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Vício Inerente (Inherent Vice, 2014)

No ramo de seguros, “vício inerente” é quanto um objeto tem um defeito oculto ou uma propriedade que contribui para sua deterioração ou dano. Essas características o tornam inaceitável para ser segurado. O nome do filme já é intrigante, mas a trama é justamente sobre isso: elementos que se estragaram e nunca mais foram os mesmos.

Dirigido por Paul Thomas Anderson, Vício Inerente conta com um elenco impressionante, a começar por Joaquin Phoenix, que interpreta o protagonista Doc, um detetive particular que atua na Los Angeles movida a maconha de 1970. O filme demora para engrenar e seu primeiro terço é bastante lento, mas isso se justifica justamente por vermos tudo sobre o ponto de vista de Doc, cuja mente funciona desse forma. A narrativa é ele. E não por acaso ele é detetive. Trata-se de um neo-noir, com narração em off e uma femme fatale marcante, mas com o contraste de se passar em uma cidade ensolarada.

O gatilho de toda ação é o retorno da ex-namorada de Doc, Shasta (Katherine Waterston), que o avisa que está namorando com um magnata dos imóveis, Wolfmann (Eric Roberts), cuja esposa e o amante dela queriam coloca-lo em um hospício para ficarem com seu dinheiro. Confuso? Nem começou. A sucessão de personagens saltando na tela é imensa,mas todos os tipos são minimanten interessantes: o policial antagonista Bigfoot (Josh Brolin), a advogada Penny (Reese Whiterspoon), o infiltrado Coy (Owen Wilson), entre outros. Cada conexão leva a investigação de Doc para outro momento que desconstrói o anterior, mas a mistura não desanda graças à mão competente de Paul Thomas Anderson. Não só os variados e numerosos personagens são interessantes, mas seus planos são muito bem construídos, com composições belíssimas mesmo quando piscam na tela por poucos segundos, como uma paródia da santa ceia em determinado momento. Os planos médios ou fechados por vezes conferem um clima claustrofóbico à trama.

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Destaco o figurino competente de Mark Bridges, que trabalhou em todos os filmes do diretor desde Boogie Nights. Entre camisas jeans, vestidos com estampas geométricas, batas, veludo cotelê e tudo mais, o conjunto é perfeitamente crível com a época retratada. As roupas de Doc, especialmente, passaram por um belo processo de envelhecimento e tingimento, mostrando-se desgastadas e com aparência de pouco lavadas e mesmo suadas e mal-cheirosas.

No final o vício inerente diz respeito justamente a essa época em que o movimento hippie estava em plena decadência. Por isso, apesar de o filme ter um certo humor negro, um tom de melancolia o perpassa também. Mas não é apenas a sociedade que estava mudando: o relacionamento entre Doc e Shasta também está danificado irreversivelmente.

Vício Inerente não chega no mesmo patamar dos melhores trabalhos de Paul Thomas Anderson, mas é sua direção segura e seu estilo visualmente impecável que garante que o filme permaneça coeso e envolvente.

 

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O Mestre (The Master/ 2012)

Assistido em 16/02/2013
Não sou nenhuma entendida de Paul Thomas Anderson: pelo contrário, antes de ver O Mestre, só havia visto dois filmes dele, Magnólia e Sangue Negro (e sei que preciso ver outros). Por esse panorama eu sei que ele é um diretor muito bom, muito acima da média. Até hoje não sei como Onde os Fracos Não Tem Vez levou o Oscar de Melhor Filme em 2008 contra Sangue Negro, que considero um filme maravilhoso. Mas mesmo ciente de suas qualidades não consigo não achar por essa pequena amostragem de trabalho que ele às vezes é meio inconsistente. O Mestre, por exemplo, me pareceu muito inferior a Sangue Negro. Sei que o filme tem zilhões de subtextos e sei que provavelmente não captei nenhum, mas essa é a sensação que eu tive. A história fala de um homem problemático e alcoólatra, chamado Freddie Quell (interpretado fantasticamente por Joaquim Phoenix) que entra sem ser convidado em um barco onde ocorre uma festa e lá conhece um mestre de uma nova religião, Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman, ótimo como sempre) e sua esposa Peggy (Amy Adams). Ao mesmo tempo em que aborda os absurdos dessa religião, o filme nunca vilaniza seus criadores, sempre os mostrando como pessoas de boa-fé e que querem ajudar. Apenas alguns membros da família ou da sociedade aparecem no papel de descrentes, fazendo um contraponto. Essa religião foi livremente inspirada na cientologia. Os personagens principais, embora tenham uma interação bastante interessante, parecem não evoluir ao longo do filme. E apesar de todas as cenas bonitas e das interpretações muito boas, passados três dias parece que ele em nada me marcou…

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