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Descompensada (Trainwreck, 2015)

Descompensada é o primeiro filme do diretor Judd Apatow que não é roteirizado por ele mesmo. Dessa vez a escrita fica por conta de Amy Schumer, comediante com a qual não tive contato anterior para saber como é seu trabalho solo. Apatow, por sua vez, cria comédias com as quais não consigo ter muita identificação, então acho que não sou exatamente o seu público alvo. O resultado da união entre os dois é um filme que claramente tem dois autores. O que chama mais atenção é que apesar do roteiro ser de Schumer, a estrutura é similar a de outros trabalhos do diretor: protagonista que não quer encarar a vida adulta e que por algum dispositivo narrativo agora precisa fazer isso. A diferença é que dessa vez a personagem principal é mulher.

Amy (Amy Schumer) é jornalista e leva uma vida agitada de festas e relações casuais com homens. Ela bebe, fuma maconha e não se apega a ninguém. Um flashback mostra seu pai, Gordon (Colin Quinn) ensinando ela e a irmã mais nova, Kim (interpretada quando adulta por Brie Larson) que a monogamia é uma ilusão que não funciona, ensinamento que leva para a vida. Até que Dianna (Tilda Swinton), sua editora, lhe incumbe a tarefa de escrever uma reportagem sobre praticantes de esporte e para isso entrevistar Aaron (Bill Hader), um médico com famosa clientela composta por atletas, acompanhada da possibilidade de uma promoção.

Amy é uma personagem que, por vezes, é bastante desagradável, com atitudes que magoam as pessoas ao seu redor. Mas graças ao carisma de Schumer e ao próprio espírito espontâneo da personagem, ela funciona. O elenco, de uma forma geral, também funciona bem no coletivo. Donald, o estagiário interpretado por Ezra Miller, destoa, mas isso acontece porque suas cenas são escritas de maneira constrangedora. Já John Cena, que interpreta Steve, um interesse amoroso de Amy, tem bons momentos cômicos e a química entre ele e a protagonista funciona. As pequenas participações de LeBron James, Marisa Tomei e Daniel Radcliffe também são muito boas.  A temática da repórter que almeja escrever artigos sérios, mas precisa de uma última reportagem banal para consegui-lo já foi usada em outros filmes: sem pesquisa me veio a memória Como Perder Um Homem em 10 Dias, O Diabo Veste Prada Nunca Fui Beijada, que em maior ou menos grau se encaixam nesse padrão. Mas a reportagem não é o foco da trama aqui e a semelhança acaba se mostrando desimportante.

O maior problema do filme é a forma conservadora como os hábitos de Amy são tratados. Todos ao seu redor querem mudá-la: aparentemente beber, fazer sexo casual, não querer um relacionamento fixo e nem filhos não seriam escolhas adequadas para uma mulher. Kim chega mesmo a falar que não há nada de errado em fazer o mesmo que todos os outros. Ora, é claro que não, se justamente todos os outros concordam e aceitam essas ações. Errado, no contexto do filme, é fazer diferente e querer outras opções para si. A inversão dos papéis de gênero dentro do molde do gênero comédia-romântica é engraçadinho, mas inócuo.

No final das contas, Descompensada é uma comédia até divertida, mas funciona muito mais pelo carisma de Amy Schumer do que qualquer outro fator envolvido.

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Brooklyn (2015)

Brooklyn é uma fábula sobre migração e a busca por um lugar para si. Eilis (Saoirse Ronan) é uma jovem irlandesa de cidade pequena que, com a ajuda daqueles que a rodeiam, migra para os Estados Unidos na década de 1950 e se estabelece no Brooklyn. Padre Flood (Jim Broadbent) havia, com antecedência, conseguido uma vaga para que ela morasse na pensão da Sra. Keogh (Julie Walters) e um emprego em uma loja, sob o olhar vigilante e cuidadoso da Srta. Fortini (Jessica Parré). O filme é dirigido por John Crowley e conta com roteiro de Nick Hornby, adaptado do romance de Colm Tóibín.

No universo do filme não há conflitos entre os imigrantes e a população local, ou pelo menos eles não são o foco da trama. O que importa aqui é a sensação que Eilis tem de não fazer parte desse local e a saudade de algo que lhe fosse familiar. Esse algo começa a se delinear quando conhece Tony, (Emory Cohen) um charmoso jovem ítalo-americano que mostra a cidade a ela e a apresenta a família. Não é que ela precise de um romance para ser completa: é o companheirismo e apoio que a ajudam. O filme descortina uma Nova York bastante branca e não há espaço para explorar as diferenças. O único momento em que isso perpassa a trama é quando o irmão mais novo de Tony, Frankie (James DiGiacomo) fala sobre como não gosta de irlandeses por conta de tensões e hierarquias entre os imigrantes. A fala é logo recriminada pelos demais e a criança se cala.

Acontecimentos não previstos fazem com que Eilis precise retornar à Irlanda, onde conhece Jim Farrell (Domhnall Gleeson) Os interesses amorosos de Eilis podem ser entendidos de forma alegórica, pois representam a ligação dela com cada país e as perspectivas que lhe são oferecidas. Jim é a familiaridade de sua pátria: ao seu lado, Eilis tem a tradição, a estabilidade financeira e, para o bem ou para o mal, os velhos costumes de seu local de origem. Já Tony, que trabalha como encanador e planeja ter uma empresa de construção com seus irmãos, representa a novidade, o começar do zero e se adaptar a pessoas, empregos e costumes novos para recriar sua vida.

A trajetória da personagem é externada através do design de produção de François Séguin, que cria um mundo quase onírico, com uma paleta de cores em tons pastel que trata de estabelecer o fabulesco da trama. Os elementos de época são facilmente reconhecidos, mas a reverência com que são dispostos os distanciam do papel de retrato fiel de uma época. O figurino de Odile Dicks-Mireaux, por sua vez, diferencia três momentos da personagem, marcados também por aqueles ao seu redor: o começo na Irlanda, os Estados Unidos e o retorno ao seu país. É interessante notar como a protagonista se destaca entre os demais no momento em que se despede de sua família, já no navio.

Saoirse Ronan é uma atriz que sempre apresentou boas atuações. Já em Desejo e Reparação (2007), com apenas treze anos, roubou para si as atenções no prólogo, parte do qual participa. Aqui, compõe uma personagem doce, mas decidida e consegue gerar empatia mesmo quando questionamos suas ações. Utiliza seus olhos de forma muito expressiva. Emory Cohen se sai bem em emular um jovem Marlon Brando, o que é surpreendente, tendo em vista que poucos anos atrás interpretou de forma robótica e irritante o filho da protagonista encarnada por Debra Messing no seriado Smash. Já Domhnall Gleeson, aparece apenas no terceiro ato e está bem no papel, embora merecesse mais espaço e profundidade.

Um lar é mais que uma sensação do que algo físico. Uma casa pode ser um lar, mas é possível ter um lar sem ter uma casa. Estou na minha sexta morada em treze anos e aprendi a lidar com as mudanças: no início você leva sua vida em algumas caixas, mas com o tempo começa a perceber que não depende do conteúdo delas. Chega um momento em que você se dá conta que não tem mais raízes e no começo isso é uma constatação triste. Até que percebe que assim está livre para viver plenamente onde quer que estiver. Brooklyn é uma bela fábula, que relata de forma delicada a busca por um lugar que seja seu, que seja um lar e que traga, por fim, senso de pertencimento.

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O Duque de Burgundy (The Duke of Burgundy, 2015)

O Duque de Burgundy nos revela que em se tratando de relações humanas, o que vemos sempre pode nos enganar. Cynthia (Sidse Babett Knudsen) é uma entomologista que se dedica ao estudo de borboletas e mariposas. Evelyn (Chiara D’Anna) chega a sua casa e recebe a ordem de limpar a sala de estudos, o chão e até lavar as suas calcinhas. O que vemos parece ser uma relação abusiva entre patroa e empregada. Até que nos é revelado que Evelyn e Cynthia moram juntas e esse role playing  faz parte de seu cotidiano enquanto casal, repetindo-se dia após dia com poucas variações. Em se tratando de BDSM, a relação das duas envolve bondage leve e disciplina, mas principalmente dominação e submissão.

Mas a dinâmica dessa relação subverte nossas expectativas. A surpresa está em descobrir que é a submissa quem comanda as ações da dominadora e roteiriza seus dias, escolhendo as roupas, as falas e os comandos dela com antecedência. Isso deixa Cynthia desconfortável, porque nem sempre são práticas ou dinâmicas que a agradam.

A forma como o filme se desenrola fornece um subtexto interessante. Existe um grande foco na vida e na morte das borboletas. As fases de seu desenvolvimento podem ser entendidas como as fases do relacionamento. Cynthia afirma que há uma espécie que se enterra no solo para sair apenas quando houver calor. Evelyn deseja ser amarrada em um compartimento dentro da cama, como um casulo, para que Cynthia durma sobre ela. Nada a faria mais feliz.

Algumas cenas envolvem seminários a respeito de borboletas. A câmera passeia calmamente pelos rostos que estão impassíveis na plateia. As mulheres estão dispostas lado a lado, tão parecidas umas com as outras e sem expressão, como as borboletadas montadas em um quadro de coleção. É como se precisássemos classificar, estudar e examinar o que vemos. Mas há manequins misturados entre elas. Eles representam aquilo que engana os olhos a um primeiro olhar. Nem tudo é o que parece ser. Isso casa com as imagens se repetem constantemente, como um baú com detalhes entalhados em madeira e um copo decorado.

O universo diegético do filme é composto por uma sociedade com um recorte específico, onde só existem mulheres. Isso não é contextualizado, mas também não há necessidade. Se houvesse a presença de um homem, toda a dinâmica dos relacionamentos mudaria, acrescentando-se uma camada de relação de gênero e de poder que não convém a essa narrativa da maneira como ela foi composta.

O som possui um grande papel: não só a trilha sonora, que casa adequadamente com as cenas, mas os barulhos de insetos, utilizados de maneira a intensificar a sensação diante das cenas. A meticulosidade na maneira em que são usados é tamanha que eles são creditados com o hora dia e local onde foram capturados (e não pude deixar de me lembrar de Upstream Color). A fotografia também é linda e as cenas são enquadradas de maneira a flertar cada vez mais intensamente com o onírico e mesmo o surrealista.

Dirigido por Peter Strickland, o filme começa com um erotismo sutil e caminha lentamente para a melancolia. A relação entre Evelyn e Cinthia cresce, muda e sai do casulo. O Duque de Burgundy não se preocupa em explicar tudo, mas com grande sensibilidade nos apresenta uma relação de dominação e submissão que mescla a rotina e o constante movimento e que descortina o afeto das duas mulheres que o protagonizam, envolvendo tudo com elementos de extrema beleza.

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The Duke of Burgundy poster

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Figurino: A Colina Escarlate

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Fantasmas são reais, isso eu sei. Eu os vi toda a minha vida …

Em cartaz nos cinemas, A Colina Escarlate é um romance gótico que se disfarça de história de terror. A protagonista, uma escritora chamada Edith Cushing (Mia Wasikowska), fala sobre suas obras algo que também se estende ao filme: são histórias com fantasmas, não histórias de fantasmas, pois eles representam o passado. O diretor Guillermo del Toro confeccionou a trama entremeada de elementos visualmente marcantes. A figurinista é Kate Hawley, que já havia trabalhado com ele em seu filme anterior, Círculo de Fogo.
Edith, filha única de um homem rico, é cortejada por Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), um misterioso baronete vindo da Inglaterra. Quase nada se sabe sobre ele, mas sua situação financeira precária é percebida através de suas roupas. Isso é ressaltado pela própria Edith, que fala para seu pai que elas, embora bem cortadas, são de pelo menos uma década atrás.
A história se passa na segunda metade da década de 1890. Os trajes femininos deixavam de ter anquinhas e faziam a transição para as saias em forma de sino e os bustos volumosos que iriam caracterizar a primeira década de 1900.

Exemplos de vestidos utilizados na época.

 

As cinturas são marcadas e os ombros são destacados, o que pode ser percebido nos vestidos de Edith. Apesar disso, eles não restringem seu corpo: as camisas sempre são folgadas e os tecidos fluídos. Em um flashback, a vemos ainda criança, no enterro de sua mãe, trajada totalmente de preto, com um chapéu com uma textura rugosa na parte inferior, semelhante a um cogumelo visto por baixo. Essas rugosidades ou ranhuras são a textura que predominará nos tecidos usados em seus trajes, que também são por vezes adornados com dobras, como origamis.

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É possível ligar a personagem ao amarelo e outros tons claros. Na mesma cena de infância já mencionada, os botões frontais de seu vestidinho são de pérolas. Elas aparecem posteriormente em botões e outros detalhes, como nas mangas do vestido que utiliza para ir a um baile com Thomas. Mas não é apenas isso: o tom perolado, como do vestido citado, bem como o branco, vai dominar sua paleta de cores, garantindo sua imagem de inocência. A parte da trama que transcorre nos Estados Unidos é fotografada com uma cálida iluminação amarela. Essa é outra cor que vai marcar a personagem, nesse momento em elementos como saias e acessórios, ligando-a a sua terra.

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Para destacar o amarelo, as paredes da casa de seu pai são predominantemente vermelhas. Já as figurantes na cena do baile formam uma massa em tons acobreados e de verde e amarelo pastel, compondo um degradê que emoldura a valsa dos dois enamorados.

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A leveza dos trajes de Edith contrasta com a restrição dos trajes de Lucille Sharpe (Jessica Chastain), irmã de Thomas. Seus vestidos são justos, com corpetes marcados, gola alta e mangas longas, confeccionados em veludo ou cetim. Não há um só movimento em Lucille que seja espontâneo. Tudo precisa ser calculado e sua roupa conota isso. Ainda nos Estados Unidos, vermelho vivo e preto são as cores que utiliza. Elas transmitem um senso de morbidez e perigo adequado à personagem.

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Edith e Thomas se casam rapidamente e se mudam para a mansão dos dois irmãos, na Inglaterra. A construção é um personagem por si só, responsável por criar a atmosfera adequada para o encaminhamento da trama. A falta do telhado no saguão principal traz para dentro da casa o clima de fora, seja as folhas secas ou a neve caindo. As paredes, manchadas e predominantemente verdes destacam o vermelho que aparecerá recorrentemente. A casa foi construída sobre uma mina de argila vermelha, que no inverno vem à tona manchando a neve e conferindo o nome ao cenário: a colina escarlate.

Lucille, em casa, prioriza o uso de cores escuras. Se nos Estados Unidos vestiu preto e seu irmão também, aqui ela usa frios tons fechados de azul e novamente é acompanhada por ele. Essa estratégia trata de ligar os dois. 007

No dia de sua chegada, Edith veste um casaco longo cinza, adornado com violetas e segura uma espécie de buquê da mesma flor. Tradicionalmente a violeta e sua cor são usados como símbolo de luto. Mas por baixo do casaco, ela usa um vestido de cor amarela.

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Desse momento em diante, os trajes de Edith seguem esse padrão: o amarelo cada vez mais intenso, beirando a cor de mostarda, ligando-a a sua casa, e elementos em tons escuros de luto, que a trazem para a casa nova.

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Quando está despida, utiliza uma longa camisola branca, com mangas bufantes, de tecido vaporoso e novamente com textura enrugada. A peça destaca a fragilidade da personagem, que se torna pequena em contraste com detalhes da cenografia, como os longos corredores, os grandes cômodos e a enorme poltrona da sala. A casa por si só parece ameaçadora, pois os adornos e esculturas projetam-se como estacas das paredes ou estalactites dos tetos.

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Comparar A Colina Escarlate com outros filmes, em virtude de sua temática ou estética, não é difícil. Thomas, com seus óculos escuros, remete facilmente ao personagem título de Drácula de Bram Stocker, de Francis Ford Coppola, especialmente por também se tratar de um romance gótico.
Edith, que não deseja ser uma Jane Austen, mas sim uma Mary Shelley, nada fala sobre as irmãs Brontë, responsáveis por clássicos da literatura gótica. Mas sua própria história guarda grande semelhança com Jane Eyre, livro escrito por Charlotte Brontë. Talvez Edith não seja tão decidida quanto Jane para manter distância daquele que ama, mas o clima fantasmagórico e sobrenatural, o romance trágico e mesmo a temática da mulher louca no sótão podem, em maior ou menor grau, ter paralelos em sua história. Coincidentemente Mia Wasikowska também encarnou a última versão de Jane Eyre, de 2011, dirigida por Cary Fukunaga. Ela e Tom Hiddleston também interpretaram cunhados em outro romance com clima trágico, Amantes Eternos, de Jim Jamursch, com figurino também analisado aqui.
Por fim, é fácil ver semelhanças entre Lucille e a Sra. Denvers, governanta do filme Rebecca de Alfred Hitchcock, bem como entre as casas de ambos os filmes. E se Lucille é contida pelos seus trajes, é a partir de quando tira seu corpete e liberta o próprio corpo que deixa de restringir suas ações e dá início ao ato final.

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Apesar de todas essas possíveis comparações, a estética de A Colina Escarlate é bastante única. Del Toro demonstra todo o cuidado com a criação de ambientação que case com a atmosfera fantasmagórica que deve emanar da história. O figurino de Kate Hawley não só é adequado para a época retratada, como, através de suas formas e paleta de cores, acrescenta camadas de interpretação aos personagens principais. O perigo, o trágico, o calor do pertencimento, a fragilidade, a sintonia: todos esses elementos são externados através das roupas dos personagens, tornando A Colina Escarlate uma narrativa ainda mais interessante visualmente.

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Figurino: Anna Karenina

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira (Leon Tolstoi- Ana Karenina, parte 1, capítulo I)

Um clássico da literatura russa, o romance realista Ana Karenina, de Leon Tolstoi, já recebeu uma variedade de adaptações diferentes no cinema. A mais recente, de 2012, é dirigida por Joe Wright e tem Keira Knightley no papel principal. O livro conta com dois personagens principais que se contrapõem e se equilibram. De um lado temos Ana Arkadyevna Karenina, uma mulher urbana, casada com Alexei Karenin e apaixonada pelo conde Alexei Vronsky. Ao longo da história ela passa a viver de uma forma que a sociedade da época julgava imoral. Já Konstantin Levin, em contraponto, é um idealista, pertencente a uma família de riqueza antiga e rural, que vive com simplicidade, ceifando as lavouras junto aos camponeses, em busca de um sentido para a vida, de uma Rússia ideal e do amor de Kitty Scherbatskaya. A vida de Anna ainda é contrastada pela de seu irmão, Stepan Oblonsky, casado com Dolly (irmã de Kitty) e um infiel inveterado.
A trama começa em 1874. Em se tratando do figurino, apesar da obra original contar com vastas descrições das vestimentas, elas não foram utilizadas de forma literal. A figurinista, Jacqueline Durran, misturou referências da moda da década de 70 do século XIX, com suas saias estreitas e anquinhas volumosas; com a alta costura, especialmente derivada do New Look criado pela Maison Dior, da década de 1950, que primava por cinturas estreitas e marcadas com uso de corpete e saias rodadas. Essa discrepância entre as silhuetas é utilizada para marcar os diferentes papéis sociais das personagens.

Exemplo da moda da década de 1870.

Exemplo da moda da década de 1870.

 

New Look, de Dior, caracterizado por saias amplas e cintura marcada.

New Look, de Dior, caracterizado por saias amplas e cintura marcada.

A Anna do filme, por exemplo, faz uso de vestidos que se aproximam muito mais da representação de 1950 do que de 1870. As saias rodadas, as alças estreitas e caindo pelos ombros, as formas assimétricas e os drapeados que parecem se desmanchar organicamente marcam uma modernidade que a colocam como uma mulher à frente de seu tempo, ainda que com elementos que a localizem no período da história.
Os dois homens de sua vida não poderiam ser mais distintos. O marido, Karenin, veste trajes com corte simples e poucos detalhes. Seu poder não precisa de signos para se externar e sua frieza fica patente na falta de detalhes. 003

Já Vronsky, jovem e vaidoso, utiliza roupas de inspiração militar (a carreira que segue), com abotoamento duplo e ombros largos, em azul ou branco.

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Outras personagens também são chave para a trajetória de Anna. A primeira delas é a Princesa Betsy, que, segundo o livro, sempre se veste com o maior rigor da moda. Ela intermedia os primeiros encontros entre Anna e Vronsky e seu comportamento liberal em relação aos romances é marcado nos trajes. Se Anna é um misto entre os dois períodos utilizados como inspiração, Betsy foge de qualquer rigor de um retrato época, com roupas vistosas que poderiam ter saído da alta costura contemporânea.

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Em oposição, a bondosa Dolly, cunhada de Anna, representa o mais próximo a uma representação realista do período. Seu comportamento se rende às convenções, permanecendo ao lado de seu marido infiel, por mais que isso lhe traga sofrimento. À adequação à sociedade é manifestada em sua silhueta convencional.

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Em fases diversas de sua vida, Anna vai utilizar trajes em tons frios de azul e roxo. Essa seria sua paleta de cores padrão, que será quebrada nos momentos certos, marcando as mudanças na vida da personagem.

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Esta [Ana] não estava vestida de lilás, como tanto teria desejado Kitty. Um toilette de veludo preto, muito decotada, desnudava-lhe os ombros esculturais, que lembravam velho marfim, assim como o colo e os braços roliços, de pulsos finos. Rendas de Veneza guarneciam-lhe o vestido. […] Kitty, fascinada, todos os dias, em imaginação, via Ana vestida de lilás. Mas só agora, ao vê-la de preto, percebia que não apreendera todo seu encanto. Via-a sob um aspecto novo e inesperado. Agora compreendia que o lilás não lhe ficasse bem. O seu grande encanto resultava precisamente desse relevo de sua personalidade. O que vestia passava despercebido. Enquanto um vestido lilás a teria exibido, este, ao contrário, não obstante as suntuosas rendas, era apenas uma moldura discreta que lhe punha em evidência a inata elegância, o encanto, a perfeita naturalidade.
(Leon Tolstoi- Ana Karenina, parte 1, capítulo XXII)

O primeiro momento de impacto em sua vida foi quando aceitou o convite para o baile em que Kitty foi apresentada a sociedade. Todas as jovens em cena vestem-se em tons pastel, mas Anna está de preto, como no relato do livro, embora também seja. Essa peça marca o momento em que conhece Vronsky e se apaixona, marcando seu destino. Ela é construída com a modernidade já citada, repleta de detalhes assimétricos que refletem o estado de espírito da personagem, daí em diante atormentada e sempre torta em relação à sua própria vida. O vestido passa a sensação de que vai cair, tal a fragilidade das alças que o prendem aos ombros e a maneira com o tecido flui organicamente em sua construção. Após dançar com Vronsky, Anna vê sua própria tragédia refletida em um espelho. O filme constantemente nos chama atenção para o desfecho que está por vir.

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Sua segunda grande decisão foi comparecer à festa na casa da Princesa Betsy, onde Vronsky também estaria presente. Seu vestido, em um tom fechado de vermelho, tem o corte similar ao preto, mas parece estar se desmanchando ainda mais. As alças mal param nos ombros e mesmo a anquinha é assimétrica, adquirindo o formato de um tecido amarrado à sua cintura. Nesse momento Anna toma conscientemente a decisão de se deixar levar pelo amor e começar um relacionamento com Vronsky.

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E se azul e branco são as cores de Vronsky é interessante notar que na sequência da corrida de cavalos, em que ele é o centro das atenções, todos os presentes se vestem nessas cores, o que ajuda, também, a destacar Anna, ainda utilizando em público o azul escuro de seu casamento. Nesse momento ela deixa transparecer aos demais membros da sociedade sua ligação com ele.

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Daí em diante, suas roupas serão predominantemente brancas, com exceção do período em que volta aos cuidados de Karenin e, portanto, ao azul. Mas esse branco vai ter sentidos diversos e até mesmo irônicos, marcando fases distintas em sua vivência. À princípio é a cor de uma visão primaveril de amor concretizado, onde tudo vai dar certo e a entrega é total. Passa a ser o branco de uma mulher que se vê casada, mas que não é aceita como tal pela sociedade. Por fim, é a cor da loucura de Anna, confinada em casa, privada de seu círculo de relações sociais, corroída pelo ciúme e tendo como único espelho Vronsky, seu amor, que também se veste branco. Anna se apequena e sua expressão corporal é de quem quer fugir desse lugar e de si.

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Mas a narrativa da personagem principal não é feita apenas através de seus vestidos: os acessórios também ajudam a construir sua imagem. A começar pelas joias, todas de marca Chanel, que são visivelmente contemporâneas, como uma estética que diverge do que seria esperado para então. O destaque é o colar com camélias, símbolo da marca, utilizado em mais de uma ocasião.

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Outro elemento importante são seus trajes íntimos, que refletem o estado de espírito da personagem, aquilo que não se vê pela aparência exterior. Logo em uma das primeiras cenas do filme, Anna é vestida com o auxílio de uma criada. Camisa, corpete, meias, calçolas, crinolina com anquinha (no chão) e anágua (em um manequim) são todos brancos, em meio a um quarto em um azul claro de calmaria. Anna ainda não havia se dado conta do marasmo que compunha seu casamento e vivia seus dias placidamente. Já ao final, perturbada por pensamentos destrutivos e moralmente condenada por suas ações pela sociedade, como mulher caída, utiliza corpete amarelo com detalhes em vermelho, mesma cor da crinolina. A combinação grita desconforto visual, especialmente contrastando com as paredes em azul intenso de seu quarto com Vronsky, que demonstram o estado conturbado de seu relacionamento.

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Mas o mais interessante dentre os acessórios é o véu. Em uma sociedade em que tudo é farsesco e as pessoas vivem de aparências, nada mais razoável que o uso de véu ocultando os verdadeiros sentimentos. Anna, com véus cada vez mais espessos, não permite que os demais a conheçam por inteiro. É significativo do que o momento em que chega em casa e chora ao lado de seu filho dormindo, sem remover o véu, mostrando que nem em um ambiente íntimo ela está livre de suas máscaras.

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Levin, o contraponto de Anna na história, veste-se de uma maneira que o aproxima a uma visão folclórica da Rússia. Ele quer se afastar da sociedade urbana e por isso apenas em raras ocasiões se veste de maneira adequada a ela. Na maior parte do tempo utiliza roupas que o aproximam aos camponeses.

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Embora o vestido, o penteado e os demais preparativos para o baile lhe tivessem custado muitos esforços, o certo é que Kitty entrava agora no salão de baile tão natural e simples, no seu complicado vestido de tule sobre um forro cor-de-rosa, como se todas quelas rosinhas e rendas, todos aqueles enfeites não lhe tivessem custado, e aos seus, um minuto de atenção. Dir-se-ia ter nascido assim mesmo, já com aquele vestido de tule e aquele penteado alto coroado por uma rosa com duas folhas.
(Leon Tolstoi- Ana Karenina, parte 1, capítulo XXII)

Já Kitty, como boa mocinha da sociedade e interesse romântico do jovem idealista, se veste de branco com detalhes em rosa esmaecido. As cores claras dizem respeito ao seu caráter. Kitty jamais deixou as regras do mundo ao seu redor contaminarem seu coração e mesmo quando as desafia, o faz por bondade e não por egoísmo.

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Duas criadas que passavam, voltaram-se para lhe admirar o porte e disseram qualquer coisa uma para a outra em voz alta a respeito do seu vestido: “são verdadeiras”, disse uma delas, referindo-se às rendas. Os rapazolas não a deixavam em paz. Passaram por ela e voltaram a olha-la com descaro, gritando e rindo em voz de falsete (parte 7 Cap XXXI).

Durante as ações finais de Anna, ela volta a usar um vestido vermelho e um véu. Anna já não consegue suportar o peso do julgamento e do escárnio alheio. Novamente a cor vai marcar suas decisões de grande peso emocional. Se antes foi a decisão consciente de embarcar em uma relação extraconjugal, agora demonstra a turbulência de emoções provocadas por ciúmes, desespero e solidão, antecipando seu final trágico.

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Anna Karenina é um romance absolutamente cínico nos seus comentários à sociedade russa e infelizmente parte disso se perde na adaptação de Joe Wright. Ainda assim, o uso de uma estética teatral das ações que ocorrem na cidade, em oposição à naturalidade do campo, pontua adequadamente essa crítica presente no livro. O filme é esteticamente belo, como quase todos os trabalhos de Joe Wright. O figurino de Jacqueline Durran (que já havia trabalhado com o Diretor em Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação) é essencial para a percepção que a plateia tem deste vasto universo de personagens.

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