A Pele de Vênus (La Vénus à la Fourrure, 2013)

Um cenário, dois atores e não muito mais que isso. Quase aos oitenta anos de idade Roman Polanski dirige um filme que é pequeno, mas não por isso pouco complexo ou interessante. A Pele de Vênus possui diversas camadas. Em 1870 Leopold Ritter von Sacher-Masoch publicou seu livro A Vênus das Peles, polêmico romance envolvendo os personagens Severin e Wanda, que deu origem ao termo masoquismo. Em 2010 o livro foi levado para um peça off-Broadway, com roteiro de David Ives. Mas não era uma adaptação comum: era a história de um diretor de teatro que pretendia encenar uma adaptação do livro. O sucesso foi tanto que ela foi transferida para a Broadway. E então Polanski decidiu adapta-la ao cinema, com roteiro escrito por ele mesmo e Ives. Partindo desse ponto temos um livro dentro de uma peça dentro de um filme.

Mas as camadas não param por aí. Na trama o diretor, chamado Thomas, é um personagem machista, que já começa a história reclamando que não consegue encontrar uma atriz que interprete sua Wanda. Segundo ele, as atrizes jovens portam-se como crianças, quando no passado já seriam casadas e com muitos filhos. Além disso metade delas seriam lésbicas e metade vadias (nesses termos). Até que uma mulher chega atrasada para audição e se apresenta com o nome de Vanda. Acontece que Vanda é interpretada pela atriz Emmanuelle Seigner, que é esposa de Polanski. Já o ator que interpreta Thomas, Mathieu Amalric, é muito parecido fisicamente com ele. Esses fatos acrescentam mais camadas de desconforto, estranhamento, estupefação e, mesmo, diversão à obra.

À primeira vista Vanda parece uma mulher sem muitos conhecimentos e um tanto quanto tola no entendimento das coisas. Mas as aparências enganam e ela veio muito mais preparada para a audição do que percebemos em um primeiro momento. Thomas concorda em ler a parte de Severin para que ela possa representar Wanda. E Vanda cresce, estabelecendo uma dinâmica de provocação baseada em um jogo de “morde a assopra” que parece querer a dominação de Thomas. Do figurino da personagem no filme e na peça dentro dele, ao seu comportamento incisivo e questionador, tudo delineia o contorno de uma postura pautada no BDSM.

Como a peça original é do século XIX, em alguns momentos situações que soam machistas e ultrapassadas surgem em cena, de maneira a deixar quem assiste com a sensação de que algo não está certo. São nessas horas que a própria Vanda tece críticas pesadas: “Essa peça é degradante e pornográfica. Uma donzela em perigo submissa!”. Mas se a Wanda da peça é percebida como submissa, na encenação da Vanda do filme e de Thomas os papéis são literalmente invertidos.

A atuação da dupla, especialmente Emmanuelle Seigner, é o ponto forte do filme, uma vez que eles só tem uns aos outros e alguns poucos elementos de cenário para se ancorar. Além disso, despido de todos os seus subterfúgios, A Pele de Vênus é, ainda, uma narrativa que parece tecer um discurso feminista. E, de qualquer forma, pensar nesse diretor que fetichiza a assertividade de sua esposa expressa através da atuação dela, em um papel em que brinca com as expectativas de um personagem que funciona como um alter ego dele mesmo, não deixa de ser uma experiência fascinante.

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Figurino: O Bebê de Rosemary

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 18/12/2013.

Dirigido por Roman Polanski, O Bebê de Rosemary é um grande clássico do terror, que trabalha com nossas percepções do entorno dos personagens para criar o suspense adequado. O filme é de 1968 e se passa entre 1965 e 1966. A figurinista Anthea Sylbert captou perfeitamente o que acontecia no momento, bem como os subtextos religiosos, para compor a protagonista.
Como mencionado no meu texto sobre New Look, em meados da década de 1960 o New Look, caracterizado por cintura marcada e saia rodada, saiu de moda e foi substituído por uma silhueta trapezoidal, em A, cuja saia encurtou ao longo do período.

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Exemplos de vestidos utilizados entre 1966 e 1968.

Para acompanhar a mudança do corte da roupa feminina, houve também uma guinada no tipo de corpo considerado ideal para portá-la. Nas últimas décadas o padrão de beleza era constituído por mulheres curvilíneas, com formas “ampulheta”, caracterizadas por busto e quadris largos e cintura fina. Agora, com a modelagem novamente solta pela primeira vez desde a década de 1920, o padrão daquele período retorna: corpos mais magros e poucas curvas. Mas enquanto aquele período buscava uma moda andrógena (dentro de certos limites) este busca, além disso, uma imagem infantilizada da mulher. Ícone da época, a modelo Twiggy, dona de grandes olhos sempre realçados, tinha 16 anos quando foi alçada à fama em 1966 e exemplifica bem esta estética.

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Twiggy, a beleza idealizada daquele momento.

O casal de protagonistas é composto por Rosemary Woodhouse (Mia Farrow) e seu marido Guy (John Cassavetes). Ele é um ator sem muitos trabalhos conhecidos e ela é dona de casa, que aspira se tornar mãe em breve. A paleta de cores dela é baseada no amarelo, com azul e marrom pontuando eventualmente. Azul e marrom também são as cores predominantes das roupas dele. O casal é jovem e busca por uma moradia. Optam por um apartamento antigo em um imóvel que teve sua planta alterada. No dia em que vão conhecer o apartamento, na abertura do filme, Rosemary utiliza um vestido totalmente branco, com luvas, bolsa e sapatos combinando. A peça marca sua inocência e certa ingenuidade.

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Quando passam a primeira noite na nova casa, Rosemary usa um vestido amarelo com estampa floral branca, que utilizará novamente em outra ocasião. Como o filme abrange um longo período de tempo, é interessante notar como as roupas das personagens se repetem. Guy está caracteristicamente de azul.

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O amarelo se repetirá no guarda-roupa dela ao longo de todo o filme.

05 Ela vai decorar a casa e costurar itens, como almofadas e cortinas. Conforme o lar vai ficando pronto, percebe-se que amarelo também domina todos os ambientes. Rosemary é essencialmente uma mulher caseira e se sente segura nessa situação, portanto, trabalha para deixar a casa alinhada consigo mesma.

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A protagonista contrasta com Terri, a vizinha que conheceu na lavanderia e que falou sobre seu passado difícil e do envolvimento com drogas. Com vestido de mangas bufantes e duas chiquinhas, parece quase uma criança, se comparada com o cabelo volumoso, brincos grandes, maquiagem e as cores fortes das roupas da outra.

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Quando Terri é encontrada morta na calçada em frente ao prédio, após um suposto suicídio, conhecemos o casal de vizinhos Minnie (Ruth Gordon) e Roman Castevet (Sidney Blackmer). Eles parecem dois velhinhos excêntricos, com seus trajes com uma profusão de cores, padronagens e acessórios. O visual é tão espalhafatoso que os torna ridículos e, por consequência, igualmente ridículas qualquer suspeitas em relação a eles. Os inconvenientes e excessivamente simpáticos vizinhos passarão a fazer parte da rotina do jovem casal.

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Na primeira vez em que Minnie e Roman convidam Guy e Rosemary para jantar no seu apartamento, esta utiliza um vestido azul-marinho com estampa floral, e com punhos e larga gola brancos, novamente garantido-lhe uma aparência bastante infantil. Voltará a utilizá-lo na cena em que recebe a notícia de que está grávida. A ligação entre as duas cenas é importante, pois é nesse jantar que Guy faz um acordo com o outro casal a respeito da esperada gravidez.

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O único momento do filme em que Rosemary não utiliza os vestidos que lhe são característicos é na noite em que faz um jantar romântico para Guy, pensando na concepção do bebê, por ser seu dia fértil. Ela veste um conjunto composto por calças amplas e camisa com gola de laço. A cor vermelha tem várias interpretações: pode remeter ao perigo que ela passa no momento, à paixão, ou, numa visão dentro do contexto religioso, ao próprio diabo. Ela desmaia após comer a sobremesa presenteada por Minnie e tem visões estranhas em que é o centro de um ritual. Ao acordar nua com o corpo todo arranhado, ouve Guy se justificar, utilizando como desculpa estupro marital. 10

Depois dessa noite, Guy, que até então permanecia sem camisa na hora de dormir, passa a usar pijamas, como se ocultasse algo da esposa, ou evitasse o contato com ela.

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Com a gravidez avançando, Rosemary definha a olhos vistos, cada vez mais magra e sempre com dor. O novo corte de cabelo, embora moderno, realça sua aparência. Transparece a fragilidade de seu estado, em que todos diretamente ao seu redor se negam a acreditar que esteja mal em virtude da gravidez. É tratada como criança, com condescendência, pelo marido e observada de perto pela vizinha. O tempo inteiro tentam podar sua agência, embora ela tente manter alguma. Não é vista como dona de si, o que ajuda a aumentar a sensação de horror e de urgência em relação a sua situação.

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Após dar à luz, ao descobrir que seu bebê está vivo, ouvindo o choro que vem do apartamento ao lado, a protagonista usa uma camisola azul clara com detalhes em branco. Novamente há uma interpretação de fundo religioso, pois a personagem supostamente engravidou de uma entidade sobrenatural, em uma concepção que não seria natural, dando a luz a uma criança prometida, esperada e especial dentro do contexto, tal qual Virgem Maria para o cristianismo e sendo essas duas as cores geralmente usadas em sua representação. Há algo de angelical na forma em que observa seu bebê. Ao final Rosemary se depara com o absurdo de sua situação, em que só ela vê o grotesco e todos ao seu redor se comportam como se tudo transcorresse dentro da normalidade, quase como uma caricatura bizarra de realidade.

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O Bebê de Rosemary não só é uma obra fantástica, como também uma que só poderia ter sido feita no período de sua realização, pouco antes do fortalecimento das lutas feministas. A fragilidade da protagonista e a falta de apoio que tem daqueles ao seu redor, bem como o tratamento que lhe confere o marido dificilmente seriam entendidos ou mesmo aceitos posteriormente. O figurino de Anthea Sybert, interpretando a moda da época (que buscava a beleza em uma imagem feminina infantilizada), ressalta sobremaneira o desamparo e fragilidade da protagonista, além de abarcar o contexto religioso da trama. A confluência do período histórico com a moda através do figurino torna o filme icônico para a estética da década de 1960.

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O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby/ 1968)

Assistido em 19/10/2013

Um clássico do gênero “terror”, O Bebê de Rosemary é (extremamente bem) dirigido por Roman Polanski. A trama gira em torno da dona de casa Rosemary (Mia Farrow), que acabou de se mudar com o marido, Guy (John Cassavetes) para um enorme apartamento que pertencia a uma velhinha, onde pretendem ter um filho. Logo eles ficam amigos dos excessivamente simpáticos vizinhos do lado, o casal Minnie (Ruth Gordon) e Roman (Sidney Blackmer). Eles passam a frequentar a casa uns dos outros e estreitar relações, mas Rosemary não gosta do seu modo invasivo.

Certa noite, após um jantar romântico em que bebeu demais, Rosemary tem sonhos estranhos que envolvem um grande grupo de pessoas ao redor dela e sexo com uma criatura assustadora que seria o próprio diabo. Ao acordar e perceber suas costas arranhadas, comenta com o marido o ocorrido. Ele ri e disse que não queria perder a oportunidade só porque ela havia dormido. Sim, no filme ninguém vê problema algum no estupro marital.

Na verdade a forma como Rosemary é tratada ajuda a aumentar a sensação de horror e de urgência diante de sua situação: ninguém se importa com ela, ninguém acredita no que fala. Guy trata-a com condescendência e fala como se o interlocutor fosse uma criança. Sua agência é podada o tempo inteiro. A não ser em breves momentos, ela não é vista como adulta dona de si.

Após aquela noite, Rosemary engravida e conforme a gestação passa, vai ficando mais magra e abatida, além de ter dores.

O filme não nos mostra nada de gore nem de violento: o suspense se constrói na temor pela segurança da personagem principal, dado a sua fragilidade, e falta de apoio. Além disso há um grande ranço misógino, mas acredito que seja proposital, para acentuar o isolamento de Rosemary. Mia Farrow, tão pequena e magrinha dentro do apartamento antigo com cômodos enormes aumenta ainda mais essa sensação. A moda desse final dos anos sessenta, com roupas infantilizadas, como seu vestidinho amarelo e branco, também ajuda nesse sentido.

Ao final Rosemary se depara com o absurdo de sua situação, em que só ela vê o grotesco e todos ao seu redor se comportam como se tudo transcorresse dentro da normalidade, quase como uma caricatura bizarra de realidade. Polanski nos desperta o desejo de ver o bebê, jamais o saciando, pois sabe que fosse qual fosse a imagem que criasse, não chegaria aos pés do que nossa mente alcança.

Fantástica construção da jornada da protagonista em uma situação fora do comum (e do real), com uma ótima direção, O Bebê de Rosemary realmente merece o status que tem entre os filmes do gênero.

Para ler minha análise do figurino de O Bebê de Rosemary, acesse aqui.

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