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Figurino: Barry Lyndon- Opulência e Ridículo

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 21/05/2014.

Após 2001- Uma Odisseia no Espaço (de 1968) e Laranja Mecânica (de 1971), o diretor Stanley Kubrick termina, em 1975, Barry Lyndon, uma novela de costumes recheada com fino senso de humor, que retrata a trajetória de Redmond Barry (Ryan O’Neal), um jovem irlandês, entre as décadas de 1750 e 1780. Após um duelo, Barry foge para a Europa continental, vira soldado, deserta, enriquece e por fim, casa-se com a condessa Honoria Lyndon (Marisa Berenson), de forma que sua ascensão social culmina na nobreza.
Kubrick, conhecido por seu perfeccionismo, não tomou o caminho das reinterpretações ou estilizações do período: sua abordagem é literal e os trajes vistos em cena são perfeitamente condizentes com a época retratada. As figurinistas responsáveis pela empreitada são Milena Canonero (que já havia trabalhado com ele em Laranja Mecânica e retomou a parceria em O Iluminado) e Ulla-Britt Söderlund.
Um dos aspectos mais interessantes do filme é como remete visual e tematicamente às pinturas do período, com uma estética que ficaria entre o Rococó tardio e o Romantismo. Paisagens campestres se intercalam com visões de interiores suntuosos e nobres trajados em ricos tecidos e rendas, todos enquadrados belissimamente. O ritmo é lento, como se acompanhasse o viver da época através desses retratos.

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River Landscape (1770) e Landscape in Suffolk (1748), ambos de Thomas Gainsborough

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The Ladies Waldegrave (1781), de Sir Joshua Reynolds e Lady Georgina Cavendish (1783), de Thomas Gainsborough.

A moda feminina previa corpetes justos, mangas igualmente justas culminando em uma abertura ampla, decotes generosos, chapéus adornados com laços, flores e fitas e fichus (espécie de lenço ou xale utilizado sobre os ombros ao ar livre). O corte dos trajes da pequena burguesia rural e da nobreza era semelhante: o que os diferenciava era o nível de detalhamentos e de riqueza dos tecidos. As moças irlandesas do começo do filme, por exemplo, usam chapéus de palha ou toucas, e vestidos de cores claras, sem muitos adornos.

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A moda masculina consiste em calças curtas ajustadas (chamadas culotes), acompanhadas por meias, bem como coletes, e casacas longas (redingotes), todos com o mesmo tipo de excessos da moda feminina. De fato, os homens só passaram a adotar vestimentas ascéticas, em cor predominante preta, após a Revolução Francesa, quando adornos passaram a ser vistos negativamente, como herança da nobreza. Novamente, a diferença entre as classes era marcada apenas pelo tipo de tecido e acabamentos, visto que a pequena burguesia sempre procurava imitar as modas da nobreza.

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Os trabalhadores das classes mais baixas raramente conseguiam mimetizar os estilos em voga. A mesma roupa poderia durar décadas, sendo passada para frente, não acompanhando a forma vigente. Além disso, os trajes do período não eram adequados nem confortáveis para execução de suas tarefas cotidianas. As mulheres, em específico, abriam mão do uso de corpetes, para possibilitar maior mobilidade. Tecidos coloridos eram mais caros, por isso temos, no filme, a visão de uma população rural com roupas descorados.

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Outro detalhe vislumbrado no filme é o uniforme militar, que seguia o mesmo corte das roupas civis da época, incluindo a casaca e chapéu de três pontas. Ele não era utilitário dos uniformes atuais, por exemplo, visto que as guerras eram travadas local e hora marcados, seguindo todo um sistema de regras próprias.

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Posteriormente, vemos na nobreza todo o excesso que sua posição possibilita: há abundância de rendas e uso de tecidos caros. Os cortes que provêm pouca mobilidade deixam claro que não precisam realizar tarefas práticas. Riquezas imensas são expressas no vestir cotidiano.

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As mulheres utilizam chapéus amplos e ambos, homens e mulheres, usam perucas ou penteados volumosos e farta maquiagem.

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O ridículo da riqueza fica justamente patente aí: no exagero, na maquiagem excessiva e nos sinais (pintas de beleza) desenhados nos rostos em posições absurdas.

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As cenas à luz de velas têm um realismo impressionante: nada de vastos salões bem iluminados por um mero candelabro. O que predomina é a meia luz e as sombras. Os ambientes parecem pinturas, com personagens e cenário posicionados de forma calculada. Essa sensação é ampliada pelo uso do zoom, que se move lentamente, apenas mudando o enquadramento da cena retratada. A fotografia capta a luz de forma a esmaecer as cores, aproximando-as ao estilo de pintar da época.

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Barry é herói e anti-herói. Ele representa o povo que quer ascender socialmente, mas não passa de um aproveitador covarde. Sua vulgaridade pode ser percebida quando, ao elogiar um quadro na casa de outro senhor, rapidamente pergunta quanto este deseja para vende-lo. Para ele o prazer estético tem preço: sua apreciação pelas coisas se dá em termos financeiros, e não artísticos. Mas a nobreza também não é retratada com olhos melhores. Na verdade, o que vemos é um grupo de pessoas refestelando-se desocupadamente, perdendo rios de dinheiros em jogatinas inúteis e lazeres supérfluos.

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Em Barry Lyndon, o figurino não esconde surpresas nem brinca com formas e cores: o que se vê é um retrato fiel e sem truques da época. Apesar disso, não há monotonia: aliado ao belíssimo design de produção e casando com a linguagem do filme, trata-se de puro deleite aos olhos. É um filme para se mergulhar ao longo de toda a sua duração e apreciar a riqueza de detalhes impressa em tela.

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Spartacus (1960)

Assistido em 08/08/2013

Eis um belo e esquizofrênico épico! Grandioso em sua realização como só os épicos do período em que foi feito conseguem ser, tem cenários e figurinos impressionantes. As pinturas matte, apesar de bem executadas, não são tão bem feitas quanto outras da época. A história por vezes parece ter se criado entre o jogo de tensões entre o roteirista Dalton Trumbo, o diretor Stanley Kubrick e o produtor e protagonista Kirk Douglas. Apesar disso, o filme flui bem e tem um ritmo que mantém o expectador preso à trama, em suas mais três horas de duração.

Spartacus (Kirk Douglas) é um escravo trácio retirado da mineração para ser treinado como gladiador por Batiatus (Peter Ustinov). Lá ele conhece e se apaixona por Virinia (Jean Simmons), que viria a ser sua esposa. Acaba por liderar um levante que parte libertando escravos. Crassus (Laurance Olivier) é um senador romano que se encarrega de vencer o exército de libertos. Um de seus próprios escravos, o cantor Antoninus (Antony Curtis), fugiu com os demais. O grupo planeja atravessar um terço da Itália, libertando quem encontrar pelo caminho, para chegar a um porto e voltar para suas casas, para desagrado da tirana Roma.

Ao ver Ustimov em tela, tive uma estranha sensação de familiaridade e ao consultar sua filmografia percebi que isso deve ao fato de ele ter encarnado em vários filmes Hercule Poirot, o famoso detetive de Agatha Christie que protagonizou tantas histórias queridas de adolescência; além de ser o escravo Kaptah na adaptação cinematográfica de 1954 de O Egípcio, de Mika Waltari (um dos meus livros preferidos durante minha infância). Fora isso, tanto Kirk Douglas quanto Lawrence Olivier entregam boas atuações. E impressiona a beleza de Tony Curtis em cena.

Uma cena que foi deletada na época do lançamento e trazida de volta após a restauração da película em 1991 mostra Crassus comentando com Antoninus, enquanto este o banha,  sobre seu apreço por ambos ostras e lesmas e perguntando se o mesmo gostava de um ou de outro e se via problemas em quem gostasse. É espantosa a filmagem dela, dado o contexto da época. O tom do texto e a forma como os atores atuam, a torna ao mesmo tempo tensa e engraçada. Os momentos que retratam os escravos libertos descansando, comendo, dançando e brincando nos intervalos da marcha são muito bonitos. No terceiro ato, quando as tropas romanas se organizam para batalha, o balé dos agrupamentos mudando de posição é assombroso, assim como a quantidade de figurantes em cena.

Talvez esse não seja um filme autoral de Kubrick e percebe-se em tela o resultado das tensões de bastidores. Mas é um filme extremamente bem executado e vale a pena suas horas de duração.

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Barry Lyndon (1975)

Assistido em 26/07/2013

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A vontade súbita de assistir Barry Lyndon veio desse ranking dos filmes de Kubrick. E após tê-lo visto fico pensando em como deve ter sido sua recepção na época, na sequência de 2001- Uma Odisseia no Espaço e Laranja Mecânica. Acredito que deva ter sido um filme mal compreendido, já que até hoje ele poucas vezes é citado quando fala-se do grande diretor.

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Vamos ao filme: Redmond Barry (Ryan O’Neal) é um jovem rapaz irlandês apaixonado pela prima que foge de casa após pensar que matou o noivo dela em um duelo. Viaja para a Europa continental, vira soldado na guerra, deserta, enriquece e conhece uma nobre, Lady Honoria Lyndon (Marisa Berenson), com quem pretende se casar. Tudo isso se passa ao longo de algumas décadas no século XVIII e é um um grande resumo, pois o filme tem mais de três horas de duração. A trama é uma novela de costumes recheada com um senso de humor fino. O ritmo é lento, mas mesmo assim a história em nenhum momento parece menos interessante. Kubrick aborda ela com um senso estético de cair o queixo: os enquadramentos das paisagens são lindos, o figurino é perfeitamente condizente com o período retratado, as cores sobressaem-se belas. As cenas à luz de velas têm um realismo impressionante: nada de vastos salões iluminados por um mero candelabro. O que predomina é a meia luz e as sombras. Os diálogos são bastante expositivos e teatrais. Em algumas cenas, um personagem discorre sobre tudo que quer falar com o outro com quem a conversa é entabulada e o segundo permanece em silêncio. Elas parecem pinturas, com personagens e cenário calculadamente posicionados compondo uma tela do período, movendo-se de forma lenta. Fica claro que não é o realismo que é almejado nesses momentos.

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Barry é herói e anti-herói. Ele representa o povo que quer ascender socialmente, mas não passa de um aproveitador covarde. A nobreza também não é retratada com olhos melhores. Na verdade o que vemos é um grupo de pessoas refestelando-se desocupadamente, perdendo rios de dinheiros em jogatinas inúteis e lazeres supérfluos. O ridículo da riqueza fica patente na maquiagem e  nos sinais de pele espalhados nos rostos destes em posições absurdas.

Assistir Barry Lyndon provavelmente exige muita paciência daqueles que estão acostumados a ver apenas filmes contemporâneos. O ritmo evoca a velocidade com que as coisas aconteciam no século XVIII. Mas cada minutos vale a pena: Kubrick nos presenteia não só com uma história de fino humor como com uma recriação de época impressionante e um espetáculo visual de encher os olhos.

Para ler minha análise do figurino do filme, acesse aqui.

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De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut/ 1999)

Assistido em 10/05/2013

Esquema de cores retirado do blog Movies in Color

De Olhos Bem Fechados é um filme prejudicado pela publicidade mal feita. Propagandeado (e, na época, polemizado) como um suspense erótico, o erotismo passa longe de sua história, embora a nudez esteja lá o tempo todo. Trata-se de uma história de dominação e certa obsessão, protagonizada pelo casal queridinho de Hollywood naquele momento. Possivelmente eles nunca estiveram tão bonitos como nesse filme (embora a atuação de Nicole Kidman esteja longe de ser boa). O personagem principal, Dr. William”Bill” Harford (Tom Cruise) e sua esposa Alice Harford (Nicole Kidman), são convidados para uma festa da alta sociedade, como é habitual. Alice está linda e é elogiada por todos menos pelo próprio marido, que sequer se vira para olhá-la quando ela pergunta se está bonita. Na festa, ele a deixa sozinha e ela bebe demais. Um figurão pede para dançar com ela e flerta abertamente. Ela vê seu marido entretido com duas jovens. Ao chegar em casa os dois discutem. Segundo Bill, ele não tem ciúmes dela porque é mãe de sua filha. Sua presença ao seu lado é garantida, mulheres não possuem esse tipo de desejo e ele não faz sexo com outras pessoas em sua consideração. Em resposta ela fala que nas férias, por muito pouco não largou tudo e foi embora com outro homem que só a havia olhado. Bill recebe um telefonema avisando que um paciente havia morrido e sai de casa durante a madrugada. E o que se segue são seus os desvarios de controle. Ele não aceita que Alice tenha desejos próprios, que não envolvam a pessoa dele. Afinal, conforme seu pensamento, mulheres não vêm sexo da mesma forma que os homens. Tudo que acontece desse momento em diante são seus desejos ( sexo com prostituta, com menor de idade, em grupo) e seus medos (homofobia, doenças venéreas, a descoberta da sua identidade, violência e morte). No seu olhar, todas as mulheres são submissas, daquela que vai casar com um homem que não ama as que usam máscaras e se despem diante de todos em um ritual. Mesmo uma moça morta é referida apenas como um objeto de desejo, “com belos seios”. Em sua própria imaginação a visão de Alice fazendo sexo com o desconhecido militar das férias o atormentam. Certas partes do filme funcionam de forma quase onírica, deixando o público decidir o que e real e o que não é. Embora a nudez e o sexo apareçam constantemente em cena, sempre são de forma distanciada e fria. O filme se fecha na negação do desejo. Falar que a fotografia e a escolha de cores de Kubrick são certeiras é chover no molhado. As cenas, especialmente na mansão onde se passa a orgia, são lindas. Os tons de vermelho e dourado permeiam o filme de maneira marcante. É um ótimo desfecho para sua carreira.

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