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Vento e Areia (The Wind, 1928)

Baseado em uma novela de Dorothy Scarborough e dirigido pelo sueco Victor Sjöström, Vento e Areia conta a história de Letty (Lillian Gish) uma jovem que se muda para uma região afastada e inóspita, para morar com o primo. Devido a problemas com a esposa deste, aceita casar-se com um pretendente local, Lige (Lars Hanson), cuja casa fica a quilômetros de qualquer vizinho. A região, assolada por ventos ininterruptos, parece espelhar a angústia interna da personagem, que se vê só com um desconhecido, em uma situação de vulnerabilidade.

O filme impressiona com a forma como compõe uma atmosfera de tensão em um crescendo que se torna insuportável. O diretor faz uso de closes em objetos específicos e nos pés dos personagens, em determinados momentos, de forma muito significativa. É possível sentir o desespero causado pelo vento que nunca para de soprar e a angústia interna da protagonista, levada à loucura por ele. A agonia mental e física causada pelos uivos e das paredes batendo é quase palpável, apesar de se tratar de um filme mudo. A areia que se acumula nos cantos e se infiltra até mesmo na comida, a casa que nunca fica limpa, a dificuldade de cavar no terreno e depois de manter o que se quer enterrado: tudo é mostrado com maestria.  É um filme dramático e bonito e Lillian Gish, que já é uma atriz admirável, brilha praticamente sozinha em cena.

Obs: Antes de o filme começar, a própria Lillian Gish conta, em depoimento que o final se trata de uma imposição do estúdio. Dessa forma, abstraí desse detalhe para minha avaliação.

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Lírio Partido (Broken Blossoms/ 1919)

Assistido em 06/08/2013

Depois de tantas pirotecnias de filmes contemporâneos (ruins) achei interessante assistir um filme mudo para descansar. O escolhido foi Lírio Partido, um drama de D. W. Griffith. Confesso que foi o seu primeiro filme que assisti inteiro, pois depois de algumas tentativas, nunca passei da metade de O Nascimento de uma Nação, considerado o seu maior.

Lírio partido conta a história de rapaz identificado apenas como O Homem Amarelo (Richard Barthelmess), chinês que vê marinheiros ocidentais brigando e resolve pregar a paz de Buda na Inglaterra. Mas lá só encontra pobreza, falta de perspetiva e vícios e acaba deixando sua própria fé de lado. Passado algum tempo, sendo proprietário de uma pequena loja em um bairro a beira de um cais, ele se encanta com a beleza da mocinha Lucy (Lilian Gish). Ela tem 15 anos e é filha de um boxeador beberão e violento, Battling Burrows (Donald Crisp) que a espanca e chicoteia rotineiramente. Certo dia, após um sessão de chicotadas, sai caminhando trôpega pelas ruas e cai desmaiada dentro da loja do Homem Amarelo. Ele passa a cuidar dela como nunca fez na vida e assim eles se apaixonam.

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Lilian Gish é uma atriz absolutamente fantástica. Expressa intensamente a doçura, a tristeza e o terror de sua personagem. O gesto em que empurra o canto dos lábios para cima com os dedos, obrigando-se a sorrir, é muito bonito, embora tenha sido usado demasiadamente ao longo do filme. A cena em que se tranca dentro de um armário para fugir da violência de seu pai é intensa e impressiona (e faz lembrar O Iluminado…). Donald Crisp já não segue esse mesmo realismo: sua atuação é mais exagerada e teatral. Mas considerando o período em que o filme foi feito e o tipo de violência retratada, acho justificável e não atrapalha o desenrolar da história. O que atrapalha um pouco para meus olhos contemporâneos é Richard Barthelmess, com maquiagem amarelada, olhos esticados, atuando com eles semicerrados e postura corcunda, para dar vida ao seu chinês. É um caso de “yellow face” que, como todos, pode ser explicado pelo racismo de Hollywood, já que diversos atores chineses são vistos fazendo figuração ao longo do filme. De qualquer forma não deixa de ser irônico pensar no escândalo que seria um casal inter-racial protagonizando um filme que trata justamente do preconceito racista e xenofóbico contra os chineses.

bbliliangish As cores do filme são muito interessantes. Cores, sim, pois apesar de ser filmado em preto e branco, as cenas são tingidas eventualmente, amarelo ou vermelho, criando um efeito interessante em relação aos cenários. Em outros momentos tudo permanece no preto e branco padrão.

Belíssimo o último ato, quando O Homem Amarelo redescobre sua fé e reorganiza seu altar para Buda, enquanto na China, um monge toca os sinos em um mosteiro. O final, trágico, como era de se esperar, casa com a história.

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