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Os Primeiros Longas de von Trier

Dando continuidade à análise da filmografia do diretor Lars von Trier, do qual já escrevi sobre os primeiros curtas de sua carreira, chego agora aos primeiros longas que produziu.

Pode-se dizer que Befrielsesbilleder (1982) é uma obra de transição e por isso também foi citado no texto anterior. Encaixa-se na proposta de seus curtas, mas já se relaciona estética e tematicamente com os filmes seguintes. Pode-se dizer que o começo de sua filmografia será marcada pelo monocromatismo, já aqui presente. O filme é dividido em três fases: vermelho, amarelo e verde. A história, sobre a Europa na II Guerra Mundial, indica o tema que vai marcar sua primeira trilogia, como falarei adiante.

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Fase vermelha de Befrielsesbilleder.

Fase vermelha de Befrielsesbilleder

Fase vermelha de Befrielsesbilleder.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fase amarela de Befrielsesbilleder

Fase amarela de Befrielsesbilleder.

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Fase amarela de Befrielsesbilleder.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fase verde de Befrielsesbilleder

Fase verde de Befrielsesbilleder.

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Fase verde de Befrielsesbilleder.

 

 

 

 

 

 

 

O próximo filme é Elemento de um Crime (1984), o primeiro da Trilogia Europa, que trata dos traumas do continente no passado e no futuro. Esse noir em sépia se passa em uma Europa distópica em que um detetive investiga assassinatos de um serial killer com auxílio de um veterano autor de um livro sobre como solucionar crimes. A chuva cai o tempo inteiro, criando um clima melancólico. Existe um desnível de hierarquia entre os personagens masculinos e os femininos, sendo que os primeiros são os que perpetram a violência. Em determinada cena essa diferença é salientada pelo fato de o protagonista estar completamente vestido, enquanto a mulher que lhe faz companhia está vulnerável, nua, sem nada para proteger-se. Há muita experimentação com o movimento de câmera e com os enquadramentos. Como em muitos filmes do diretor, ele faz uma pequena participação. Algumas rimas visuais perpassam a história e destaco o momento chave em que uma mulher quebra uma janela para fugir e posteriormente, uma garotinha faz o mesmo, ressaltando o papel de vilão daquele que lhes faz companhia.

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Elemento de um Crime e seu tom sépia.

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Lars von Trier, à direita, fazendo uma ponta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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As duas mulheres quebrando o vidro da janela, em momentos distintos, para fugir de quem se revela o vilão do filme.

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As duas mulheres quebrando o vidro da janela, em momentos distintos, para fugir de quem se revela o vilão do filme.

 

 

 

 

 

 

 

O filme seguinte, Epidemic (1987) cria uma meta-trama interessante, em preto e branco, com elementos de história, ficção científica e terror. Dois jovens roteiristas, Lars e Niels, interpretados por Lars von Trier e o roteirista Niels Vørsel, perdem o roteiro em que estavam trabalhando há um ano e meio e se fecham no apartamento por alguns dias para criar algo novo para mostrar aos investidores. Quando Niels datilografa o título “Epidemic” na folha de papel em branco, as letras aparecem uma a uma na tela, formando uma marca d’água que permanecerá até o fim do filme. A história por ele proposta é a respeito de um jovem idealista, em uma Europa medieval, que abandona sua fortificação pensando em buscar a cura para a praga que se espalha e, dessa forma, acaba por condenar sua cidade. Enquanto a narrativa avança, sinais apontados para o avanço da praga aparecem no momento contemporâneo aos autores, com consequências extremas ao final. Em se tratando de roteiro é o que se estrutura de forma mais arrojada dentre seus primeiro trabalhos.

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Niels escrevendo.

Marca d'água com o nome do roteiro e do filme

Marca d’água com o nome do roteiro e do filme.

 

 

 

 

 

 

Após Epidemic, vem um filme que não faz parte da trilogia Europa, uma fez que foi feito para televisão. Trata-se de Medea, baseado na personagem mítica grega que foi companheira de Jasão (dos Argonautas) e foi abandonada por ele com seus dois filhos, pois ele pretendia tornar-se rei ao casar-se com Glaucia, a filha de um rei. O roteiro é de Carl Theodor Dreyer e apesar das limitações técnica da mídia então, von Trier consegue construir um filme intenso e que utiliza a paisagem como ambiente mental da protagonista, da maneira como Dreyer fazia em seus filmes, como A Palavra. O sofrimento feminino, que aparece em obras posteriores de von Trier, aqui é derramado nas palavras da trágica protagonista: “Silenciosamente submissas em corpo e dever, que direitos tem as mulheres?” e “Se pelo menos os homens pudessem ter filhos sem mulheres”. O filme faz uso de projeções ao fundo da imagem, o que vai marcar seu trabalho seguinte.

A última parte da trilogia Europa é composta por Europa (1991), outro noir, dessa vez em preto e branco. A sua história se passa na Alemanha em 1945, logo após o fim da guerra e tem mais um protagonista idealista, que pretende ajudar mas se vê impotente. O jovem veio dos Estados Unidos para o país pensando em ajudar nesse período conturbando e acreditando, erroneamente, que conseguiria fazê-lo sem se envolver com a situação política. O clima é tão carregado de irrealidade que quase parece se tratar de uma distopia. Utilizando projeções, o diretor acrescenta cor em cenas que se mostram chave para a narrativa; e marca em vermelho elementos de grande importância. Em determinada cena, o casal conversa e apenas o homem é colorido quando ele está no controle do diálogo. No equilíbrio, ambos se apresentam em cor e quando, por fim, a mulher passa a dominar a negociação de poder, apenas ela se colore. Em outro momento, um personagem se corta e as gotas de seu sangue caem vermelhas na água da banheira, antecedendo uma sequência em que tudo adquire cor (apesar do cenário e figurinos preto e branco, antecipando uma enchente de vermelho.

Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores

Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores.

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Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores.

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Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue

Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue.

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Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue.

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Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aliás, o uso de personagens agitando a placidez da água parada para se verem refletidos no espelho irregular que se forma, refletindo a sua própria agitação mental, é outro elemento visual recorrente desses filmes, presente em Elemento de um Crime, Medea e neste Europa. 

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Elemento de um Crime.

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Elemento de um Crime.

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Medea.

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Medea.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Europa.

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Europa.

 

 

 

 

 

 

 

 

O que todos estes filmes tem em comum, além da temática relacionada ao continente europeu, é um grande rigor estético por parte de Lars von Trier, bem como grande experimentação em termos técnicos, típica de um jovem diretor em busca de uma linguagem própria.

Para saber mais sobre a obra de Lars von Trier, ouça o podcast do Cinema em Cena sobre o diretor.

 

 

 

Vício Inerente (Inherent Vice, 2014)

No ramo de seguros, “vício inerente” é quanto um objeto tem um defeito oculto ou uma propriedade que contribui para sua deterioração ou dano. Essas características o tornam inaceitável para ser segurado. O nome do filme já é intrigante, mas a trama é justamente sobre isso: elementos que se estragaram e nunca mais foram os mesmos.

Dirigido por Paul Thomas Anderson, Vício Inerente conta com um elenco impressionante, a começar por Joaquin Phoenix, que interpreta o protagonista Doc, um detetive particular que atua na Los Angeles movida a maconha de 1970. O filme demora para engrenar e seu primeiro terço é bastante lento, mas isso se justifica justamente por vermos tudo sobre o ponto de vista de Doc, cuja mente funciona desse forma. A narrativa é ele. E não por acaso ele é detetive. Trata-se de um neo-noir, com narração em off e uma femme fatale marcante, mas com o contraste de se passar em uma cidade ensolarada.

O gatilho de toda ação é o retorno da ex-namorada de Doc, Shasta (Katherine Waterston), que o avisa que está namorando com um magnata dos imóveis, Wolfmann (Eric Roberts), cuja esposa e o amante dela queriam coloca-lo em um hospício para ficarem com seu dinheiro. Confuso? Nem começou. A sucessão de personagens saltando na tela é imensa,mas todos os tipos são minimanten interessantes: o policial antagonista Bigfoot (Josh Brolin), a advogada Penny (Reese Whiterspoon), o infiltrado Coy (Owen Wilson), entre outros. Cada conexão leva a investigação de Doc para outro momento que desconstrói o anterior, mas a mistura não desanda graças à mão competente de Paul Thomas Anderson. Não só os variados e numerosos personagens são interessantes, mas seus planos são muito bem construídos, com composições belíssimas mesmo quando piscam na tela por poucos segundos, como uma paródia da santa ceia em determinado momento. Os planos médios ou fechados por vezes conferem um clima claustrofóbico à trama.

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Destaco o figurino competente de Mark Bridges, que trabalhou em todos os filmes do diretor desde Boogie Nights. Entre camisas jeans, vestidos com estampas geométricas, batas, veludo cotelê e tudo mais, o conjunto é perfeitamente crível com a época retratada. As roupas de Doc, especialmente, passaram por um belo processo de envelhecimento e tingimento, mostrando-se desgastadas e com aparência de pouco lavadas e mesmo suadas e mal-cheirosas.

No final o vício inerente diz respeito justamente a essa época em que o movimento hippie estava em plena decadência. Por isso, apesar de o filme ter um certo humor negro, um tom de melancolia o perpassa também. Mas não é apenas a sociedade que estava mudando: o relacionamento entre Doc e Shasta também está danificado irreversivelmente.

Vício Inerente não chega no mesmo patamar dos melhores trabalhos de Paul Thomas Anderson, mas é sua direção segura e seu estilo visualmente impecável que garante que o filme permaneça coeso e envolvente.

 

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Os 30 Melhores Filmes de 2014 que não são de 2014

Nessa época todos estão preparando suas listas de melhores do ano e como ainda estou descobrindo pérolas e cavocando coisas que ainda não assisti, elaborei a lista das melhores descobertas, ou seja, filmes assistidos pela primeira vez este ano e que não são de 2014. O ano ainda não acabou e até agora foram 284 filmes assistidos, o que tornou a tarefa extremamente difícil. Consegui selecionar trinta dos melhores filmes que vi e muitos incríveis ficaram de fora. No caso de diretores em que mais de um filme entraria na lista ou foi bem avaliado, optei por manter só um e abrir espaço para outros. Os demais filmes desses diretores serão listados junto ao filme escolhido. Não vou colocar eles em um ranking: a ordem é cronológica, pela data de lançamento. Desta vez optei por manter a nota que dei, de zero a cinco estrelas, na data em que assisti. Essa avaliação é subjetiva e segue critérios comparativos pessoais, o que significa que por vezes posso ter gostado mais de um filme com quatro estrelas do que um com cinco, por exemplo. No ano passado eu havia escrito sobre cada um dos filmes assistidos e esse ano fiquei devendo, mas caso haja algum post com comentário ou análise do filme, o link está no título do mesmo. (Para ler a lista de 2013 clique aqui). Para ver a versão dessa lista no Letterboxd, acesse aqui. Segue a lista:

 

Baseball Buster  Bancando o Águia (Sherlock Jr., 1924)

Direção: Buster Keaton

★★★★★

Divertido, bem realizado e com efeitos práticos muito bons.

 

 

 

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Direção: Fritz Lang

★★★★★

Suspense bem construído sobre a natureza pouco bondosa do ser humano.

Outros filmes: Os Corruptos (The Big Heat, 1953) ★★★★

 

 

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A Loja da Esquina (The Shop Around The Corner, 1940)

Direção: Ernst Lubitsch

★★★★

Filme adorável, que se favorece do carisma de seus protagonistas. Teve uma refilmagem com Tom Hanks e Meg Ryan, Mensagem Para Você, mas é muito melhor, claro.

 

 

 

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Amar Foi Minha Ruína (Leave Her to Heaven, 1945)

Direção: John M. Stahl

★★★★

Tenso.

 

 

 

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Desencanto (Brief Encounter, 1945)

Direção: David Lean

★★★★1/2

Uma bela construção do relacionamento efêmero sob o ponto de vista de uma dona de casa descontente com sua vida.

 

 

 

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Nasce uma Estrela (A Star is Born, 1954)

Direção: George Cuckor

★★★★1/2

Faz o estilo do que Hollywood produz de mais escapista, mas Judy Garland brilha.

Outros filmes: A Costela de Adão (Adam’s Rib, 1949) ★★★★

 

 

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A Palavra (Ordet, 1955)

Direção: Carl Theodor Dreyer

★★★★

Intenso e esteticamente impecável.

Outros filmes: A Paixão de Joana d’Arc (La passion de Jeanne d’Arc, 1928) ★★★★

 

 

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A Marca da Maldade (Touch of Evil, 1958)

Direção: Orson Welles

★★★★★

Já seria digno de entrar na lista apenas pelo plano-sequência inicial, mas o restante do filme compensa à altura.

 

 

 

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A Balada de Narayama (The Ballad of Narayama, 1958)

Direção: Keisuke Kinoshita

★★★★

Assistir a esse filme é uma experiência interessante de desprendimento cultural, uma vez que ele parece um kabuki, mas funciona porque tudo é muito bonito e repleto de emoção.

 

 

 

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Charada (Charade, 1963)

Direção: Stanley Donen

★★★★★

O melhor filme do Hitchcock que Hitchcock jamais dirigiu.

 

 

 

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Quem tem medo de Virgínia Woolf (Who’s Afraid of Virginia Woolf?, 1966)

Direção: Mike Nichols

★★★★★

Fica claro que é uma adaptação de peça de teatro, mas os diálogos são intensos e as interpretações fenomenais.

Outros filmes: A Primeira Noite de um Homem (The Graduate, 1967) ★★★★1/2

 

 

bonnie_and_clyde_ver5  Bonnie e Clyde- Uma Rajada de Balas (Bonnie and Clyde, 1967)

Direção: Arthur Penn

★★★★1/2

 

Tem um leve humor ao retratar uma história de amor e crime que está fadada ao fracasso.

 

 

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Perdidos na Noite (Midnight Cowboy, 1969)

Direção: John Schlesinger

★★★★1/2

Um otimismo torto em meio à falta de perspectiva.

 

 

 

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Direção: Dennis Hopper

★★★★1/2

A coisa mais linda desse filme é pensar em como ele já retrata a geração da época de forma crítica, mostrando que não há saída para o tipo de mudança de sociedade que eles propunham. Lindo e triste.

 

 

butch cassidy and the sundance kid  Butch Cassidy (Butch Cassidy and the Sundance Kid, 1969)

Direção: George Roy Hill

★★★★1/2

Bromance, western, humor e luta contra o establishment: como não amar?

 

 

 

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Aguirre: a Cólera dos Deuses (The Wrath of God, 1972)

Direção: Werner Herzog

★★★★1/2

Uma experiência visual de megalomania.

Outros filmes: Fitzcarraldo (1982) ★★★★

 

 

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Direção: Francis Ford Coppola

★★★★★

Não sei nem o que falar sobre esse filme, mas Marlon Brando é deus.

Outros filmes: A Conversação (The Conversation, 1974) ★★★★1/2

 

 

Fanny-och-Alexander_6c7e983a  Fanny e Alexander (Fanny och Alexander, 1982)

Direção: Ingmar Bergman

★★★★★

Uma narrativa bonita, cheia de detalhes e com toques auto-biográficos.

Outros filmes: Sorrisos de Uma Noite de Amor (Sommarnattens leende, 1955) ★★★★

 

 

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Amadeus (1984)

Direção: Milos Forman

★★★★★

Produção caprichada, recheada de personagens muito humanos, de egos em luta, da busca pela arte e de figurinos impecáveis.

Outros filmes: Valmont (1989) ★★★★

 

 

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Os Bons Companheiros (Goodfellas, 1990)

Direção: Martin Scorsese

★★★★★

Não sei nem o que escrever. Coisa linda.

Outros filmes: Touro Indomável (Raging Bull, 1980) ★★★★★
Cassino (Casino, 1995) ★★★★★
O Rei da Comédia (The King of Comedy, 1982) ★★★★
O Aviador (The Aviator, 2004) ★★★★

 

barton_fink  Barton Fink – Delírios de Hollywood (Barton Fink, 1991)

Direção: Joel e Ethan Coen

★★★★★

A obsessão e angústia da dificuldade de criar, enquanto artista, em um retrato pungente e meio desesperador.

Outros filmes: Gosto de Sangue (Blood Simple, 1984) ★★★★1/2
O Homem Que Não Estava Lá (The Man Who Wasn’t There, 2001) ★★★★1/2

 

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Orlando

Direção: Sally Potter

★★★★1/2

Baseado no romance de Virginia Woolf, trata com leveza da história de Orlando, o jovem aristocrata que vira mulher ao longo das décadas e séculos, desconstruindo expectativas de gênero.

 

 

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Ed Wood (1994)

Direção: Tim Burton

★★★★

Uma declaração de amor ao cinema, ainda que ao mais tosco possível.

 

 

 

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Direção: Paul Thomas Anderson

★★★★1/2

Produção impecável e grandes atuações em um drama com pitadas de humor que no mínimo é memorável.

 

 

 

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Direção: Lars von Trier

★★★★

Von Trier torturando sua protagonista, como sempre, e criando um musical irônico, nada escapista, cheio de beleza e de uma tristeza imensa.

Outros filmes: Ondas do Destino (Breaking the Waves, 1996) ★★★★

 

 

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Hedwig – Rock, Amor e Traição (Hedwig and the andry inch, 2001)

Direção: John Cameron Mitchell

★★★★★

Hedwig é uma personagem tão humana que é impossível não se apaixonar por ela e sua busca por amor é repleta de músicas que ficam martelando na cabeça muito tempo depois de o filme terminar.

 

 

brodre_xlg  Brothers (Brødre, 2004)

Direção: Susanne Bier

★★★★

Não dá pra negar que Susanne Bier pesa a mão no drama, mas sua direção é feita com a mesma mão firme.

Outros filmes: Em um Mundo Melhor (Hævnen, 2010) ★★★★

 

 

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Caché (2005)

Direção: Michael Haneke

★★★★★

Explicações não combinam com esse filme: ele é uma experiência cheia de suspense, mas que não se limita a ele. Posso dizer que são sobre pessoas, sobre vigilância, sobre colonialismo, mas isoladamente nenhum desses itens abarcam o que é ver o conjunto.

 

 

 

synecdoche_new_york  Sinédoque, Nova York (Synecdoche, New York, 2008)

Direção: Charlie Kaufman

★★★★★

Sempre gostei de Kaufman como roteirista e ele está mais Kaufman do que nunca nessa megalomania em forma de criação metalinguisticamente (?) megalomaníaca.

 

 

 

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Anjos da Lei (21 Jump Street, 2012)

Direção: Phil Lord e Christopher Miller

★★★★

A lista é minha e coloco o que eu quiser. 😛 Mas esse filme realmente me surpreendeu e me fez rir muito. Atuações boas e carisma da dupla de protagonistas ajuda.

 

 

Figurino: Blade Runner- O Caçador de Androides

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 02/07/2014.

 

“All those moments will be lost in time… like tears in rain…”

 

Em 1982 estreou o terceiro longa dirigido por Ridley Scott: a ficção científica futurista Blade Runner, o Caçador de Androides, baseada no livro Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (também lançado no Brasil como O Caçador de Androides), de Philip K. Dick. O filme é visualmente marcante e a estética do futuro que ali se passa é criada sobre referências do passado. Os figurinistas Michael Kaplan e Charles Knode usaram como inspiração o período entre o final da década de 1930 e meados da década de 1940, bem como o film noir. Este gênero influencia todo o conjunto, da trama centrada em um protagonista moralmente ambíguo e uma femme fatale, aos constantes jogos de luz, sombra e fumaça que compõem as cenas.
A Los Angeles de 2019 é uma cidade de constante penumbra, uma Macondo de chuva sem fim. É abrigado dessa chuva, sentado sob uma marquise, que vemos Deckard (Harrison Ford) pela primeira vez. O protagonista, caçador de androides a contragosto, veste camisa cinza, calça marrom e um longo sobretudo que o acompanhará por todo o filme. A falta de cores faz com que o efeito não seja nem de combinação nem de descombinação. Deckard apenas veste as roupas, porque elas não têm importância alguma.

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De Humphrey Bogart a Dick Tracy, o uso de sobretudo é recorrente entre os personagens de film noir ou que a ele remetem. O de Deckard é remodelado, com a lapela sempre erguida, confeccionada em tecido rígido com textura listrada.

Humphrey Bogart In A Trenchcoat

Troca poucas vezes de roupa, mantendo sempre a mesma calça. Em certo momento utiliza um blazer de tweed. As camisas mudam: certa hora veste uma com estampa pontilhada com gravata xadrez; em outra é uma bicolor verde e roxa. Mas as cores são sempre muito escuras, pouco reveladoras.

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Sua aparência desleixada contrasta com a de Gaff (Edward James Olmos), que não só sempre aparece impecavelmente trajado, como com um certo exotismo, explorando combinações de estampas diferentes e fazendo uso de chapéu e bengala para incrementar sua aparência.

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Aqueles positivamente identificados como replicantes, androides escravos, recebem um tratamento desumano. Seus corpos não pertencem a eles e servem apenas ao propósito dos humanos. Não sabemos nada sobre a sociedade desse contexto, só sabemos que aos replicantes é vetado desejar por si e para si mesmos. Mas alguns deles fugiram e devem ser caçados. Zhora (Joanna Cassidy), por exemplo, disfarça-se de dançarina exótica, na companhia de uma cobra artificial como ela mesma. Seu corpo nu é coberto de cristais. Após a apresentação, veste apenas botas de cano longo, um conjunto de calcinha e sutiã, redesenhados para garantir um visual futurista, e sobre eles uma capa transparente.

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Deckard persegue-a implacavelmente pela cidade e o que vemos é ela rodeada por manequins, figuras antropomórficas sem vida como os androides, e uma mistura das transparências do vidro que se quebra e de sua capa. A sequência é quase onírica. Seu corpo no chão em meio a esse cenário não é humano e tudo é feito para nos lembrar disso, mas o sangue, ironicamente, nos passa a ideia oposta.

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Pris (Daryl Hannah) era ainda menos dona de sua própria corporalidade, já que foi criada como “modelo para prazer básico”, ou seja, para fins sexuais. Da primeira vez em que a vemos, sai do meia da névoa vestindo o que se espera para sua função: botas, meias finas com ligas, traje preto com transparências, coleira e um casaco de estampa de tigre, tudo influenciado pela estética punk. É com essa roupa, aliada ao seu ar ingênuo, que conquista a confiança de Sebastian.

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Perto do fim, pinta seus olhos dramaticamente de negro, sobre pele maquiada de branco, disfarçando-se entre bonecos criados por ele. Ao contrário do que ocorreu com Zhora, a presença desses elementos serve para ressaltar sua superioridade enquanto modelo. Sua falsa humanidade se destaca em meio ao entorno. A perfeição é que revela sua natureza, como que gerando um “vale da estranheza”.

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Mulher, com agência e autonomia na medida em que havia se libertado dos humanos, foi caçada e morta por Deckard assim como Zhora. E também o foi seminua, vestindo apenas um colant cor pele, e tendo seu corpo explorado visualmente em cena. O sangue novamente destaca a humanidade contrastante nesse futuro desumano. Quem sente sua morte e sofre é Roy (Rutger Hauer), marcando o rosto com esse sangue derramado.

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Rachael (Sean Young), como Pris, aparece pela primeira vez saindo do ocultamento; mas nesse caso é das sombras, emergindo para a luz. Nesse momento desconhece sua natureza replicante e por isso, ao contrário das outras duas, aceita a vida que recebeu e sua função de secretária. A saia lápis e blazer estruturado, bem como seu penteado são versões estilizadas do que era usado pelas mulheres em film noir. Os ombros aqui são ainda mais acentuados, criando uma silhueta de ampulheta extremada. Os detalhes em couro na gola brilham, assim, como seus lábios, no lusco-fusco que entra pelos rasgos que servem de janela no edifício.

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A inspiração parece vir dos vestidos que Joan Crowford e Katharine Hepburn utilizavam, desenhados pelo figurinista Adrian de maneira a acentuar seus ombros.

Acima Joan Crowford e abaixo Katherine Hepburn em trajes com ênfase nos ombros criados por Adrian

Acima Joan Crowford e abaixo Katherine Hepburn em trajes com ênfase nos ombros criados por Adrian

Ombros e golas realçados vão se repetir por seu figurino, que inclui outro conjunto similar ao anterior, mas em tons de cinza e um casaco de pele com lapela extravagantemente proporcionada, que aparece em duas versões (preto e cinza). Esses trajes indicam uma mudança na cor predominante que ela usa conforme envolve-se com Deckard e também a alta posição que ocupa, passando-se por humana.

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Deste último conjunto, retira o casaco em um momento de vulnerabilidade, em que também solta os cabelos, mostrando-se livre de seus escudos. É então que Deckard cria uma dinâmica de submissão, em que em nenhum momento a personagem parece à vontade. Ainda assim, é com ela que ele terá o mais próximo de um final feliz que o filme oferece. Rachael nunca chega a expressar seus desejos sem que seja inquirida e assim, ao contrário das replicantes que ousaram querer, sua existência é poupada.

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Por fim, temos Roy, um replicante construído para fins militares, mas que se tornou o líder do grupo foragido. Ele surge vestindo uma camiseta cinza e um casaco preto com gola estruturada, ambos simples e funcionais. Deve estar sempre pronto para lutar.

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Roy sente dor ao encontrar Pris e, enlutado, despe-se para procurar Deckard, permanecendo apenas com os sapatos e uma bermuda. Uma estratégia comumente utilizada para desumanizar pessoas é filmar partes de seu corpo sem um rosto que lhes confira personalidade. Na cena em que confronta Deckard é isto que acontece: vemos seu corpo enquadrado na chuva, mas sua cabeça fica fora da tela. Por estar sem cabeça, não é humano; sem roupas, despiu-se da pretensa civilidade. Isso tudo na sequência em que demonstra poeticamente ter ambas mais do que todos.

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A chuva que lava a cidade, as luzes que sempre se infiltram em raios nos ambientes soturnos, as roupas escuras e com cortes específicos, a trilha sonora certeira de Vangelis, a grandiosidade da cidade (com lindas pinturas matte de Matthew Yuricich), a fria beleza com que os corpos mortos são exibidos: tudo parece compor um clima melancólico e trágico em Blade Runner. No contexto do filme, tudo que é, pode não ser; e tudo que parece, não é. Em um jogo de espelhos com nossas próprias vidas, coletam-se momentos que um dia se esvairão. Assim vivemos todos, assim dizemos todos. Não há saída para esses personagens e se há, não parece ser por muito tempo. Tanto Michael Kaplan quanto Charles Knode são figurinistas talentosos, que aqui, juntos, ajudaram a criar esse universo que funciona de forma perfeitamente crível. Os aspectos artísticos do filme são inegavelmente belos. A arte, ao contrário da matéria orgânica, sobrevive à passagem do tempo.

Nordic Noir: The Killing e Bron/Broen

As últimas aulas do curso Scandinavian Film and Television foram dedicadas à televisão escandinava e ao sucesso de público que as produções do últimos ano vem tendo, tanto nos próprios países quanto no exterior. Nos três países escandinavos (Noruega, Suécia e Dinamarca) televisão é toda financiada publicamente, mas os programas também pode receber parcerias de outros países ou privadas. Em virtude do financiamento público, os Estados solicitam duas coisas: que a produção dramática televisiva atenda a um número variado de gêneros e estilos, para cobrir o gosto da maior parte da população possível e que abordem temas de interesse social, como discussões de gênero, tensão social, migração, problemas familiares, entre outros.

Atualmente o país com a produção televisa de maior destaque é a Dinamarca, que possui um estilo próprio para desenvolvimento dos programas. Há um interesse em manter a autoralidade e, enquanto no cinema ela é marcada pela direção, nas séries de TV ela fica com o roteirista, que, ao contrário dos Estados Unidos (com exceção de True Detective), é um só para todos os episódios, mantendo ritmo, estilo e desenvolvimento dos personagens coesos. Se o gênero mais forte no cinema escandinavo é o drama familiar, nas televisão dos últimos anos tem sido crime e policial. Outra característica é o visual cinzento e frio, muitas vezes chuvoso e nublado, o que fez com os programas que fossem abrigados sob o apelido de Nordic Noir.

A série dinamarquesa Forbrydelsen recebeu uma adaptação americana chamada The Killing, produzida pelo canal AMC e disponível na Netflix.  Nessa versão os protagonistas são os detetives Sarah Linden (Mireille Enos) e Stephen Holder (Joel Kinnaman), que possuem uma dinâmica de interação bastante interessante. Linden é calada, séria, distante, enquanto Holder é é aquele tipo camarada e desastrado. Embora tenham personalidades opostas, eles não são arquetípicos e funcionam com naturalidade em cena. A trama da primeira temporada começa com o desaparecimento de uma adolescente, chamada Rosie Larsen, que depois é encontrada morta. A investigação desse crime não é rápida e eficiente como seria em um programa procedural como CSI: é lenta, envolve diversos fatores humanos e dramas pessoais, se arrastando por vários dias e e sendo passível de falhas. O melhor dessa série é sem dúvida a dupla de protagonistas, que funciona muito bem em conjunto, um em contraponto com o outro. A primeira temporada é ótima, a segunda perde um pouco o ritmo, mas recupera perto do final e a terceira é bastante boa também. Foi cancelada duas vezes pela AMC, a segunda vez definitivamente, mas a Netflix comprou os direitos e produzirá uma quarta temporada, para fechar a trama.

the killing

Outra série muito boa é a produção Suécia-Dinamarca chama Bron/ Broen (na grafia de cada língua), que recebeu versões americana e britânica, ambas chamadas The Bridge. A história parte de um crime que ocorreu na ponte que faz divisa entre os dois países, de maneira que as polícias de ambos os lados precisam ser acionadas para solucionar o caso, suscitando todas as diferenças culturais e de métodos das equipes. Os detetives que encabeçam as investigações são o dinamarquês Martin Rohde (Kim Bodnia) e a sueca Saga Nóren (Sofia Helin). Martin é bonachão, simpático e um homem de família, casado e com uma escadinha de filhos. Já Saga é solteira e mantem uma rotina de trabalho, bastante intensa, vestindo sempre as mesmas roupas (calça de couro e pulôver marrom) e sem nenhum relacionamento pessoal. Ela não tem traquejo social algum e tem dificuldade de lidar com os demais colegas. Em nenhum momento da série isso isso é confirmado, mas ela é considerada por muitos a primeira protagonista de drama televisivo do mundo a estar situada no espectro de autismo (possivelmente Asperger). Felizmente os realizadores não subestimam os expectadores e tudo é muito sutil. Sobre o caso, depois descobre-se fazer parte de uma série de outros crimes a respeito o que o responsável clama ser os piores problemas da sociedade escandinava. Dessa série só assisti a primeira temporada, mas a qualidade é muito boa e Saga é sem dúvida uma pérola de protagonista: uma personagem única e carismática ao seu jeito.

bron

Além dessas séries já citadas, outro sucesso é Wallender, que possui uma regravação britânica, protagonizada por Kenneth Branagh e também disponível na Netflix. Mas esta ainda não tive oportunidade de assistir.

 

 

 

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