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41ª Mostra de São Paulo parte 1: dirigidos por mulheres

Entre os dias 19 de outubro e 1º de novembro, São Paulo recebeu a 41ª edição da Mostra Internacional de Cinema. Ao todo foram 394 títulos, entre longas, curtas e até mesmo 19 obras de realidade virtual, exibidos em 31 salas diferentes. As obras são variadas e a seleção inclui temáticas contemporâneas como relações de gênero, a questão dos refugiados e os problemas ambientais. Dentre as obras selecionadas, 98 são dirigidas por mulheres, incluindo 21 diretoras brasileiras. A cineasta belga Agnès Varda foi homenageada com o Prêmio Humanidade e recebeu uma retrospectiva com 10 filmes sendo exibidos. O diretor francês Paul Vecchiali também foi agraciado com o Prêmio Leon Cakoff e teve oito longas restaurados em exibição, além de seus três últimos lançamentos.

Nos próximos dias postarei os textos elaborados sobre os filmes que assisti, começando por aqueles dirigidos por mulheres. Seguem os primeiros:

Scary Mother (2017), de Ana Urushadze

Com ar preocupado, uma mulher com cabelo solto e bagunçado caminha por uma espécie de ponte. Só é visível o corrimão, mas é possível ver as construções abaixo.

Scary Mother é um filme que abraça as penas da criação, o insuportável processo de criação. Manana (Nato Murvanidze), a protagonista, é uma mulher em torno dos 50 anos, casada e com três filhos. Com postura fechada, ombros curvados e os cabelos sempre soltos caindo sobre o rosto, ela tem dificuldade de conciliar sua escrita com a convivência familiar. As expectativas dos demais parecem ser o que lhe coloca o peso sobre os ombros. O marido diz que uma mulher deve se cuidar e pintar os cabelos. Os filhos não entendem seu silêncio. Seu mundo de imaginação é uma aberração: como consegue ver figuras nos azulejos do banheiro? A mãe é assustadora: claro que é. Assusta ao não se cumprir com os acordos silenciosos da convivência familiar

Quando um homem se isola para criar, ele é um gênio. Quando uma mulher, faz o mesmo, deixando de lado os papéis sociais e domésticos que dela se espera, é louca. O que a família acarreta na trama é o desrespeito pela sua obra, considerada vulgar, profana, inadequada. Literatura e realidade se sobrepõem e se fundem, desconcertando quem a rodeia. Scary Mother é o primeiro trabalho da cineasta Ana Urushadze, que o constrói de forma rígida e intensa, frio e nublado como o clima retratado e intrigante como sua protagonista.

Jericó: o infinito vôo dos dias (Jericó: el infinito vuelo de los días, 2016), de Catalina Mesa

Uma senhora de costas, com cabelos brancos, olha para uma coleção de esculturas de santos perfiladas sobre um armário

 O documentário se passa em uma pequena cidade de mesmo nome na Colômbia. O breve poema escrito em homenagem a ela que aparece na abertura tem como autora uma mulher que compartilha o sobrenome da diretora. Não é explicado, mas talvez daí saia a conexão entre a criadora e o ambiente retratado

As casas, com fachadas multicoloridas, escondem as histórias de suas moradoras já idosas ou chegando lá. Daquela que ainda moça foi aos Estados Unidos e acabou ficando porque “o melhor dinheiro é viajar” àquela que cujo noivo hoje é padre pois sua família, branca, a considerou “negra demais para permitir o casamento”. Relacionamentos, devoção, família e pequenos causos de vida são relatados entre uma atividade cotidiana e outra.

Abusando de planos de estabelecimento preenchidos por músicas regionais, o filme, que tem apenas uma hora e dezessete minutos de duração, poderia tranquilamente ser convertido em um programa de televisão com uma hora de duração. Falta uma estrutura que o guie, mas é compreensível que com personagens tão ricas e histórias tão variadas e saborosas em suas mãos, a cineasta não tenha deixado mais nada de fora.

As Mulheres Divinas (Die Göttliche Ordnung, 2017), de Petra Volpe

Uma mulher está em pé em frente ao microfone, com ar temeroso, segurando uma folha de papel como que prestes a discursar. À sua frente três longas mesas cheias de gente que não prestam atenção a ela.

Suiça, 1971: o letreiro inicial do filme relata que, de forma impressionante, as mulheres do país ainda não possuem direito ao voto. O movimento sufragista intensifica sua campanha e nós acompanhamos suas atividades sob o ponto de vista de Nora (Marie Leuenberger), uma dona de casa casada e mãe de dois filhos, moradora de uma pequena vila, que não tinha envolvimento anterior com política, mas não se opõe a ideia de conseguir novos direitos. Seus problemas começam quando seus recém adquiridos desejos políticos entram em choque com a rotina estabelecida para as mulheres.

Nesse momento é possível perceber que o próprio movimento trabalhista local, composto majoritariamente por homens, mas também por uma mulher que se coloca em lugar diferenciado, se opõe à ampliação dos direitos femininos porque isso abalaria o status quo. Mas as mulheres se unem em torno da causa, prontas para desestabilizar o que for preciso.

Pense Estrelas Além do Tempo e Guerra dos Sexos com uma pitada de Orgulho e Esperança: As Mulheres Divinas é um desses filmes bem realizados que não são tecnicamente ousados, mas que acalentam pela força da narrativa e pela importância de seu tema, vindo na esteira de obras que obrigatoriamente nos deixam com um sorriso no rosto e o coração aquecido.

Zama (2017), de Lucrecia Martel

um grupo de cavaleiros atravessa um charco em meio a palmeiras.

 Diego de Zama (Daniel Giménez Cacho) é um funcionário da coroa espanhola na Argentina, a quem foram prometidas riqueza e honrarias que jamais se concretizaram. Morando em um local ermo, tenta manter a aparência europeia com uma peruca desgrenhada, utilizada apenas quando necessária, e uma casaca mal cortada. A solidão e o ridículo são suas companheiras, enquanto constantemente solicita poder voltar para casa. Os planos são trabalhados com academicismo e o desenrolar da história é lento.

O personagem-título é retratado como uma figura sem grandes méritos e o empreendimento “civilizatório” da colonização aparece fracassado, perdido na inutilidade da função burocrática de seus responsáveis. Curiosamente, apesar desse posicionamento marcado, pouca voz é dada aos povos de outras etnias retratados: pessoas negras e indígenas perpassam a trama sem agência real ou como a confirmação dos medos e preconceitos trazidos da Europa.

Filmes recentes, como O Abraço da Serpente e Z: A Cidade Perdida, apesar de também terem seus problemas, especialmente no que tange à exotização, abordam de maneira mais interessante o contato entre homens brancos e populações ameríndias. O filme ganha fôlego no terceiro ato, com a materialização da ameaça que ronda à boca pequena sob o nome de Vicuña Porto (Matheus Nachtergaele), mas, como um todo, o resultado final é árido e até mesmo enfadonho.

Nota: 3 de 5 estrelas

Esplendor (Hikari, 2017), de Naomi Kawase

 Pessoas atravessando a rua. Uma mulher sorrindo na calçada. Um homem de paletó espera o taxi com expressão de raiva. A sequência pode não ser exatamente assim, mas são descrições como essa que abrem o novo filme de Naomi Kawase. As pessoas familiarizadas com a textos para fins de acessibilidade rapidamente a reconhecerão. Misako (Ayame Misaki) é uma criadora de áudio descrição para cinema. Ela narra o que aparece na cena, para que pessoas cegas possam apreender o contexto dela. Em uma reunião com um grupo de teste, para aprovar o trabalho que está criando, Misaya (Masatoshi Nagase) critica o resultado do trabalho, explicando que ela não está apenas falando sobre o que a cena mostra, mas projetando suas próprias emoções, não permitindo que eles tirem suas conclusões. Outro personagem revela que ele é um fotógrafo famoso que ainda enxerga, embora com dificuldade, pois gradativamente está perdendo a visão.

A trama é centrada nessa perda e em como ela o afasta da sua arte. Mas a diretora usa a trajetória do personagem para comentar sobre a relação pessoal que entabulamos com o cinema e como o utilizamos para nos conectarmos com outras pessoas, mesmo que fictícias. O cinema, visual ou narrado, é sentido por cada um de uma maneira diferente.

A câmera do personagem é apresentada como aquilo de mais próximo ao seu coração que ele tem. “Se afastar daquilo que mais ama é insuportável”, diz Misako. Mas talvez se o filme fosse realizado por pessoas cegas, e não videntes, a cegueira não seria tão central ao drama, pois não seria apenas isso a definir o protagonista. A amizade entre os dois personagens forma uma dinâmica interessante, unindo a profissão e os interesses de ambos, mas o romance que se delineia parece desencaixado de contexto.

Em se tratando de visual, a diretora se esmera: o rosto de Ayame Misaki é sempre enquadrado de forma elegante e as cenas são muito bonitas, regadas de luz. Também não se pode acusa-la de não ser constante em seu estilo, bastante açucarado. Mas em se tratando da temática abordada, o filme é impressionantemente pouco acessível. A diretora cria um comentário metalinguístico sobre o processo de fazer cinema e sobre como cada um tem sua percepção individual sobre a arte apreciada. Propõe que, por conseguinte, esta não deve ser guiada, embora seja isso que ela tente fazer, conduzindo-nos pelos caminhos emocionalmente confusos de sua criação.

Nota: 3 de 5 estrelas

Operações de garantia da lei e da ordem (2017), de Júlia Murat e Miguel Antunes Ramos

O trabalho de revisar os acontecimentos políticos do Brasil a partir de 2013 seria hercúleo, mas esse documentário consegue dar conta de coloca-los em perspectiva de maneira eficiente. Partindo das diversas manifestações que se alastraram pelo país naquele ano e de uma fala da então presidenta Dilma Rousseff, que pedia as mesmas fossem realizadas de forma pacífica e ordeira, ele mostra o gradual cerceamento de direitos e os métodos utilizados para desestruturar os movimentos, do enfraquecimento das ações individuais e coletivas até a restrição da liberdade, passando pela infiltração de policiais visando criar falsos flagrantes.

Ao invés de utilizar relatos e análises posteriores, que poderiam gerar um filme burocrático, os diretores realizam uma complexa montagem de vídeos retirados da programação jornalística dos canais de televisão aberta, opondo-os à cobertura das mídias independentes, especialmente transmissões ao vivo. Dessa forma, a importância dos segundos como ferramenta de divulgação de conteúdo é realçada, em comparação aos discursos recorrentes dos veículos tradicionais. Esses, frisam constantemente a necessidade de movimentos ordeiros, respeitosos, despolitizados e “bonitos”, como é mencionado em determinado momento. A ação da polícia e do jornalismo tradicional no sentido de incriminar qualquer tipo de movimento que fuja desse padrão fica patente.

O desfecho não existe: essa história ainda está em andamento. Em 12 de maio de 2016 assistimos Michel Temer empossar seus novos ministros e desde então testemunhamos o trabalho de desmonte que tem sido realizado. As reações passionais da plateia ao filme demonstram sua eficiência: são gritos, xingamentos, risadas nervosas e suspiros. Não é fácil de assisti-lo, mas é necessário.

Nota: 4 de 5 estrelas

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Pendular (2017)

When the routine bites hard
And ambitions are low
And the resentment rides high
But emotions wont grow
And were changing our ways,
Taking different roads
Then love, love will tear us apart again

(Love will tear us apart- Joy Division)

Em seu novo filme, a cineasta Júlia Murat se debruça sobre um ambiente de proximidade, retratando um casal de artistas. A protagonista sem nome (Raquel Karro), bailarina, se muda com seu companheiro (Rodrigo Bolzan), escultor, para um enorme galpão de indústria. O espaço é logo transformado em lar, com os objetos pessoais do casal dispostos em prateleiras cuidadosamente etiquetadas por ele. O roteiro assinado por Murat e Matias Mariani (talvez não por acaso seu marido) descortina a intimidade de ambos os personagens, das conversas mais banais às particularidades que só se tornam claras com uma convivência intensa.

É dessa intimidade que surgem as rusgas. Morar e trabalhar juntos é a primeira delas: com uma fita adesiva vermelha é marcado no chão o espaço que cada um vai ocupar. A construção é ampla, mas escura e a sensação é de confinamento, intensificada pelas portas que são grades. A necessidade de espaço pessoal se manifesta no desejo por mais espaço físico para si. Quando dividem o espaço com a fita, são as territorialidades do afeto que se delineiam. Essa é uma das muitas metáforas visuais usadas na narrativa para pontuar momentos do relacionamento. Murat trabalha os espaços com poesia, manipulando a forma como percebemos o amplo e o diminuto, sempre iluminados por luzes diversas que contribuem para com essa percepção.

Entre o casal nem tudo é compartilhado e se por um lado certos questionamentos ficam sem respostas, por outros decisões são tomadas sem diálogo. O filme deixa claro que a intimidade pode extrair o melhor e o pior de todos. Se por uma lado adivinhamos reações, antecipamos brincadeiras e completamos pensamentos, por outro conhecemos o que o outro tem de pior, suas reações mais animalescas e isso pode doer. Certa hora alguém diz: “Não é porque sabe que entende”.

Em determinado momento o casal discute qual seria a ex libris que poderia usar em seus livros. Ela sugere a imagem de uma bailarina se equilibrando em um cabo de aço. O aço presente na obra dele, a dança está presente na dela, mas o mais interessante é pensar no equilíbrio. O equilíbrio aparece nas esculturas dele, inicialmente pesadas e estáveis mas cada vez mais leves e em busca de movimento. Mas também marca a rotina dela, que brinca e experimenta o mundo ao seu redor com o corpo. A corporalidade de ambos é importante, como quando seus corpos brilhando nus são fotografados. Mas nela se intensifica: músculos, ossos, curvaturas e respirações são explorados. Pés descalços, barriga estirada, pernas jogadas para longe em busca novamente do equilíbrio. O trabalho de Korra impressiona. A protagonista está sempre nessa busca, tentando equilibrar-se nas cadeiras, nas superfícies em que dança, nas coreografias que cria, ao mesmo tempo em que equilibra o afeto. O equilíbrio é movimento, na dança e na relacionamento. A dança e a escultura se entrelaçam como expressão dele.

Não há preocupação em trazer respostas a todas as perguntas que o filme levanta. A direção de Murat mostra sua segurança ao construir vazios imensos de solidão e cheios preenchidos com corpos inquietos que constroem a intimidade. Pendular é um filme que pulsa.

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