[8º Olhar de Cinema] Pretérito. Imperfeito

Esta crítica faz parte da cobertura do 8ª Olhar de Cinema- Festival Internacional de Curitiba, que ocorre entre 5 e 13 de junho na cidade. 

Uma grua movendo-se lentamente no alto de um arranha-céu, balançando com o peso da carga carregada. Um trator derrubando uma casa, passando em meio a escombros. A banalidade das imagens em preto e branco de Pretérito.Imperfeito captura o olhar. A diretora, Zhun Shengzhe, aborda nesse documentário o streaming, transmissão ao vivo de imagens pela internet, que se tornou extremamente popular na China (ao ponto de, conforme explicado no começo do filme, hoje haver legislações específicas para a prática).

Apesar de começar com imagens de equipamentos em funcionamento, o foco do filme são as pessoas. Um homem do campo capinando um terreno. Um rapaz com um condição hormonal que não cresceu. Um homem com braços e pernas pouco desenvolvidos. Um jovem que pratica auto-mutilação. Um dançarino de rua. Uma mãe solo de 23 anos que trabalha como costureira em uma fábrica de roupa íntima. Nesse sistema em que as pessoas desnudam sua rotina para estranho em troca de moeda virtual que é trocada por dinheiro real, não é de se estranhar que quem mais aparece são aqueles em situação de vulnerabilidade social.

Não há letreiros nem voice over: o documentário é construído na montagem das imagens captadas. Shengzhe nos faz ver a imagem sem corte, sem raccords, sem uma sobreposição temática que dê pistas sobre um discurso ou narrativa que queira criar. As sequências são divididas em capítulos numerados, ao invés de nomeados. Dessa forma, o que atrai não é a estética ou a poética daquilo que vemos, é a própria banalidade das vidas apresentadas, que destaca a relação voyeur que temos com as imagens. Observar minutos ininterruptos de cada uma dessas transmissões nos coloca no papel de compartilhar o interesse que seu público nutre por elas e ao mesmo tempo tentar entender porque elas são interessantes em sua vulgaridade e o que nós, enquanto humanidade, buscamos encontrar em outros, desconhecidos mas próximos.

É impossível não pensar em Um Dia na Vida, de Eduardo Coutinho, que nos fez assistir a televisão aberta brasileira e pensar no sentido das imagens proporcionadas por ela. Aqui a busca por esse sentido se intensifica, já que é um retrato de um local e momento histórico com internet acessível e de alta velocidade em que o conteúdo gerado sequer precisa significar algo. E nesse sentido, embora outros locais pudessem ter a mesma possibilidade da China apresentada, porque o streaming virou um fenômeno tão maior lá?

Se, conforme Andy Warhol, “um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama” e se isso, em determinados contextos, pode já ser uma realidade, que valor sobrou para o palco? Funcionando como uma espécie de repertório de realidades diversas de vivências digitais e apesar de sua duração um pouco longa (com meia hora e menos seria igualmente interessante e menos cansativo), o documentário acerta ao colocar em questão nós mesmos, enquanto espectadores, desvelando nossos interesse pueris.

Nota: 3,5 de 5 estrelas
Share

[8º Olhar de Cinema] Segunda Vez

Esta crítica faz parte da cobertura do 8ª Olhar de Cinema- Festival Internacional de Curitiba, que ocorre entre 5 e 13 de junho na cidade. 

Dora García é uma artista espanhola e Segunda Vez é seu primeiro filme como diretora. Sua familiaridade com outras formas de expressão artística transparece. Sua proposta é a recriação de três happenings realizados nos anos de 1960 pelo psicanalista Oscar Masotta, na Argentina.

As reencenações são entremeadas por outras imagens. Alguns homens carregam um corpo envolto em tecido branco em uma floresta. Um grupo de pessoas assiste a um helicóptero que sobrevoa uma espécie de campo aberto, próximo a um barranco. Lá de cima, uma atriz vestida de vermelho acena para os demais. Pessoas, entre elas idosos, ficam de pé em uma plataforma, sob luz e música intensas, aparentemente por horas, enquanto outros, parados a sua frente, os observam. Frequentadores de uma biblioteca sussurram conversas enquanto pessoas no mezanino olham para elas. Um grupo de pessoas aguarda para ser interrogada em um ambiente com aparência de repartição, com diversos corredores e outras pessoas de jaleco. Uma delas é um jovem que é a única delas que está voltando uma segunda vez.

O contexto político em que as obras originais foram realizadas e as peças que complementam a reencenação dão pistas sobre a pretensão da autora. A ditadura e toda forma de controle e vigilância sobre discursos e sobre corpos e o medo (ou, por vezes, curiosidade) que daí emerge ficam patentes. Mas a mistura de performance com falas sobre Lacan e psicanálise e a pouca informação concedida ao pública sobre as obras que estamos testemunhando torna tudo muito hermético. Apesar da temática ser clara, a intencionalidade do discurso é difusa e o resultado final é de difícil assimilação. Trata-se de uma obra audiovisual mais próxima de uma vídeo-instalação do que de um documentário.

Nota: 2 de 5 estrelas
Share

[8º Olhar de Cinema] Diz a Ela Que Me Viu Chorar

Esta crítica faz parte da cobertura do 8ª Olhar de Cinema- Festival Internacional de Curitiba, que ocorre entre 5 e 13 de junho na cidade. 

Dirigido por Maíra Bühler, Diz a Ela Que Me Viu Chorar propõe uma reflexão sobre o cotidiano dos moradores do Braços Abertos, um projeto de redução de danos para pessoas com vícios, especialmente álcool e e crack. O Hotel Social, como era chamado, abrigava pessoas que precisavam de cuidados, sob três pilares; moradia, trabalho e saúde, buscando minimizar os efeitos negativos do vício. Segundo o próprio filme, foram 20 meses frequentando o local, por onde passaram 105 pessoas.

O filme parece tentar resgatar os aspectos de humanidade dos retratados, que muitas vezes são animalizados pela sociedade. Há afeto e há amor: alguns casais são retratados em conversas íntimas, em abraços apertados, em devaneios sobre o futuro. Esses momentos emocionam e dão uma noção maior de quem são essas pessoas e o que aspiram. Há cuidado e auto-cuidado, como os exercícios físicos flagrados na escada e uma sobrancelha sendo diligentemente desenhada. Há reflexões sobre a vida e a morte: um dos moradores, no dia de finados, sem saber se o pai ainda estaria vivo, fala sobre a brevidade que é viver. Há os momentos de solidão e o Natal sem a família aparece como um deles. Mas há, também, os momentos de confraternização e alegria.

Embora o processo de produção das imagens pareça ser praticamente etnográfico, a abordagem antropológica aparentemente não foi levada em conta. Já em 1986 o livro Writing Culture, de James Clifford, colocava em cheque a suposta neutralidade de quem autora uma etnografia após o trabalho de campo. A crítica não diz respeito apenas à Antropologia, mas, nessa perspectiva pós-moderna, busca descolonizar modos de olhar e retratar o outro. Não existe observação participante neutra: toda pessoa está posicionada dentro do campo e o processo de montagem que daí se origina parte desse posicionamento. A câmera, nesse caso, nunca será invisível.

Bühler tenta trabalhar com essa câmera neutra e a aparente neutralidade perturba. Ela, como alguém que observa de longe, está ligada capturando as imagens sem parar. Em determinado momento, uma briga entre dois moradores é iniciada e ela segue rodando, mesmo quando a briga sai de campo e é possível ouvir objetos sendo quebrados. Depois o corpo inconsciente de um dos homens é registrado no chão. Tudo isso acontece com a frieza e distanciamento de um olhar que não se envolve. Não há interação, apenas, por vezes, vozes da equipe flutuando naquele espaço. E nesse distanciamento, as pessoas que vivem ali aparecem retratadas como o “outro exótico” que não faz parte da realidade do olhar da câmera, trazido para o espectador. Talvez por isso um dos momentos mais interessantes do filme é quando a equipe está no elevador, ainda que fora de campo e, subindo e descendo junto com os moradores, captura a interação deles entre si e com o equipamento, trazendo-o para um lugar de visibilidade e deixando claro os processos de conhecimento e reconhecimento ali implicados.

Em alguma medida é possível dizer que a regra número um de um trabalho antropológico é jamais prejudicar os seus interlocutores. Mas aqui, não é antropologia, é cinema, fato confirmado quando a diretora, em sua fala, chama as pessoas retratadas não de interlocutoras, mas de personagens. Ainda assim, depois de décadas de reflexão sobre a impossibilidade de autorar de forma invisível e da responsabilidade de quem trabalha com alteridade, é difícil digerir um retrato como esse, mesmo que bem intencionado. Além disso ainda há todas as discussões sobre as possibilidades de autoria compartilhada, que foi, mesmo, descartada pela autora quando afirmou que quis entregar câmeras para as pessoas retratadas, mas elas não quiseram. Mas e a montagem? Será que as cenas escolhidas são aquelas que elas gostariam de ver sobre si mesmas? Se a escolha das imagens é deliberada e parte da autora, qual o discurso que ela cria sobre essas vidas?

Durante os fogos de Ano Novo, Benedita, uma das mulheres que lá morava, sem sua esposa, está sentada no chão olhando para o vazio a sua frente. Que vida nova esse ano novo traz? O filme termina com um letreiro que afirma que o prefeito que assumiu o cargo na cidade de São Paulo em 2017 terminou com o programa e a maior parte das pessoas foi morar na rua. Embora a proposta aqui pareça ser a de defesa do projeto, há uma certa ambiguidade causada pelo retrato oferecido.

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
Share