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Tatuagem (2013)

Tatuagem é um filme bonito. Bonito nas diversas facetas que a palavra pode expressar ao ser aplicada a um filme. Bonito e talvez até singelo. É o primeiro trabalho de direção de Hilton Lacerda, que vinha trabalhando como roteirista, papel que também ocupou nessa produção. Ficou apenas uma semana em cartaz, após ser alvo da Campanha por Filmes Alternativos em Manaus. (Se você é da cidade, entre na página para ajudar).  Assisti no último dia, em uma sessão com aproximadamente quinze pessoas. Gostaria que a sala estivesse cheia, talvez, para que mais gente pudesse compartilhar de sua beleza. Passados alguns dias, não consigo parar de pensar nele.

Trata-se de um romance e uma história sobre a arte em meio à repressão. É 1978 e o  grupo de teatro Chão de Estrelas alimenta a alma do povo de Recife com suas criações, que vão do teatro ao burlesco, ao mesmo tempo em que temem pela censura que pode ser imposta, em virtude da ditadura militar. O líder criativo do grupo é Clécio (Irandhir Santos), que conta com a amizade e apoio do ator Paulete (Rodrigo García). O filme é recheado das apresentações dos artistas: números musicais, esquetes, declamações de poemas e citações de autores clássicos. Mas aproxima-se do público como uma obra popular e foge de linguagens que poderiam soar pedantes ou excessivamente acadêmicas. 

Ao grupo junta-se o jovem militar Fininha (Jesuita Barbosa), apresentado por Paulete, cuja irmã namora. Ele se envolve com Clécio e o relacionamento dos dois levanta questões: Fininha é acusado de ser olheiro dos militares e Deusa (Sylvia Prado), mãe do filho de Clécio, diz que não quer que seu filho cresça em contato com gente que vai para a rua reprimir. Embora toque no assunto da ditadura, tudo é feito de maneira leve, como se no Chão de Estrelas a dor jamais chegasse de verdade. O fato de ambos já terem namorado com mulheres não é comentado e não há necessidade. Tudo flui com naturalidade. E é com essa leveza que o a relação entre eles é abordada. Nunca havia visto cenas de sexo em que o corpo masculino aparecesse coreografado de forma tão bela, tão sensual, até mesmo de certo modo objetificado, retratado em abandono total. A relação é de afeto e de crescimento, exibida nos pequenos atos, nos erros e nos perdões. Fininha, no quartel, tatua um C dentro de um coração no peito. Clécio, que é o mais velho, e que poderia ter criado uma relação de poder entre eles, é que é o emotivo, o que se entrega.

A fotografia é muito bonita. O cuidado com os detalhes na recriação da época transparece, especialmente no figurino. As atuações são fantásticas, especialmente de Irandhir Santos. A película tem falhas? Tem. Poderia não ter o filme dentro do filme, com as imagens feitas com câmera caseira? Talvez, mas ao final, o conjunto sobressai-se como coeso e o resultado é elegante e capaz de suscitar emoções positivas.

Fininha vai para São Paulo e escreve que não consegue emprego como segurança, porque tem um coração tatuado. Muito cedo ele aprendeu que a tatuagem é a marca indelével de seu amor e que este não seria aceito, mas mesmo assim iria consigo para todo lugar. O personagem faz uma jornada do milico tímido ao jovem literalmente marcado pelos seus sentimentos. Sensibilidade é o que permeia tudo. Lindo filme.

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O Som ao Redor (2012)

Assistido me 03/06/2013

Fotos antigas de uma grande fazenda, com sua casa grande e seus trabalhadores. Assim começa o filme, dando dica do que virá em seguida. Na sequência, crianças brincando em um prédio de classe média, com as babás uniformizadas por perto, todos cercados por muros. Tudo acontece na cidade de Recife e a sensação de insegurança permeia todos. Alguns instalam câmeras de segurança, outros possuem cão de guarda. Cada um lida com seus medos à sua maneira. O sentimento de vizinhança não existe. A chegada de uma equipe que oferece o serviço de vigilância particular para as ruas da região, ganhando a confiança de todos,  altera a situação.

Através da vivência nas casas e apartamentos mostrados, temos um recorte das histórias pessoais dos personagens. O protagonista, João, é um rapaz órfão, que já morou na Alemanha e está de volta trabalhando como corretor de imóveis. A sequência em que apresenta um apartamento para uma compradora em potencial e ela pergunta sobre um suicídio no prédio enquanto sua filha adolescente observa na varanda uma criança pobre jogando bola do outro lado do muro é incrível. João tem uma relação completamente “casa-grande-e-senzala” com sua empregada doméstica, Maria. Ela já trabalha para a família há vinte e dois anos e trata tudo com intimidade de quem é de casa. Na mesma sequência em que mostra o apartamento para a mulher interessada, João frisa, que ele, claro, possui quarto de empregada e o mesmo tem até janela. No apartamento de seu avô, a empregada, devidamente uniformizada, mora em quartinho no segundo andar. Assim percebemos como se processam as relações entre as classes sociais nesse contexto.

Além de João, os demais personagens montam um cenário rico vislumbrado através de pequenos detalhes de seus cotidianos. Há um quê de A Separação no filme, não pela temática, mas pela forma que esses momentos se descortinam, compondo as personagens e deixando no ar, para os que não estão familiarizados com o contexto cultural, o que seria características peculiares deles e o que seria realmente da cultura local. Uma bela colcha de retalhos composta por pessoas, medos, barulhos e cotidiano.

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