Melhores filmes dirigidos por mulheres da década

Nesse final de ano organizei uma lista de 50 melhores filmes dirigidos por mulheres da década de 2010 no Feito por Elas, convidando jornalistas, críticas e pesquisadoras para enviar seus votos. O resultado pode ser conferido no site. Abaixo listo meus 10 votos e 5 menções honrosas. O critério da lista leva em conta a data de produção, uma vez que alguns desses filmes nunca foram lançados comercialmente no Brasil, o que explica o 1º lugar. Também tenho um critério pessoal de apenas 1 filme por diretor/a em cada lista. Se não fosse isso, talvez a lista fosse diferente. A lista também está disponível no Letterboxd.

Menções honrosas:

15- Era o Hotel Cambridge (2017), de Eliane Caffé

14- O Babadook (The Babadook, 2014), de Jennifer Kent

13- Respire (2014), de Mélanie Laurent

12- Grave (2016), de Julia Ducournau

11- Não é um Filme Caseiro (No Home Movie, 2015), de Chantal Akerman

Meus votos:

10- Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert

9- Pariah (2011), de Dee Rees

8- Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird, 2017), de Greta Gerwig

7- Trabalhar Cansa (2011), de Juliana Rojas e Marco Dutra

6- O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, 2011), de Andrea Arnold

5- Precisamos Falar Sobre o Kevin (We Need to Talk About Kevin, 2011), de Lynne Ramsay

4- Entre o Amor e a Paixão (Take This Waltz, 2011), de Sarah Polley

3- A 13ª Emenda (13th, 2016), de Ava DuVernay

2- Visages Villages (2017), de Agnès Varda e JR

1- Retrato de uma Jovem em Chamas (Portrait de la jeune fille en feu, 2019), de Céline Sciamma

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Respire (2014)

Um soco no estômago. É isso que parece que Respire, dirigido por Mélanie Laurent, nos desfere em seu desfecho. A história é sobre Charlie (Joséphine Japy), uma adolescente comum que vê a dinâmica de suas amizades mudar ao se aproximar de Sarah (Lou de Laâge), a extrovertida aluna nova de sua sala. Sarah diz que mora com uma tia porque sua mãe trabalha em uma ONG na África, onde havia residido até o ano anterior. As adolescentes e seu círculo de amigos são retratados de forma extremamente crível. A amizade, que começa porque Sarah precisa estudar para uma prova, se desenvolve cheia de altos e baixos, com muitas incertezas e medos, além de expectativas não concretizadas. Os contatos inicias se transformam em um relacionamento abusivo que culmina no gaslighting e é interessante ver esse tipo de relação construída entre duas mulheres e tão jovens. Charlie mora com sua mãe, Vanessa (Isabelle Carré), também jovem, pois teve a filha quando ainda era adolescente. O pai (Radivoje Bukvic) vem e volta para casa, controla a companheira e é violento. Em determinado momento, Charlie pergunta à mãe por que ela sempre volta para ele. A mãe não sabe explicar: é simplesmente assim que as coisas acontecem. Essas duas relações, dos pais de Charlie e dela com Sarah, são usadas como paralelo e comentário uma sobre a outra. A câmera na mão de Laurent, tremida, é incômoda e isso é proposital. A maneira como cria uma atmosfera de tensão que cresce ao longo do filme impressiona. Charlie é frágil e passiva. Tem asma e frequentemente recorre à sua bombinha em situações complicadas. Sua dificuldade de respirar é capturada com precisão e transmitida ao espectador: a falta de ar assistindo ao filme é física e real, assim como o desconforto. Além disso Laurent cria sequências de grande beleza. Destaco duas: uma festa de Ano Novo e uma plano-sequência em que vemos Charlie seguindo Sarah e descobrindo algo muito importante sobre a amiga. Se eu tivesse assistido a Respire antes, é certo que teria entrado em minha lista de melhores de 2015. É um filme que tem uma escala pequena, íntima, com um núcleo de personagens restrito, mas que revela um grande talento em sua direção e uma bela composição de personagens.  4,5estrelas respire
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