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Os Primeiros Longas de von Trier

Dando continuidade à análise da filmografia do diretor Lars von Trier, do qual já escrevi sobre os primeiros curtas de sua carreira, chego agora aos primeiros longas que produziu.

Pode-se dizer que Befrielsesbilleder (1982) é uma obra de transição e por isso também foi citado no texto anterior. Encaixa-se na proposta de seus curtas, mas já se relaciona estética e tematicamente com os filmes seguintes. Pode-se dizer que o começo de sua filmografia será marcada pelo monocromatismo, já aqui presente. O filme é dividido em três fases: vermelho, amarelo e verde. A história, sobre a Europa na II Guerra Mundial, indica o tema que vai marcar sua primeira trilogia, como falarei adiante.

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Fase vermelha de Befrielsesbilleder.

Fase vermelha de Befrielsesbilleder

Fase vermelha de Befrielsesbilleder.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fase amarela de Befrielsesbilleder

Fase amarela de Befrielsesbilleder.

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Fase amarela de Befrielsesbilleder.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fase verde de Befrielsesbilleder

Fase verde de Befrielsesbilleder.

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Fase verde de Befrielsesbilleder.

 

 

 

 

 

 

 

O próximo filme é Elemento de um Crime (1984), o primeiro da Trilogia Europa, que trata dos traumas do continente no passado e no futuro. Esse noir em sépia se passa em uma Europa distópica em que um detetive investiga assassinatos de um serial killer com auxílio de um veterano autor de um livro sobre como solucionar crimes. A chuva cai o tempo inteiro, criando um clima melancólico. Existe um desnível de hierarquia entre os personagens masculinos e os femininos, sendo que os primeiros são os que perpetram a violência. Em determinada cena essa diferença é salientada pelo fato de o protagonista estar completamente vestido, enquanto a mulher que lhe faz companhia está vulnerável, nua, sem nada para proteger-se. Há muita experimentação com o movimento de câmera e com os enquadramentos. Como em muitos filmes do diretor, ele faz uma pequena participação. Algumas rimas visuais perpassam a história e destaco o momento chave em que uma mulher quebra uma janela para fugir e posteriormente, uma garotinha faz o mesmo, ressaltando o papel de vilão daquele que lhes faz companhia.

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Elemento de um Crime e seu tom sépia.

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Lars von Trier, à direita, fazendo uma ponta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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As duas mulheres quebrando o vidro da janela, em momentos distintos, para fugir de quem se revela o vilão do filme.

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As duas mulheres quebrando o vidro da janela, em momentos distintos, para fugir de quem se revela o vilão do filme.

 

 

 

 

 

 

 

O filme seguinte, Epidemic (1987) cria uma meta-trama interessante, em preto e branco, com elementos de história, ficção científica e terror. Dois jovens roteiristas, Lars e Niels, interpretados por Lars von Trier e o roteirista Niels Vørsel, perdem o roteiro em que estavam trabalhando há um ano e meio e se fecham no apartamento por alguns dias para criar algo novo para mostrar aos investidores. Quando Niels datilografa o título “Epidemic” na folha de papel em branco, as letras aparecem uma a uma na tela, formando uma marca d’água que permanecerá até o fim do filme. A história por ele proposta é a respeito de um jovem idealista, em uma Europa medieval, que abandona sua fortificação pensando em buscar a cura para a praga que se espalha e, dessa forma, acaba por condenar sua cidade. Enquanto a narrativa avança, sinais apontados para o avanço da praga aparecem no momento contemporâneo aos autores, com consequências extremas ao final. Em se tratando de roteiro é o que se estrutura de forma mais arrojada dentre seus primeiro trabalhos.

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Niels escrevendo.

Marca d'água com o nome do roteiro e do filme

Marca d’água com o nome do roteiro e do filme.

 

 

 

 

 

 

Após Epidemic, vem um filme que não faz parte da trilogia Europa, uma fez que foi feito para televisão. Trata-se de Medea, baseado na personagem mítica grega que foi companheira de Jasão (dos Argonautas) e foi abandonada por ele com seus dois filhos, pois ele pretendia tornar-se rei ao casar-se com Glaucia, a filha de um rei. O roteiro é de Carl Theodor Dreyer e apesar das limitações técnica da mídia então, von Trier consegue construir um filme intenso e que utiliza a paisagem como ambiente mental da protagonista, da maneira como Dreyer fazia em seus filmes, como A Palavra. O sofrimento feminino, que aparece em obras posteriores de von Trier, aqui é derramado nas palavras da trágica protagonista: “Silenciosamente submissas em corpo e dever, que direitos tem as mulheres?” e “Se pelo menos os homens pudessem ter filhos sem mulheres”. O filme faz uso de projeções ao fundo da imagem, o que vai marcar seu trabalho seguinte.

A última parte da trilogia Europa é composta por Europa (1991), outro noir, dessa vez em preto e branco. A sua história se passa na Alemanha em 1945, logo após o fim da guerra e tem mais um protagonista idealista, que pretende ajudar mas se vê impotente. O jovem veio dos Estados Unidos para o país pensando em ajudar nesse período conturbando e acreditando, erroneamente, que conseguiria fazê-lo sem se envolver com a situação política. O clima é tão carregado de irrealidade que quase parece se tratar de uma distopia. Utilizando projeções, o diretor acrescenta cor em cenas que se mostram chave para a narrativa; e marca em vermelho elementos de grande importância. Em determinada cena, o casal conversa e apenas o homem é colorido quando ele está no controle do diálogo. No equilíbrio, ambos se apresentam em cor e quando, por fim, a mulher passa a dominar a negociação de poder, apenas ela se colore. Em outro momento, um personagem se corta e as gotas de seu sangue caem vermelhas na água da banheira, antecedendo uma sequência em que tudo adquire cor (apesar do cenário e figurinos preto e branco, antecipando uma enchente de vermelho.

Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores

Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores.

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Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores.

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Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue

Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue.

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Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue.

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Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aliás, o uso de personagens agitando a placidez da água parada para se verem refletidos no espelho irregular que se forma, refletindo a sua própria agitação mental, é outro elemento visual recorrente desses filmes, presente em Elemento de um Crime, Medea e neste Europa. 

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Elemento de um Crime.

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Elemento de um Crime.

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Medea.

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Medea.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Europa.

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Europa.

 

 

 

 

 

 

 

 

O que todos estes filmes tem em comum, além da temática relacionada ao continente europeu, é um grande rigor estético por parte de Lars von Trier, bem como grande experimentação em termos técnicos, típica de um jovem diretor em busca de uma linguagem própria.

Para saber mais sobre a obra de Lars von Trier, ouça o podcast do Cinema em Cena sobre o diretor.

 

 

 

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Os Primeiros Curtas de von Trier

Um dos aspectos mais interessantes de assistir a trabalhos antigos de certos diretores é conseguir ver ali características que marcariam sua obra posterior já amadurecida. O diretor dinamarquê Lars von Trier teve uma produção bastante precoce. Desde cedo tendo em mãos uma câmera 8mm, produziu diversos filmes curta metragem ao longo da adolescência e juventude, vários dos quais estão disponíveis na internet.

O primeiro deles é The Trip to Squash Land (Turen til Squashland, 1967). Trier tinha, então, 11 anos de idade e a animação em stop motion é uma demonstração de fervilhante criatividade de sua mente ainda infantil. Ele já tinha plena noção do movimento dos elementos que aparecem em cena e a narrativa é suficientemente coesa para uma trama de dois minutos.

Depois disso, há o filme chamado Why Try to Escape from Which You Know You Can’t Escape from? Because You Are a Coward (Hvorfor flygte fra det du ved du ikke kan flygte fra? Fordi du er en kujon, 1970). Com 14 anos, Trier parece experimentar com a montagem. A trama não tem muitas explicações: uma pessoa com a cabeça enfaixada que começa a história deitada na calçada começa a perseguir o protagonista. O diretor já tem a noção de como fazer cortes para mostrar a mesma ação em sequências de planos, bem como a inserção de elementos expostos de forma frenética para causar tensão. Há a inserção de sons, como falas, risadas e barulho de respiração. O filme não tem nada de excepcional, mas mostra uma tentativa de brincar com a forma.

Em The Flower (En blomst, 1971), continua a experimentação com a montagem e o uso de sons, com destaque para a trilha sonora composta por música erudita, como viria a fazer anos depois em Melancolia e Anticristo, por exemplo. A relação do ser humano com a natureza e o trágico como temática já estão presentes.

Trier já tinha 21 anos quando fez The Orchid Gardener (Orchidégartneren, 1977): dez anos a mais do que nas suas primeiras brincadeiras quase que psicodélicas. A depressão do diretor parece já transparecer, tanto na narrativa quanto na estética. Ele mesmo interpreta o protagonista, um artista chamado Victor que está internado em sanatório. Sua arte está esgotada e não consegue mais produzir. Nesse local conhece duas enfermeiras e com uma delas estabelece uma relação de BDSM, como em Ninfomaníaca, anos mais tarde. Em certa passagem uma mãe negligencia seu bebê enquanto toca o próprio corpo, lembrando que tanto em Ninfomaníaca, novamente, quanto em Anticristo, as protagonistas fazem o mesmo em virtude de experiências sexuais, sendo que o primeiro questiona o papel obrigatório da maternidade. Há o uso de música folclórica alemã, cantarolada por uma personagem. Trier se despe: é o artista nu que, deprimido, se vê exaurido e não produz arte. A fotografia em preto e branco (ou pelo menos monocromática) marcaria parte de sua obra inicial (Befrielsesbilleder, Elemento de um Crime, Europa).

Funcionando quase que como uma extensão de The Orchid Gardener, Nocturne (1980) também lida com emoções pesadas: dessa vez é o medo paralisante. A personagem principal tem uma espécie de sensibilidade à luz e por isso não quer viajar no vôo que tem marcado para de manhã. Teria relação com o medo do próprio Trier de andar de avião? Durante a noite conversa aos sussurros com uma pessoa que tenta convencê-la a ir. Tudo é escuro, mas uma lâmpada destaca-se, vermelha. O uso de elementos coloridos isolados seria feito pelo diretor posteriormente em seu noir Europa. Aqui o clima é criado através de uma música de David Bowie, Subterraneans. Uma lágrima escorre pelo rosto da personagem. A claridade do nascer do dia torna amarelado o amanhecer cheio de pássaros voando livres, enquanto ela os observa com sua mala ao lado. Medo em oposição à liberdade.

Por fim, há Befrielsesbilleder (1982), que foi o trabalho de conclusão de curso da faculdade de cinema que von Trier cursou na Universidade de Copenhagen. Esse se tornou o primeiro filme estudantil a passar nos cinemas na história do país. É dividido em três partes compostas por cores sólidas: primeiro é vermelho, depois torna-se amarelo e por fim, verde. A trama é um pouco difícil de captar: trata-se de uma história sobre sobre a ocupação nazista durante a segunda Guerra Mundial e sobre os seus prisioneiros. Elementos de trabalhos posteriores que aparecem são a relação com a natureza (que aparece através da conversa com os pássaros), o desespero, a dureza e a sensitividade, bem como o uso marcado de músicas (tanto eruditas como populares). É possível claramente perceber como esse trabalho se desenvolveu para depois tornar-se, esteticamente, Elemento de um Crime, e tematicamente Europa. 

Em todos os curtas de Lars von Trier é possível enxergar um jovem diretor em busca de seu própria estética. Os roteiros escritos por ele não focam na trama propriamente dita, mas se preocupam com a criação de determinadas atmosferas e essas sim nos fazem mergulhar na narrativa. Facilmente as imagens, aliadas ao uso experimental de som, despertam emoções no expectador. O jovem, que já parecia lidar com a depressão, aborda temas pesado e intensos, explorando as possibilidades visuais que eles trazem. Esses elementos são facilmente identificáveis em sua obra posterior, tanto na etapa considerada europeia quanto na internacional.

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Dançando no Escuro (Dancer in the Dark, 2000)

Lars von Trier é sempre uma figura difícil, com obras interessantes e espinhosas de analisar. Dançando no Escuro é um filme que em certos aspectos se diferencia do restante da filmografia do diretor. Protagonizado pela cantora islandesa Björk, trata-se de um musical. Em 1995 von Trier lançava o manifesto Dogma 95, que escreveu com outros jovens diretores dinamarqueses e que pedia filmes mais naturais, com uso de luz ambiente, som diegéticos, filmados em locação e sem efeitos visuais ou filtros. Essa crueza pretendida não poderia ser mais oposta ao gênero musical, que talvez seja o mais artificial de todos os gêneros cinematográficos. Mas Lars von Trier subverte as expectativas e cria uma película filmada com câmera na mão tremida, cortes secos, iluminação bastante dura e fria, que parece quase zombar dos números musicais, que acontecem como devaneios de sua protagonista. Embora pessoalmente não goste do estilo de canto de Björk, as sequências musicais funcionam muito bem dentro dessa ideia de imaginário.

Selma Jezkova (Björk) é uma reencarnação de Bess, de Ondas do Destino. Comporta-se de forma infantil e jamais reage ao que acontece ao seu redor. A personagem está ficando cega e tem um filho com problemas de visão. Trabalha em longas jornadas em uma fábrica para conseguir dinheiro para pagar por uma cirurgia que reverteria os problemas do filho. Ao contrário de outros filmes do diretor, a questão da sexualidade não é colocada diretamente na trama, mas de forma indireta, já que o filho é consequência de um ato sexual passado. E a respeito dele e de sua doença o que a personagem tem a a dizer é que “esta é minha punição” e “é minha culpa”. Culpa e punição pelo sexo praticado por mulheres perpassa boa parte da filmografia do diretor, sendo um de seus temas mais recorrentes. No caso de Selma, seu filho se chama Gene. Não é por acaso, tendo em vista que seus problemas físicos são genéticos e provém da mãe.

A protagonista é uma migrante tchecoslovaca e escolheu os Estados Unidos por alguns motivos: para conseguir fazer a cirurgia em seu filho e por causa dos filmes musicais que a encantavam no cinema do país de origem. A história se passa na época dos grandes musicais, em torno da década de 1960. A maneira como a trama transcorre desconstrói esse sonho americano e ao mesmo tempo mais uma vez demonstra o erro de ver em um musical um suposto retrato da realidade. Como comenta um personagem em certo momento, as pessoas não começam a cantar e dançar do nada na vida real. Assim, como basear uma ideia de realidade em filmes do gênero?

Selma passa por um calvário de acusações mentirosas e jamais se rebela. Von Trier, como em Ondas do Destino, deixa claro que ela está certa e os demais estão errados, que ela é vítima de um julgamento equivocado. Ainda assim, ele leva a tortura da personagem até o final, tornando-a uma mártir em uma cena que novamente repete a fórmula do outro filme já citado, ao deixar claro que ela está acima de tudo isso e sua existência, enquanto arquétipo, permanecerá. A fascinação do diretor pelo martírio feminino é intrigante. Ele cria mulheres que talvez não possam ser chamadas de fortes, já que não lutam, mas são resistentes, pois aguentam a jornada que lhes é destinada.

Dançando no Escuro é um filme realmente interessante, que se apropria do gênero que explora para escancarar seu escapismo, através de um drama exagerado e impossível. O irônico é que a crueza do produto final, com a estética pretensamente realista ainda com maneirismos do Dogma 95, esconde o fato de que, enquanto obra cinematográfica, também é fantasia e tão desconectado da realidade quanto qualquer filme musical.

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Ninfomaníaca: Volume 1 e Volume 2 (Nymphomaniac: Vol. I and Vol. II/ 2013)

Ninfomaníaca é o terceiro filme da trilogia que Lars von Trier criou para lidar com sua depressão (precedido por Anticristo e Melancolia) e foi dividido em dois volumes para lançamento no cinema porque a duração ficou muito longa. É impossível analisá-los de maneira separada (pois fica patente que compõem um filme só), mas ao mesmo tempo há uma quebra de ritmo e de clima em relação ao que é exibido em cada um deles.

Sexo e religiosidade são temas recorrentes do autor. Aqui novamente eles aparecem como protagonistas. O professor Peter Schepelern, da Universidade de Copenhagen, em sua aula sobre o cineasta, afirma que as protagonistas de Von Trier são mártires em mundo pronto para julgar sua sexualidade. Isso se aplica a Bess em Ondas do Destino. O seu pecado é crer nas pessoas e ao crer, fazer sexo com desconhecidos para salvar o marido. A comunidade cristã a rejeita, mas seus atos vem do mais puro louvor infantil a divindade de sua crença (que se manifesta nela falando com voz grave, de olhos fechados). Bess é punida e isolada da sociedade pelo sexo que faz, querendo apenas fazer o bem. É interessante que ela fala que todos nascem bons em alguma coisa e que ela é boa nisso, porque jamais demonstra nenhuma forma de prazer com o ato sexual, nem mesmo com seu marido. Embora se considere boa, ela é apenas um receptáculo do desejo alheio.

Mas Grace, em Dogville, é punida pelo e através do desejo dos outros. Em Anticristo, a mulher protagonista (sem nome) lida com a culpa pela morte do filho, como se fosse uma consequência direta de seu desejo sexual. Em uma simplificação, ela entende que a mulher equivale à natureza e esta é a origem de todos os males. Novamente sexo é usado como punição. O espelho de vênus (símbolo do feminino) é o T da palavra anticristo nos créditos. É difícil enxergar nessas obras o martírio da liberdade sexual e não a punição pura e simples.

Em Ninfomaníaca, parece que Von Trier comenta sua carreira e a percepção que as pessoas tem de sua obra. Embora o filme tenha sido divulgado amplamente como um trabalho beirando o pornográfico, isto está longe da realidade. Joe (interpretada na versão mais jovem por Stacy Martin) encara o sexo com naturalidade. Decide livrar-se de sua virgindade sem grandes alardes e aí reside sua primeira decepção: vai descobrir que os homens a viam como receptáculo do desejo, assim como a Bess. (Percebi que chega, mesmo, a usar o short de vinil vermelho com meia de renda que Bess usa, no início do filme). Isso fica claro quando relembra o número de vezes que Jerôme (Shia LaBeouf) a penetrou, sem preocupações com seu prazer. Suas ações, como a “pescaria” de homens no trem teriam causado estranhamento fosse ela um homem? Certamente que não.

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Short vermelho de Bess em Ondas do Destino, usado por Joe

Daí para frente ela agirá quase que por necessidade, parecendo só fazer por prazer realmente após a morte do pai (Christian Slater). Esse momento constitui o único em que parece que von Trier quer chocar e desconecta-se do restante da primeira parte do filme. O pai, aliás, sempre foi compreensivo. Não podava suas brincadeiras na infância (como pretendia fazer a mãe) e lhe mostrava as belezas do mundo, ensinando-a a explorar seus sentidos: veja as árvores, sinta o vento, a vida é prazerosa.

Ainda assim, ela é sua maior crítica: ao ser encontrada ferida e desacordada por Seligman (Stellan Skarsgård), passa a relatar sua vida com culpa e julgando-se errada diversas vezes.

A conversa com Seligman só demonstra novamente que von Trier encara a dicotomia homem versus mulher como a Natureza e Cultura, a dicotomia amplamente utilizada em estudos antropológicos. O homem em questão pontua a narrativa com conhecimentos sobre religião, música, literatura e mesmo pescaria, enquanto a mulher fala de instintos e vivências e desconhece tudo o que lhe é explicado.

A história, como em seus filmes anteriores, é dividida em capítulos, mas von Trier chama atenção para esse ato ao destacá-lo como artificial: Joe nomeia os capítulos observando objetos de Seligman e relacionando-os a sua história. Este não é o único momento em que o autor explicita que tudo não passa de ficção. Em certo ponto Seligman parece ele mesmo se defendendo das acusações que lhe foram feitas ao falar “Ser antisionista não é ser antisemita”. Em outro momento Seligman destaca a improbabilidade de algo relatado por Joe, ao que ela responde que isso não importa, é só uma história, destacando que no final, por mais que analisemos a obra, tudo não passa de linguagem cinematográfica e invenções.

Com o mote “mea vulva, mea maxima vulva”  do clube de meninas de que Joe faz parte, fica clara a mensagem de subversão da culpa cristã (que ela absolutamente não possui), como um grito de liberdade daquelas jovens em relação ao próprio corpo.

Mas de certa forma Joe é punida por suas ações, e já sabemos disso ao vê-la ferida, largada em uma rua, ao começo do filme. Mas na primeira parte realmente não parece que isso parta de um desejo íntimo do diretor: a narrativa parece absolvê-la dos pecados que ela mesma enxerga, sendo estes marcados pela sociedade ao seu redor. O filme possui uma leveza impressionante e até certo humor (com destaque para a participação de Uma Thurman como Sra. H).

Assim como há uma troca de atriz (para Charlotte Gainsbourg) , parece que Joe muda sua personalidade no segundo filme. Ao assistir o primeiro não vi uma ninfomaníaca e sim uma mulher aberta aos seus desejos em relação a sexo. No segundo parece que na verdade ela era uma viciada funcional, mas passa a ter problemas em controlar a forma de manifestar esses desejos. A necessidade de ser espancada cada vez com frequência maior pelo dominador K (Jamie Bell), negligenciado o filho de forma perigosa, não parece fazer sentido. A personagem apenas quer se punir por algo que até então não era passível de punição. Não demonstra nenhum prazer com os açoites nem parece ter fetiche com a prática. Seu único prazer consiste no breve momento de masturbação contra os livros em que apoia o corpo. A cena em que seu filho acorda sem ninguém em casa, levanta-se e vai até a varanda juntamente com a composição musical que a acompanha, é uma nada sutil referência a Anticristo. Mas enquanto lá a culpa era da mulher, aqui von Trier ri-se falando “o inocente foi poupado” (mas segue a desconfortável culpa).

Nessa metade também von Trier parece querer chamar mais atenção para o ridículo das situações narradas, como na sequência em que Joe, criança, tem uma visão religiosa.

No primeiro filme, felizmente, não se insinuou nenhuma prática incestuosa entre Joe e seu afetuoso pai. Seria clichê e desnecessário. O incesto acaba aparecendo na segunda parte de maneira indireta. Joe passa a tutelar uma adolescente, P (Mia Goth) que ao chegar a maioridade, vai morar com ela. É esta que faz os avanços, para dor e desespero da própria Joe, que não parecia querer a relação inicialmente. Mas ao envolver-se, surge o primitivo sentimento de posse e com ele o ciúme. E foi isso que a levou a estar largada no beco no início do filme.

Muita gente estranhou o final, mas sendo Seligman a representação da Cultura, é fácil entender que nossa cultura normaliza a violência sexual às mulheres, especialmente àquelas que possuem vida sexual ativa notória. Não destoa do personagem a tentativa de estupro. Ele era apenas um curioso, um teórico que manifestou interesse no que Joe relatou já ter feito com tantas pessoas. A reação de Joe (assim como sua fala no grupo de apoio) ecoa o fala de todas as mulheres do mundo: o corpo é meu, a escolha é minha, a sociedade deveria parar de querer me controlar. A opção por ocultar o desfecho em uma tela negra aumentou o impacto do resultado final.

O segundo filme é menos sobre prazer e mais sobre dor. Ainda assim graças ao desfecho, o que fica é uma mensagem poderosa. Se a personagem principal fosse mais psicológica e mentalmente sã, provavelmente ela seria mais assimilada e aceita mais facilmente. Senti falta da filmagem impecavelmente bonita de Anticristo e Melancolia. Aqui a composição aproxima-se da crueza de Dogma 95. Mas nada que prejudique a obra como um todo. Trata-se de um filme de difícil digestão e que suscita conversas e debates interessantes, o que já é mais que grande parte da produção cinematográfica contemporânea.

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Melancolia (Melancholia/ 2011)

Assistido em: 19/01/2013
Adiei a ideia de assistir esse filme por algum tempo, confesso. É fato que o desgraçado é bom! Só os 10 primeiros minutos já são uma obra de arte! As cenas em ultra câmera lenta, com situações de pesadelo ditam o clima do filme que se segue. É lindo e aterrorizante a noiva tentando andar enquanto as raízes das árvores seguram seus passos.

Eu poderia aqui falar sobre o que se trata a história e descrever as personagens que habitam esse universo, mas acho que seria infrutífero no entendimento. Dividido em 2 partes, uma para cada uma das irmãs protagonistas, Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg), o filme começa com a festa de casamento da primeira. A segunda parte é dedicada a vida familiar da segunda, a visita da irmã e à aproximação do planeta Melancolia (que confere o título ao filme), que está passando perto da Terra. Depressão, amor, expectativa, frustração, aceitação e medo permeiam a história. Kirsten Dunst tem seu melhor papel desde… Claudia de Entrevista com o Vampiro! E a cena da abertura em que ela está vestida de noiva e deitada na água de um riacho, como Ofélia, a trágica noiva enlouquecida de Hamlet, com estética semelhante ao quadro de Millais, é bonita demais. Valeu a pena perder um pouco o pé atrás.

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