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Thor: o Mundo Sombrio (Thor: the Dark World/ 2013)

Assistido em 12/02/2014.

Serei breve nesse comentário. Nessa sequência dirigida por Alan Taylor, o que não faltam são referências. O filme já começa com uma cena de batalha saída diretamente de Senhor dos Anéis, envolvendo Asgardianos e uns Dark Elves. Entre os amigos de Thor, está uma espécie de Xena, além de Zachary Levi, quase irreconhecível. Thor (Chris Hemsworth) volta para Jane (Natalie Portman) e leva-a para Asgard, onde protagonizam cenas românticas tiradas da nova trilogia de Star Wars, no balcão do palácio. Em determinado momento temos O Vôo do Navegador e até inimigos saídos de Power Rangers. E a primeira cena pós créditos tem um tom de Dr. Who com uma pitada de Harry Potter. Está bom ou quer mais? Foi até divertido coletar tantas e tão óbvias referências.

Sobre o filme, de maneira resumida: o vilão, como sempre em se tratando de heróis de quadrinhos, promete muito e pouco faz. Jane tem mais participação. Loki (Tom Hiddleston) está ótimo como sempre. O filme tem mais humor que o primeiro, indo por uma linha mais próxima de Vingadores. Direção e narrativa são irregulares e inconsistentes. Os coadjuvantes (especialmente Kat Dennings, mas também Stellan Skarsgård) funcionam muito bem como alívio cômico. A trama pouco importa. Os personagens já tem tanta vida própria que é de se admirar que não consigam criar nada melhor para explorá-los. Sem esperar muita coisa, dá para se divertir.

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Figurino: Cisne Negro – Obsessão e Delírio

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 06/11/2013. Aviso: este texto contém revelações de detalhes da trama do filme. Darren Aronofsky, o diretor de Cisne Negro, é um obcecado pela obsessão. Ela se faz presente em cada um de seus trabalhos, com maior ou menor destaque. Aqui, auxiliado pela figurinista Amy Westcott, ele constrói o mundo de Nina, completamente entregue à dança. Westcott trabalhou com uma paleta de cores restrita, usando o rosa, o cinza e o preto para contar a história da personagem principal e de sua obsessão, realçando as etapas de sua jornada e sua evolução, com uma estética que rapidamente virou referência nas coleções de moda lançadas após o filme. É interessante notar que Cisne Negro ganhou os prêmios de Melhor Figurino Contemporâneo e Melhor Direção de Arte em seus respectivos sindicatos, mas sequer recebeu indicação a essas categorias no Oscar.

01 Croquis de Amy Westcott. Fonte: http://clothesonfilm.com/black-swan-amy-westcott-interview/18997/

Além disso, houve certa polêmica à época do lançamento, pois a grife Rodarte, das irmãs Kate e Laura Mulleavy, clamou coautoria de quarenta trajes. A esse respeito, Westcott afirma que a marca ajudou em sete peças (apenas os figurinos principais usados na peça), e sempre com sua supervisão e de Aronofsky, afinal, segundo ela, é papel do figurinista saber cada ponto que aparecerá em cena, tendo ou não desenhado a peça.

02 Croquis de Kate Mulleavy, de Rodarte.

Nina (Natalie Portman) é uma bailarina extremamente dedicada, com uma rotina rígida de ensaio e treinamento. Mora com sua mãe, Erica (Barbara Hershey), uma ex-bailarina que largou a profissão quando ficou grávida. Sua vida é bastante regrada. A relação entre as duas é de amor, mas, ao mesmo tempo, de repressão. Erica controla todos os detalhes da vida da filha, do seu café da manhã ao desempenho na dança, tentando se realizar através dela. Nina, por sua vez, cresceu insegura sob as asas da mãe e não amadureceu em diversos aspectos: seu quarto ainda é inteiramente rosa e repleto de bichinhos de pelúcia, ela nunca namora nem sai de casa e não consegue expressar seus desejos. Na parte inicial da trama, a paleta de cores de Nina se resume a rosa e cinza claros e cinza, pontuados por branco. 03 Enquanto ensaiam, fica claro o contraste de Nina com os demais bailarinos do corpo: todos se vestem de cinza e preto, um indicativo de que se encaminharam para a vida adulta, enquanto ela ainda utiliza o rosa que geralmente as meninas usam quando crianças nos ensaios, destacando-se em meio aos demais. 04 Em contraponto a Nina, somos apresentados a Lily (Mila Kunis), uma bailarina que não possui a mesmo primor técnico, mas dança com paixão e expressa livremente sua sexualidade. Lily jamais se vestiria de rosa: sempre aparece de preto com o cinza como cor complementar. O preto, aqui, mostra que é segura de si. 05 Erica, que domina a vida pessoal de Nina, também só veste preto. A cor adquire uma significação de domínio, seja de si ou de outrem. 06 Nina obtém o papel de dupla protagonista na peça O Lago dos Cisnes. Thomas (Vincent Cassel), o diretor, não tem dúvidas que ela consegue interpretar Odette, a jovem inocente que é encantada por um feiticeiro e transformada em um Cisne Branco. Mas o desafio é conseguir fazê-la interpretar Odile, o Cisne Negro que seduz o príncipe para que ele não quebre o feitiço através de seu amor. Nina não consegue seduzir, nem se se entregar à dança a não ser através da técnica. Quando começa a ensaiar o Cisne Negro, ela passa a usar cinza como sua cor predominante. Está tentando se erguer acima de suas inseguranças, mas ainda não está em pleno domínio de si. 07 O primeiro momento em Nina usa preto é quando sai de noite com Lily. Esta lhe empresta uma regata dessa cor, utilizada sobre outra blusa rosa (pois por dentro Nina ainda mantém a insegurança), e tenta ensiná-la a soltar-se. Ironicamente, quando está drogada e fora de si é que Nina extravasa seus reais desejos e também liberta sua sexualidade. No outro dia aparece para ensaiar usando novamente uma peça da cor, que passa a utilizar nos ensaios seguintes. 08 Ao descobrir que Lily é sua substituta, Nina desestabiliza-se e novamente torna-se insegura e fragilizada, voltando a usar seu casaco rosa, desenhado por Amy Westcott. Visita Beth (Wynona Ryder) no hospital. O quarto dela também é todo em tons de rosa, refletindo os próprios medos de Nina. A queda de Beth por conta de sua ascensão agora a fazem pensar sobre sua possível queda e substituição. Ela acredita que não é nada e que não vai conseguir fazer o Cisne Negro com sucesso e por isso retoma o modo infantilizado de se vestir. 09 Desde o início do filme a vemos através de reflexos, em diversos espelhos e mesmo no vidro da janela do metro. (Algumas dessas cenas já apareceram em imagens acima). Nina é sempre da maneira como alguém a vê e não ela mesma (mesmo que esse alguém seja justamente ela). Mas esse é o momento em que seu estado psicológico está completamente quebrado, o que é mostrado através dos reflexos fragmentado no espelho quando chega em casa. 10 Chega o dia da grande estreia. Nina sobe ao palco, nervosa, no primeiro ato. Dança o Cisne Branco com sua ótima técnica, mas erra. No intervalo, reúne as forças para matar seus demônios interiores e para mostrar que ela é, sim, a bailarina certa para o Cisne Negro, por mais que muitos (e ela mesma) tenham tido dúvidas. Nina faz uma grande apresentação: ela é o Cisne Negro. O traje emplumado, a coroa e o véu apenas realçam sua atuação, de maneira que não hesita em arrancar o último ao sair do palco, sem perder a confiança, pois não precisa mais da fantasia para sê-lo. Quando o ato termina, arqueia o corpo para trás e suas sombras não mentem: ela adquiriu asas. 11 O último ato é a redenção da personagem. Ela chora ao perceber que vai ser seu último momento no palco, mas retorna para continuar o espetáculo. Com seu traje branco, com a pureza da mais bela arte, ela é apenas maculada pelo próprio medo que teve no passado. No canto do cisne de sua performance, Nina alcança a almejada perfeição. 12

13 Eu senti. Perfeito. Foi Perfeito.

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Cisne Negro (Black Swan/2010)

Assistido em 19/10/2013

Darren Aronofsky é um diretor obcecado por obsessão. Todos os seus filmes lidam com essa temática, em maior ou menor grau. Em Cisne Negro, Nina (Natalie Portman), uma bailarina do corpo de balé, tem na dança sua paixão. Aos vinte e poucos anos, controlada pela mãe Erica (Barbara Hershey), que largou o balé quando engravidou, ela vive apenas para dançar, deixando de lado sua vida pessoal e sexual. A dominação materna se manifesta na falta de privacidade dentro de casa, no modo infantil como é tratada e, consequentemente, como age, e numa relação abusiva como um todo, embora o amor mútuo transpareça.

Nina é escolhida para ser a estrela da temporada, como dupla-protagonista na peça O Lago dos Cisnes, peça essa que traça paralelos com a própria história da personagem. O diretor, Thomas (Vincent Cassel) não tem dúvidas de que consegue interpretar Odette, a ingênua princesa enfeitiçada que é transformada em um cisne branco. Mas conseguiria interpretar Odile, o cisne negro que seduz o príncipe para que ele não quebre o encanto de Odette? Nina se vê obcecada com uma novata que chegou a companhia, Lily (Mila Kunis). Lily é a personificação do Cisne Negro: livre, desenvolta, sedutora, e, embora não tenha uma técnica tão boa quanto Nina, dança com paixão e vive intensamente.

Sem auto- confiança, Nina lida com o medo de ser substituída da forma que Beth (Winona Ryder), a ex-estrela da companhia, foi por ela. Mas ao entrar em um ciclo de paranoia e ao mesmo tempo de descoberta de si mesma, encontra forças para expressar com paixão o que sente pela dança e se redime ao alcançar a almejada perfeição como Cisne Negro.

O filme conta com direção de arte primorosa e um figurino belíssimo que conta a evolução da personagem principal em uma paleta de cores restrita a rosa, cinza e preto, em contraste aos demais, que apenas vestem cinza e preto. Os efeitos especiais são impressionantes, uma vez que você vê algum making of. São usados da maneira que sempre deveriam ser, servindo à história: não estão estão somente na transformação de Nina, mas em cada detalhe da iluminação e do palco, por exemplo.

O elenco todo está ótimo em cena. Após essa revisão, a único detalhe que enfraqueceu para mim foi a atuação de Natalie Portman, um tanto quanto monotônica (“cara de Frodo”), embora tenha justificativa na personalidade da personagem. Quando está entregue às danças finais percebe-se uma nítida mudança na postura, no movimentar-se e mesmo no olhar da atriz, alimentados pela confiança recém-adquirida de Nina.

Acredito que o filme sobreviverá bem ao alvoroço que criou na época do seu lançamento, pois passados quase três anos, a pátina desse curto tempo já fez bem a ele.

Para ler minha análise do figurino de Cisne Negro, acesse aqui.

Black Swan

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