Tag Archives: Jessica Chastain

Figurino: A Colina Escarlate

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Fantasmas são reais, isso eu sei. Eu os vi toda a minha vida …

Em cartaz nos cinemas, A Colina Escarlate é um romance gótico que se disfarça de história de terror. A protagonista, uma escritora chamada Edith Cushing (Mia Wasikowska), fala sobre suas obras algo que também se estende ao filme: são histórias com fantasmas, não histórias de fantasmas, pois eles representam o passado. O diretor Guillermo del Toro confeccionou a trama entremeada de elementos visualmente marcantes. A figurinista é Kate Hawley, que já havia trabalhado com ele em seu filme anterior, Círculo de Fogo.
Edith, filha única de um homem rico, é cortejada por Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), um misterioso baronete vindo da Inglaterra. Quase nada se sabe sobre ele, mas sua situação financeira precária é percebida através de suas roupas. Isso é ressaltado pela própria Edith, que fala para seu pai que elas, embora bem cortadas, são de pelo menos uma década atrás.
A história se passa na segunda metade da década de 1890. Os trajes femininos deixavam de ter anquinhas e faziam a transição para as saias em forma de sino e os bustos volumosos que iriam caracterizar a primeira década de 1900.

Exemplos de vestidos utilizados na época.

 

As cinturas são marcadas e os ombros são destacados, o que pode ser percebido nos vestidos de Edith. Apesar disso, eles não restringem seu corpo: as camisas sempre são folgadas e os tecidos fluídos. Em um flashback, a vemos ainda criança, no enterro de sua mãe, trajada totalmente de preto, com um chapéu com uma textura rugosa na parte inferior, semelhante a um cogumelo visto por baixo. Essas rugosidades ou ranhuras são a textura que predominará nos tecidos usados em seus trajes, que também são por vezes adornados com dobras, como origamis.

02

É possível ligar a personagem ao amarelo e outros tons claros. Na mesma cena de infância já mencionada, os botões frontais de seu vestidinho são de pérolas. Elas aparecem posteriormente em botões e outros detalhes, como nas mangas do vestido que utiliza para ir a um baile com Thomas. Mas não é apenas isso: o tom perolado, como do vestido citado, bem como o branco, vai dominar sua paleta de cores, garantindo sua imagem de inocência. A parte da trama que transcorre nos Estados Unidos é fotografada com uma cálida iluminação amarela. Essa é outra cor que vai marcar a personagem, nesse momento em elementos como saias e acessórios, ligando-a a sua terra.

003
Para destacar o amarelo, as paredes da casa de seu pai são predominantemente vermelhas. Já as figurantes na cena do baile formam uma massa em tons acobreados e de verde e amarelo pastel, compondo um degradê que emoldura a valsa dos dois enamorados.

635810712709642983

A leveza dos trajes de Edith contrasta com a restrição dos trajes de Lucille Sharpe (Jessica Chastain), irmã de Thomas. Seus vestidos são justos, com corpetes marcados, gola alta e mangas longas, confeccionados em veludo ou cetim. Não há um só movimento em Lucille que seja espontâneo. Tudo precisa ser calculado e sua roupa conota isso. Ainda nos Estados Unidos, vermelho vivo e preto são as cores que utiliza. Elas transmitem um senso de morbidez e perigo adequado à personagem.

005

Edith e Thomas se casam rapidamente e se mudam para a mansão dos dois irmãos, na Inglaterra. A construção é um personagem por si só, responsável por criar a atmosfera adequada para o encaminhamento da trama. A falta do telhado no saguão principal traz para dentro da casa o clima de fora, seja as folhas secas ou a neve caindo. As paredes, manchadas e predominantemente verdes destacam o vermelho que aparecerá recorrentemente. A casa foi construída sobre uma mina de argila vermelha, que no inverno vem à tona manchando a neve e conferindo o nome ao cenário: a colina escarlate.

Lucille, em casa, prioriza o uso de cores escuras. Se nos Estados Unidos vestiu preto e seu irmão também, aqui ela usa frios tons fechados de azul e novamente é acompanhada por ele. Essa estratégia trata de ligar os dois. 007

No dia de sua chegada, Edith veste um casaco longo cinza, adornado com violetas e segura uma espécie de buquê da mesma flor. Tradicionalmente a violeta e sua cor são usados como símbolo de luto. Mas por baixo do casaco, ela usa um vestido de cor amarela.

08

Desse momento em diante, os trajes de Edith seguem esse padrão: o amarelo cada vez mais intenso, beirando a cor de mostarda, ligando-a a sua casa, e elementos em tons escuros de luto, que a trazem para a casa nova.

009

Quando está despida, utiliza uma longa camisola branca, com mangas bufantes, de tecido vaporoso e novamente com textura enrugada. A peça destaca a fragilidade da personagem, que se torna pequena em contraste com detalhes da cenografia, como os longos corredores, os grandes cômodos e a enorme poltrona da sala. A casa por si só parece ameaçadora, pois os adornos e esculturas projetam-se como estacas das paredes ou estalactites dos tetos.

010

Comparar A Colina Escarlate com outros filmes, em virtude de sua temática ou estética, não é difícil. Thomas, com seus óculos escuros, remete facilmente ao personagem título de Drácula de Bram Stocker, de Francis Ford Coppola, especialmente por também se tratar de um romance gótico.
Edith, que não deseja ser uma Jane Austen, mas sim uma Mary Shelley, nada fala sobre as irmãs Brontë, responsáveis por clássicos da literatura gótica. Mas sua própria história guarda grande semelhança com Jane Eyre, livro escrito por Charlotte Brontë. Talvez Edith não seja tão decidida quanto Jane para manter distância daquele que ama, mas o clima fantasmagórico e sobrenatural, o romance trágico e mesmo a temática da mulher louca no sótão podem, em maior ou menor grau, ter paralelos em sua história. Coincidentemente Mia Wasikowska também encarnou a última versão de Jane Eyre, de 2011, dirigida por Cary Fukunaga. Ela e Tom Hiddleston também interpretaram cunhados em outro romance com clima trágico, Amantes Eternos, de Jim Jamursch, com figurino também analisado aqui.
Por fim, é fácil ver semelhanças entre Lucille e a Sra. Denvers, governanta do filme Rebecca de Alfred Hitchcock, bem como entre as casas de ambos os filmes. E se Lucille é contida pelos seus trajes, é a partir de quando tira seu corpete e liberta o próprio corpo que deixa de restringir suas ações e dá início ao ato final.

11

Apesar de todas essas possíveis comparações, a estética de A Colina Escarlate é bastante única. Del Toro demonstra todo o cuidado com a criação de ambientação que case com a atmosfera fantasmagórica que deve emanar da história. O figurino de Kate Hawley não só é adequado para a época retratada, como, através de suas formas e paleta de cores, acrescenta camadas de interpretação aos personagens principais. O perigo, o trágico, o calor do pertencimento, a fragilidade, a sintonia: todos esses elementos são externados através das roupas dos personagens, tornando A Colina Escarlate uma narrativa ainda mais interessante visualmente.

012

Share

Interestelar (Interstellar, 2014)

Interestelar, dirigido pelo queridinho do público Christopher Nolan, é um filme que se beneficia muito da sala de cinema. A experiência de assistir em uma boa sala torna a obra grandiosa, mas ao sair, há pouco conteúdo para sustentá-la na memória. Passada uma semana da data em que o vi, já tenho a clara percepção do quão pouco memorável ele é.

Talvez seu maior problema foi ter pretendido, justamente, ser uma obra grandiosa. O drama de Cooper (Matthew McConaughey), ex-piloto da NASA que mora em um futuro desolado, onde a Terra precisa de fazendeiros e não engenheiros, mostra-se superficial. Ele abandona os filhos para juntar-se a uma NASA funcionando em frangalhos em busca de um território no espaço que pudesse ser repovoado pelos humanos. Sua filha, Murph (interpretada por Mackenzie Foy na infância e Jessica Chastain quando adulta) naturalmente se ressente dessa escolha, mas nada do que vem disso gera drama real, pois tudo se resolve facilmente.

A ação no espaço é razoavelmente boa. Há momentos bastante tensos e a ciência é utilizada de forma interessante para compor a ficção. Tudo é transparente e se por vezes os diálogos são excessivamente expositivos, pelo menos as regras do universo diegético são claras. Merecem destaque nos momentos de ação os robôs TARS e CASE, que funcionam como belos complementos aos seus companheiros humanos.

Se a primeira metade do filme é interessante e deixa o expectador com vontade de saber mais, a segunda desmorona sobre si mesma. As motivações não se sustentam e certas ações tem mão pesada dos roteiristas apenas para criarem ainda mais uma reviravolta. O personagem Dr. Mann (Matt Damon), por exemplo, tem motivações tão rasas e é tão unidimensional que é impossível comprar toda a sequência de acontecimentos que ele desencadeia. A morte de Professor Brand (Michael Cane) e a revelação por ele feita poucos momentos antes também soam clichês e desnecessárias.

A tentativa de injetar filosofia à trama é ineficaz. A alusão à Lei de Murphy relacionada ao nome de Murph é largada no meio do caminho e não leva a lugar algum. Mas o que dói mesmo é ouvir o discurso brega sobre amor de Brand (Anne Hathaway). Se até então o filme tentava usar ciência real como combustível de uma aventura espacial, aí houve uma tentativa de engrossar o roteiro com filosofia barata que não aguenta cinco minutos de análise.

No terço final, embora muitos tenham criticado, gostei do cubo pentadimensional. Ele força bastante a suspensão de descrença do espectador, mas funciona de forma poética e esteticamente agradável, que lembra o Nolan atento aos detalhes técnicos de A Origem. Mas a graciosidade desse mecanismo narrativo é jogada fora no final, em que a busca de toda uma vida se vê finalizada em meia dúzia de frases e em um desfecho aberto que não tem base ou fundamentação em nada do que aconteceu no filme até então.

Não é que o filme seja ruim: está longe disso. A fotografia é bonita, a trilha sonora de Hans Zimmer funciona muito bem, Cooper e Murph são personagens suficientemente cativantes (apesar de rodeados por seres unidimensionais) e a aventura no espaço, até determinado ponto do filme, é interessante e estabelece a possibilidade de criações de tramas satisfatórias (que nunca se concretizam). O problema de Interestelar é justamente querer ser mais que uma aventura espacial e um drama sobre a relação entre pai e filha. Ao propor uma filosofia de boteco como fator motivador e abraçar um final aberto insatisfatório, o que poderia ter sido uma trama bem executada rui pela falta de sustentação. É um filme bem feito, sem dúvida, e o elenco se sai bem com o material que lhe é dado. Talvez Nolan devesse mirar em alvos menos distantes ou, caso quisesse mesmo criar seu 2001, contratar roteiristas com mais conteúdo que seu irmão Jonathan Nolan e ele mesmo.

interstellar

Share

A Árvore da Vida (The Tree of Life/2011)

Assistido em: 11/08/2013

Resolvi assistir esse filme com certo receio, pois de Malick só havia visto Além da Linha Vermelha e não havia gostado muito. De alguma forma a dinâmica dos soldados filosofando na guerra não me fisgou. Ciente de seu estilo próprio e pronta para o que viesse, esse acabou sendo uma grande e agradável surpresa. Com o mesmo estilo poético, lento e recheado de cenas que agradam os olhos, aqui a trama parece funcionar melhor por se tratar de um drama familiar.

Na história temos um casal, sr. O’Brien (Brad Pitt) e Sra. O’Brien (Jessica Chastain), que têm três filhos. Eles recebem um telegrama informando que o filho do meio morreu, aos 19 anos. Desesperada, Sra. O’Brien questiona Deus e o sentido da vida durante esse momento de dor. É então que começa a parte do filme que deve ter gerado mais estranhamento. Malick, para nos colocar como criaturas insignificantes no universo, nos presenteia com o começo de tudo no Big Bang, as primeiras reproduções celulares, os peixes, até os animais de grande porte. Um dinossauro predador, diante de outro ferido, tem o primeiro momento de compaixão, deixando a possível presa para trás. A vida segue. Nossos problemas e sofrimentos podem parecer enormes diante de nós, mas somos apenas um centésimo de segundo na história. Não significamos nada. Voltando à narrativa dos protagonistas, vemos vislumbres da convivência dos cinco em casa pela visão do filho mais velho, Jack. A sra. O’Brien tem uma visão de mundo recheada de religiosidade, carinho e compaixão: o caminho da graça. Já o Sr. O’Brien é rígido, espera o melhor de seus filhos e os quer preparados para a vida: o caminho da natureza. Atrás de sua dureza e falta de jeito que às vezes se torna comportamento abusivo, os ama sem saber demonstrar direito. Os três meninos têm uma infância plena de brincadeiras e uma relação edipiana com os pais. Jack adulto (Sean Penn) se questiona como a mãe conseguiu aguentar a morte de seu irmão. Ao final, encontra um desfecho emocional para suas perguntas.

As imagens combinadas com narração em off aqui funcionam, criando a ambientação da família que demonstra suas rachaduras internas. Todos humanos, demasiado humanos. Com seu ritmo peculiar, o filme toca nas feridas e suscita emoções. Sei que não é uma película que vai agradar a todos, mas não façam como eu: não adiem essa experiência por receio do que pode vir dela.

arvoredavida

Share

A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty/ 2012)

Assistido em 28/03/2013

Eu queria ter gostado desse filme, mas talvez pelos motivos errados. Ao procurar a estatística de quantas diretoras trabalham atualmente em Hollywood, me deparo com o número de 5% do total de diretores de cinema. Bastante desapontador, não é? A Hora Mais Escura é dirigido por Kathryn Bigelow, uma das poucas diretoras atuais a ter filmes premiados, e seu anterior, Guerra ao Terror, me agradou bastante. Ainda temos de brinde uma protagonista feminina forte, Maya (Jessica Chastain). Infelizmente para eu gostar do filme, no final das contas, ele precisa me entregar algo que esse não me entregou.

Na história, logo após os ataques de 11 de setembro, Maya integra a equipe de investigação e busca a Osama Bin Laden. Esse trabalho passa a ser a vida dela, que parece não ter contatos fora do meio militar. A jornada culmina na sua descoberta do esconderijo de Bin Laden, e na operação militar que invadiu o local e matou-o. Em primeiro lugar percebe-se que a história teve que ser mudada com a descoberta real de Bin Laden. A parte inicial e final do filme parecem desconexas, tendo espíritos diferentes e não parecendo pertencer ao mesmo contexto. No começo temos as politicagens de bastidores e depois temos a ação de guerra. Quase toda essa ação se passa em cenas noturnas e é bastante desempolgante. Muito se falou também que o filme faria apologia à tortura. Não entendi dessa forma, pois logo de início o personagem mais adepto do “método” é mostrado como um pouco problemático, tendo, posteriormente, que ser afastado para função burocrática. Além disso, toda ela se mostra ineficiente e os torturados falam qualquer coisa para que ela pare. Os investigadores só conseguem realmente obter informações confiáveis quando cessam a tortura. Tentei analisar outros aspectos do filme, como figurino e fotografia, mas não consegui achar nada lá que prendesse minha atenção. Só há a revoltante propaganda deslavada, especialmente no ato final, em que Maya é retratada como a abnegada salvadora que consegue o Bin Laden, vingando uma década de buscas. Eu consigo gostar de filmes com os quais não concorde ideologicamente, mas no final das contas esse tem tantos problemas de ritmo, que não conseguiu nem prender minha atenção.

Share