Tag Archives: Michael Haneke

41ª Mostra de São Paulo parte 3: candidatos ao Oscar

A Sombra da Árvore (Undir trénu, 2017), de Hafsteinn Gunnar Sigurðsson

 Candidato islandês a uma vaga no Oscar do ano que vem, esse filme mistura o drama com o humor de maneira eficiente tendo como fio condutor uma família suburbana. Primeiro conhecemos o filho, Atli (Steinþór Hróar Steinþórsson), que precisa voltar a morar com os pais depois que sua esposa descobre que ele ainda guarda (e se masturba assistindo) filmes pornográficos feitos com uma namo

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Livro: Imagem-Violência

O cinema dos anos 90 é o da crueldade irônica

Jean-Claude Bernardet

O livro Imagem-Violência: etnografia de um cinema provocador é fruto da dissertação defendida pela antropóloga Rose Satiko Gitirana Hikiji em 1999. Após uma introdução escrita por Massimo Canevacci (autor do livro Sincrétika, que listei entre os melhores que li ano passado), a autora apresenta o contexto de seu trabalho, que foi a primeira pesquisa em antropologia visual defendida na Universidade de São Paulo. Nesse contexto, a área estava começando a se estabelecer e a USP contava e ainda conta com um Grupo de Antropologia Visual e um Laboratório de Imagem e Som em Antropologia.

A obra é dividida em três capítulos. O primeiro é chamado Antropologia e Cinema e aborda a relação entre antropologia e cinema através do conceito de mímesis, o processo de assimilação dialógico dos elementos. Neste capítulo há uma breve explanação sobre a relação de identificação do espectador com as imagens a ele apresentadas, além de uma reflexão a respeito do cinema como objeto de estudo em geral, das primeiras análises fílmicas até a etnografia experimental.

O segundo capítulo, intitulado Cinema, Sociedade, Contemporaneidade, já aborda o cinema e as imagens enquanto campo de estudo antropológico e como se processa o “estar lá” quando esse “lá” está em uma tela. É necessário pensar a obra de arte para além da estética, como algo criado em um contexto cultural específico. As mudanças na forma como o consumo de filmes é feito, assim como de fluxos no mercado internacional, também são abordadas.

O terceiro e último capítulo, Etnografias Fílmicas, Violência, Linguagem e Significado é uma grande reflexão sobre o cinema que discutia e criava provocações utilizando imagens de grande violência na década de 90, oscilando entre o cômico e o aterrorizante. São analisados os filmes Cães de Aluguel Pulp Fiction – Tempos de Violência, de Quentin Tarantino; A Estrada Perdida, de David LynchAssassinos por Natureza, de Oliver Stone; Fargo, dos irmãos Coen; Funny Games, de Michael Haneke, além de outros utilizados para pontuar determinados tópicos. A reflexividade a o voyeurismo são pontos importantes, bem como a catarse e o riso. A autora não se propões a explorar o efeito da violência no expectador enquanto agente social, mas sim o fato de que se criam essas imagens como forma de pensar sobre a vida social e o contexto de transgressão que isso gera, comunicando verdadeiros discursos sobre “valores, categorias e contradições” (HIKIJI, 2012, p. 69).

Imagem-Violência  é um livro rico para quem tem interesse em estudar cinema dentro de uma perspectiva acadêmica, não apenas, mas especialmente dentro do campo da Antropologia Visual, da Imagem ou do Cinema. Ao mesmo tempo, defende com facilidade o cinema enquanto campo de estudo, ainda tão pouco explorado. Certamente é uma leitura enriquecedora.

imagem-violencia

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A Fita Branca (Das Weisse Band- Eine Deutsche Kindergeschichte/2009)

Assistido em 09/11/2013

A Fita Branca é um filme bastante difícil de digerir. Com uma belíssima fotografia em preto e branco, o diretor Michael Haneke nos apresenta à vida rural, quase feudal, de um vilarejo no interior da Alemanha, com lindas casinhas enxaimel,  pouco antes de estourar a Primeira Grande Guerra. Em uma cidade como essa, em que todos se conhecem, com uma atmosfera tranquila, poderia-se levar uma vida sem perturbações, é o que se imagina. Mas tudo começa a vir a tona com uma primeira brincadeira (será?). O médico estava retornando para casa, quando seu cavalo tropeça em um arame esticado entre duas árvores. O animal, mortalmente ferido, é sacrificado, e o médico afastado para outra cidade para se recuperar dos graves ferimentos. As crianças saem da escola e ao invés de irem para casa, dirigem-se à casa dele, para perguntar a seus filhos se tudo está bem. A história é narrada pelo professor da escola (Christian Friedel) muitos anos após o acontecido. Ele comenta que naquele momento deveria ter percebido que havia algo de estranho no comportamento das crianças.

Os filhos do pastor (Burghart Klaußner) são punidos com uma surra de varadas por chegarem tarde em casa. Nada é mostrado: a câmera apenas se afasta da porta e deixando-nos ouvir os gritos.

O segundo evento foi a morte da esposa de um fazendeiro (Branko Samarovski). Ela havia começado a trabalhar no moinho, pois seria um trabalho mais leve, mas o chão cedeu e ela despencou para o porão. É belíssima a sequência em que ele pede para que as mulheres que arrumam o corpo saiam do quarto e chora, sem que jamais seja mostrado nem ele chorando, nem a a própria esposa. Um de seus filhos julgou que a culpa fosse do barão (Ulrich Tukur), o dono de todas as terras da vila, que a teria colocado para trabalhar em situações precárias. Por isso, no festival da colheita, no outono, em que todos os moradores festejam com comidas e bebidas, ele destrói a plantação de repolho do barão.

Dessa forma percebemos que abaixo daquelas águas paradas, há um turbilhão de emoções e relações tensas. Tudo aparece para nós pelo ponto de vista das crianças. Elas têm nomes, os adultos não: são identificados pelas suas ocupações. As relações entre pais e filhos são essenciais para entendermos a dinâmica entre os personagens. Tratam-se de pessoas rígidas, com regras claras de comportamento, uma moral protestante fortemente marcada, em uma sociedade com ímpetos de violência abafados. A relação passivo-agressiva, cheia de humilhações e desprezo entre o médico e a parteira (Susanne Lothar) exemplifica bem. A punição vem para quem é descoberto. A “fita branca” do título diz respeito ao item que o pastor amarra em seu filhos Klara (Maria-Victoria Dragus) e Martin (Leonard Proxauf) caso faça coisas que lhe desagradem, para lembrá-los da pureza. Como a punição só vem em caso de descobrimento, toda a aldeia vive em um clima de olhares suspeitos, mas ao mesmo tempo silêncio em relação aos demais. A cada novo acontecimento, os adultos seguem vivendo como se nada houvesse acontecido.

Haneke não está preocupado em dar as respostas sobre quem cometeu os atos retratados (embora deixe bem claro ao final). A ideia não é mostrar um indivíduo falho. Trata-se de toda a cultura de um grupo de pessoas vivendo confinadas em um caldeirão fervilhando de tensões, prontas para seguir um líder ou, mesmo se não o fizerem, para ignorar as práticas reprováveis dos demais. Como muito bem falou a baronesa (Ursina Lardi), é um lugar de “inveja, malícia, apatia e brutalidade”.

O filme acaba pouco depois de estourar a Primeira Guerra Mundial. As crianças, criadas nesse ambiente repressor, crescerão para ser a geração que viverá a Segunda Guerra.

O tema é pesado, mas Haneke o aborda de maneira interessante. A Alemanha até hoje tenta lidar com as consequências dos atos dos seus nas duas grandes guerras. Ela não quer dar explicações simplistas para eses acontecimentos históricos. Poderia ter alimentado estereótipos, mas não o fez: criou uma ambientação precisa que explicaria perfeitamente os acontecimentos posteriores, deixando claro a diversidade de pessoas confinadas nessa situação. Gustav (Thibault Sérié), por exemplo, nunca acompanhou as demais crianças, sendo sempre uma criança doce. Já Martin, fazia como os demais para depois ser atormentado por grandes culpas.

A Fita Branca prende a atenção, é perturbador e ao mesmo tempo extremamente satisfatório, mesmo sem dar as respostas que inicialmente procurávamos.

weisse band

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Amor (Amour/ 2012)

Assistido em 09/02/2013


É difícil falar sobre Amor. Acredito que para quem já conviveu com pessoas idosas como os protagonistas, ele desperte todo tipo de lembranças e para quem não o fez, ainda assim provoca reflexões. É o tipo de filme complicado de racionalizar e comentar. É um filme para sentir.
A trama segue um casal de velhinhos, que eram professores de música e moram em Paris, em um apartamento que é quase outro personagem do filme. Anne começa a ficar distraída, ter dificuldades motoras e aí vem seu primeiro derrame. Georges passa a tomar conta da esposa e ajudá-la em todas as atividades cotidianas. Por esse breve comentário pode parece que é um filme entediante, mas acredite-me, está longe disso.
As atuações são fortíssimas e Emmanuelle Riva (que interpreta Anne) está indicada ao Oscar de melhor atriz. O filme ainda conta com as indicações de roteiro original, direção (Michael Haneke), filme estrangeiro e filme.

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