparece em uma peça informal. O conjunto é bastante bonito. Wagner em diversas entrevistas afirma que Linda era proibida de usar roupas íntimas sob seus vestido, como percebemos com o branco que usa na festa em que conhece Hugh Hefner (James Franco). A nudez, mesmo que não percebida, lhe conferia vulnerabilidade, deixava-a sem escudos contra a multidão ao seu redor, ainda que sempre sorrindo.

FIG 02

A fragilidade da personagem é acentuada quando descobrimos o ciclo de abusos impingidos por seu marido. Chuck batia nela e obrigou-a a se prostituir e fazer os filmes pornográficos. No filme, todas as vezes em que Linda pede ajuda, chamando atenção para a sua situação, ela volta a vestir o casaco de tricô que usava para sair quando ainda morava com os pais. Embora eles fossem controladores, a casa deles ainda era uma memória de segurança para ela.

FIG 03

As calças jeans eram do modelo boca-de-sino, extremamente justas nos quadris, com cintura alta e pernas amplas abaixo do joelho. O modelo era utilizado tanto por homens quanto por mulheres, sendo que elas geralmente a usavam com sandálias de plataforma.

FIG 04

Na moda masculina, muito menos conservadora que hoje, utilizavam-se, além das já comentadas calças justas, camisetas e camisas coloridas, blazers com lapelas amplas e ternos em cores como branco ou azul claro. No filme vemos exemplos de todos esses itens. Esse foi o único período após a Revolução Francesa em que foi permitido que a moda masculina objetificasse os homens da forma como acontecia na moda feminina. Na virada do século XVIII para o século XIX os adornos, cores e estampas foram eliminados da vestimenta masculina, por serem vistos como prova da suposta feminilidade da nobreza e foram trocados pelos ternos pretos e ascéticos da burguesia. Por um breve momento no século passado o corpo masculino volta a ser destacado, bem como os elementos acima mencionados.

FIG 05

Algumas peças de vestuário de Linda são interpretações de outras por ela utilizadas na vida real e que possuem registros fotográficos. O exemplo mais próximo ao se original é o vestido branco com babados na gola, já citado. Além dele, o próprio vestido usado em cena no Garganta Profunda é refeito, com corte bastante semelhante, mas em tons de lilás ao invés de preto e branco.

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O maiô vermelho usado na sessão de fotos promocionais do filme também teve seu decote fechado trocado por um aberto, mantendo a argola na sua frente. E, por fim, o icônico vestido vermelho com bolinhas utilizado em um ensaio para a capa da revista Esquire foi remodelado, com um tom mais fechado, decote maior e golas pontudas, ao invés de redondas. O chapéu original, que hoje pode ser visto como quase infantil, foi substituído por um de abas largas, modelo que foi muito utilizado no período. Todas essas alterações feitas por Wagner visam não fazer uma transcrição literal dos acontecimentos ou da época e sim adaptá-los para a estética vigente hoje em dia, traduzindo-os numa linguagem facilmente assimilada.

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Ao final, após alguns anos, quando Linda está separada de Chuck, ela é, em um primeiro momento, retratada como uma mulher que usa as roupas para se proteger e não mais ser usada por aqueles em torno dela. Formas amplas e conservadoras são utilizadas para esse fim. Reconciliada com sua própria história e já casada novamente e com filho, ao visitar seus pais para fazer as pazes, veste uma singela bata branca com estampa de flores, padronagem que não usava desde que saíra da casa deles. A blusa florida simboliza sua aceitação de volta na sociedade, agora que proclama que seu papel é “ser mãe e esposa” e atua dentro dos preceitos esperados de feminilidade tradicional. Afinal, a mesmo sociedade que consome a pornografia não pode permitir uma vida digna e sem julgamentos a suas atrizes. A roupa transmite a tranquilidade e paz de espírito que o desfecho retrata, ao mesmo tempo em que confere maturidade e um certo ar matronal à personagem.

FIG 10

Lovelace funciona muito bem como um retrato de um período, filtrado através do nosso olhar contemporâneo. Karyn Wagner nos trouxe peças de vestuário que estavam na moda acompanhadas por outras adaptadas para remeter ao período, sem precisar ser literal. Juntamente com a cenografia competente, o figurino nos transporta para a época. A inocência da juventude de Linda e sua vulnerabilidade em etapas posteriores de sua vida ficam patentes. O resultado final é uma sucessão de vestimentas marcantes e de grande beleza

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É o Fim (This is the End/ 2013)

Assistido em 12/10/2013

Teoricamente esse filme é uma comédia, escrita e dirigida por Seth Rogen. Não gosto dos filmes dele nem do Judd Apatow, que costumo colocar na mesma categoria de comediantes excessivamente elogiados, pouco cientes de seus privilégios de homem-branco-heterossexual, um tanto quanto infantis e que definitivamente não sabem escrever mulheres. Resumindo, são aqueles que escrevem comédias para os caras que moram com a mãe depois dos trinta. É o Fim tem a proposta de ser uma comédia sobre o fim dos tempos, em que os atores interpretam a si mesmos: uma ideia boa que foi desperdiçada. Tudo começa em uma festa na casa de James Franco, em que Seth Rogen e Jay Baruchel vão a contragosto do segundo. Lá estão Jonah Hill, Craig Robinson e outros artistas. Durante a festa ocorre o Arrebatamento do apocalipse, mas ninguém percebe pois nenhum dos presentes é arrebatado. Com o mundo acabando lá fora, o grupo de sobreviventes se refugia na casa de Franco. A parte inicial tem alguma graça devido às piadas com referências às próprias carreiras dos atores. Eles gravam um vídeo-diário usando a câmera de mão que James Franco utilizou em 127 Horas. Michael Cera drogado e tarado é engraçado pelo contraste com a figura dele na vida real. Algumas participações especiais se destacam, como de Emma Watson, além das brevíssimas de Rihanna e Paul Rudd (que deveria ter permanecido mais tempo em cena). Outras são (propositalmente) vergonhosas, como de Channing Tatum. O “vilão”, Danny McBride, consegue, pelo menos, gerar total antipatia ao longo da trama. Daí para frente tudo se desenrola em torno de piadas sem graça. O fato é que a premissa do filme poderia ter rendido um material minimamente engraçado, mas no final das contas o excesso de egos envolvidos parece ter prejudicado o resultado. A infantilidade com que se lida com o humor é ridícula. Alguém com mais de dez anos acha graça em piadas de pênis? O filme todo é repleto delas, em todas as vertentes possíveis. O que me espanta são as boas avaliações que o filme tem ganhado em diversos veículos. Passo.

THIS-IS-THE-END-Poster

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Figurino: Oz, Mágico e Poderoso

Originalmente publicado em 23/07/2013 no Cinema em Cena.

Aviso: Esse texto contém revelações de detalhes da trama do filme

Dirigido por Sam Raimi, Oz: Mágico e Poderoso (Oz- The Great and Poweful/ 2013) funciona como um prólogo ao clássico O Mágico de Oz, de 1939. Explorando livremente o universo criado pelo autor L. Frank Braum, o filme conta como o mágico Oscar (James Franco) chegou à Cidade das Esmeralda, capital do reino de Oz, bem como os acontecimentos posteriores à sua chegada.

O figurino, criado por Gary Jones em parceria com o ilustrador Michael Kutsche (responsável pelas ilustrações desse texto), é contido, mas esteticamente agradável. Sua proposta parece ter sido fazer um conjunto de roupas realistas, mesmo se tratando de um filme de fantasia.

O começo da história se passa no Kansas, onde Oscar trabalha como mágico em um circo itinerante. As cenas são em preto e branco, criando rima visual com o começo de O Mágico de Oz (cujo começo é em sépia). Oscar veste uma calça de cintura alta em risca de giz, com suspensórios, camisa branca, gravata, colete com abotoamento duplo e um fraque rasgado. Com exceção da jaqueta longa e do turbante, que utiliza em palco, essa será sua única roupa ao longo de todo o filme, acompanhada de uma cartola. Após sua apresentação ele encontra com uma moça (interpretada por Michelle Williams), que aparenta ser uma antiga namorada. Ela usa um vestido simples de algodão xadrez, com decote quadrado, laço na cintura e babados na barra. Oscar comenta (em tradução livre): “Você está linda! O que isso? Xadrez?” e ela responde “Você sabe que é”. Trata-se de uma clara referência ao famoso vestido que Dorothy veste em 1939.

Ao chegar ao reino de Oz, Oscar é encontrado por Theodora (Mila Kunis), a bruxa do Oeste. A personagem utiliza três roupas diferentes ao longo da trama. No começo, ainda simpática ao protagonista, seus trajes consistem em uma calça justa confeccionada em couro, com camisa branca trespassada e detalhes em renda e uma jaqueta longa de veludo vermelho, com lapelas amplas. Os acessórios são um chapéu de abas largas no mesmo veludo e botas pretas de cano alto. O traje remete aos vestidos de montaria da transição entre o século XIX para o século XX e é o mais interessante da película. Embora Theodora não se apresente inicialmente como vilã, essa vestimenta já deixa isso subentendido, através de suas cores fortes e escuras e corte moderno.

Figura 01

Posteriormente ela aparece com um vestido branco com saia rodada, estampada com desenhos geométricos cinzas e um corpete com acabamentos na mesma cor, acompanhado de uma capa vermelha. Na cena em que ocorre sua transformação em bruxa má, Theodora, em dor, arranca a parte superior do vestido, revelando que por baixo utilizava um espartilho preto: uma maneira não muito sutil de mostrar sua natureza interior. Após a transformação passará a utilizar o icônico chapéu preto pontudo, o espartilho preto, mangas em couro, ombros adornados com garras e uma saia composta por tiras de tecido rasgado, mais longas atrás, sobre calças pretas feita com tecido texturizado e botas.

  Figura 02

A irmã de Theodora, Evanora (Rachel Weisz), a bruxa do Leste, se apresenta com um lindo vestido verde esmeralda ajustado ao corpo mas com tecido fluido, mangas em renda e detalhes em plumas negras nos ombros e nuca. Todo o conjunto é bordado de cristais e acompanhado por um colar com uma grande esmeralda. Evanora deixa claro que a Cidade das Esmeraldas é seu lugar. No terceiro ato da história ela aparece com um vestido de corte idêntico, mas em tecido preto, deixando patente que agora ocupa o papel de vilã.

  Figura 03

Glinda (Michelle Wiliams), a bruxa boa do Sul, também aparece em três trajes diferentes, que mostram sua evolução na história. Todos eles são brancos e com detalhe em formato de “V profundo na frente, criando uma silhueta alongada. O primeiro, tradicional e etéreo, utilizado quando conhece Oscar, possui mangas em tom dourado adornadas com renda.

  Figura 04

O segundo vestido, que Glinda veste para enfrentar as duas outras bruxas, possui mangas prateadas e seu corpo tem aplicações de penas brancas em forma de pétalas, com as pontas tingidas de prateado. O efeito de escamas desse adorno combinado ao recorte em V nas costas que deixa à mostra a amarração do espartilho rígido que utiliza por baixo, transmite a ideia de uma armadura.

  figura 05

Seu último traje, é um vestido bordado com pérolas, com decote canoa e saia de tule em camas, sobre forro rosa. Ela o utiliza quando a paz retorna a Oz, de maneira que não mais precisa se vestir como guerreira. Com o mesmo sentimento, a multidão de Munchkins, que a princípio portam vestimentas majoritariamente em cor azul, acompanhada de tons terrosos, quando lotam a praça central da cidade, banhados por uma luz dourada como que de anoitecer, vestem-se principalmente em tons de rosa, pontuados por amarelo.

  Figura 06

Oscar, que partiu do Kansas com seu fraque rasgado, aparece ao longo da trama com seu conjunto cada vez mais danificado e puído. Enquanto não acreditava em suas próprias capacidades sua roupa se deteriorou. Ao final, quando assume o papel de Oz, veste a mesma roupa, agora magicamente nova e restaurada. Sua autoafirmação como o grande mágico profetizado restabeleceu o bom estado de suas vestes. A única peça diferente é o colete, dessa vez em tecido verde escuro (da cor da cidade), com listras finas amarelas e abotoamento simples.

Esse figurino é bastante literal e não abre espaço para muitas interpretações. Mocinha veste roupas brancas e fluídas, vilãs vestem roupas escuras e modernas, verde sempre remete à Cidade das Esmeraldas. A jornada do protagonista é facilmente lida no estado do que veste. Gary Jones optou por não ousar e apostou no tradicionalismo. Apesar disso, acertou no tom da criação e os trajes são suficientemente marcantes e interessantes, especialmente os das duas irmãs.

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Oz- Mágico e Poderoso (Oz the Great and Powerfull/2013)

Assistido em 02/07/2013

Assistir esse filme com O Mágico de Oz original torna a comparação cruel. Não é que seja um filme ruim, mas está longe de ter o encanto do outro.

Oscar (James Franco) é um mágico no Kansas, conhecido como Oz em suas apresentações. Sedutor, ao fugir de um marido enraivecido e tomar um balão, se vê pego em uma tempestado que o leva diretamente a Oz. Lá descobre que há uma profecia de um grande mágico com o nome da terra que chegaria para se tornar rei e libertar a população. Empolgado com as riquezas que se tornariam dele, Oz decide aceitar o papel, sem se dar conta do trabalho que teria pela frente. De maneira similar ao que ocorre com os companheiros de Dorothy, ele só não sabia que os requisitos de sua liderança já estavam em si. Conhece três bruxas: Theodora (Mila Kunis), Evanora (Rachel Weisz) e Glinda (Michelle Williams).

O início da história se faz através de um rima visual com O Mágico de Oz: o filme começa em preto e branco e razão de aspecto 1.33:1 e só se torna colorido e widescreen ao chegar a Oz. (No caso do filme de 1939, o começo é em sépia).

A computação gráfica não impressiona. Em determinados momentos me perguntei se isso não seria proposital, para remeter à aparência artificial de plástico que os cenários têm em O Mágico de Oz. Mas o que justificaria essa aparência nas imagens em ação? A ação, aliás, é um dos pontos fracos: o que O Mágico de Oz tem de humor afinado, aqui temos de pirotecnia, tipicamente pensada para as gerações atuais. As atuações também não são das melhores.

Algo que me chamou a atenção positivamente foram os figurinos, muito bonitos. Achei interessante que optaram por mudar o uniforme dos guardas da Cidade de Esmeralda: em 1939 parece roupa de samurai, agora parecem da guarda do palácio de Buckingham.

Outro ponto forte são as esperadas referências ao filme original. Só achei uma pena que, embora mostrassem Oz tirando itens o tempo todo de sua maleta de mágico, não mostraram nela aqueles com que presenteia o Espantalho, o Homem de Lata e Leão ao final do outro. A forma como Oz se prepara para a batalha final também é ótima, criando o gancho para sua performance em O Mágico de Oz.

Com os pontos que levantei até parece que detestei o filme, mas isso não é verdade. É até um filme agradável e divertido de se assistir, mas provavelmente pouco memorável.

Obs: Se você quiser ler minha análise sobre o figurino do filme, acesse aqui.

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