Tatuagem (2013)

Essa crítica foi escrita em outubro de 2017 para um módulo que ministrei do curso A Crítica de Cinema por Dentro, realizado no SESC.

Depois da abertura ruidosa em que vemos um mestre de cerimônias apresentando o grupo de teatro Chão de Estrelas, o silêncio. Fininha (Jesuita Barbosa), um dos protagonistas, aparece visualmente aprisionado entre as grades das camas de ferro do quartel onde serve, sentado enquanto seus colegas ainda dormem. A dualidade entre o caos e a ordem será uma constante em Tatuagem, que é bonito nas diversas facetas que a palavra pode expressar ao ser aplicada a um filme. Trata-se do primeiro trabalho de direção de Hilton Lacerda, que até então havia trabalhado como roteirista, função também ocupada por ele nessa produção.

O ano é 1978 e a cidade é Recife. Fininha é atormentado por seus colegas porque sempre se esquiva quando eles propõem uma escapada para um prostíbulo. O quartel é um ambiente marcado pela fisicalidade de seus soldados: as roupas são poucas e reveladoras e os corpos se tocam rotineiramente. Mas todo contato é seguido por uma demonstração de masculinidade. A heteronormatividade é uma constante e esses mesmos corpos são regrados, controlados por meio da rotina e por meio da contenção dos desejos.

 Em oposição a eles, existem os corpos livres que compõem a trupe do já citado grupo Chão de Estrelas, que alimenta a alma do povo do Recife com suas criações, que vão do teatro ao burlesco. São corpos que se despem, que se pintam, que dançam, que riem e fazem rir e que se tocam sem a necessidade de retroceder no gesto. O filme é recheado das apresentações dos artistas: números musicais, esquetes, declamações de poemas e citações de autores clássicos. Elas se aproximam do público como obras populares, rasgadas e que fogem de linguagens que poderiam ser cansativas.

Certa hora o grupo todo se muda para uma casa onde podem morar todos e ensaiar juntos para apresentações. Os ambientes internos dos locais exibidos são escuros e coloridos, flertando com o brega e o kitsch, também presentes na trilha sonora. O líder criativo do grupo é Clécio (Irandhir Santos), que conta com a amizade e apoio do ator Paulete (Rodrigo García), irmão da namorada de Fininha. É dessa forma que o homem conhece o rapaz.

O romance entre os dois é de uma troca constante. Por um lado, Fininha é mais novo, por outro, parece se entusiasmar com as novidades, enquanto Clécio se envolve de forma profunda. Em um determinado momento Fininha veste uma máscara de inseto e assim fantasiado, sua juventude parece ser destacada. Nesse momento o modo como Clécio se dirige a ele é condescendente. Mas em outra cena Fininha busca por outras experiências e Clécio se enciúma. Mas o Chão de Estrelas é o lugar onde tudo é experimentação e justamente onde os corpos não devem ser reprimidos. O jovem está vivendo uma idade pela qual Clécio já passou há anos. “Ciúme é quando o desejo vira mercadoria”, ressalta outro personagem. E assim ambos os amantes se deslocam e reposicionam dinamicamente no relacionamento.

O fato de ambos já terem se relacionado com mulheres não é comentado e não há necessidade dessa informação. É com essa leveza que a conexão entre eles é abordada. Nas cenas de sexo os corpos masculinos aparecem coreografados com sensualidade, conectados, retratados em abandono total. O sentido é de afeto, exibido nos pequenos atos, nos erros, nos perdões e no crescimento. O toque é fotografado com poesia, captando o brilho de pele na pele.

O envolvimento dos dois levanta outras questões: Fininha é acusado de ser olheiro dos militares e Deusa (Sylvia Prado), mãe do filho de Clécio, diz que não quer que o menino cresça em contato com gente que vai para a rua reprimir. Porque Tatuagem é, sim, um romance, mas também é uma obra que trata do fazer arte e do criar em meio à violência. A ditadura aparece de maneira velada: fala-se na censura, mas no Chão de Estrelas a dor da perda jamais chega de verdade. Aqui é que aparece marcada a dualidade entre a arte e o militarismo, a liberdade e as regras, expressos na oposição entre o modo de vida dos artistas e a rigidez e a truculência da força militar utilizada para extingui-la.

A narrativa contrapõe o poder transformador e a resistência da arte com a força da repressão, que não se limita aos muros do exército, mas que está presente nas ruas, nas casas, na sociedade como um todo. Fininha, no quartel, tatua um C dentro de um coração no peito. Clécio, emotivo, desmorona. Fininha vai para São Paulo e escreve que não consegue emprego como segurança. “Para quem tem tatuagem é mais difícil”.  Muito cedo ele aprendeu que a tatuagem é a marca na pele, indelével, de seu amor e que este não seria aceito, mas mesmo assim ele o levaria consigo para todo lugar.

“O Brasil o país do futuro”, declamam os artistas. “Respeitamos nossa mãe, mas amamos nossa pátria”, bradam os soldados. Nada mais contemporâneo pensar na arte sendo pautada por valores como família, pátria, moral, bons costumes, que ditam o que é aceitável e que querem definir o que é arte e o que é o belo. Justamente a beleza, essa que se considerava um paradigma superado há bem mais de um século. É como se Hilton Lacerda tivesse previsto os anos que se seguiram ao lançamento de Tatuagem. Quando os artistas, nus, dançam uma música chamada Polca do cu é difícil não refletir sobre o processo que levou, nesses quatro anos, um corpo nu a ser afrontoso e a ele ser negado o status de arte. Mas nem todos os corpos nus são afrontosos: apenas aqueles que não são obedientes nem normativos. Política e Nação intervindo na expressão artística. “Colocar os nossos cus na reta, esses são nossos únicos meios”, afirma um personagem. E talvez sejam.

Nota: 4 de 5 estrelas
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42ª Mostra de São Paulo- Maya

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 18 e 31 de outubro na cidade. 

A cineasta Mia Hansen-Løve afirmou em uma entrevista, em 2016, que “eu nunca fiz um filme que fosse literalmente sobre minha vida“. Claro, literalmente seria perceptível demais e talvez, mesmo, pouco interessante para ela mesma. Mas é fato que toma emprestado de acontecimento de sua vida e de seus familiares para compor suas obras. Eden (2014) é inspirado pelas experiências de seu irmão como DJ. O Que Está Por Vir (L’avenir, 2016) reflete o divórcio de seus pais e sua mãe, professora de filosofia como a protagonista interpretada por Isabelle Huppert, chegou mesmo a ajudar a filha com os diálogos, tornando-os mais verossímeis.

Ela também comentou que talvez o que mais empreste de sua própria história tenha sido Adeus, Primeiro Amor (Un amour de jeunesse, 2011), em que a jovem personagem principal deixa para trás seu amor de adolescência quando entra para a faculdade e se apaixona pelo professor muitos anos mais velho, que passa a compartilhar com ela da mesma carreira. Mia começou em 2009 um relacionamento com o também cineasta Olivier Assayas, quando ela tinha 28 e ele 54 anos de idade. Eles se conheceram quando ela tinha dezessete e atuou em Fin août, début septembre, dirigido por ele. Pelos motivos apontados acima talvez não seja equivocado inferir que o término do relacionamento dos dois em 2016 motivou a feitura de Maya, seu mais recente filme.

O protagonista do filme é Gabriel (Roman Kolinka), um repórter de guerra francês que, após ter sido sequestrado na Síria, possivelmente pelo Estado Islâmico, e libertado, volta para casa. Magro e debilitado, não consegue ainda ver sentido em voltar ao trabalho e o relacionamento que tinha deixou de existir. As almofadas no sofá, em cores sólidas, formam a bandeira do seu país: uma azul, uma branca e uma vermelha, lado a lado. Embora o ator não consiga expressas o stress pós-traumático que seu personagem deve vier, somos levados a entender que é  pela falta de um lugar que lhe traga sossego em Paris que resolve voltar à terra de sua infância, Goa, na Índia, país onde sua mãe reside.

É lá que, aos trinta minutos de filme, conhece Maya (Aarshi Banerjee), personagem que embora seja seu título, não tem o protagonismo. Ela tem dezoito anos e é a filha de seu padrinho, Monty (Pathy Aiyar), um rico hoteleiro do local.

A casa da infância de Gabriel ainda está em pé e, após alguns cuidados, ele volta a ocupá-la, sendo informado por Maya que mafiosos locais estão ameaçando as pessoas para conseguir terrenos para a construção de condomínios. A questão do conflito pela terra e da especulação imobiliária é colocada pelo olhar exotizante do europeu.

Mas, pior que isso, a diretora, que também é responsável pelo roteiro, consegue se dedicar ao romance que se delineia sem jamais se preocupar com toda a política que ela mesma embute na história. Por que a inclusão do Estado Islâmico se ele não é usado depois na história? Por que fazê-lo sem abordar os nacionalismos (apenas pincelados na direção de arte, como mencionado), sem pensar nas relações entre Europa e Oriente Médio ou nas políticas de Estado que perpassam o tema? Por que transportar o romance para um local duplamente colonizado, pela presença portuguesa (que jamais é mencionada, ficando subentendida pelas práticas católicas retratadas) e pelo Império Britânico? Por que mesmo assim o personagem europeu vai a esse local e não questiona sua própria presença e os conflitos que ela gera?

Não é que nenhuma dessas questões obrigatoriamente precisem ser abordadas em filmes: o ponto é que os fatores que levam a elaboração delas são colocados mas não se desenvolvem. É preciso ter uma postura muito marcadamente eurocêntrica para achar que em meio a tudo que acontece no filme, só o que existe em termos narrativos é o romance.

E o pior é que ao ignorar quase todos os marcadores de diferença entre os personagens, empobrece o que poderia ter sido, talvez, um interessante estudo de relacionamento pós-colonial. Mas Gabriel nunca é colocado enquanto estrangeiro, enquanto colonizador, enquanto aquele que torna os locais “o outro” e os vê como bárbaros. Gabriel é colocado apenas como o homem mais velho e bastante insensível no tratamento com a jovem. Idade é a única característica que é levada em conta na disparidade entre ele e Maya, provavelmente para espelhar Hansen-Løve e Assayas. Mas esse é um paralelo equivocado quando se leva em conta essas outras categorias que se interseccionam sem nunca ser postas.

Maya, a personagem, acaba reduzida a uma moça local que sabe contar histórias e ser bonita e não muito mais que isso. Ela é criada como uma manic pixie dream girl colonial, a jovem mulher que faz o homem torturado esquecer de seus problemas e seguir com sua vida, mas posicionada numa estranha relação étnico-racial e de nacionalidade que nunca é colocada em xeque. A paisagem e as locações por onde passeiam, bem como a fotografia, são realmente belas, mas não sustentam um longa metragem que parece se acovardar diante de questões maiores. E Maya, o filme, termina reduzido a uma tentativa falha de deslocar um romance para um local paradisíaco, ao esquecer que isso traz em consequências narrativas.

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42ª Mostra de São Paulo- Malila: A Flor do Adeus

Esta crítica faz parte da cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que ocorre entre 18 e 31 de outubro na cidade. 

Dois amantes separados por anos que voltam a se encontrar. Esse é o ponto de partida de Malila (Malila: The Farwell Flower, 2017), o candidato da Tailândia a uma vaga para o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar. Shane (Sukollawat Kanarot) é um homem quebrado, que foi casado com uma mulher e cuja filha morreu. Passou a beber e há muito estava afastado de Pitch (Anuchit Sapanpong), com quem agora retoma contato pois este está com um câncer terminal que não deseja tratar com medicina tradicional.

Pitch dedica seu tempo à construção de baisri, intrincados artefatos religiosos que consistem em uma estrutura escultural, confeccionada com folhas e flores. A característica do objeto é sua perenidade, que não afeta Pitch: toda aquela beleza definha, mas cumpre sua função, mais ou menos como nós mesmo, humanos.

O filme se passa em dois tempos. No primeiro deles, os amantes se reencontram e deixam o amor florescer novamente. Shane cuida de Pitch, beija suas cicatrizes e cuida de seu corpo. Corporalidade, aliás, é filmada com delicadeza e força pela diretora Anucha Boonyawatana, que despe os corpos e os coloca em contato direto, confeccionando imagens de sexo bonitas e com forte senso de intimidade.

A morte de Pitch marca a passagem para o segundo tempo do filme, em que Shane, cumprindo a promessa que fez a a ele, se inicia como monge. Novamente o corpo é colocado em questão, mas é o corpo morto. Shane encontra na mata um cadáver em decomposição e medita tentando olhar para ele, prestando atenção em cada detalhe ao ponto de nada mais importar. A mutilação genital marcada dá pistas de que aquela pode não ter sido uma morte natural, mas uma motivada pela homossexualidade. Ainda que grotesco em sua putrefação, o corpo poderia ser o de seu amante. A perenidade do corpo que um dia viveu, sentiu, amou é colocada.

Embora nem sempre nossos olhos ocidentais e pouco afeitos às práticas religiosas da Tailândia deem conta de conferir sentido a toda a poética e todo o simbolismo que perpassa o filme, traduzindo suas possíveis metáforas, Malila é inegavelmente um filme contemplativo que aborda o relacionamento entre dois homens com doçura e beleza.

Nota: 3,5 de 5 estrelas

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Nasce uma Estrela (A Star is Born, 2018)

É fácil encontrar na internet um vídeo de Stephanie Germanotta aos dezenove anos tocando piano e cantando uma música de sua autoria: os pés descalços no pedal, o cabelo naturalmente castanho, o vestido sem glamour, a voz intensa e a entrega de um talento cru, mas patente. A jovem mostra domínio sobre a arte que cria, ainda que sem os elementos de polidez que a tornam vendável. Alguns anos depois, rebatizada Lady Gaga, se tornou mais que cantora e compositora: é uma performer, uma artista que cria uma fantasia de si a cada aparição pública, arrebatando fãs nesse processo. Gaga é um combinado de aptidão, figurino, acessórios, danças, aparições marcantes e refrãos que grudam no cérebro por semanas. Mas por trás disso tudo está aquela mesma adolescente que queria expressar sua arte junto ao piano. É difícil não traçar paralelos entre sua própria trajetória e a de sua personagem, Ally, em Nasce uma Estrela.

Essa é a quarta versão da história, quinta se levarmos em consideração What Price Hollywood?, de 1932, que foi supostamente plagiado na primeira. Em 1937 Janet Gayner interpretou a aspirante a atriz que vai a Hollywood e se apaixona por um ator veterano. Em 1954 a protagonista passa a ser uma aspirante a atriz de musicais, vivida por Judy Garland, em uma das atuações mais memoráveis de sua carreira. Por fim, em 1976 o foco volta-se para o mercado fonográfico e Barbra Streisand interpreta uma aspirante a cantora. Agora é a vez de Gaga, no papel da jovem cantora que conhece o decadente astro de country rock Jackson Maine, interpretado por Bradley Cooper, que também assina o roteiro, juntamente com Eric Roth e Will Fetters, bem como estreia na direção.

A primeira metade do filme se concentra no encontro entre ambos os artistas, construindo uma relação verossímil para os dois. Maine assiste Ally cantar em um bar de drag, ela mesma montada à lá Edith Piaf, interpretando La Vie en Rose. A câmera treme enquanto gira em torno deles, registrando a emoção desse encontro e o encantamento dele pela presença de palco dela. A performance é hipnótica. Nesse momento, a participação de Willam e Shangela, duas participantes de RuPaul’s Drag Race, traz à trama para o humor camp, mas não distrai quem assiste da interação entre os protagonistas. Depois, quando os dois conversam no estacionamento, a câmera se afasta e eles são enquadrados de costas. O espectador é colocado no papel de espiar sem acesso total a esses primeiros momentos de intimidade.

O convite de Maine para que Ally suba ao palco com ele é decisivo: a aposta no seu talento, o desejo de compartilhá-lo com o restante do mundo, a emoção de um show lotado. A direção de Cooper cola a câmera no rosto de ambos. Ela não deixa respiro, não passeia para o explorar o ambiente. Com isso temos um duplo efeito: ao mesmo tempo somos confinados ao mundo do casal que se apaixona e às suas reações, especialmente as expressões faciais, mas somos excluídos da vibração da plateia que pode ser apenas ouvida. Dessa forma, a consagração de Ally enquanto figura pública perde uma parte de sua potência, mas aprofundamos nas reações da personagem. Cooper opta por essa abordagem em outros momentos do filme, preferindo focar no casal que se forma dali em diante do que nas repercussões que eles provavelmente teriam gerado em tempos de rápido compartilhamento nas redes sociais.

Muito mais consistente em seu resultado que a versão anterior da história, o filme chega, mesmo, a superar todos os anteriores em alguns aspectos. Um deles é a forma como a relação se constrói: é inevitável comprar, em meio ao carinho mútuo e ao respeito profissional, a ideia do relacionamento entre Ally e Maine. Mesmo nos piores momentos entre os dois, é o vício, e não a possível inveja pela ascensão de sua companheira, como nas versões anteriores, que o motiva. Ocorre, também, a demonstração de desconforto por parte de Maine, preocupado com a possibilidade de que ela perca sua autenticidade no processo de tornar-se famosa, uma vez que sua carreira passa a ser moldada por marqueteiros que criam uma roupagem com maior apelo popular para o produto que tinha a oferecer. Não à toa, a música que marca sua consagração, com uma participação no Saturday Night Live, é também a mais ridícula do filme, com seus versos propositalmente caricatos: “Why do you look so good in those jeans? / Why’d you come around me with an ass like that?“. É o papel oposto do ocupado por Shallow, na trama. A canção, composta em dupla, é a combinação de parceria e liberdade criativa, resultando em uma melodia que representa tanto a proximidade entre os dois quanto os talentos colocados em jogo.

As atuações aqui são sólidas: Gaga encarna doçura e naturalidade com uma entrega de uma verdadeira artista e Cooper projeta um parceiro à altura, oscilando entre o companheirismo, a culpa, o medo e a dor causada por seu vício. Sam Elliott, por fim, encarna o irmão mais velho que exerce o papel de figura paterna, preocupado e ríspido ao mesmo tempo. Por isso, seu comentário final sobre Maine é tão pesado, ao ignorar o histórico de problemas do irmão, uma pessoa que precisa de ajuda, culpando-o sem ressalvas pelos ocorridos.

Após a cuidadosa construção de um relacionamento crível, com altos e baixos, com dúvidas e certezas, com companheirismo e solidão, o filme entrega o impacto final flutuando entre luzes vermelhas e desarma totalmente o espectador. Nasce uma Estrela funciona depois de tantas versões talvez justamente por causa da familiaridade dos temas abordados: a fama só é possível com certa concessões e o amor nem sempre é capaz de superar tudo, e se mesmo assim todo artista está disposto a correr esse risco, o que temos de humano é o que faz valer a pena. Mas para além dos temas, se destaca pela soma dos talentos envolvidos, que compõe um resultado memorável.

Nota: 4 de 5 estrelas

 

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As Boas Maneiras (2017)

Publicado originalmente em 3 de novembro como parte da cobertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Juliana Rojas e Marco Dutra já há muito mostram que em se tratando de cinema de gênero, eles sabem o que estão fazendo. Os curtas já eram um indício, mas o longa Trabalhar Cansa foi a confirmação, bem como os trabalhos solo em Sinfonia da Metrópole e Quando Eu Era Vivo. Sempre mesclando o terror com outros gêneros, aqui trazem uma fábula sobre trabalho, cidade, relacionamentos e, claro, maternidade: temas que já haviam sido trabalhados em filmes anteriores.

Ana (Marjorie Estiano) é uma mulher que já passou da 20ª semana de gestação e está em busca de uma babá. Com treinamento em enfermagem, Clara (Isabél Zuaa) acaba sendo a candidata escolhida. Ao chegar para a entrevista já é alertada  para utilizar o elevador de serviço. O emprego é um em que acumula funções: precisa cozinhar e limpar enquanto a criança não nasce. Como Ana é mãe solo, também a acompanha nas consultas médicas e assim as duas descobrem que ela está com a pressão alta e deve se abster de carne até o parto.

A relação entre ambas as mulheres, encaixadas em um sistema de hierarquias étnico-racial e de classe, é complexa e complexificada ainda mais pela posição de patroa e empregada que paira entre a convivência, que obrigatoriamente traz o afeto e a intimidade e, por fim, o romance. Dado o pôster do filme, acredito não ser spoiler dizer que Ana gesta um lobisomem, embora nem ela o saiba. Clara logo percebe que algo está errado, entre o sonambulismo e o desejo por carne manifestado por Ana, e tenta minimizar os problemas acarretados por isso.

Trata-se de um filme que abarca dois filmes diferentes em si. O primeiro inclui tudo o que foi comentado até aqui e é simplesmente primoroso. A segunda metade foca em maternidade, infância, folclore e na artificialidade da vida na cidade, marcada por suas fronteiras. Aqui a realização menos regular, especialmente prejudicada pela limitação no que tange aos efeitos visuais e ao ator mirim, mas ainda assim com uma qualidade que impressiona.

Além das atuações, outros elementos que se destacam são o uso das músicas que subitamente levam a película para o campo do gênero musical (obrigada, Rojas!) e o bebezinho animatrônico, que nos conquista logo a um primeiro olhar.

Ousado, sem medo de misturar gêneros, interessante, divertido e emocionante, As Boas Maneiras é um passo à frente no amadurecimento do cinema de gênero produzido no país.

Selo "Approved Bechdel Wallace Test"

4,5 de 5 estrelas

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