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Figurino: Star Wars Episódios I, II e III

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Dezesseis anos. Esse foi o tempo que os fãs de Star Wars esperaram para ver um novo filme após O Retorno de Jedi. Em 1999 finalmente foi lançado Star Wars: Episódio I- A Ameaça Fantasma. A nova trilogia que se iniciou com ele, e que funciona como um prequel para os outros filmes, é inteiramente dirigida por George Lucas e composta também por Star Wars: Episódio II- Ataque dos Clones (2002) e Star Wars: Episódio III- A Vingança dos Sith (2005). É possível dizer que um dos (poucos?) pontos fortes desses filmes é o figurino, desenhado por Trisha Biggar. A figurinista usou as bases deixadas por John Mollo, cujo trabalho nos Episódios IV, V e VI foi analisado aqui e expandiu-o, para dar vida a uma sociedade que Lucas define como “muito mais sofisticada”.
Uma das características que Mollo estabeleceu foi a paleta de cores baseada em tons terrosos para os mocinhos. Biggar continua com essa lógica e os jedis seguem vestindo as túnicas beges inspiradas em quimonos acompanhadas de capa. Qui-Gon Jinn (Liam Neeson), assim como Luke em Uma Nova Esperança, veste um poncho sobre sua roupa para chamar menos atenção.

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Em A Ameaça Fantasma, Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) é apenas um aprendiz, ou padawan, e por isso utiliza uma trança marcar seu status. A trança só é cortada quando o aprendiz é elevado a cavaleiro, o que pode ser visto em Ataque dos Clones.

002 Não vou comentar a respeito da polêmica em torno da computação gráfica, mas, em se tratando do figurino gerado através dela, é interessante notar o grande salto que a tecnologia teve entre os episódios II e III. Não só as rugas do rosto são mais detalhadas, mas também a textura do tecido da roupa de Yoda, que é praticamente inexistente em 2002, já é bastante visível e ganhou maior realismo em 2005.

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Em Tatooine, tio Ben (Joel Edgerton), já veste o mesmo tipo de túnica com tecidos rústicos que usará no futuro.

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Já os vilões continuam usando roupas escuras, muitas vezes pretas, com capas. Darth Maul (Ray Park) usa o mesmo tipo de robe dos jedis. Conde Dooku (ou Darth Tyranus, interpretado por Christopher Lee) utiliza trajes com aparência militar.

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Por fim Senador Palpatine (ou Darth Sidious, interpretado por Ian McDiarmid), no terceiro filme, usa a gola chinesa que foi vinculada aos militares do exército do Império na trilogia original, bem como tecido com textura rugosa, que lembra couro. São pistas que o figurino dá sobre seu verdadeiro papel político e seu futuro como Imperador.

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Mas é o guarda-roupa de Padmé Amidala que mais chama atenção pela riqueza de detalhes e exuberância. Em A Ameaça Fantasma, ocupando o cargo de rainha de Naboo, seus trajes trazem uma certa rigidez, adequada ao protocolo. A maior parte deles tem aparência pesada e é altamente ornamentado, com bordados, rendas e texturas. Os cabelos são arrumados em pesteados elaborados e com adereços. A inspiração vem de trajes da realeza ou da nobreza de períodos históricos diferentes, mas geograficamente no que costuma se chamar de Oriente. A maquiagem pesada, com o rosto claro e lábios vermelhos, escondem suas feições, o que, aliado ao falar pausado e sem entonação, ajuda nas atividades políticas e no disfarce de sua identidade.

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Esse tipo de roupa está vinculado ao cargo de rainha, o que fica comprovado pelas ocupantes do cargo seguintes, que também se vestem dessa forma.

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Padmé eventualmente utiliza a estratégia de colocar alguma de suas damas de companhia em seu lugar, muitas vezes por motivos de segurança. No primeiro filme é Sabé, interpretada por Keira Knightley, que ocupa esse papel.

009 Enquanto isso, Padmé se veste como as demais damas de companhia, com um traje em degradê do vermelho ao amarelo. Quando sai da corte, disfarça-se de camponesa, com tecidos rústicos, ou com um traje para batalha.

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Em uma de suas aparições, ela usa um vestido vermelho com bordados dourado e os cabelos esculpidos em uma forma simétrica que lembra dois chifres, adornados com pingentes. A roupa é visivelmente inspirada no traje real tradicional da Mongólia.

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Imperatriz Dondogdulam, fotografada em 1908 na Mongólia.

012 Na última cena do filme, na celebração da derrota da Federação de Comércio, Padmé utiliza um vestido leve e claro, coberto com uma capa composta por inúmeras pétalas de tecido delicado em tons rosados, com uma gola que remete ao período elisabetano da Inglaterra, criando um gancho para seu figurino do segundo filme.

Retrato da Rainha Elizabeth I da Inglaterra, no final do século XVI.

Retrato da Rainha Elizabeth I da Inglaterra, no final do século XVI.

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Em Ataque dos Clones, Padmé não é mais rainha, mas se tornou senadora da Galáxia. A partir de agora seus trajes tem como influência maior a moda europeia de época variadas. Eles se tornam mais leves, menos cerimoniais, mas não menos cheios de detalhes. Os tecidos diáfanos e cores suaves servem para garantir uma imagem romântica à personagem.

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Seu traje de refugiada, utilizado com e sem o capuz, é decorado com arabescos e novamente traz como referência uma nobreza europeia, dessa vez da Rússia.

Grã-Duquesa Xenia Alexandrovna em traje típico do século XVII, fotografada em 1903.

Grã-Duquesa Xenia Alexandrovna em traje típico do século XVII, fotografada em 1903.

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Cada vez mais afastada da política e mais envolvida com a ação, também utiliza um traje bastante funcional inteiramente branco, ajustado ao corpo, acompanhado de uma capa. Quando Nexu, o felino monstruoso a ataca na arena, ele arranca com suas garras uma porção do tecido. A decisão foi de George Lucas, que desejava trajes mais reveladores.

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Já o vestido de casamento, com o longo véu moldando o formato da cabeça é inspirado por aqueles da década de 1920.

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Por fim, no terceiro filme, escondendo seu casamento e sua gravidez, Padmé utiliza cores escuras, especialmente o azul e o roxo, além de tecidos pesados, como o veludo. As formas são amplas e uma capa geralmente esconde sua barriga. Em casa, as camisolas são de tecidos leves.

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Em certo momento, quando reencontra com Anakin, seus cabelos estão presos formando os coques memoráveis que Leia, sua filha, usou em Uma Nova Esperança.

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Já na cerimônia de seu funeral, o vestido azul, com um tecido fluido que lembra água, assim como seus cabelos dispostos em cachos cobertos por flores ao seu redor, a transformam em uma imagem de Ofélia.

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Por fim, temos Anakin Skywalker (Jake Lloyd), o menino que se tornou um dos maiores vilões da história do cinema. Nós o vemos em Tatooine, usando roupas como as dos demais habitantes do local e ao final de A Ameaça Fantasma já é o pequeno padawan de Obi-Wan.

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Já crescido (interpretado por Hayden Christensen), a partir do segundo filme, Anakin passa a usar em seus trajes de jedi elementos em tons escuros de marrom. Depois, sobre sua túnica, utiliza couro preto de aparência pesada, em oposição aos tecidos de fibras vegetais em tons claros dos jedis, que gradativamente deixa de usar, conforme é levado para o lado sombrio da Força. Sua dualidade é marcada em uma cena em que metade de seu rosto está na luz e metade na sombra. As mangas amplas e a capa, embora sejam condizentes com traje de jedi, servem para lhe conferir uma silhueta que, propositalmente, reflete seu traje futuro, como Darth Vader.

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O trabalho de Trisha Biggar, curiosamente, foi pouco lembrando em premiações e hoje em dia ela trabalha principalmente em séries de televisão. Apesar disso, ela manteve coesão com a estética estabelecida na primeira trilogia e expandiu as possibilidades, tendo em vista que agora a sociedade retratada é mais complexa e rica, em um período que antecede as grandes guerras. Com isso tornou-se responsável por alguns dos trajes mais memoráveis da franquia Star Wars.

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Figurino: Anna Karenina

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira (Leon Tolstoi- Ana Karenina, parte 1, capítulo I)

Um clássico da literatura russa, o romance realista Ana Karenina, de Leon Tolstoi, já recebeu uma variedade de adaptações diferentes no cinema. A mais recente, de 2012, é dirigida por Joe Wright e tem Keira Knightley no papel principal. O livro conta com dois personagens principais que se contrapõem e se equilibram. De um lado temos Ana Arkadyevna Karenina, uma mulher urbana, casada com Alexei Karenin e apaixonada pelo conde Alexei Vronsky. Ao longo da história ela passa a viver de uma forma que a sociedade da época julgava imoral. Já Konstantin Levin, em contraponto, é um idealista, pertencente a uma família de riqueza antiga e rural, que vive com simplicidade, ceifando as lavouras junto aos camponeses, em busca de um sentido para a vida, de uma Rússia ideal e do amor de Kitty Scherbatskaya. A vida de Anna ainda é contrastada pela de seu irmão, Stepan Oblonsky, casado com Dolly (irmã de Kitty) e um infiel inveterado.
A trama começa em 1874. Em se tratando do figurino, apesar da obra original contar com vastas descrições das vestimentas, elas não foram utilizadas de forma literal. A figurinista, Jacqueline Durran, misturou referências da moda da década de 70 do século XIX, com suas saias estreitas e anquinhas volumosas; com a alta costura, especialmente derivada do New Look criado pela Maison Dior, da década de 1950, que primava por cinturas estreitas e marcadas com uso de corpete e saias rodadas. Essa discrepância entre as silhuetas é utilizada para marcar os diferentes papéis sociais das personagens.

Exemplo da moda da década de 1870.

Exemplo da moda da década de 1870.

 

New Look, de Dior, caracterizado por saias amplas e cintura marcada.

New Look, de Dior, caracterizado por saias amplas e cintura marcada.

A Anna do filme, por exemplo, faz uso de vestidos que se aproximam muito mais da representação de 1950 do que de 1870. As saias rodadas, as alças estreitas e caindo pelos ombros, as formas assimétricas e os drapeados que parecem se desmanchar organicamente marcam uma modernidade que a colocam como uma mulher à frente de seu tempo, ainda que com elementos que a localizem no período da história.
Os dois homens de sua vida não poderiam ser mais distintos. O marido, Karenin, veste trajes com corte simples e poucos detalhes. Seu poder não precisa de signos para se externar e sua frieza fica patente na falta de detalhes. 003

Já Vronsky, jovem e vaidoso, utiliza roupas de inspiração militar (a carreira que segue), com abotoamento duplo e ombros largos, em azul ou branco.

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Outras personagens também são chave para a trajetória de Anna. A primeira delas é a Princesa Betsy, que, segundo o livro, sempre se veste com o maior rigor da moda. Ela intermedia os primeiros encontros entre Anna e Vronsky e seu comportamento liberal em relação aos romances é marcado nos trajes. Se Anna é um misto entre os dois períodos utilizados como inspiração, Betsy foge de qualquer rigor de um retrato época, com roupas vistosas que poderiam ter saído da alta costura contemporânea.

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Em oposição, a bondosa Dolly, cunhada de Anna, representa o mais próximo a uma representação realista do período. Seu comportamento se rende às convenções, permanecendo ao lado de seu marido infiel, por mais que isso lhe traga sofrimento. À adequação à sociedade é manifestada em sua silhueta convencional.

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Em fases diversas de sua vida, Anna vai utilizar trajes em tons frios de azul e roxo. Essa seria sua paleta de cores padrão, que será quebrada nos momentos certos, marcando as mudanças na vida da personagem.

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Esta [Ana] não estava vestida de lilás, como tanto teria desejado Kitty. Um toilette de veludo preto, muito decotada, desnudava-lhe os ombros esculturais, que lembravam velho marfim, assim como o colo e os braços roliços, de pulsos finos. Rendas de Veneza guarneciam-lhe o vestido. […] Kitty, fascinada, todos os dias, em imaginação, via Ana vestida de lilás. Mas só agora, ao vê-la de preto, percebia que não apreendera todo seu encanto. Via-a sob um aspecto novo e inesperado. Agora compreendia que o lilás não lhe ficasse bem. O seu grande encanto resultava precisamente desse relevo de sua personalidade. O que vestia passava despercebido. Enquanto um vestido lilás a teria exibido, este, ao contrário, não obstante as suntuosas rendas, era apenas uma moldura discreta que lhe punha em evidência a inata elegância, o encanto, a perfeita naturalidade.
(Leon Tolstoi- Ana Karenina, parte 1, capítulo XXII)

O primeiro momento de impacto em sua vida foi quando aceitou o convite para o baile em que Kitty foi apresentada a sociedade. Todas as jovens em cena vestem-se em tons pastel, mas Anna está de preto, como no relato do livro, embora também seja. Essa peça marca o momento em que conhece Vronsky e se apaixona, marcando seu destino. Ela é construída com a modernidade já citada, repleta de detalhes assimétricos que refletem o estado de espírito da personagem, daí em diante atormentada e sempre torta em relação à sua própria vida. O vestido passa a sensação de que vai cair, tal a fragilidade das alças que o prendem aos ombros e a maneira com o tecido flui organicamente em sua construção. Após dançar com Vronsky, Anna vê sua própria tragédia refletida em um espelho. O filme constantemente nos chama atenção para o desfecho que está por vir.

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Sua segunda grande decisão foi comparecer à festa na casa da Princesa Betsy, onde Vronsky também estaria presente. Seu vestido, em um tom fechado de vermelho, tem o corte similar ao preto, mas parece estar se desmanchando ainda mais. As alças mal param nos ombros e mesmo a anquinha é assimétrica, adquirindo o formato de um tecido amarrado à sua cintura. Nesse momento Anna toma conscientemente a decisão de se deixar levar pelo amor e começar um relacionamento com Vronsky.

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E se azul e branco são as cores de Vronsky é interessante notar que na sequência da corrida de cavalos, em que ele é o centro das atenções, todos os presentes se vestem nessas cores, o que ajuda, também, a destacar Anna, ainda utilizando em público o azul escuro de seu casamento. Nesse momento ela deixa transparecer aos demais membros da sociedade sua ligação com ele.

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Daí em diante, suas roupas serão predominantemente brancas, com exceção do período em que volta aos cuidados de Karenin e, portanto, ao azul. Mas esse branco vai ter sentidos diversos e até mesmo irônicos, marcando fases distintas em sua vivência. À princípio é a cor de uma visão primaveril de amor concretizado, onde tudo vai dar certo e a entrega é total. Passa a ser o branco de uma mulher que se vê casada, mas que não é aceita como tal pela sociedade. Por fim, é a cor da loucura de Anna, confinada em casa, privada de seu círculo de relações sociais, corroída pelo ciúme e tendo como único espelho Vronsky, seu amor, que também se veste branco. Anna se apequena e sua expressão corporal é de quem quer fugir desse lugar e de si.

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Mas a narrativa da personagem principal não é feita apenas através de seus vestidos: os acessórios também ajudam a construir sua imagem. A começar pelas joias, todas de marca Chanel, que são visivelmente contemporâneas, como uma estética que diverge do que seria esperado para então. O destaque é o colar com camélias, símbolo da marca, utilizado em mais de uma ocasião.

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Outro elemento importante são seus trajes íntimos, que refletem o estado de espírito da personagem, aquilo que não se vê pela aparência exterior. Logo em uma das primeiras cenas do filme, Anna é vestida com o auxílio de uma criada. Camisa, corpete, meias, calçolas, crinolina com anquinha (no chão) e anágua (em um manequim) são todos brancos, em meio a um quarto em um azul claro de calmaria. Anna ainda não havia se dado conta do marasmo que compunha seu casamento e vivia seus dias placidamente. Já ao final, perturbada por pensamentos destrutivos e moralmente condenada por suas ações pela sociedade, como mulher caída, utiliza corpete amarelo com detalhes em vermelho, mesma cor da crinolina. A combinação grita desconforto visual, especialmente contrastando com as paredes em azul intenso de seu quarto com Vronsky, que demonstram o estado conturbado de seu relacionamento.

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Mas o mais interessante dentre os acessórios é o véu. Em uma sociedade em que tudo é farsesco e as pessoas vivem de aparências, nada mais razoável que o uso de véu ocultando os verdadeiros sentimentos. Anna, com véus cada vez mais espessos, não permite que os demais a conheçam por inteiro. É significativo do que o momento em que chega em casa e chora ao lado de seu filho dormindo, sem remover o véu, mostrando que nem em um ambiente íntimo ela está livre de suas máscaras.

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Levin, o contraponto de Anna na história, veste-se de uma maneira que o aproxima a uma visão folclórica da Rússia. Ele quer se afastar da sociedade urbana e por isso apenas em raras ocasiões se veste de maneira adequada a ela. Na maior parte do tempo utiliza roupas que o aproximam aos camponeses.

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Embora o vestido, o penteado e os demais preparativos para o baile lhe tivessem custado muitos esforços, o certo é que Kitty entrava agora no salão de baile tão natural e simples, no seu complicado vestido de tule sobre um forro cor-de-rosa, como se todas quelas rosinhas e rendas, todos aqueles enfeites não lhe tivessem custado, e aos seus, um minuto de atenção. Dir-se-ia ter nascido assim mesmo, já com aquele vestido de tule e aquele penteado alto coroado por uma rosa com duas folhas.
(Leon Tolstoi- Ana Karenina, parte 1, capítulo XXII)

Já Kitty, como boa mocinha da sociedade e interesse romântico do jovem idealista, se veste de branco com detalhes em rosa esmaecido. As cores claras dizem respeito ao seu caráter. Kitty jamais deixou as regras do mundo ao seu redor contaminarem seu coração e mesmo quando as desafia, o faz por bondade e não por egoísmo.

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Duas criadas que passavam, voltaram-se para lhe admirar o porte e disseram qualquer coisa uma para a outra em voz alta a respeito do seu vestido: “são verdadeiras”, disse uma delas, referindo-se às rendas. Os rapazolas não a deixavam em paz. Passaram por ela e voltaram a olha-la com descaro, gritando e rindo em voz de falsete (parte 7 Cap XXXI).

Durante as ações finais de Anna, ela volta a usar um vestido vermelho e um véu. Anna já não consegue suportar o peso do julgamento e do escárnio alheio. Novamente a cor vai marcar suas decisões de grande peso emocional. Se antes foi a decisão consciente de embarcar em uma relação extraconjugal, agora demonstra a turbulência de emoções provocadas por ciúmes, desespero e solidão, antecipando seu final trágico.

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Anna Karenina é um romance absolutamente cínico nos seus comentários à sociedade russa e infelizmente parte disso se perde na adaptação de Joe Wright. Ainda assim, o uso de uma estética teatral das ações que ocorrem na cidade, em oposição à naturalidade do campo, pontua adequadamente essa crítica presente no livro. O filme é esteticamente belo, como quase todos os trabalhos de Joe Wright. O figurino de Jacqueline Durran (que já havia trabalhado com o Diretor em Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação) é essencial para a percepção que a plateia tem deste vasto universo de personagens.

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Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo (Seeking a Friend for the End of the World, 2012)

Corte de cabelo moderninho, vestido lilás, all star sem meia (meus dedinhos doem só de olhar) e casacão. Penny, a personagem de Keira Knightley se apresenta de forma a deixar claro que é uma pessoa peculiar. O fato de às vésperas do fim do mundo se agarrar aos seus vinis como se disso dependesse sua sobrevivência deveria ajudar a enfatizar essa característica, embora nenhum sentido jamais seja dado a eles. A personagem se resume a isso: mais uma protagonista de comédia romântica diferentona e sem profundidade.

Eu escrevi comédia? É engraçado (sem trocadilhos), porque o filme jamais acerta o tom no humor, embora se apegue a ele em diversos momentos. Algumas sequências chegam mesmo a ser constrangedoras, como uma que se passa em uma lanchonete.

Dodge, interpretado por Steve Carell, em contraponto à outra personagem, é um cara tão comum que nunca chegamos a vislumbrar qualquer característica nele a que se apegar. Alguns dramas pessoais são utilizados para tentar engrossar a trama, mas são desconectados demais do contexto geral. A participação de Martin Sheen, que aparentemente deveria ter grande carga dramática, acabou sendo curta, mal aproveitada e ineficaz.

Não é que tudo no filme seja ruim. É interessante ver como as pessoas lidam com a proximidade do fim dos tempos (mas isso já foi feito outras tantas vezes e melhor). A interação entre os dois personagens principais às vezes funciona e gera emoção na medida certa, sem ficar piegas. Em alguns momentos a história mostra potencial para ser mais. Mas a expectativa se frustra e fica por aí mesmo.

Dirigido por Lorene Scafaria, Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo é um filme com potencial desperdiçado. Se o mundo estiver acabando, esse definitivamente não é um a ser assistido nos últimos dias.

2estrelas

 

 

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Figurino: Anna Karenina (2012) – Preto, branco e vinho

Anna was not in lilac, the colour Kitty was so sure she ought to have worn, but in a low-necked black velvet dress which exposed her full shoulder and bosom that seemed carved out of old ivory, and her rounded arms with the very small hands. Her dress was richly trimmed with Venetian lace. (…) Kitty had been seeing Anna every day and was in love with her, and had always imagined her in lilac, but seeing her in black she felt that she had never before realized her full charm. She now saw her in a new and quite unexpected light. She now realized that Anna could not have worn lilac, and that her charm lay precisely in the fact that her personality always stood out from her dress, that her dress was never conspicuous on her. And her black velvet with rich lace was not at all conspicuous, but served only as a frame; she alone was noticeable — simple, natural, elegant and at the same time merry and animated.

(Leon Tolstoi, Anna Karenina, Parte 1, capítulo 22)

Anna Karenina

Jacqueline Durran, figurinista de Anna Karenina, já havia trabalhado com Joe Wright em dois outros filmes: Orgulho e Preconceito (2005) e Desejo e Reparação (2007), todos com Keira Knightley como protagonista. Aqui ela tem completa liberdade para criar um figurino muito interessante, não por acaso vencedor de grande parte do prêmios do ano passado, incluindo Oscar, BAFTA e Costume Designers Guild Awards.

A personagem principal, Anna, recebe vestidos absolutamente anacrônicos e que ainda assim contam sua história belissimamente com uma paleta restrita a três cores principais: preto, branco e vinho.  A silhueta é mais inpirada na década de 1950 do que na de 1870, em que se passa a história. Característico do período, o New Look, criado por Dior, consistia em cintura marcada através de corpete a saia rodada com anáguas. Já 1870 foi uma década de transição em que as saias, ainda que sustentadas por crinolinas, estreitaram-se e passaram a receber anquinhas. Os trajes de Anna possuem anquinhas, mas de forma discreta, prevalecendo as saias rodadas. Além disso, os decotes dos vestidos são bastante baixos, tanto no colo como nas costas, o que seria prejudicado pelo uso dos corpetes mais fechados de então. As mangas de seus vestidos são extremamente estreitas, divergindo completamente do que seria utilizado.  O anacronismo ainda é marcado através de penteados bagunçados e jóias contemporâneas, cedidas por Maison Chanel, que se destacam sobremaneira em cena.

Diferença entre as silhuetas de 1870, com saia estreita e anquinhas e a do New Look de Dior, com saia ampla

Diferença entre as silhuetas de 1870, com saia estreita e anquinhas e a do New Look de Dior, com saia ampla

Há que se dizer que o figurinista não deve se preocupar em simplesmente em criar roupas adequadas ao período retratado: seu trabalho consiste em criar uma determinada atmosfera para os personagens e auxiliar a narrativa, juntamente com os demais itens do design de produção, como a cenografia, por exemplo. Por isso considero que a história de Anna está muito bem contada.

Anna e seus véus

Anna e seus véus

Um detalhe muito interessante da narrativa é a forma como a personagem sempre utiliza véus cobrindo seu rosto: as pessoas tendem a não conhecê-la por inteiro, pois ela não permite que a vejam. Isso fica claro em uma cena em que ao chegar em casa, ela chora em seu quarto, mas sem tirar o véu. Nem em casa ela está livre das máscaras.

Roupas íntimas no começo e no final da história

Roupas íntimas no começo e no final da história

Os trajes íntimos demonstram que no início da hitória Anna não percebia ainda que estava descontente com sua vida: veste camisas, corpete e crinolina completamente em branco. Já no final, desconexa e aflita, utiliza corpetes amarelos com acabamentos em vermelho, mesma cor da crinolina, criando um contraste que grita desconforto visual, ao mesmo tempo remetendo às cores berrantes que uma cortesã da época utilizaria em tais peças.

Baile: jovens em tons pastel

Baile: jovens em tons pastel

No primeiro momento da história ela se veste majoritariamente em preto: ela é uma mulher casada, bem posicionada na sociedade e fiel ao marido. É jovem, bonita, e mesmo que esperem que ela use outras cores, como lilás que Kitty deseja vê-la usando no livro, ela opta pela cor mais simples e sóbria, por saber que ela realçaria sua beleza. No filme, as peças são construídas de maneira moderna e assimétrica. A assimetria parece refletir o estado de espírito da personagem, sempre atormentada, sempre torta em relação à sua própria vida. O vestido usado no baile, por exemplo, passa a sensação de que vai cair, tal a fragilidade das alças que o prende aos ombros e a maneira com o tecido flui organicamente em sua construção. Ela contrasta fortemente com todas as demais jovens vestidas em tons pastel.

Vestido preto descontruído

Vestido preto descontruído

À partir do momento em que passa a viver seu romance com Vronsky abertamente para a sociedade, Anna usa vestidos mais estruturados e agora predominantemente em cor branca. No ápice de sua paixão por Vronky, ambos são retratados em um piquenique vestidos inteiramente de branco, sobre lençóis brancos. É como se nesse momentos sua vida estivesse ordenada e calma.

A calmaria inicial da relação retratada em branco

A calmaria inicial da relação retratada em branco

Última roupa que Anna usa no filme

Última roupa que Anna usa no filme

A terceira cor que compõe a paleta principal da personagem é o vinho: nas cenas de maior perturbação emocional ela recorre a essa cor para externar sua tormenta interior. É a cor que marca as decisões mais importantes na vida da personagem, os seus grandes momentos de virada. Ela a utiliza na festa em que decide encontrar-se com Vronky na casa de Betsy, em um traje também assimétrico, similar ao preto, mas com um drapeado que quase se desmancha pela saia. Essa também é a cor do traje que escolhe usar para sair de casa e tomar o trem nas sequências finais, atormentada pelos ciúmes, desespero e solidão.

Vestido em cor vinho, com detalhes assimétricos no corpete e saia e com anquinha que se desmancha em drapeado

Vestido em cor vinho, com detalhes assimétricos no corpete e saia e com anquinha que se desmancha em drapeado

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Anna Karenina (2012)

Assistido em 22/06/2013

Quando assisti esse trailer ano passado eu sabia que Anna Karenina seria um filme para não deixar passar. O diretor Joe Wright (do perfeito Desejo e Reparação) optou por filmar a história toda em cenários, a maioria dentro de um teatro, de modo experimental. Não sabia se tal coisa daria certo ou não, mas não deu para deixar passar despercebida a força visual que isso imprimiu no trailer. Assim, decidi que leria o livro antes de ver o filme. Foram necessários dez meses para vencer as mais de mil páginas em uma tradução antiga (tendo a leitura entremeada por outros livros, claro). E ao final, um livro com personagens fascinantes, embora com uma narrativa um tanto quando irregular.

Os dois protagonistas se contrapõem e se equilibram. De um lado temos Anna Arkádyevna Karenina, uma mulher urbana que é casada com Aléxis Karenin e apaixonada pelo conde Aléxis Vronsky. Ela vive uma vida cheia de riquezas e de uma forma que a sociedade da época julgava imoral. Já Constantine Lévin é um idealista de uma família de riqueza antiga e rural, mas vive com simplicidade, ceifando as lavouras junto com seus camponeses, em busca de um sentido para a vida e do amor de Kitty Scherbátsky. Mas ele também tem seus defeitos: separa as mulheres entre as “para casar e as da vida”. A vida de Anna ainda é contrastada pela de seu irmão, Oblonsky, casado com Dolly (irmã de Kitty) e um infiel inveterado. É interessante como Anna é julgada e condenada por seu amor, enquanto seu irmão sai ileso aos olhos da sociedade e mesmo Vronsky pode continuar vivendo sua vida como se nada acontecesse. A história, pertencente à escola do realismo, é absolutamente cínica nos seus comentários à sociedade russa.

No filme, Anna é Keira Knightley, Karenin é Jude Law, Lévin é Domhnall Gleeson e Vronsky é Aaron Taylor-Johnson. Esse último me parece um pouco jovem demais para o papel.

Como citado, a história toda se passa praticamente dentro de um teatro cenográfico, incluindo os bailes e corridas de cavalo. Joe Wright afirma que a decisão partiu em parte por falta de verba para produzir os cenários integralmente e em parte para simbolizar a sociedade da época, onde todos interpretavam o tempo inteiro. A estética que resulta dessa escolha é muito interessante: as transições entre cenas, com cenários sendo deslocados ou portas se abrindo para outro lugar são muito bonitas. Por outro lado, ao colocar músicos tocando em cena e momentos com personagens coreografados, ele passa a sensação de que se trata de um musical ou ópera. Faz lembrar Moulin Rouge (de Baz Luhrmann) e não combina com o tipo de narrativa. Lá tinhamos uma história que não só era musical, como ambientadaem um teatro (e de forma teatral). Aqui, perde-se o tom realista e ácido ao exagerar-se. Isso acontece principalmente no núcleo de Oblonky. Apesar disso, a produção, do cenário ao figurino, passando pela fotografia, é muito bonita.

O filme humanizou bastante Karenin, tentando fazer o público ter pena dele. Ele é interpretado como um homem formal, mas está longe de demonstrar a forma burocrática como trata a vida e a esposa. Já Vronsky aparece como um galanteador e sedutor, sempre um apaixonado, mas, por outro lado, também fica pouco evidente sua imaturidade. Ela só parece na cena da corrida: o que dizer de um homem tão obstinado em ganhar que acaba por matar sua mais perfeita e querida égua? No livro é difícil entender como Anna, uma mulher que parece ser adorada por todos, quando resolve não mais se manter presa a um marido detestável, escolhe um amante mimado e infantil para acompanhá-la. Parece que apenas ela idealiza a situação (pelo menos essa foi minha percepção). A história não tem tanto o tom de melodrama de amor como no filme.

Um ponto forte do filme foi saber cortar as partes certas da trama. Uma boa parcela do meio do livro lida com questões camponesas, agricultura mecanizada versus tradicional, necessidade ou não de escolarizar pobres e mulheres, política das províncias e os inúmeros gabinetes que eram criados sem função nenhuma, guerra nos Bálcãs, entre outros assuntos, alguns interessantes, outros arrastados, mas que em menor ou maior grau não são necessários para a narrativa principal.

O livro é uma leitura fascinante. O filme vale a pena ser assistido pelo seu visual: mesmo que essa desmanche o tom da narrativa, é deslumbrante.

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