[8º Olhar de Cinema] A Portuguesa

Esta crítica faz parte da cobertura do 8ª Olhar de Cinema- Festival Internacional de Curitiba, que ocorre entre 5 e 13 de junho na cidade. 

O cinema de Rita Azevedo Gomes é marcado pelo apuro estético e cuidado na composição. Em A Portuguesa não é diferente. A história da jovem portuguesa que se casa com o lorde Von Ketten e se muda para o norte da Itália é pano de fundo para a cineasta criar cenas de enorme beleza plástica.

A Portuguesa é uma mulher que não encontra lugar na castelo em ruínas de seu marido sem recursos. Eles tiveram um ano para aproveitar o enlace e o primeiro filho, quando, então, ele partiu e passaram-se doze na guerra. Ela o ama, ele ama a guerra. O tempo transcorre devagar e as imagens são contemplativas. A câmera, geralmente parada, enquadra as cenas à distância, compondo-as como uma pintura renascentista, geralmente com tecidos atirados ao chão para criar uma base visual para o cenário, além de figurantes imóveis ou quase. Fica marcado o contraste entre azuis e amarelos esmaecidos, pontuados pelo vermelho e contrastando o intenso azul da parede do quarto da protagonista. Os movimentos são contidos e as mulheres se movem de forma lânguida, com trajes esvoaçantes que se arrastam farfalhando pelo chão, longos demais, contendo seus movimentos.

Acusada de bruxaria e de heresia, a Portuguesa vaga como um elemento da natureza, fazendo amizade com um lobo e esculpindo da terra animais antropomorficamente femininos, prenhes como a natureza que a rodeia. Essa força vital é expressa nos filhotes recorrentes, sejam gatos, sejam coelhos que pululam na relva. Embora a ideia de uma sexualidade latente perpasse as cenas, existe, ao mesmo tempo, uma contenção, que parece deslocar as mulheres para um lugar de quase beatitude, em uma constante vigília e espera dedicada à leitura, à música e às conversas, fazendo com que frequentemente sejam retratadas sentadas, e não em ação. Por outro lado, também estão sempre juntas, acompanhando umas às outras.

Há uma quebra nessa placidez casta, quando, em meio à guerra, Von Ketten visita seu castelo e, deliciosamente, o casal flerta enquanto cada um toma banho em barris posicionados lado a lado. “Homem é fogo, mulher é estopa, vem o rabudo e assopra”, afirma uma empregada, destacando a intensidade dos desejos presentes no reencontro, ainda que em meio a brincadeiras.

As imagens dão pistas de que nesse local, os homens ainda são entendidos como Cultura e as mulheres, por sua vez, como Natureza. Os castelos em ruínas são obras dos homens, que os ergueram para depois os dilapidar em guerras seculares. As mulheres aparecem como camponesas imersas em cantigas, como quem acaricia os gatos, quem colhe as ervas e quem doma os lobos. A oposição entre as paredes dos prédios e os campos que as rodeiam é uma construção clara e intencional. Essa oposição dicotômica é destacada quando a Portuguesa é visitada por uma parenta e ambas estão sentadas em meio a pedras empilhadas que um dia foram as paredes de alguma casa. O mato toma conta do lugar e reclama o que um dia foi seu.

Nesse jogo de contrastes simbólicos, a Natureza quase mata Von Ketten, mas é a heresia da Portuguesa que, manipulando essa mesma Natureza, o salva. Se a paz, conforme o Bispo, é vício e corrupção, Von Ketten só a encontra após matar parte da natureza da Portuguesa e explorar sua própria em busca de recuperação e liberdade.

Enquanto narrativa, A Portuguesa pode cansar quem a assiste esperando uma história convencional e talvez mais dinâmica. Como uma fábula, encanta pelo uso de signos e pelos diálogos com textos poéticos e afiados e deleita com a exploração visual de seus sentidos e com a composição de planos dos quais os olhos não têm como fugir.

Nota: 4 de 5 estrelas
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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O 20 melhores filmes de 2017 que não são de 2017

Essa lista, que faço todos os anos, são dos melhores filmes que eu vi pela primeira vez no ano e que não são lançamentos. Como sempre, para facilitar, escolhi apenas filmes ficcionais de longa metragem. Além disso, para abrir espaço à variedade, diretoras e diretores com mais de um filme que preenchessem esse critério tiveram só um listado. Outros filmes com avaliação alta vistos esse ano, mas com direção repetida, serão colocados abaixo. Geralmente a lista tem 30 filmes e esse ano tem apenas 20. Isso é reflexo do pouco tempo que tive para me dedicar a ver os filmes mais antigos. Eu costumava fazer meses temáticos, assistindo a diversos filmes de algum país, escola ou diretor, mas esse ano, com o doutorado, acabei não tendo tempo e assistindo quase que exclusivamente a filmes que são pauta de algum podcast. Isso se refletiu no resultado final, já que nem meus queridinho da Metro ou amados pré-código pude ver com carinho. A lista também pode ser conferida no letterboxd. Filmes sobre os quais escrevi ou gravei podcast tem links no título e a ordem da disposição é cronológica.

Rua 42 (42nd Street, 1933)

Direção: Lloyd Bacon

★★★★

A Viúva Alegre (The Merry Widow, 1934)

Direção: Ernst Lubitsch

★★★★

À Meia Luz (Gaslight, 1944)

Direção: George Cukor

★★★★

O Mundo Odeia-Me (The Hitch-Hiker, 1953)

Direção: Ida Lupino

★★★★

Anjos Rebeldes (The Trouble With Angels, 1966) ★★★★

Os Desajustados (The Misfits, 1961)

Direção: John Huston

★★★★

O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962)

Direção: John Ford

★★★★1/2

Funny Girl: A Garota Genial (Funny Girl, 1968)

Direção: William Wyler

★★★★1/2

O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled, 1971)

Direção: Don Siegel

★★★★

Victor ou Victoria (Victor/Victoria, 1982)

Direção: Blake Edwards

★★★★

Chocolat (1988)

Direção: Claire Denis

★★★★1/2

Bom Trabalho (Beau Travail, 1999) ★★★★1/2

35 Doses de Rum (35 Rhums, 2008) ★★★★

Faça a Coisa Certa (Do the Right Thing, 1989)

Direção: Spike Lee

★★★★★

Garotos de Programa (My Own Private Idaho, 1991)

Direção: Gus Van Sant

★★★★

Earth (1998)

Direção: Deepa Mehta

★★★★1/2

Fogo e Desejo (Fire, 1996) ★★★★

Frágil como o Mundo (2002)

Direção: Rita Azevedo Gomes

★★★★1/2

Primavera, Verão, Outono, Inverno… E Primavera (Bom yeoreum gaeul gyeoul geurigo bom, 2003)

Direção: Kim Ki-Duk

★★★★1/2

Caramelo (Sukkar banat, 2007)

Direção: Nadine Labaki

★★★★

E agora onde vamos? (Et maintenant on va où?, 2011) ★★★★

Entre o Amor e a Paixão (Take This Waltz, 2011)

Direção: Sarah Polley

★★★★★

Trabalhar Cansa (2011)

Direção: Juliana Rojas, Marco Dutra

★★★★

Sinfonia da Necrópole (2014, dir. Juliana Rojas) ★★★★

The Fits (2015)

Direção: Anna Rose Holmer

★★★★1/2

Docinho da América (American Honey, 2016)

Direção: Andrea Arnold

★★★★1/2

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