O Triângulo Rosa (Paragraph 175/ 2000)

Filmes que abordam a Segunda Guerra Mundial ou seus campos de concentração são diversos, sejam de ficção ou documentários, como este. Mas O Triângulo Rosa se propõe a mostrar a realidade de um grupo que viveu o período e é pouco pesquisado: os homossexuais. O parágrafo 175 da legislação alemã, presente no título original do filme, diz respeito à proibição da assim chamada sodomia. A lei entrou em vigor ainda no século XIX, mas pouco ou nada foi aplicada até o regime nazista. Segundo o que é mostrado, na década de 1920 Berlim chegou a se tornar o paraíso gay da Europa, com bares, cafés, clubes de dança e outras atividades que integravam as pessoas e animavam a vida noturna da cidade. Além disso existiam laboratórios que pesquisavam sexualidade humana e interesse pelo assunto. Depois que Hitler foi elevado a Chanceler, em 1933, os estabelecimentos voltados para o público gay foram banidos, institutos de pesquisa fechados e, largamente sabido, livros que entravam em conflito com a filosofia do governo foram queimados.

A princípio o parágrafo 175 não foi posto em vigor. Sabe-se de oficiais nazistas que eram homossexuais e não sofreram nenhuma sanção por isso. Mas, conforme a guerra avançou, a lei passou a ser aplicada. Os triângulos rosas do título referiam-se às marcas usadas na roupas dos presos homossexuais para defini-los. Mulheres lésbicas não eram alvo da lei, pois lesbianidade era vista como algo temporário e curável. Homossexuais não judeus raramente eram enviados aos campos de concentração,  sendo geralmente utilizados para trabalhos escravos ou como cobaias em testes científicos. Pelos relatos parece que muitas pessoas foram presas não exclusivamente pela homossexualidade, mas sim por uma combinação de fatores, como serem judeus ou terem posturas políticas antagônicas ao Reich, por exemplo. E esse é o ponto fraco do documentário: por ser produzido mais de meio século após o fim da guerra, não há muitos interlocutores para coletar informações. A equipe conseguiu levantar uma lista de sete homossexuais que foram presos no regime, mas apenas cindo aceitaram gravar depoimentos, o que é uma amostragem bastante baixa e pouco eficiente em termos de levantamento de dados. Apesar disso, o filme conta com relatos emocionantes e, somados aos dados obtidos através de pesquisa, consegue por aproximação formar uma perspectiva dos horrores pelos quais essas pessoas passaram. Embora com aspectos problemáticos na produção, ainda é um documentário emocionante e que revela aspectos pouco comentados do período.

Paragraph175

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Figurino: Lovelace

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 25/09/2013.

Cinebiografias geralmente demandam trabalhos intensos de recriação de período por parte da equipe de design de produção. O figurino fica aí incluído e, além da recriação da época através de roupas com cortes familiares ao expectador, por vezes é necessário refazer peças específicas utilizadas pela pessoa retratada. Esse ano de 2013 está repleto de filmes do gênero, começando com Behind the Candelabra, Jobs e Rush, até os ainda não lançados Grace of Monaco e Diana. Lovelace é mais um deles: dirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman, é baseado na história da atriz Linda Lovelace, que protagonizou o sucesso pornográfico Garganta Profunda. Através do trabalho da figurinista Karyn Wagner, temos uma visão do período, que vai de 1972 até o final da década. Considerada uma década de excessos, com resquícios de influência da estética hippie e da contracultura e a ascensão da discoteca, muitos consideram-na um momento em que o mal gosto predominou. A verdade é que com as influências certas, muitas roupas bonitas foram marcaram o período. Wagner trabalhou com as modelagens da época e apenas evitou o excesso de cores fortes. O resultado é um figurino realista, interessante e muito bonito.
Ao começo da película Linda (Amanda Seyfried), ainda com sobrenome Boreman tinha 21 anos e morava com os pais, Dorothy (Sharon Stone) e John (Robert Patrick). Com uma vida regrada e horários controlados por eles, eventualmente saía com as amigas para se divertir. Linda é retratada como uma jovem recém-saída da adolescência e que veste roupas bastante casuais. Shorts curtos e de cintura bem alta utilizados com camisetas ou batas floridas compõem seu guarda roupa. Um destaque é o short de camurça, acompanhado de botas de cano longo que usa para dançar na pista de patinação. Também veste para sair um casaco longo de tricô com padronagem geométrica que terá significado posterior.

FIG 01

Após casar-se com Chuck Traynor (Peter Sarsgaard) ela deixa de ser a garota que era. Chuck passa a controlar suas roupas e, pelo menos em público, ela deve se vestir de forma provocante. Uma peça que se destaca é o macacão de veludo roxo, usado com uma blusa de renda branca. O veludo é considerado um tecido sofisticado e sensual, mas aqui aparece em uma peça informal. O conjunto é bastante bonito. Wagner em diversas entrevistas afirma que Linda era proibida de usar roupas íntimas sob seus vestido, como percebemos com o branco que usa na festa em que conhece Hugh Hefner (James Franco). A nudez, mesmo que não percebida, lhe conferia vulnerabilidade, deixava-a sem escudos contra a multidão ao seu redor, ainda que sempre sorrindo.

FIG 02

A fragilidade da personagem é acentuada quando descobrimos o ciclo de abusos impingidos por seu marido. Chuck batia nela e obrigou-a a se prostituir e fazer os filmes pornográficos. No filme, todas as vezes em que Linda pede ajuda, chamando atenção para a sua situação, ela volta a vestir o casaco de tricô que usava para sair quando ainda morava com os pais. Embora eles fossem controladores, a casa deles ainda era uma memória de segurança para ela.

FIG 03

As calças jeans eram do modelo boca-de-sino, extremamente justas nos quadris, com cintura alta e pernas amplas abaixo do joelho. O modelo era utilizado tanto por homens quanto por mulheres, sendo que elas geralmente a usavam com sandálias de plataforma.

FIG 04

Na moda masculina, muito menos conservadora que hoje, utilizavam-se, além das já comentadas calças justas, camisetas e camisas coloridas, blazers com lapelas amplas e ternos em cores como branco ou azul claro. No filme vemos exemplos de todos esses itens. Esse foi o único período após a Revolução Francesa em que foi permitido que a moda masculina objetificasse os homens da forma como acontecia na moda feminina. Na virada do século XVIII para o século XIX os adornos, cores e estampas foram eliminados da vestimenta masculina, por serem vistos como prova da suposta feminilidade da nobreza e foram trocados pelos ternos pretos e ascéticos da burguesia. Por um breve momento no século passado o corpo masculino volta a ser destacado, bem como os elementos acima mencionados.

FIG 05

Algumas peças de vestuário de Linda são interpretações de outras por ela utilizadas na vida real e que possuem registros fotográficos. O exemplo mais próximo ao se original é o vestido branco com babados na gola, já citado. Além dele, o próprio vestido usado em cena no Garganta Profunda é refeito, com corte bastante semelhante, mas em tons de lilás ao invés de preto e branco.

FIG 06 FIG 07

O maiô vermelho usado na sessão de fotos promocionais do filme também teve seu decote fechado trocado por um aberto, mantendo a argola na sua frente. E, por fim, o icônico vestido vermelho com bolinhas utilizado em um ensaio para a capa da revista Esquire foi remodelado, com um tom mais fechado, decote maior e golas pontudas, ao invés de redondas. O chapéu original, que hoje pode ser visto como quase infantil, foi substituído por um de abas largas, modelo que foi muito utilizado no período. Todas essas alterações feitas por Wagner visam não fazer uma transcrição literal dos acontecimentos ou da época e sim adaptá-los para a estética vigente hoje em dia, traduzindo-os numa linguagem facilmente assimilada.

FIG 08 FIG 09

Ao final, após alguns anos, quando Linda está separada de Chuck, ela é, em um primeiro momento, retratada como uma mulher que usa as roupas para se proteger e não mais ser usada por aqueles em torno dela. Formas amplas e conservadoras são utilizadas para esse fim. Reconciliada com sua própria história e já casada novamente e com filho, ao visitar seus pais para fazer as pazes, veste uma singela bata branca com estampa de flores, padronagem que não usava desde que saíra da casa deles. A blusa florida simboliza sua aceitação de volta na sociedade, agora que proclama que seu papel é “ser mãe e esposa” e atua dentro dos preceitos esperados de feminilidade tradicional. Afinal, a mesmo sociedade que consome a pornografia não pode permitir uma vida digna e sem julgamentos a suas atrizes. A roupa transmite a tranquilidade e paz de espírito que o desfecho retrata, ao mesmo tempo em que confere maturidade e um certo ar matronal à personagem.

FIG 10

Lovelace funciona muito bem como um retrato de um período, filtrado através do nosso olhar contemporâneo. Karyn Wagner nos trouxe peças de vestuário que estavam na moda acompanhadas por outras adaptadas para remeter ao período, sem precisar ser literal. Juntamente com a cenografia competente, o figurino nos transporta para a época. A inocência da juventude de Linda e sua vulnerabilidade em etapas posteriores de sua vida ficam patentes. O resultado final é uma sucessão de vestimentas marcantes e de grande beleza

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Lovelace (2013)

Assistido em 22/09/2013

O cinema de 2013 está realmente sendo marcado tanto por muitas produções de ficção científica quanto por biografias. Lovelace, dirigido por Rob Epstein e Jeffrey Friedman, é mais uma delas. Trata-se da história da atriz Linda Lovelace, conhecida pelo filme pornográfico Garganta Profunda. Inspirado em seu terceiro livro autobiográfico, Ordeal (Provação), a história começa quando Linda (ainda com sobrenome Boreman) mora com os pais, aos 21 anos. São eles Dorothy (Sharon Stone, irreconhecível) e John ( Robert Patrick). Interpretada por Amanda Seyfried, Linda é retratada como uma garota com certa inocência e leviandade. Os pais católicos, rígidos e controladores, exigiam horários fixos para suas saídas com as amigas, porque no ano anterior ela havia tido um bebê, que foi dado para adoção. Em uma dessas saídas, conhece Chuck Traynor (Peter Sarsgaard). Passado um tempo, sai de casa para ir morar com ele e casam-se.

A partir desse ponto temos uma das decisões mais interessantes do filme: mostra relação do casal apaixonado, o começo da carreira como atriz pornô de Linda e sua ascensão ao sucesso como que pelo ponto de vista de quem vê de fora. Tudo é muito bonito: o reconhecimento, as festas, os aplausos. Até que retoma os mesmos momentos mostrados anteriormente, mas dessa vez mostrando o que estava oculto ao grande público: a violência a que era submetida, os hematomas, os abusos. Foi coagida a se prostituir, estuprada, ameaçada de morte para fazer os filmes. Esse recurso faz com que primeiro criemos uma grande simpatia com a trajetória da personagem, para depois percebermos que aquele sucesso teve um preço. Por outro lado, por se tratar de um filme relativamente curto (cerca de 90 minutos), algumas cenas repetidas passam a sensação de desperdício de tempo.

Alguns recursos baratos são utilizados. Em determinada cena, Chuck é mostrado cheirando cocaína sobre uma foto do casal, sem se importar com isso. Já o design de produção é muito competente: cenografia e figurino nos transportam para a década de setenta de maneira efetiva. Os interiores das casas, com seus amarelos, marrons e verdes, estão muito bons.  Atores como James Franco, Hank Azaria e Wes Bentley fazem rápidas participações.

Amanda Seyfried está ótima em cena e talvez o problema é que seja bonita demais. Quando um produtor afirma que a indústria pornográfica não tem lugar para ela porque ela é muito “girl next door“, não pude deixar de me questionar que vizinhança é essa? A sua beleza atrapalha um pouco a suspensão de descrença, mas ainda assim, a atuação a segura.

O meu maior problema com o filme é sua superficialidade. Todo o elenco atua muito bem e os aspectos técnicos também estão bem executados, conforme mencionado. Mas ao final a pergunta “Quem foi Linda Boreman/ Traynor/ Lovelace?” permanece sem resposta. Nós presenciamos, de forma incômoda, uma sucessão de violências e abusos cometidos contra ela, mas fora a jovem divertida do começo, nada mais nos é mostrado. Toda sua trajetória como militante contra a pornografia é deixada de lado. Será que é porque a indústria pornográfica hoje é muito maior e mais forte do que era na época? Através do filme, o que vemos é a forma como Chuck a trata, mas e os envolvidos na produção de seus filmes? Ninguém sabia? A maquiadora certa hora conversa com ela enquanto cobre seus hematomas, mas e os produtores?

O desfecho do filme nos mostra uma Linda calma, casada novamente, com um filho, vestindo roupas comportadas. É interessante que a sociedade que consome a pornografia é a mesma que condena as mulheres que atuam nesses filmes. Mesmo tendo sido forçada a entrar nesse mercado, para retomar uma vida digna Linda precisou tomar para si papéis tradicionalmente femininos e afirmar na televisão que agora era “mãe e esposa”. Não sei o quanto isso a ajudou, porque a prostituição e a pornografia são vistas como máculas que nunca se apagam. Mas deixa bem claro a hipocrisia como o tema é abordado.

Linda faleceu em 2002, vítima de um acidente de carro. Seu cachê pelo filme Garganta Profunda foi 1250 dólares, que ficaram com Chuck.

Para ler o que escrevi a respeito do figurino de Lovelace, acesse o link.

Lovelace

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