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As Viúvas (Widows, 2018)

Baseado na minissérie britânica As Damas de Ouro (Widows, 1983), As Viúvas é o quarto longa do diretor Steve McQueen, que escreve o roteiro em parceria com Gillian Flynn. As protagonistas são Veronica (Viola Davis), Linda (Michelle Rodrigues), Alice (Elizabeth Debicki) e Amanda (Carrie Coon), cujos maridos, liderados por Harry Rawlings (Liam Neeson) morreram na explosão de uma van utilizada em um roubo.

Logo na primeira sequência a montagem contrasta a calmaria doméstica com o caos nas ruas. O relacionamento harmonioso de Harry e Veronica vai até o limite das atividades realizadas por ele: embora ela pareça saber de onde vem o dinheiro que sustenta o padrão de conforto em que vivem, prefere não ter detalhes e nem se envolver com elas. Vê-se obrigada a fazer isso quando a morte de seu marido revela uma dívida referente aos dois milhões de dólares que foram queimados juntos com a explosão e que serão cobrados por quem é devido.

Aqui a narrativa revela funcionar na estrutura do sub-gênero de filme de assalto: cada uma das mulheres terá que usar seus conhecimentos e habilidades para conseguir criar o último golpe planejado por seus maridos. Mas nenhuma delas tem experiência nessas atividades, ao contrário de outros filmes do sub-gênero em que são especialistas executando o plano. Apenas Veronica, Alice e Linda optam por dar continuidade às açõe e elas utilizam dos próprios esterótipos com que são enxergadas para conseguir o que precisam. Dessa forma, Linda apresenta-se como uma mulher latina subserviente em certo momento e em outro Alice passa-se por uma noiva de polonesa de encomenda. Se é isso que a sociedade espera delas, é isso que elas serão se for preciso. Nesse sentido a escrita de Flynn mostra-se essencial, já que está acostumada com a construção de mulheres protagonistas diversas, questionáveis, multifacetadas e nada simples, como as que aqui aparecem. E os pequenos detalhes ocultos nos diálogos contam muito, como quando Jack diz a Veronica “Antes de morrer?”, em um ato falho que revela mais do que deveria.

Além do roteiro, a força das atuações se destaca. Debickis é quem consegue conferir mais camadas à sua personagem, mas Viola Davis encarna com perfeição sua Veronica, de maneira sisuda, mas com ímpetos de emoção quando necessário. Daniel Kaluuya, que interpreta Jatemme Manning, por sua vez, faz dele um vilão explosivo que rouba a cena quando aparece, com destaque para o longo plano em que a câmera rodeia ele e dois rappers enquanto interagem, abrindo espaço para sua reação assustadora.

A trama fica mais interessante quando mistura as questões políticas locais, como a eleição para o cargo de vereador que tem como candidatos Jamal Manning (Brian Tyree Henry) e Jack Mulligan (Colin Farrell), a criminalidade que perpassa essa mesma política a tensão constante provocada pela violência (incluindo policial) de cunho étnico-racial e de classe e a cidade de Chicago como um todo, em que, como diz um personagem certa hora, nepotismo não é ilegal, é celebrado. A câmera de McQueen passeia sem pressa em um longo plano em que Jack volta para sua casa vindo do distrito para o qual é candidato. Ela não está posicionada dentro do carro e por isso a conversa que ela capta deixa de ter importância. O que importa são as casas que rodeiam as ruas, que começam pequenas e miseráveis e vão-se expandindo até tornarem-se verdadeiras mansões conforme se faz a transição para o bairro em que realmente mora.

Veronica, Linda e Alice são mulheres inteligentes que sabem que precisam sobreviver em um mundo de homens desprezíveis. Ao final, são mulheres no espelho umas das outras, conectadas por acontecimentos absurdos. Em As Viúvas, McQueen cria um filme que não se furta de ser cinemão, eletrizante e hipnótico, mas o destaca de tantos outros pela qualidade de sua direção e pela dimensão conferida ao roteiro de Flynn.

Nota: 4 de 5 estrelas

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

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Figurino: Star Wars Episódios I, II e III

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Dezesseis anos. Esse foi o tempo que os fãs de Star Wars esperaram para ver um novo filme após O Retorno de Jedi. Em 1999 finalmente foi lançado Star Wars: Episódio I- A Ameaça Fantasma. A nova trilogia que se iniciou com ele, e que funciona como um prequel para os outros filmes, é inteiramente dirigida por George Lucas e composta também por Star Wars: Episódio II- Ataque dos Clones (2002) e Star Wars: Episódio III- A Vingança dos Sith (2005). É possível dizer que um dos (poucos?) pontos fortes desses filmes é o figurino, desenhado por Trisha Biggar. A figurinista usou as bases deixadas por John Mollo, cujo trabalho nos Episódios IV, V e VI foi analisado aqui e expandiu-o, para dar vida a uma sociedade que Lucas define como “muito mais sofisticada”.
Uma das características que Mollo estabeleceu foi a paleta de cores baseada em tons terrosos para os mocinhos. Biggar continua com essa lógica e os jedis seguem vestindo as túnicas beges inspiradas em quimonos acompanhadas de capa. Qui-Gon Jinn (Liam Neeson), assim como Luke em Uma Nova Esperança, veste um poncho sobre sua roupa para chamar menos atenção.

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Em A Ameaça Fantasma, Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) é apenas um aprendiz, ou padawan, e por isso utiliza uma trança marcar seu status. A trança só é cortada quando o aprendiz é elevado a cavaleiro, o que pode ser visto em Ataque dos Clones.

002 Não vou comentar a respeito da polêmica em torno da computação gráfica, mas, em se tratando do figurino gerado através dela, é interessante notar o grande salto que a tecnologia teve entre os episódios II e III. Não só as rugas do rosto são mais detalhadas, mas também a textura do tecido da roupa de Yoda, que é praticamente inexistente em 2002, já é bastante visível e ganhou maior realismo em 2005.

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Em Tatooine, tio Ben (Joel Edgerton), já veste o mesmo tipo de túnica com tecidos rústicos que usará no futuro.

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Já os vilões continuam usando roupas escuras, muitas vezes pretas, com capas. Darth Maul (Ray Park) usa o mesmo tipo de robe dos jedis. Conde Dooku (ou Darth Tyranus, interpretado por Christopher Lee) utiliza trajes com aparência militar.

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Por fim Senador Palpatine (ou Darth Sidious, interpretado por Ian McDiarmid), no terceiro filme, usa a gola chinesa que foi vinculada aos militares do exército do Império na trilogia original, bem como tecido com textura rugosa, que lembra couro. São pistas que o figurino dá sobre seu verdadeiro papel político e seu futuro como Imperador.

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Mas é o guarda-roupa de Padmé Amidala que mais chama atenção pela riqueza de detalhes e exuberância. Em A Ameaça Fantasma, ocupando o cargo de rainha de Naboo, seus trajes trazem uma certa rigidez, adequada ao protocolo. A maior parte deles tem aparência pesada e é altamente ornamentado, com bordados, rendas e texturas. Os cabelos são arrumados em pesteados elaborados e com adereços. A inspiração vem de trajes da realeza ou da nobreza de períodos históricos diferentes, mas geograficamente no que costuma se chamar de Oriente. A maquiagem pesada, com o rosto claro e lábios vermelhos, escondem suas feições, o que, aliado ao falar pausado e sem entonação, ajuda nas atividades políticas e no disfarce de sua identidade.

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Esse tipo de roupa está vinculado ao cargo de rainha, o que fica comprovado pelas ocupantes do cargo seguintes, que também se vestem dessa forma.

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Padmé eventualmente utiliza a estratégia de colocar alguma de suas damas de companhia em seu lugar, muitas vezes por motivos de segurança. No primeiro filme é Sabé, interpretada por Keira Knightley, que ocupa esse papel.

009 Enquanto isso, Padmé se veste como as demais damas de companhia, com um traje em degradê do vermelho ao amarelo. Quando sai da corte, disfarça-se de camponesa, com tecidos rústicos, ou com um traje para batalha.

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Em uma de suas aparições, ela usa um vestido vermelho com bordados dourado e os cabelos esculpidos em uma forma simétrica que lembra dois chifres, adornados com pingentes. A roupa é visivelmente inspirada no traje real tradicional da Mongólia.

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Imperatriz Dondogdulam, fotografada em 1908 na Mongólia.

012 Na última cena do filme, na celebração da derrota da Federação de Comércio, Padmé utiliza um vestido leve e claro, coberto com uma capa composta por inúmeras pétalas de tecido delicado em tons rosados, com uma gola que remete ao período elisabetano da Inglaterra, criando um gancho para seu figurino do segundo filme.

Retrato da Rainha Elizabeth I da Inglaterra, no final do século XVI.

Retrato da Rainha Elizabeth I da Inglaterra, no final do século XVI.

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Em Ataque dos Clones, Padmé não é mais rainha, mas se tornou senadora da Galáxia. A partir de agora seus trajes tem como influência maior a moda europeia de época variadas. Eles se tornam mais leves, menos cerimoniais, mas não menos cheios de detalhes. Os tecidos diáfanos e cores suaves servem para garantir uma imagem romântica à personagem.

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Seu traje de refugiada, utilizado com e sem o capuz, é decorado com arabescos e novamente traz como referência uma nobreza europeia, dessa vez da Rússia.

Grã-Duquesa Xenia Alexandrovna em traje típico do século XVII, fotografada em 1903.

Grã-Duquesa Xenia Alexandrovna em traje típico do século XVII, fotografada em 1903.

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Cada vez mais afastada da política e mais envolvida com a ação, também utiliza um traje bastante funcional inteiramente branco, ajustado ao corpo, acompanhado de uma capa. Quando Nexu, o felino monstruoso a ataca na arena, ele arranca com suas garras uma porção do tecido. A decisão foi de George Lucas, que desejava trajes mais reveladores.

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Já o vestido de casamento, com o longo véu moldando o formato da cabeça é inspirado por aqueles da década de 1920.

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Por fim, no terceiro filme, escondendo seu casamento e sua gravidez, Padmé utiliza cores escuras, especialmente o azul e o roxo, além de tecidos pesados, como o veludo. As formas são amplas e uma capa geralmente esconde sua barriga. Em casa, as camisolas são de tecidos leves.

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Em certo momento, quando reencontra com Anakin, seus cabelos estão presos formando os coques memoráveis que Leia, sua filha, usou em Uma Nova Esperança.

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Já na cerimônia de seu funeral, o vestido azul, com um tecido fluido que lembra água, assim como seus cabelos dispostos em cachos cobertos por flores ao seu redor, a transformam em uma imagem de Ofélia.

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Por fim, temos Anakin Skywalker (Jake Lloyd), o menino que se tornou um dos maiores vilões da história do cinema. Nós o vemos em Tatooine, usando roupas como as dos demais habitantes do local e ao final de A Ameaça Fantasma já é o pequeno padawan de Obi-Wan.

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Já crescido (interpretado por Hayden Christensen), a partir do segundo filme, Anakin passa a usar em seus trajes de jedi elementos em tons escuros de marrom. Depois, sobre sua túnica, utiliza couro preto de aparência pesada, em oposição aos tecidos de fibras vegetais em tons claros dos jedis, que gradativamente deixa de usar, conforme é levado para o lado sombrio da Força. Sua dualidade é marcada em uma cena em que metade de seu rosto está na luz e metade na sombra. As mangas amplas e a capa, embora sejam condizentes com traje de jedi, servem para lhe conferir uma silhueta que, propositalmente, reflete seu traje futuro, como Darth Vader.

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O trabalho de Trisha Biggar, curiosamente, foi pouco lembrando em premiações e hoje em dia ela trabalha principalmente em séries de televisão. Apesar disso, ela manteve coesão com a estética estabelecida na primeira trilogia e expandiu as possibilidades, tendo em vista que agora a sociedade retratada é mais complexa e rica, em um período que antecede as grandes guerras. Com isso tornou-se responsável por alguns dos trajes mais memoráveis da franquia Star Wars.

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Uma Aventura Lego (The Lego Movie/ 2014)

Serei breve. Deixa eu ver se entendi: o filme critica quem é comum e segue as regras, mas quem é comum e segue as regras salva o dia no final. Critica a perfeição e falsa alegria de uma sociedade controlada, enquanto mostra a alegria perfeitamente perturbadora de uma terra em que a única regra é não ter regras (enquanto uma personagem admite que isso é incoerente). Mostra que música popular robotiza as pessoas mas no final diz que ela é motivadora e boa. Critica o domínio de uma grande corporação e o entretenimento barato que chega à população, mas é protagonizado por brinquedos de uma marca gigante do setor e produzido pela Warner, sendo que a Time Warner controla uma infinidade de canais de TV, produz programação imbecilizante e detém direitos de diversas franquias milionárias, como Batman, Harry Potter, Senhor dos Anéis, entre outros (que inclusive possuem personagens que fazem aparições em suas versões Lego). O filme tem um protagonista comum: tão comum que não possui nenhuma característica marcante. Sua sidekick segue o tropo de guerreira solitária badass,  mas se resume a uma fachada sem grande desenvolvimento, que regride até se tornar o prêmio do herói ao final. Ideologicamente, trata-se de incoerência do início ao fim.

Para não parecer tão ranzinza, devo dizer que o visual da animação é muito bonito e deve ser o filme do gênero em que eu mais ri dos últimos tempos. Aliás, as crianças quase não riam no cinema, porque muitas das gags são piscadinhas para os adultos. Se você não prestar atenção à trama, é bastante agradável. Sabe como é, como diz a música-tema do filme, “tudo é incrível”.

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