Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa

diamonds are a girls best friend

A letra da canção interpretada por Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell) na casa noturna onde trabalha contextualiza: “This is a man’s world”. É um mundo de homens, em que o parceiro de Renee Montoya (Rosie Perez) na polícia levou o crédito pelos seus feitos, em que a Caçadora (Mary Elizabeth Winstead) precisa vingar a morte de sua família por outros homens e em que Arlequina (Margot Robbie) é conhecida e protegida por ser namorada de Coringa e sem ele o jogo muda. O chefe de polícia é um homem, o magnata-vilão Roman Sionis/ Máscara Negra (Ewan McGregor) é um homem, seus capangas também são homens. Como em outros filmes menos fantasiosos, as mulheres de Aves de Rapina circulam por esses espaços de dominação masculina buscando o seu lugar, dessa vez juntas.

Sem dúvida Arlequina é a personagem de maior destaque na trama. Já conhecida de Esquadrão Suicida, ela era apresentada como um mero rascunho de fantasia masculina, do trajar ao comportamento: uma mulher desequilibrada capaz de tudo pelo amor. Nessa versão ela pode contar a sua história e passa a ser uma personagem encarnada, com suas próprias contradições. Os créditos de abertura, em animação, mostram, por exemplo, que Coringa não é sua única desilusão amorosa e estabelecem a personagem como bissexual (fato que talvez reforce a conexão comumente feita entre bissexualidade e confusão mental). Mas ela tem espaço para ser divertida, caótica, inteligente (“eu tenho um doutorado!”), eventualmente violenta e, claro, de estar em busca da expressão da própria personalidade, desvinculada do parceiro de quem era vista como secundária. Explodir a fábrica que os uniu é a manifestação física da quebra desse vínculo.

A estética do filme condiz com sua protagonista: caótico, colorido, exagerado (Ewan McGregor, seu canastrão, estou olhando para você) e luminoso. Há espaço até mesmo para uma simpática homenagem à Marilyn Monroe, remixada na mente desordenada de Arlequina. E os figurinos, por sua vez, adequadamente vistosos, destacam a forma física das personagens sem que os corpos sejam capturados passivos pela câmera. Nesse ponto, é necessário pensar na autoralidade da história.

Com direção de Cathy Yan, roteiro de Christina Hodson e produção da própria Margot Robbie, as mulheres da história tem espaço para serem escritas e trazidas à vida como personagens completas, no sentido de terem suas próprias características e motivações. Em tantas outras obras a mera presença de uma mulher é tratada como algo abstrato e, diria, inexistente, chamado vagamente de “universo feminino”. Por isso chega a ser um alívio ver criações ficcionais que parecem ter vida própria. Basta pensar em quantas adaptações de quadrinhos as mulheres parecem não estar finalizadas ou não são diferenciáveis entre si, ou mesmo não existem sem o homem que é seu parceiro. Esse, inclusive, era o problema enfrentado por Arlequina no filme anterior. Nesse, o erro está no equilíbrio buscado entre as narrativas de cada uma, que nunca é alcançado. Arlequina ainda é a clara protagonista, marcada até mesmo na narração. Alguns elos, inclusive, se firmam de uma maneira tão imediata que é como se a presença de uma personagem diante da outra bastasse. É o caso do apego de Dinah Lance/Canário Negro pela pequena Cassandra Cain (Ella Jay Basco), com quem só teve uma breve conversa em uma escada. Mas a menina, que está lá para “sacanear com homens brancos ricos”, é central para a história, pois não só roubou um precioso diamante do vilão como é aquela que une todas em um grupo peculiar. Apesar dos desiquilíbrios, todas as personagens são interessantes à sua forma.

Um dos aspectos mais irregulares do filme talvez seja a violência que, tentando emular o caos da personagem principal, não parece significar nada em específico em termos discursivos e nem se firmar em uma estética única. Ela oscila entre uma violência realista, que transmite a dor a quem assiste; uma lúdica, que explora as cores e purpurinas de Arlequina e uma cartunesca, que exagera os elementos às vezes buscando o humor (como nas cenas do ringue de patinação), às vezes destoando do conjunto (como quando Canário usa seus superpoderes, os únicos apresentados no mundo em questão). As cenas de luta nem sempre empolgam, mas quando todas estão juntas, no terceiro ato, o tom se acerta e quando Arlequina usa seus patins, faz uma perseguição de carro que poderia ser enfadonha se tornar atrativa.

Mas o texto consegue tirar risadas sinceras da plateia. Expectativas são quebradas na forma como uma das personagens se apresenta em comparação com o modo como ela é chamada pelos demais e os próprios clichês narrativos, como referências a seriados policiais dos anos 80, são escancarados. Também se explora as singularidades da equipe de mulheres que se forma, especialmente por meio da narração em primeira pessoa de Arlequina, que, de forma desorganizada, avança e volta na história conforme seja necessário para dar um sentido às suas ideias sobre os acontecimentos.

O clima de girl power impregna de forma leve o filme. Todas as personagens estão em busca, em alguma medida, da almejada emancipação destacada no título e descobrem que trabalhando juntas conseguem mais resultados. É uma afirmação que pode ser óbvia, mas raramente é trabalhada em filmes como esse. Mesmo o superior Mulher-Maravilha estabelece Diana como uma smurfette, única mulher entre uma equipe de homens. Vingadores: Ultimato, por sua vez, concatena uma cena constrangedora de união das heroínas de sua franquia apenas para mostrá-las fracassando em suas ações. É emblemático que Máscara Negra conjura seus capangas referindo-se a eles como “homens de Gotham”, reforçando a oposição entre gêneros marcada na história.

O ponto forte de Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa sem dúvida é a diversão. Com um roteiro que, se por um lado dá espaço a todas as personagens, por outro as une muito ao final, ele pode parecer um filme de apresentação, como se uma franquia se iniciasse a partir daqui (ideia, inclusive, que eu aprovo). Mas com sua estética que explode em cores e ótimas protagonistas (um conjunto de mulheres imperfeitas unidas com muito humor) a diversão fácil é garantida.

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
Nota: 3,5 de 5 estrelas
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Um Cadáver Para Sobreviver (Swiss Army Man, 2016)

Um Cadáver Para Sobreviver chega ao Brasil diretamente em homevideo, disponibilizado na Netflix. Dirigido por Dan Kwan e Daniel Sneinert (conhecidos como Daniels), o filme conta a história de Hank (Paul Dano), um rapaz que conhecemos perdido em uma ilha deserta, sozinho e tentando se matar, até que encontra o corpo já sem vida de Manny (Daniel Radcliffe). Com a ajuda das múltiplas utilidades que descobre ter o morto (e daí vem o título original, referindo-se a um canivete suíço), Hank decide tentar sobreviver e reencontrar Sarah (Mary Elizabeth Winstead) uma moça que acha bonita e que costumava observar no ônibus antes de parar naquele lugar. A amizade entre os dois homens pode parecer improvável, afinal um deles não responde mais por si, mas na imaginação de Hank ganha forma, garantindo-lhe forças para continuar através da construção de um mundo lúdico e de grande beleza. A narrativa é permeada de humor escatológico e infantil, utilizado sem refinamento, mas esse contrasta com a delicadeza com que todo o resto do mundo de ideias pautadas na esperança é construído. A bem da verdade Hank não conhece Sarah, mas a imagem dela lhe permite sonhar. Trata-se de uma idealização do amor romântico, bem como da mulher que é alvo dele, que leva a comportamentos socialmente questionáveis, ainda que tratados com doçura juvenil. Por isso faz todo sentido a escolha da atriz Mary Elizabeth Winstead para o papel de musa do protagonista, uma vez que ela mesma é colocada como esse ideal inalcançável por muitos jovens autointitulados nerds, especialmente depois do filme Scott Pilgrim contra o Mundo, em que interpreta Ramona, outra amada idealizada pelo protagonista. O filme permite que o espectador tenha empatia por uma pessoa com comportamento perseguidor e o que na vida real seria um senso de merecimento masculino bastante tóxico, mas que aqui é relevada pela forma bonita e distorcida como o próprio personagem enxerga o mundo. Nesse sentido funciona muito bem com uma sessão dupla com As Vozes (The Voices, 2014), de Marjane Satrapi, outro filme que nos mostra com empatia um homem com comportamentos abusivos em relação às mulheres: dessa vez um serial killer que acredita que não mata por que quer, mas sim porque suas vítimas pedem. Nessa outra película, também mergulhamos em um mundo lúdico, de boas intenções e de beleza, enxergado pelo ponto de vista do protagonista. A diferença principal é que, talvez por ser dirigido por uma mulher, há a preocupação de descortinar o mundo real sombrio do personagem antes do desfecho. É como se em Um Cadáver Para Sobreviver se mostrasse o ponto de vista de Sarah, a mulher perseguida, já que aqui a obsessão de Hank é romantizada. Com boas pitadas de humor, inventivo e poético, todo o segundo ato do filme é um mergulho em sentimentos ambíguos, por meio de uma expressão artística intensa, providenciada por uma direção de arte hipnótica e encantadora. Poucos filmes se permitem explorar de maneira tão intensa as possibilidades de expressão artística que os objetos em cena permitem. O terceiro ato perde em partes sua força criativa, mas não diminui o resultado final. Há quem diga que o cinema está morto. O público certamente pode não querer ver a história de um cadáver que literalmente peida em cena, mas se aceitar o desafio pode se impressionar com o cuidado quase que de trabalhos manuais colocado com carinho nessa narrativa. Um Cadáver para Sobreviver peida, mas é mágico.
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