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Terra Fria (North Country, 2005)

[escrito para uma parceria com o Cineclube Belair]

Depois do sucesso internacional alcançado com Encantadora de Baleias (Whale Rider, 2002), a diretora neozelandesa Niki Caro recebeu inúmeras propostas para trabalhar em Hollywood. O roteiro que escolhei para seu primeiro filme em solo estadunidense foi o de Terra Fria, que trata da história ficcionalizada, baseada no caso real do primeiro processo coletivo por assédio sexual nos Estados Unidos, na década de 1980. No filme, Josey Aimes, interpretada por Charlize Theron, toma a decisão de acionar as vias legais contra a mineradora onde trabalha, em virtude dos constantes assédios e maus tratos.

Josey fugiu de casa com os filhos depois de apanhar do marido e volta para a casa dos pais. Ao vê-la com um olho roxo, a primeira coisa que seu pai lhe pergunta é se seu marido a flagrou com outro homem. Como engravidou pela primeira vez ainda adolescente, sentiu o peso do julgamento alheio e sua reputação ficou manchada para os membro da comunidade, incluindo seu próprio progenitor, que se envergonha de sua suposta vida sexual.

Precisando sustentar a si e às crianças, a protagonista recorre a uma vaga bem remunerada aberta na companhia mineradora onde seu pai trabalha e novamente é questionada por ele, que inquere se ela vai se tornar lésbica. Além de errar ao relacionar a performatividade durona das demais funcionárias à orientação sexual, ele não parece se dar conta que muitas adotam essa postura justamente para sobreviver e suportar as durezas do ambiente de trabalho.

São essas durezas que Josey não aceita: uma rotina de assédios, humilhações e agressões psicológicas, que vem se juntar ao ciclo de violência que há anos faz parte de sua vida. Caro retrata as diversas formas de crueldade pela qual a personagem passa de maneira cuidadosa, jamais fetichizando a violência. Esse cuidado se reflete na própria composição de sua trajetória na narrativa. Ela é constituída por uma amálgama de experiências reais das mulheres que trabalharam no local, sem citar nenhum caso em específico, para não fazê-las reviver os horrores de então, mas garantindo que as vivências fossem representadas.

Sem o apoio inicial das colegas, a protagonista move um processo contra a empresa, que não garante as condições mínimas de trabalho para suas trabalhadoras, com um ambiente tóxico infestado de misoginia. O que faltou ao filme foi coragem para levar a sexualidade da personagem como é apresentada até o final. Da forma como o desfecho foi trabalhado, parece ter havido a decisão de redimir sua reputação e comprovar seu comportamento ilibado dentro dos padrões conservadores do local, como uma forma de validar a sua causa, como se a livre expressão de sua sexualidade pudesse conspurcar suas denúncias.

Fazendo uso de uma fotografia fria e cinza, Caro consegue captar a pobreza e a desolação do lugar e ao mesmo tempo criar a atmosfera necessária para entendermos as complexas redes de relações entre os moradores locais e seus flexíveis padrões de moralidade. A atuação de Charlize Theron tem grande força, mas o elenco de apoio também se destaca, com nomes como Frances McDormand, Woody Harrelson, Jeremy Renner, Richard Jenkins, Sissy Spacek, entre outros. O resultado final do conjunto de elementos comandados pela diretora é delicado, pungente. O filme se traduz em uma narrativa acessível, bem realizada e necessária.

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A Chegada (Arrival, 2016)

Diversas vezes o cinema de ficção científica explorou as possibilidades trazidas pelo encontro entre nós, humanos, e formas de vida extraterrestres. O medo de que com sua tecnologia superior (afinal conseguem atravessar galáxias) possam nos dominar é uma constante. Por isso é comum que sejam retratadas como uma metáfora para o invasor estrangeiro e para o horror de modos de vida que não compartilhamos em nossas comunidades, como uma forma de alteridade radical.  Embora também não seja exatamente única, em A Chegada, o diretor Denis Villeneuve parte da perspectiva oposta: e se o nosso problema é interno, marcado pela nossa incapacidade de confiar e cooperar?

Quando naves aportam em doze cidades diferentes ao redor do globo, cada país tenta ao seu modo entender o que está acontecendo e trabalhar em equipe com os demais com informações. Nos Estados Unidos, a linguista Louise Banks (Amy Adams) é requisitada pelo exército para que decifre a linguagem dos seres que tentam se comunicar.

Nesse momento Villeneuve acerta ao não atender às expectativas de seu público: quando a notícia da chegada de possíveis naves visitantes é transmitida na televisão, ele não mostra o que está acontecendo na tela, apenas a reação de quem a assiste. Assim, nosso interesse é despertado pela criação de atmosfera e não pelo fetichismo visual. A percepção da grandeza do todo é deixada para quando Louise e aqueles que a acompanham chegam ao descampado onde se encontra a nave sobre o solo estadunidense, em um momento facilmente relacionável com Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros (1993), embora talvez não com a mesma grandeza. Da mesma forma, quando Louise entra na nave pela primeira vez, não temos noção quais são suas ações e seus resultados: só voltamos a ver a personagem do lado de fora. As sensações despertadas por cada momento são intensificadas pela trilha sonora composta por Jóhann Jóhannsson.

A criação de atmosfera prossegue com o confinamento da personagem, primeiramente nas barracas do exército e depois em seu traje de proteção, mostrando-a presa à estrutura conflituosa imposta por aquela situação e desconfortável com a rigidez e um complexo de homens ao seu redor esperando resultados concretos, encabeçados por Coronel Weber (Forest Whitaker). Nesse sentido, é fácil traçar um paralelo com Contato (1997), outro filme em que uma protagonista mulher e cientista precisa utilizar seus conhecimentos empíricos para lidar com a hierarquia e com a aproximação de uma nova realidade.

E se em Contato a fé na ciência demonstrada por Ellie é contraposta pela figura de um religioso, aqui Louise tem ao seu lado Ian Donnelly (Jeremy Renner), um físico teórico que não funciona narrativamente como seu oposto, mas como seu apoio. Louise tem espaço para ser uma personagem complexa e bem escrita. Ela não apenas reage, ao contrário de Kate, protagonista de Sicario: Terra de Ninguém (2015), também de Villeneuve. Ela toma decisões que são importantes para si e para os demais, mesmo que elas desafiem as ordens recebidas ou tragam consequências não necessariamente positivas, mas esperadas. Por outro lado está longe de ser uma mulher combativa perfeita: é alguém que tem dúvidas e medos, como mostra sua mão tremendo, enquadrada em close algumas vezes durante a película. A delicadeza com que Amy Adams modela sua atuação, explorando todas essas facetas, fazem a personagem crescer como uma figura humana e palpável. Por fim, a atenção que é dada em determinado momento à sua vida afetiva e amorosa, não desmerece seus feitos profissionais e acadêmicos, mas destaca os aspectos humanos da trama de maneira eficiente, conseguindo fazer o que Interestelar (2014) falhou em alcançar.

Um ponto a se destacar no filme é seu design de produção, que contribui para o trabalho atmosférico da direção. As naves são criadas com robustez visual e formato pouco convencional, mas flutuando sobre o solo, ao mesmo tempo pesadas e leves e a sensação em seu interior é de clausura, como se o ambiente que nos é mostrado fosse uma caverna. O contraste entre o azul do hospital, o amarelo das barracas militares e o verde do descampado destacam cada momento da vida de Louise. As criaturas, carinhosamente apelidadas de Abbott & Costello, por sua vez possuem um visual interessante e é bonito como se apresenta sua comunicação gestual, traçando paralelos entre seus tentáculos e nossos dedos. A relação entre a linguagem e a forma como compreendemos o mundo é explorada de maneira poética: se nossa língua e nossa escrita são lineares, nosso pensamento e entendimento sobre o tempo e o mundo também o são; mas se fossem circulares e cíclicas, o que aconteceria com a forma como percebemos, sentimos e descrevemos?

A Chegada conta com atuações sólidas e um belo design de produção. Pode parecer que ele trata do destino, mas a verdade é que é sobre escolhas. Conhecendo os percalços e as dores que o passado lhe trouxe, você faria o mesmo novamente, se tivesse escolha? E se não fosse o passado? Dessa forma memória, comunicação, conhecimento, busca e trajetória se entrelaçam poeticamente. As comparações com outros filmes do gênero, como essa crítica demonstra, são levantadas facilmente, mas o filme consegue se destacar como único, com sua própria identidade. A direção competente de Villeneuve garante uma obra contida, climática, extremamente elegante e acima de tudo otimista.

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Figurino: Trapaça – Exagero e Exuberância em um Retrato de Época

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 12/02/2014.

Trapaça, novo filme do diretor David O. Russel, saiu na frente em número de indicações na temporada de premiações que estamos atravessando. O figurino de Michael Wilkinson merecidamente foi lembrado nas listas tanto do Oscar quando do Sindicato dos Figurinistas, sendo neste último na categoria Filme de Época. A história de passa em um 1978 de exageros e exuberância, com forte influência da discoteca, e as roupas ajudam a construir os personagens de maneira orgânica, jamais deixando-os caricatos, embora sempre a um passo disso. Aqui todos se vestem com liberdade e os trajes masculinos se apresentam tão interessantes quanto os femininos. O período é recriado através de roupas confeccionadas exclusivamente para o filme, aliadas ao uso de peças de grandes nomes da moda da época.

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Irving Rosenfeld (Christian Bale), conforme é frisado no próprio filme, é um homem confiante, confortável sendo quem é e com um senso de estilo bastante específico. Paletós coloridos, coletes, veludo, listras, xadrez, camisas e lenços ou gravatas com estampas contrastantes: seu guarda-roupa está longe de ser minimalista, mas tudo isso tem a ver com a grande autoestima que o golpista possui.

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Richie DiMaso (Bradley Cooper) não possui o mesmo senso de estilo. Ao começo da trama, quando se apresenta como um agente do FBI, veste-se de maneira simples, usando apenas blazer sem colete, com gravata mal arrumada e botão do colarinho aberto. Ao mergulhar cada vez mais no mundo das artimanhas políticas, passa a vestir-se de forma mais elaborada, acompanhando os que estão ao seu redor e espelhando as roupas de Irving, incorporando estampas cores e peças (colete, especificamente) ao seu vestir, fato ressaltado por este em certa cena do filme. Em determinados momentos, quando ambos estão alinhados para o golpe, a paleta de cores de seus figurinos dialogam, criando afinidade entre os personagens.

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A esquerda, Richie passa a se vestir de modo similar a Irving, nessa cena em tons de marrom, verde e laranja.

O prefeito Carmine Polito (Jeremy Renner) veste-se de maneira vistosa, com uma extravagância contida, adequada ao cargo. Possivelmente é o personagem mais honesto e suas roupas são em tons claros, como cinzas, beges e azuis pálidos, demonstrando sua franqueza e até credulidade. Sua aparência, com lapelas largas e gravatas chamativas, completada pelo cabelo com topete e costeletas, pode parecer exagerada, mas condiz com o período retratado.

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É interessante frisar que a década de 1970 trouxe grande liberdade ao vestir dos homens, com possibilidades de estampas e cores, abandonadas desde o fim da Revolução Francesa. Além disso a vaidade expandia-se para acessórios, como relógios, pulseiras, colares e anéis, todos fartamente utilizados pelos três personagens citados.
Rosalyn (Jennifer Lawrence) transita entre dois mundos. Em casa, deprimida e sem motivações, veste-se de forma desleixada, com vestidos largos, moletons ou mesmo permanecendo de robe. Já quando sai com seu marido, arruma-se ao máximo. Suas roupas não chegam a ser sofisticadas e o macacão com estampa de onça que utiliza na primeira noite fora de casa mostrada no filme é uma prova. Mas certamente ela se esforça para emular um certo refinamento, chegando perto com o vestido branco utilizado no cassino, desenhado por Wilkinson, que mesmo assim tem aparência barata.

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Ao centro, Rosalyn em roupa para ficar em casa. À direita vestida para sair.

A personagem mais complexa é Sydney Prosser (Amy Adams) e isso se reflete em seu vestuário. Em um rápido flashback a vemos chegando do interior para a cidade grande, utilizando roupas simples e sem grandes atrativos: uma saia com blusa e cardigã de tricô. Ao começar a trabalhar em uma grande revista, rapidamente ganha confiança e incorpora peças mais elegantes, passando da camiseta colada e cabelo preso em um rabo de cavalo à camisa branca de botão e cabelos soltos, penteados em ondas.

Vestidos de Rosalyn e Sydney que se destacam no filme e seus respectivos croquis.

Vestidos de Rosalyn e Sydney que se destacam no filme e seus respectivos croquis.

Quando conhece Irving, passa a utilizar predominantemente vestidos-envelope (caracterizados por tecido trespassado em diagonal no colo e amarrado na lateral) e decotes bastante fundos. Os primeiros foram inventados em 1974 pela estilista Diane von Furstenberg e são a marca registrada de sua grife. Esta e a marca Halston Heritage, que se popularizou na época com roupas de desenho fluido, cederam peças de seus acervos para a produção do filme. A falta de um sutiã ou alguma peça íntima que dê segurança ou sustentação aos decotes da personagem chama a atenção. Sua liberdade em cena demostra em um primeiro momento sua força e, posteriormente, sua fragilidade.

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A princípio Sydney aparece alinhada com Irving, tanto na vida pessoal quanto na execução dos golpes. Isso se reflete em suas roupas: desde o primeiro momento em que se conhecem, em uma festa na casa de um amigo dele, ambos de branco, suas roupas possuem paletas de cores relacionadas. O primeiro momento em que a roupa de um não chama visualmente a do outro é quando Richie aparece como suposto cliente. Em um traje turquesa de Diane von Furstenberg, ela difere completamente dos tons de cinza e bordô de Irving. Esse alinhamento volta a ocorrer no momento em que Richie já está incorporado aos seus planos e estão fazendo o primeiro contato com o prefeito. Mas dessa vez são os três que parecem combinar, com detalhes em tom de marrom e bege, embora Irving ainda se afaste ao usar o terno bordô.

Sydney se afastando cromaticamente de Irving e posteriormente reaproximando-se, como elo entre este e Richie.

Sydney se afastando cromaticamente de Irving e posteriormente reaproximando-se, como elo entre este e Richie.

Todos os personagens de Trapaça vestem-se para projetar a imagem do que querem ser através da roupa. Embora utilize-se roupas criadas na época retratada, percebe-se que elas foram escolhidas a dedo para realçar o exagero pretendido na visão de David O. Russel sobre o período. Michael Wilkinson amarrou com grande destreza esse mundo de grandiosidade teatral e riqueza.

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Trapaça (American Hustle/ 2013)

Assistido em: 10/02/2014.

Quase todo ano é aquela polêmica: David O. Russel dirige um filme, este recebe trocentas indicações ao Oscar e o mundo se divide entre os que concordam e os que não concordam. A bola da vez é Trapaça, filme sobre golpistas profissionais que se passa em 1978. Com narrações em off em que cada personagem explica como foi parar onde está, a trama começa com Christian Bale (que ganhou cerca de 20 quilos para o papel) interpretando Irving Rosenfeld, um homem que ganha dinheiro de comissão por empréstimos prometidos e nunca entregues. Em uma festa na casa de um amigo, conhece Sydney Prosser (Amy Adams), que torna-se sua parceira dentro e fora dos mundos dos golpes. O que nos é revelado pouco depois é que ele é casado com Rosalyn (Jennifer Lawrence), uma mãe solteira cujo filho adotou e que permanece a maior parte do tempo deprimida em casa. Certo dia Irving e Sydney são procurados por um potencial cliente, que revela-se um agente do FBI, Richie DiMaso (Bradley Cooper). Richie oferece a eles a chance de permanecerem livres se o ajudarem a aplicar um golpe em pelo menos cinco políticos corruptos ou mafiosos visando prendê-los em flagrante, entre eles o prefeito Carmine Polito (Jeremy Renner), que supostamente aceitaria propinas. Acontece que o sistema também é falho: composta por pessoas gananciosas e ambiciosas, a Lei pode ser pior que o político corrupto. E a boa intenção e até ingenuidade de Carmine é comovente.

design de produção da película é impecável: aqui temos um mundo altamente estilizado remetendo ao período, recheado de papéis de parede espalhafatosos, decorações de gosto duvidoso e, claro, figurinos (criados por Michael Wilkinson) exagerados, que , aliados aos penteados, colocam os personagens sempre a um passo do caricatural, mas jamais chegando lá. A trilha sonora também é bastante boa e contribui com o clima das cenas.

A primeira metade do filme é bastante divertida, nos posicionando diante desse leque tão variado de personalidades. Na segunda metade a história passa a ficar truncada. O excesso de detalhes e explicações, bem como a maneira como a ação se desenrola, aos tropeços, prejudicam o ritmo e tornam-no cansativo.

As atuações são um forte do filme. O destaque, sem dúvida, fica por conta de Amy Adams, que transita entre a auto-confiança e a fragilidade de sua personagem de forma linda. Muitos comentaram sobre a pouca idade de Lawrence para o seu papel, mas não concordo com isso: faz todo sentido que uma mulher jovem aceite um casamento praticamente sem amor, visando proteger seu filho. Bale e Renner também estão ótimos.

Trapaça está longe de ser um filme fantástico: trata-se de um mediano, com algumas interpretações competentes e um design de produção em que os envolvidos visivelmente se divertiram trabalhando (com ótimos resultados). Mas para melhor filme de 2013, passa longe.

Para ler uma análise mais detalhada do figurino desse filme, acesse aqui.

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