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Ave, César!

É fácil comparar Ave, César!, novo filme dos direitores e roteiristas Joel e Ethan Coen, com Barton Fink– Delírios de Hollywood (1991), seu quarto filme, já que ambos se passam na Capital Records, um estúdio fictício da era de ouro de Hollywood. O segundo abarca os anos de produções de segunda linha, na década de 1940, enquanto agora, na década de 1950, o estúdio cresceu e é apresentado como criador de estrelas e de sucessos de gênero, como uma MGM de um universo alternativo. Mas os vinte e cinco anos entre ambos os filmes parecem marcar também uma mudança no posicionamento dos irmãos em relação à indústria: Barton se via como um escritor brilhante que não fazia parte de Hollywood; já Eddie Manix (Josh Brolin), o atual protagonista, é um homem em uma jornada de auto-descobrimento que o leva a perceber seu amor por ela.

A trama se fragmenta em diversas histórias: o gatilho é o sequestro de Baird Whitlock (George Clooney), um astro trabalhando em um épico sandália e espada à lá Ben-Hur. Com isso somos apresentados a diversas estrelas, que podem ser comparadas à outras da época, como a nadadora dos filmes aquáticos DeeAnna Moran (Scarlett Johansson, emulando Esther Williams), o herói dos faroestes Hobie Doyle (Alden Ehrenreich), o dançarino dos musicais Burt Gurney (Channing Tatum, remetendo a Gene Kelly) e mesmo as colunistas de fofoca Thora e Thessaly Thacker (Tilda Swinton, numa versão gêmea de Hedda Hopper). Burt, especificamente, é ridiculamente ótimo. Há muito que Tatum merece um filme musical de dança no estilo clássico para estrelar.

Por fim, o nosso protagonista, Eddie, um homem que todos os dias acorda sabendo que vai ter que limpar a sujeira do estúdio e de suas estrelas, para manter a imagem de todos os envolvidos limpa. Eddie está sendo tentado por um emprego sem esses problemas e com um pagamento melhor. Nesse ponto o filme também conversa com Um Homem Sério (2009), se levarmos em conta que Mannix é um homem preso a um rigoroso padrão bastante próprio e peculiar de moralidade nas suas escolhas, que incluem uma confissão por dia a um padre. Marcado pela culpa católica, ele sente remorso ao mentir para a esposa e também se preocupa em não ofender nenhuma fé ou crença, como mostra em uma ótima sequência que envolve uma reunião com lideranças religiosas diversas.

É importante notar que realmente existiu uma pessoa chamada Eddie Mannix na vida real, mas o filme não se propõe a funcionar como uma biografia dele. Na vida real ele tinha a mesma função, além de ser um dos produtores da MGM, e era notoriamente violento e abusivo, mas aqui ele é apenas um personagem cansado que vem a calhar de ter esse nome. Como outros protagonistas dos Coen, ele é uma pessoa comum, mas peculiar, que está em uma situação que o tira da normalidade. Mas não deixa de ser interessante, porque os demais personagens que funcionam como estrelas reais nesse mundo paralelo, possuem outros nomes.

Um dos aspectos mais divertidos do filme é a maneira como ele descortina a forma como os astros eram construídos: o caubói que era caubói na vida real, a moça não muito polida que se torna uma estrela inocente, o bufão que se apresenta como ator sério, entre outros. Além disso, se os atores são escolhidos pela imagem que projetam, não necessariamente são os melhores em sua arte: com isso inúmeras tomadas precisam ser feitas e o material bruto tedioso e de baixa qualidade é assistido religiosamente por Mannix todos os dias. Por outro lado, ocorre a mitificação da forma como as sequências são filmadas: cenas de nado e dança se desenrolam ininterruptamente em um só take, sem erros e sem mudanças de posição da câmera. É como se os Coen implicassem que o filme nascesse assim: de uma vez só.  As coreografias são lindas e os figurinos vistosos: ao final o espectador compra a ideia desses filmes fictícios apenas com um relance deles. Todos os problemas se resolvem na montagem: é aí que eles mostram que a magia acontece e que o que antes parecia medíocre se transforma em algo grandioso, que certamente agradará à plateia.

O elenco de peso faz toda diferença. São muitos personagens bons, que aparecem por pouco tempo e sobre quase todos eles só conhecemos o que está limitado pelo contexto espaço-temporal do filme, sem mais background. Mas eles funcionam muito bem e isso também diz muito sobre o minimalismo da escrita do autores, que injeta na história o suficiente para que ela se desenrole sem problemas.

Os irmãos Coen mais uma vez demonstram o cuidado com os detalhes e com a criação do mundo, usando de uma escrita precisa e afiada e criando uma película ao mesmo tempo muito engraçado e lindo de olhar. Apesar de mostrar o humor e a ironia que envolvem o processo de fazer um filme, o resultado se mostra reverente não só com o produto final, mas com a indústria. É uma obra que mostra todo o amor ao cinema, apesar ou por causa de suas peculiaridades. Está longe de ser um trabalho menor: pelo contrário, é perceptível a maturidade com que refletiram sobre passado e presente do cinema no filme. Por fim, é uma declaração a respeito deles mesmos e um atestado de que, depois desses anos todos ocupando uma posição estranha no sistema hollywoodiano, eles estão à vontade.

P.S: Spoiler: É engraçado demais que o fato que arruína uma notícia para a Hedda Hopper alternativa é que um ator justamente seja comunista. Ironia finíssima.

4,5estrelas

hail caesar poster

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Figurino: O Grande Hotel Budapeste

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 20/08/2014.

O Grande Hotel Budapeste, último filme de Wes Anderson, reúne um grande elenco em uma obra que apesar da temática mais sombria que a de seus filmes anteriores, bem como de certa violência, ainda que estilizada, mantém o tom fabulesco e a estética impecável que lhe são característicos. O design de produção faz uso de maquetes e miniaturas (também como em filmes anteriores) e o figurino é assinado pela veterana Milena Canonero, que também foi responsável por Barry Lyndon, já aqui comentado.
O filme retrata três décadas diferentes, cada uma com suas paletas de cores e até mesmo razões de aspecto específicas, diferenciando umas das outras.
Logo na sequência de abertura vemos uma menina com camiseta rabiscada, sobretudo adornado com botons, boina, meias brancas e pesados sapatos pretos caminhando na neve para homenagear um Autor no cemitério. O tipo de roupa da garota já nos remete a personagens de filmes passados do diretor. Embora algumas peças pareçam ser antiquadas ou passar uma imagem de bom comportamento, são os detalhes que revelam que debaixo dessa superfície algo deve estar se agitando no fictício país de Zubrowka.
O ano é 1985. Passamos a um escritório onde o Autor (Tom Wilkinson) fala com o espectador sobre sua trajetória. Móveis antigos e pesadas cortinas laranjadas adornam a sala e ele veste, de forma muito conservadora, paletó marrom de lã, com gravatas em tom de caramelo. Tudo é sem vida e sem frescor, como se sobrevivessem a algum regime político que subjugou a população, o que depois nos é revelado.
A narrativa passa para o ano de 1968, quando o jovem Escritor (Jude Law) conhece Zero Moustafa (Murray Abraham), o misterioso proprietário do Hotel Budapeste. Este decide conta-lo a história de como adquiriu o hotel.
Moustafa veste-se de azul marinho, vinho e marrom, uma combinação um tanto quanto inusitada e de gosto duvidoso

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Acrescenta-se a isso o hall do hotel com paredes cor de laranja e móveis em laca brilhante em amarelo intenso e verde amarelado. A fachada ganhou um letreiro alaranjado e a libré dos funcionários é em um tom aberto de roxo. As paredes são cobertas de painéis amadeirados com aparência barata. Todas as cores contrastam de um jeito estranho entre si. Tudo isso serve para indicar que com o passar dos anos o Hotel foi redecorado para um estilo modernista cafona, com aparência decadente, possivelmente filtrado pelo regime.

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Moustafa retrocede a narrativa para o ano de 1932. Foi ali que, ainda chamado simplesmente de Zero (Tony Revolori) começou a trabalhar no hotel como ajudante, contratado pelo exuberante M. Gustave (Ralph Fiennes). Esse período é retratado como uma época de opulência e bom gosto. A libré dos funcionários no passado também era roxa, mas em um tom mais fechado. O hall é decorado em vermelho e dourado e possui um ar de grandiosidade. As mesmas cores se repetem no salão de refeições. Embora as cores ainda sejam contrastantes, formam uma composição mais refinada e grandiosa.

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As paredes dos ambientes são de um tom de rosa pálido, novamente evocando o passado de forma saudosista, retratando-o como mais elegante. O retrato da década é repleto de tons pastel.

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M. Gustave se envolve de forma bastante intensa com as suas hóspedes mais idosas. Uma delas, Madame D. (Tilda Swinton), veste-se de forma extravagante e suas ricas roupas são inspiradas pela obra do artista Gustav Klimt. As peças foram confeccionadas pela grife Fendi.

O beijo, de Gustav Klimt.

O beijo, de Gustav Klimt.

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A marca também foi responsável pelos casacos com bordas de pele utilizados pela polícia.

Casaco ao centro confeccionado pela marca Fendi.

Casaco ao centro confeccionado pela marca Fendi.

É fácil perceber que em meio a todo o festival de cores utilizadas no filme, não é por acaso que a polícia e o exército fascista são retratados em cinza e preto. Eles são as figuras de autoridade a se temer e roubam a cor a seu redor. A mesma cor é utilizada para marcar pessoas relacionadas a Madame D: sua família de luto e especificamente seu filho Dmitri (Adrien Brody), além do capanga Jopling (Willem Dafoe). Este último utiliza um sobretudo de couro confeccionado pela grife Prada.

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Sobretudo de couro produzido pela marca Prada.

Sobretudo de couro produzido pela marca Prada.

Ela também contribuiu com a produção de um conjunto de malas utilizadas por Madame M.

Ao fundo, malas Prada confeccionadas especialmente para o filme.

Ao fundo, malas Prada confeccionadas especialmente para o filme.

A colaboração entre Wes Anderson e Prada começou com duas peças publicitárias dirigidas por ele: uma campanha para o perfume Candy, estrelada por Léa Seydoux e um curta, Castello Cavalcanti, estrelado por Jason Schwartzman e Giada Colagrande.


Wes Anderson é conhecido por fetichizar roupas e cenários de seus filmes, tornando-os parte essencial do visual esquematicamente composto para eles. O Grande Hotel Budapeste talvez não tenha roupas tão marcantes como Os Excêntricos Tenenbaums e mesmo Moonrise Kingdom, mas ainda assim elas fazem parte de um conjunto que provavelmente é sua mais elegante composição até agora. A temática está mais madura, embora aspectos políticos continuem sendo secundários e experimentação estilística segue sendo o ponto forte. O trabalho de Milena Canonero é lúdico, mas mais que isso, dialoga com cenários criando, mais uma vez, as paletas de cores inusitadas que são características do diretor.

Para ler mais sobre o uso de cores e perspectiva em O Grande Hotel Budapeste, acesse aqui.

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007: Operação Skyfall (Skyfall/2012)

Assistido em 30/11/2013

Sometimes the old ways are best.

Não sou fã da franquia 007. Apesar disso, já assisti filmes de quase todas as encarnações do espião, passando por todas as décadas, graças ao meu pai, que gostava muito do personagem. Sempre achei as tramas mirabolantes e não conseguia mergulhar nas histórias. Resolvi dar uma chance para Skyfall depois de ler tantos comentário positivos e também porque Sam Mendes (de Beleza Americana, Foi Apenas um Sonho, entre outros) na direção é no mínimo um contraste interessante.

O filme já começa com uma bela sequência de ação que dura em torno de doze minutos. Ao fim dela, já se está irremediavelmente preso à poltrona, com atenção total. Bond (Daniel Craig) apanha, se machuca, leva tiro, cai, mas ao final levanta-se ajeita as abotoaduras, num momento em que demonstra bem a transição desse 007 iniciante e durão para o agente charmoso e elegante do passado (que na verdade é futuro).

Lidando com a dor e tentando criar uma nova rotina para si, mergulha de cabeça no consumo de álcool, aparecendo sempre com olhos injetados. Como em diversos filmes da franquia, as paisagens internacionais fazem parte da trama. (Como esquecer a ridícula e marcante sequência no bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, em Foguete da Morte?). Aqui temos a Turquia retratada com orientalismo e um olhar exotizante e Hong Kong como um mundo noturno futurista banhado em neon. A sequencia em que Bond vai atrás de um atirador dentro de um prédio com fachadas e divisórias internas todas em vidro, com luzes dos letreiros refletidas nessas superfícies, é muito bonita.

A temática recorrente do filme é o embate entre o velho e o novo. Bond e M (Judi Dench) são constantemente lembrados que estão velhos para aquilo que fazem e que precisam abrir lugar para o novo. O mundo está mudando. Os inimigos são outros. (O subtítulo americano de Tropa de Elite 2 cabe bem ao filme: The Enemy Within). Toda aquela história de guerra fria presente na série ficou no passado. Mas Eve (Naomie Harris) nos lembra que às vezes o jeito antigo de fazer as coisas é o melhor.

Além disso, o passado de Bond o assombra. Skyfall do título é onde tudo começou. Bond é como uma espécie de Batman escocês, órfão, com uma grande mansão, fortuna e um empregado fiel. Mas ao invés de se entregar a vigilantismos fascistas, opta por servir ao governo (o que nubla a linha entre o certo e o errado e torna tudo mutável). Alguém fala “os órfãos são os melhores recrutas”. E são, pois nada mais têm a perder. Mas nesse sistema, toda peça é descartável, até mesmo ele. O personagem é humanizado, passa a ter sentimentos e dores. As teorias de que cada ator que interpretou James Bond seria uma pessoa diferente e que James Bond é um codinome, são desmentidas: Bond é um só e não se esconde atrás de nomes falsos, como confirma a lápide de seus pais, com mesmo sobrenome.

O vilão Silva (ou Tiago Rodriguez) (Javier Bardem) poderia ter sido um erro miserável. Os tons homoeróticos, o cabelo estranho, a latinidade: tudo poderia ter caído no clichê, como um Dr. No. Mas novamente o personagem é humanizado, provido de passado e motivações e, claro, interpretado com maestria por Bardem. Até mesmo a cena em que afaga a perna de Bond e fala “Sempre há uma primeira vez”, ao que o outro responde “o que o faz pensar que é minha primeira vez?” ajuda a desconstruir a mítica do machão sedutor que existe ao redor do espião.

O filme lida com perdas e ao final, perdemos uma personagem querida. Ela é substituída de maneira a deixar a história mai próxima temporalmente daquela que existia no passado. Mas também ganhamos outra: Moneypenny está de volta, trabalhando para M. É um agrado interessante para os antigos fãs da série.

Dizer que esse é o melhor filme do 007 que já vi não é exagero, mas também não significa muito para mim. Com tomadas belíssimas e um protagonista bem construído de uma forma que nunca vi na franquia, Operação Skyfall é um ótimo filme. Não posso dizer que me rendi ao herói, pois esse parece um desvio na curva da produção da série, mas como exemplar isolado, funciona muito bem.

Skyfall_

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