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Figurino: Cisne Negro – Obsessão e Delírio

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 06/11/2013. Aviso: este texto contém revelações de detalhes da trama do filme. Darren Aronofsky, o diretor de Cisne Negro, é um obcecado pela obsessão. Ela se faz presente em cada um de seus trabalhos, com maior ou menor destaque. Aqui, auxiliado pela figurinista Amy Westcott, ele constrói o mundo de Nina, completamente entregue à dança. Westcott trabalhou com uma paleta de cores restrita, usando o rosa, o cinza e o preto para contar a história da personagem principal e de sua obsessão, realçando as etapas de sua jornada e sua evolução, com uma estética que rapidamente virou referência nas coleções de moda lançadas após o filme. É interessante notar que Cisne Negro ganhou os prêmios de Melhor Figurino Contemporâneo e Melhor Direção de Arte em seus respectivos sindicatos, mas sequer recebeu indicação a essas categorias no Oscar.

01 Croquis de Amy Westcott. Fonte: http://clothesonfilm.com/black-swan-amy-westcott-interview/18997/

Além disso, houve certa polêmica à época do lançamento, pois a grife Rodarte, das irmãs Kate e Laura Mulleavy, clamou coautoria de quarenta trajes. A esse respeito, Westcott afirma que a marca ajudou em sete peças (apenas os figurinos principais usados na peça), e sempre com sua supervisão e de Aronofsky, afinal, segundo ela, é papel do figurinista saber cada ponto que aparecerá em cena, tendo ou não desenhado a peça.

02 Croquis de Kate Mulleavy, de Rodarte.

Nina (Natalie Portman) é uma bailarina extremamente dedicada, com uma rotina rígida de ensaio e treinamento. Mora com sua mãe, Erica (Barbara Hershey), uma ex-bailarina que largou a profissão quando ficou grávida. Sua vida é bastante regrada. A relação entre as duas é de amor, mas, ao mesmo tempo, de repressão. Erica controla todos os detalhes da vida da filha, do seu café da manhã ao desempenho na dança, tentando se realizar através dela. Nina, por sua vez, cresceu insegura sob as asas da mãe e não amadureceu em diversos aspectos: seu quarto ainda é inteiramente rosa e repleto de bichinhos de pelúcia, ela nunca namora nem sai de casa e não consegue expressar seus desejos. Na parte inicial da trama, a paleta de cores de Nina se resume a rosa e cinza claros e cinza, pontuados por branco. 03 Enquanto ensaiam, fica claro o contraste de Nina com os demais bailarinos do corpo: todos se vestem de cinza e preto, um indicativo de que se encaminharam para a vida adulta, enquanto ela ainda utiliza o rosa que geralmente as meninas usam quando crianças nos ensaios, destacando-se em meio aos demais. 04 Em contraponto a Nina, somos apresentados a Lily (Mila Kunis), uma bailarina que não possui a mesmo primor técnico, mas dança com paixão e expressa livremente sua sexualidade. Lily jamais se vestiria de rosa: sempre aparece de preto com o cinza como cor complementar. O preto, aqui, mostra que é segura de si. 05 Erica, que domina a vida pessoal de Nina, também só veste preto. A cor adquire uma significação de domínio, seja de si ou de outrem. 06 Nina obtém o papel de dupla protagonista na peça O Lago dos Cisnes. Thomas (Vincent Cassel), o diretor, não tem dúvidas que ela consegue interpretar Odette, a jovem inocente que é encantada por um feiticeiro e transformada em um Cisne Branco. Mas o desafio é conseguir fazê-la interpretar Odile, o Cisne Negro que seduz o príncipe para que ele não quebre o feitiço através de seu amor. Nina não consegue seduzir, nem se se entregar à dança a não ser através da técnica. Quando começa a ensaiar o Cisne Negro, ela passa a usar cinza como sua cor predominante. Está tentando se erguer acima de suas inseguranças, mas ainda não está em pleno domínio de si. 07 O primeiro momento em Nina usa preto é quando sai de noite com Lily. Esta lhe empresta uma regata dessa cor, utilizada sobre outra blusa rosa (pois por dentro Nina ainda mantém a insegurança), e tenta ensiná-la a soltar-se. Ironicamente, quando está drogada e fora de si é que Nina extravasa seus reais desejos e também liberta sua sexualidade. No outro dia aparece para ensaiar usando novamente uma peça da cor, que passa a utilizar nos ensaios seguintes. 08 Ao descobrir que Lily é sua substituta, Nina desestabiliza-se e novamente torna-se insegura e fragilizada, voltando a usar seu casaco rosa, desenhado por Amy Westcott. Visita Beth (Wynona Ryder) no hospital. O quarto dela também é todo em tons de rosa, refletindo os próprios medos de Nina. A queda de Beth por conta de sua ascensão agora a fazem pensar sobre sua possível queda e substituição. Ela acredita que não é nada e que não vai conseguir fazer o Cisne Negro com sucesso e por isso retoma o modo infantilizado de se vestir. 09 Desde o início do filme a vemos através de reflexos, em diversos espelhos e mesmo no vidro da janela do metro. (Algumas dessas cenas já apareceram em imagens acima). Nina é sempre da maneira como alguém a vê e não ela mesma (mesmo que esse alguém seja justamente ela). Mas esse é o momento em que seu estado psicológico está completamente quebrado, o que é mostrado através dos reflexos fragmentado no espelho quando chega em casa. 10 Chega o dia da grande estreia. Nina sobe ao palco, nervosa, no primeiro ato. Dança o Cisne Branco com sua ótima técnica, mas erra. No intervalo, reúne as forças para matar seus demônios interiores e para mostrar que ela é, sim, a bailarina certa para o Cisne Negro, por mais que muitos (e ela mesma) tenham tido dúvidas. Nina faz uma grande apresentação: ela é o Cisne Negro. O traje emplumado, a coroa e o véu apenas realçam sua atuação, de maneira que não hesita em arrancar o último ao sair do palco, sem perder a confiança, pois não precisa mais da fantasia para sê-lo. Quando o ato termina, arqueia o corpo para trás e suas sombras não mentem: ela adquiriu asas. 11 O último ato é a redenção da personagem. Ela chora ao perceber que vai ser seu último momento no palco, mas retorna para continuar o espetáculo. Com seu traje branco, com a pureza da mais bela arte, ela é apenas maculada pelo próprio medo que teve no passado. No canto do cisne de sua performance, Nina alcança a almejada perfeição. 12

13 Eu senti. Perfeito. Foi Perfeito.

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Cisne Negro (Black Swan/2010)

Assistido em 19/10/2013

Darren Aronofsky é um diretor obcecado por obsessão. Todos os seus filmes lidam com essa temática, em maior ou menor grau. Em Cisne Negro, Nina (Natalie Portman), uma bailarina do corpo de balé, tem na dança sua paixão. Aos vinte e poucos anos, controlada pela mãe Erica (Barbara Hershey), que largou o balé quando engravidou, ela vive apenas para dançar, deixando de lado sua vida pessoal e sexual. A dominação materna se manifesta na falta de privacidade dentro de casa, no modo infantil como é tratada e, consequentemente, como age, e numa relação abusiva como um todo, embora o amor mútuo transpareça.

Nina é escolhida para ser a estrela da temporada, como dupla-protagonista na peça O Lago dos Cisnes, peça essa que traça paralelos com a própria história da personagem. O diretor, Thomas (Vincent Cassel) não tem dúvidas de que consegue interpretar Odette, a ingênua princesa enfeitiçada que é transformada em um cisne branco. Mas conseguiria interpretar Odile, o cisne negro que seduz o príncipe para que ele não quebre o encanto de Odette? Nina se vê obcecada com uma novata que chegou a companhia, Lily (Mila Kunis). Lily é a personificação do Cisne Negro: livre, desenvolta, sedutora, e, embora não tenha uma técnica tão boa quanto Nina, dança com paixão e vive intensamente.

Sem auto- confiança, Nina lida com o medo de ser substituída da forma que Beth (Winona Ryder), a ex-estrela da companhia, foi por ela. Mas ao entrar em um ciclo de paranoia e ao mesmo tempo de descoberta de si mesma, encontra forças para expressar com paixão o que sente pela dança e se redime ao alcançar a almejada perfeição como Cisne Negro.

O filme conta com direção de arte primorosa e um figurino belíssimo que conta a evolução da personagem principal em uma paleta de cores restrita a rosa, cinza e preto, em contraste aos demais, que apenas vestem cinza e preto. Os efeitos especiais são impressionantes, uma vez que você vê algum making of. São usados da maneira que sempre deveriam ser, servindo à história: não estão estão somente na transformação de Nina, mas em cada detalhe da iluminação e do palco, por exemplo.

O elenco todo está ótimo em cena. Após essa revisão, a único detalhe que enfraqueceu para mim foi a atuação de Natalie Portman, um tanto quanto monotônica (“cara de Frodo”), embora tenha justificativa na personalidade da personagem. Quando está entregue às danças finais percebe-se uma nítida mudança na postura, no movimentar-se e mesmo no olhar da atriz, alimentados pela confiança recém-adquirida de Nina.

Acredito que o filme sobreviverá bem ao alvoroço que criou na época do seu lançamento, pois passados quase três anos, a pátina desse curto tempo já fez bem a ele.

Para ler minha análise do figurino de Cisne Negro, acesse aqui.

Black Swan

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Figurino: Oz, Mágico e Poderoso

Originalmente publicado em 23/07/2013 no Cinema em Cena.

Aviso: Esse texto contém revelações de detalhes da trama do filme

Dirigido por Sam Raimi, Oz: Mágico e Poderoso (Oz- The Great and Poweful/ 2013) funciona como um prólogo ao clássico O Mágico de Oz, de 1939. Explorando livremente o universo criado pelo autor L. Frank Braum, o filme conta como o mágico Oscar (James Franco) chegou à Cidade das Esmeralda, capital do reino de Oz, bem como os acontecimentos posteriores à sua chegada.

O figurino, criado por Gary Jones em parceria com o ilustrador Michael Kutsche (responsável pelas ilustrações desse texto), é contido, mas esteticamente agradável. Sua proposta parece ter sido fazer um conjunto de roupas realistas, mesmo se tratando de um filme de fantasia.

O começo da história se passa no Kansas, onde Oscar trabalha como mágico em um circo itinerante. As cenas são em preto e branco, criando rima visual com o começo de O Mágico de Oz (cujo começo é em sépia). Oscar veste uma calça de cintura alta em risca de giz, com suspensórios, camisa branca, gravata, colete com abotoamento duplo e um fraque rasgado. Com exceção da jaqueta longa e do turbante, que utiliza em palco, essa será sua única roupa ao longo de todo o filme, acompanhada de uma cartola. Após sua apresentação ele encontra com uma moça (interpretada por Michelle Williams), que aparenta ser uma antiga namorada. Ela usa um vestido simples de algodão xadrez, com decote quadrado, laço na cintura e babados na barra. Oscar comenta (em tradução livre): “Você está linda! O que isso? Xadrez?” e ela responde “Você sabe que é”. Trata-se de uma clara referência ao famoso vestido que Dorothy veste em 1939.

Ao chegar ao reino de Oz, Oscar é encontrado por Theodora (Mila Kunis), a bruxa do Oeste. A personagem utiliza três roupas diferentes ao longo da trama. No começo, ainda simpática ao protagonista, seus trajes consistem em uma calça justa confeccionada em couro, com camisa branca trespassada e detalhes em renda e uma jaqueta longa de veludo vermelho, com lapelas amplas. Os acessórios são um chapéu de abas largas no mesmo veludo e botas pretas de cano alto. O traje remete aos vestidos de montaria da transição entre o século XIX para o século XX e é o mais interessante da película. Embora Theodora não se apresente inicialmente como vilã, essa vestimenta já deixa isso subentendido, através de suas cores fortes e escuras e corte moderno.

Figura 01

Posteriormente ela aparece com um vestido branco com saia rodada, estampada com desenhos geométricos cinzas e um corpete com acabamentos na mesma cor, acompanhado de uma capa vermelha. Na cena em que ocorre sua transformação em bruxa má, Theodora, em dor, arranca a parte superior do vestido, revelando que por baixo utilizava um espartilho preto: uma maneira não muito sutil de mostrar sua natureza interior. Após a transformação passará a utilizar o icônico chapéu preto pontudo, o espartilho preto, mangas em couro, ombros adornados com garras e uma saia composta por tiras de tecido rasgado, mais longas atrás, sobre calças pretas feita com tecido texturizado e botas.

  Figura 02

A irmã de Theodora, Evanora (Rachel Weisz), a bruxa do Leste, se apresenta com um lindo vestido verde esmeralda ajustado ao corpo mas com tecido fluido, mangas em renda e detalhes em plumas negras nos ombros e nuca. Todo o conjunto é bordado de cristais e acompanhado por um colar com uma grande esmeralda. Evanora deixa claro que a Cidade das Esmeraldas é seu lugar. No terceiro ato da história ela aparece com um vestido de corte idêntico, mas em tecido preto, deixando patente que agora ocupa o papel de vilã.

  Figura 03

Glinda (Michelle Wiliams), a bruxa boa do Sul, também aparece em três trajes diferentes, que mostram sua evolução na história. Todos eles são brancos e com detalhe em formato de “V profundo na frente, criando uma silhueta alongada. O primeiro, tradicional e etéreo, utilizado quando conhece Oscar, possui mangas em tom dourado adornadas com renda.

  Figura 04

O segundo vestido, que Glinda veste para enfrentar as duas outras bruxas, possui mangas prateadas e seu corpo tem aplicações de penas brancas em forma de pétalas, com as pontas tingidas de prateado. O efeito de escamas desse adorno combinado ao recorte em V nas costas que deixa à mostra a amarração do espartilho rígido que utiliza por baixo, transmite a ideia de uma armadura.

  figura 05

Seu último traje, é um vestido bordado com pérolas, com decote canoa e saia de tule em camas, sobre forro rosa. Ela o utiliza quando a paz retorna a Oz, de maneira que não mais precisa se vestir como guerreira. Com o mesmo sentimento, a multidão de Munchkins, que a princípio portam vestimentas majoritariamente em cor azul, acompanhada de tons terrosos, quando lotam a praça central da cidade, banhados por uma luz dourada como que de anoitecer, vestem-se principalmente em tons de rosa, pontuados por amarelo.

  Figura 06

Oscar, que partiu do Kansas com seu fraque rasgado, aparece ao longo da trama com seu conjunto cada vez mais danificado e puído. Enquanto não acreditava em suas próprias capacidades sua roupa se deteriorou. Ao final, quando assume o papel de Oz, veste a mesma roupa, agora magicamente nova e restaurada. Sua autoafirmação como o grande mágico profetizado restabeleceu o bom estado de suas vestes. A única peça diferente é o colete, dessa vez em tecido verde escuro (da cor da cidade), com listras finas amarelas e abotoamento simples.

Esse figurino é bastante literal e não abre espaço para muitas interpretações. Mocinha veste roupas brancas e fluídas, vilãs vestem roupas escuras e modernas, verde sempre remete à Cidade das Esmeraldas. A jornada do protagonista é facilmente lida no estado do que veste. Gary Jones optou por não ousar e apostou no tradicionalismo. Apesar disso, acertou no tom da criação e os trajes são suficientemente marcantes e interessantes, especialmente os das duas irmãs.

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Oz- Mágico e Poderoso (Oz the Great and Powerfull/2013)

Assistido em 02/07/2013

Assistir esse filme com O Mágico de Oz original torna a comparação cruel. Não é que seja um filme ruim, mas está longe de ter o encanto do outro.

Oscar (James Franco) é um mágico no Kansas, conhecido como Oz em suas apresentações. Sedutor, ao fugir de um marido enraivecido e tomar um balão, se vê pego em uma tempestado que o leva diretamente a Oz. Lá descobre que há uma profecia de um grande mágico com o nome da terra que chegaria para se tornar rei e libertar a população. Empolgado com as riquezas que se tornariam dele, Oz decide aceitar o papel, sem se dar conta do trabalho que teria pela frente. De maneira similar ao que ocorre com os companheiros de Dorothy, ele só não sabia que os requisitos de sua liderança já estavam em si. Conhece três bruxas: Theodora (Mila Kunis), Evanora (Rachel Weisz) e Glinda (Michelle Williams).

O início da história se faz através de um rima visual com O Mágico de Oz: o filme começa em preto e branco e razão de aspecto 1.33:1 e só se torna colorido e widescreen ao chegar a Oz. (No caso do filme de 1939, o começo é em sépia).

A computação gráfica não impressiona. Em determinados momentos me perguntei se isso não seria proposital, para remeter à aparência artificial de plástico que os cenários têm em O Mágico de Oz. Mas o que justificaria essa aparência nas imagens em ação? A ação, aliás, é um dos pontos fracos: o que O Mágico de Oz tem de humor afinado, aqui temos de pirotecnia, tipicamente pensada para as gerações atuais. As atuações também não são das melhores.

Algo que me chamou a atenção positivamente foram os figurinos, muito bonitos. Achei interessante que optaram por mudar o uniforme dos guardas da Cidade de Esmeralda: em 1939 parece roupa de samurai, agora parecem da guarda do palácio de Buckingham.

Outro ponto forte são as esperadas referências ao filme original. Só achei uma pena que, embora mostrassem Oz tirando itens o tempo todo de sua maleta de mágico, não mostraram nela aqueles com que presenteia o Espantalho, o Homem de Lata e Leão ao final do outro. A forma como Oz se prepara para a batalha final também é ótima, criando o gancho para sua performance em O Mágico de Oz.

Com os pontos que levantei até parece que detestei o filme, mas isso não é verdade. É até um filme agradável e divertido de se assistir, mas provavelmente pouco memorável.

Obs: Se você quiser ler minha análise sobre o figurino do filme, acesse aqui.

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