Boyhood- Da Infância à Juventude (Boyhood, 2014)

O diretor Richard Linklater já demonstrou, na trilogia composta por Antes do Amanhacer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia Noite, que sabe fazer seus personagens crescerem diante da câmera de maneira orgânica, como se realmente tivessem criado vida. Boyhood foi um projeto que levou doze ano para ser realizado, com as pessoas envolvidas se encontrando por poucos dias a cada ano. Trata-se da história de Mason (Ellar Coltrane), um menino de 6 anos, até sua ida à faculdade, aos 18. Mason é acompanhado por sua irmã mais velha, Samantha (Lorelei Linklater), sua mãe (Patricia Arquette) e seu pai (Ethan Hawke). A passagem do tempo se dá de forma natural e o filme não capta os grandes momentos da vida do garoto: ele se passa justamente nos intervalos, no cotidiano, nas pequenas coisas por vezes triviais que as pessoas guardam na memória. Em certo momento a mãe de Mason chora e reflete sobre como a vida passou rápido, citando pontos marcantes e dizendo que deveria ser mais do que isso. Mas a história deixa claro: é, sim, mais do que isso, mas às vezes custamos a perceber e só o fazemos quando olhamos em retrospecto.

Assistir a esse filme é ver todos os personagens crescerem, não só fisicamente, mas também emocionalmente. Se Mason se torna um adolescente um tanto quanto misantropo, seu pai encontra maturidade para lidar com sua própria vida e sua mãe, segurança e confiança em si mesma. Ninguém é perfeito na história: todos se parecem com pessoas reais e reagem de maneiras falhas, mas como pessoas reais, são interessantes e cativantes.

A trilha sonora é um dos pontos altos. Como em Jovens, Loucos e Rebeldes e Escola do Rock, Linklater consegue escolher músicas que reflitam ao mesmo tempo o espírito da época e o momento dos personagens.

Boyhood não é um filme que tenha grandes momentos explosivos de emoção. Não é um drama intenso. É um filme minimalista, que emociona com sutileza e nos leva a refletir sobre nossas próprias vidas espelhadas na trama e cada fase desse crescimento, que não para ao dezoito anos.

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Antes da Meia Noite (Before Midnight/ 2013)

Assistido em 13/11/2013.

Assim como aconteceu com Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol, o diretor Richard Linklater novamente nos presenteia com essa sequência após nove anos. Jesse (Ethan Hawke) e Céline (Julie Delpy) estão novamente juntos na continuação daquele romance que durou apenas uma noite mas marcou suas vidas.

Para minha surpresa, já que mantive-me alheia aos materiais promocionais, logo ao começar o filme descobrimos que ambos ficaram juntos depois do desfecho do segundo filme. Jesse divorciou-se de sua esposa, que mora com o filho adolescente nos Estados Unidos e vive com Céline e suas duas filhas gêmeas, em Paris. Eles estão passando as férias no Peloponeso, na Grécia.

A trama desconstrói parcialmente o que havia sido construído nos outros filmes. No primeiro filme conhecemos uma grande história de amor, que não é diminuída em impacto pela sua curta duração. Pelo contrário: na juventude de ambos os personagens, a efemeridade faz parte da beleza. Uma noite basta para amar. Para que estragar o que belo tentando conformá-lo a outras expectativas? No segundo filme descobrimos o impacto daquela noite na vida de ambos. Jesse havia escrito um livro em que uma das personagens era inspirada em Céline. Ao passar por Paris para fazer divulgação, reencontra-a e conversam sobre o que houve depois.

A conversa é essencial para todos os filmes: se baseiam em diálogos realistas e humanos, que se passam em algum cenário bonito de cidade europeia. No terceiro não é diferente. A Grécia fornece paisagens e construções lindas para emoldurar as palavras proferidas pelo casal. Acontece que ao aceitarem a conformação de uma relação tradicional entre o segundo e esse filme, tiveram que abrir mão do encanto efêmero que testemunhamos no primeiro. Trata-se de um filme mais sombrio e pessimista. Os anos, a rotina e as filhas desgastaram a relação tão bonita do casal. Céline reclama das tarefas domésticas que ficam a seu cargo, da ausência de Jesse, do descaso com a carreira dela. Jesse rebate falando da falta de otimismo, das cobranças, da falta de reconhecimento de suas ações.

Embora com novos problemas trazidos pela idade, pela maturidade e pelo pouco tempo para conversar em meio a suas rotinas, Céline e Jesse demonstram que o afeto e empatia que despertaram em Viena ainda estão presentes entre os dois. Mas agora, a luta pela relação tem que ser diária.

Julie Delpy e Ethan Hawke encarnam os personagens com naturalidade impressionante. Tal fato pode ser explicado pelos dezoito anos no papel, mas também pelo fato de participarem do processo de composição do roteiro, mostrando familiaridade com as características de seus “eus” em cena. Com uma direção quase minimalista e eficiente, Liklater se beneficia dos cenários e parece deixar os atores trabalharem a vontade. O resultado final é um filme mais pesado, mais cheio de emoções, mais maduro, mas igualmente belo.

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