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Figurino: Carol

Muitas vezes, nesse espaço, coloquei ênfase no uso de cores vinculado às trajetórias dos personagens e em como a mudança delas pode marcar momentos importantes da trama. (Cito como exemplo alguns dos textos que mais gostei de fazer: Precisamos Falar Sobre o Kevin , Segredos de Sangue e Drácula de Bram Stoker). É comum que filmes em cores sejam entendidos como representações realistas, pura e simplesmente, uma vez que o meio ao nosso redor também é colorido. Mas nem sempre isso é verdade, porque as cores dispostas em cena são escolhas deliberadas, para servir à narrativa, criar atmosfera ou destacar elementos específicos. O que vemos na película pode não ter um equivalente no mundo real.

Em Carol, filme dirigido por Todd Haynes, baseado no romance de Patricia Highsmith e roteirizado por Phyllis Nagy, fica clara a decisão de retratar a história como um conto natalino. A personagem-título é uma dona de casa com boa situação financeira que está se divorciando do marido e Therese, por quem ela se apaixona, é vendedora e fotógrafa nas horas vagas. Uma boa parte dos acontecimentos ocorrem pouco antes do Natal no ano de 1952, até pouco depois do Ano Novo. A narrativa se encerra alguns meses depois. A paleta de cores em tons terrosos é contida, suave e pontuada por tons de verde e vermelho aqui e acolá, como a época de festividades pede. A fotografia é granulosa e esverdeada.

O figurino (e a direção de arte como um todo) vão muito além da escolha de cores a serem dispostas quando se trata de compor os personagens. Tomemos a sequência em que Therese (Rooney Mara) e Carol (Cate Blanchet) se vêm pela primeira vez. Rooney trabalha como balconista em uma loja de departamentos. O balcão é a materialização das diferenças entre elas: cada uma de um lado, separadas por marcadores sociais. Therese veste uma camiseta de manga comprida e gola alta sem detalhes e de tecido simples, sob um vestido escuro e o gorro de natal obrigatório para uso das funcionárias, compondo uma aparência comum, ordinária. Nenhum acessório, apenas um pequeno relógio de pulso. Quando ela avista Carol, fica hipnotizada por sua presença, mesmo do outro lado do salão. A figura se veste com um casaco de peles de aparência macia, usa chapéu, echarpe e unhas na mesma cor e brincos, colar e anéis de ouro, além de uma luva de couro. O resultado final do conjunto é uma elegância sóbria, clássica. Esses poucos segundos de oposição entre as duas personagens são o suficiente para informar o espectador a respeito das diferenças de classe social e de idade entre as duas protagonistas, sem a necessidade de maiores explicações.

Carol Todd Haynes Cate Blanchet Rooney Mara

A figurinista do filme é Sandy Powell, cujos trabalhos em Velvet Goldmine (também dirigido por Haynes) e Cinderela já foram abordados aqui no blog. Seu figurino ajuda a construir Carol como uma mulher madura, decidida e sem floreios. Embora a trama se passe na década de 50, ela não usa saias rodadas, optando por cortes retos e junto ao corpo. Além de cores neutras, como bege e cinza, tons de vermelho pontuam o figurino, quase sempre composto de tecidos lisos.

Carol Todd Haynes Cate Blanchet Rooney Mara red

Em determinado momento do filme, em uma festa de amigos, a simplicidade da linha dos trajes de Carol contrasta com os de sua amiga, extremamente adornados.

Carol Todd Haynes Cate Blanchet Rooney Mara piano

Já o figurino de Therese destaca sua trajetória de crescimento. A estampa xadrez, a boina listrada, o seu casaco volumoso com capuz: todos os trajes do começo da história remetem a roupas de colegial, ressaltando a juventude da personagem, mas também sua situação profissional, uma vez que, após a escola, não se estabeleceu em um emprego que lhe exigisse um vestuário mais maduro. Quando Therese vai à casa de Carol pela primeira vez, sua roupa tem os mesmos padrões e cores do que as usadas pela filha desta, novamente realçando sua juventude, em contraste com a elegância de Carol.

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O uso de verde nas roupas de Therese torna-se ainda mais interessante quando percebemos ser a mesma cor utilizada por Abby (Sarah Paulson) amiga de Carol com quem esta teve um relacionamento no passado. Abby cuida de Carol e de certa forma também cuida de Therese, uma vez que ela ocupa agora o lugar de afeto na vida de Carol. A cor aproxima ambas, conectando-as a ela.

Carol Todd Haynes Cate Blanchet Rooney Mara Sarah Paulson

A conexão se estabelece também pelo fato de verde e vermelho serem cores complementares, ou seja, cores que visualmente se harmonizam em sua oposição. Quando Carol conhece o apartamento de Therese fica clara essa relação, não só nas cores, mas no posicionamento das atrizes.

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Essa combinação de cores vai se inverter no primeiro momento em que as duas saem em viagem juntas, Therese em vermelho e Carol em verde.

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Além disso, o verde aparece marcadamente pelos lugares onde passam. Não é à toa que quando Therese retorna para seu apartamento, a cor é reforçada em suas paredes.

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Na cena de abertura, que cronologicamente é uma das últimas, ambas têm um breve encontro como em Desencanto (1945), de David Lean. Desde a última vez que se viram, Therese se estabeleceu como fotógrafa de um jornal e sua mudança profissional já transparece em suas roupas. Agora ela já usa brincos, ainda que discretos e suas roupas estão mais elegantes. Rooney Mara emula a sofisticação sem esforços de Audrey Hepburn com precisão.

Carol Todd Haynes Cate Blanchet Rooney Mara

Mais uma vez trabalhando juntos, Todd Haynes e Sandy Powell constroem um mundo que exibe o período retratado, realçando os elementos narrativos e a trajetória das personagens. O resultado é um filme elegante e esteticamente prazeroso, que encanta pela delicadeza com que aborda o romance entre as duas mulheres, digna do new queer cinema de Haynes.

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Ela (Her/ 2013)

Dirigido por Spike Jonze, Ela é uma ficção científica futurista extremamente crível em seus detalhes, se pensarmos em como é  nosso presente e como é a tendência de caminharmos como humanidade.

Em um futuro não tão distante, Theodore (Joaquin Phoenix) está atravessando um processo de luto pelo término de seu casamento com Catherine (Rooney Mara). Isola-se de seus amigos e dedica-se ao seu trabalho, como escritor-fantasma de cartas. Esse fato é extremamente importante para a história: as pessoas tem tanta dificuldade em lidar de forma honesta com suas emoções, que enviam fotos e alguns dados para um empresa, que possui escritores para redigir cartas e cartões por elas, sendo esses impressos em suas próprias caligrafias. É a total terceirização da emoção. Theodore, uma contradição ambulante, não consegue lidar com seus próprios sentimentos de maneira madura, mas elabora textos lindos a respeito de pessoas que jamais conheceu.

As pessoas organizam sua vida através de Sistemas Operacionais que atuam de maneira integrada no celular e nos computadores por onde passam, com interação via voz através de um fone de ouvido intra-auricular. Isolam-se e andam pelo mundo falando consigo mesmas. Tudo isso é perfeitamente crível com o nível de tecnologia que temos hoje. Então é lançado um sistema operacional com inteligência artificial, que aprende com suas próprias experiências e se molda às necessidades de quem o possuir. Theodore compra um e ao instalá-lo opta por utilizar voz feminina: e assim Samantha (Scarlett Johansson) entra em sua vida.

Logo na primeira noite de seu funcionamento, Theodore fala a ela “você me conhece tão bem!”. Nada mais fácil, afinal, por mais realista que possa parecer a interação, ainda é o cálculo de uma inteligência artificial. É mais fácil gostar de uma voz afetuosa e tecnicamente infalível do que de pessoas reais, com as quais você tem que conviver com os erros e suas consequências. Aceitar os erros alheio demanda maturidade que essas pessoas do futuro não estão dispostas a ter. Querem o afago, o apoio, a companhia perfeita, sem ressalvas. Seria apenas no futuro? É piegas, mas é bom lembrar que precisamos do calor e do contato humano.

O design de produção é inteligentíssimo: nada no futuro é muito diferente de agora. As roupas, ao invés de serem espalhafatosas e exóticas, remetem a um passado recente (a década de 1930, com suas cinturas altas), apelando para a ideia de que a moda é sempre cíclica. Acessórios são escassos, golas nas camisas são inexistentes ou muito pequenas, todos os excessos são retirados. Os cenários seguem a mesma visão de minimalismo e ao mesmo tempo familiaridade. Visualmente tudo funciona muito bem e é muito bonito.

Joaquin Phoenix entrega uma atuação memorável, cheia de camadas e de fragilidade. Scarlett Johansson se sai melhor que sua média. Amy Adams, que interpreta uma amiga de Theodore, chamada Amy, está absolutamente adorável.

Confesso que esperava mais emocionalmente do filme. Um lado ruim das expectativas criadas. Mas em uma temporada de premiações com tantos filmes medianos, sem dúvidas este será um dos poucos lembrados daqui há uns anos. As questões por ele levantadas chegam a ser contemporâneas e não as vejo perdendo força nos próximos anos. É uma obra de delicada beleza e sensibilidade.

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Terapia de Risco (Side Effects/ 2013)

Assistido em 31/07/2013

Que dizer? Não, Soderbergh, não! Você já ganhou um Oscar (sem entrar em mérito se foi justo ou não…), como pôde fazer um filme assim?

No início a trama parece interessante: Emily (Rooney Mara) apresenta comportamentos depressivos que se intensificam após seu marido Martin (Channing Tatum) sair da prisão. Após uma tentativa de suicídio, ela é tratada no hospital pelo psiquiatra Jonathan Banks (Jude Law), que se preocupa excessivamente com ela. Aí começam os clichês: Banks passa a deixar esposa e filhos em segundo plano por causa de Emily. Ele pede ajuda a outra psiquiatra que a tratou no passado, a doutora Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones). Siebert usa óculos de aros grossos pretos direto daqueles filmes de comédia romântica em que a protagonista tira os óculos e solta os cabelos e magicamente está bonita. Nesse ponto da trama, Emily já está tomando remédios que estão em fase de estudo e que trazem espantosos efeitos colaterais. E o que começou prendendo a atenção, degringola em reviravolta atrás de reviravolta, como que querendo dizer “peguei você!” para o expectador. Tudo isso para no final nos depararmos com um plano mirabolante por trás de tudo e uma solução ainda mais clichê e pior, preconceituosa. Não, Soderbergh. Não.

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Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (Män som hatar kvinnor/ 2009 e The Girl with the Dragon Tattoo/ 2011)

Assistidos em: 07 e 08/03/2013

Eu ganhei o livro Os Homens Que Não Amavam as Mulheres no ano passado, do podcast do Cinema em Cena, e resolvi só ver suas versões cinematográficas após lê-lo, coisa que vinha adiando até agora. Primeiro livro da trilogia de sucesso do escritor sueco Stieg Larsson, ele demora para engrenar, introduzindo lentamente os personagens, e a história só começa efetivamente após a página 150!

Os protagonistas são Lisbeth Salander, uma hacker extremamente competente, com dificuldades de sociabilização e um visual que chama atenção por seus piercings e tatuagens e Mikael Blomkvist, um jornalista econômico que foi condenado à uma pequena pena na prisão por acusar um grande empresário sem provas. Lisbeth é contratada por Henrik Vanger, um industrial milionário, para investigar a vida pessoal de Blomkvist e após isso ele mesmo é contratado por um ano com a desculpa de escrever a biografia de Enrik, mas na verdade para investigar o desaparecimento e possível assassinato de sua sobrinha-neta, Harriet, cerca de quarenta anos antes. Para isso ele passa a morar na ilha dos Vanger e pesquisar todos os seus problemas e esquisitices, contando, posteriormente, com auxílio da própria Lisbeth na investigação.

Muito do que me prendeu ao livro e que me faria hipoteticamente ler as continuações, diz respeito à Lisbeth, que é uma personagem fascinante. Ela não é uma personagem fácil: é calada, não lida bem com contato de outras pessoas e fala-se sempre em seu passado problemático. Mas é compreensível, já que na narrativa vemos a pessoa mais próxima de ser uma amigo pra ela, seu tutor, sofrer um ataque cardíaco e ficar incapacitado; na sequência é estuprada pelo novo tutor e sua mãe mora em um casa de repouso e mal a reconhece. Ou seja, ela não exatamente passa por momentos fáceis. Já Blomkvist é o cara boa pinta, competente, que arruma amantes facilmente. Passada a lenta parte inicial do livro, ele se torna interessante, com uma investigação estilo “Agatha Christie”, com direito a mapa, árvore genealógica e tudo o mais. Mas conforme vamos chegando ao final (e o livro tem vários! Ocupam mais de 100 páginas!) percebe-se que a trama de mistério é muito superficial. A história também fala bastante sobre a violência contra as mulheres na Suécia, sendo que em cada início de capítulo algumas estatísticas a esse respeito são citadas. Isso porque não são apenas Lisbeth e Harriet que sofrem violência. O livro é permeado desse tipo de violência de uma forma que tenta ser um manifesto-denúncia, mas em alguns momentos acaba apenas ressaltando o elemento com excesso de descrições. Até entendo que o autor possa querer ressaltar a sensação de desconforto ao se dedicar à descrição dessas cenas, mas acaba que são os momentos de maior destaque (e incômodo) do livro.

Em alguns momentos a escrita do livro é muito ruim, especialmente no início. Os personagens falam de maneira robótica e geralmente relatando um para o outro coisas que eles deveriam saber, deixando claro que isso é apenas um estratagema para informar o próprio leitor. Nessas horas falta um narrador mais eficiente. Cheguei a pensar, a princípio, que se tratava de problema de tradução, já que a edição brasileira é traduzida do inglês, não diretamente do sueco. Mas embora existam termos que visivelmente foram traduzidos de forma equivocada (equipamentos eletrônicos “espertos”, ao invés de “inteligentes”- de smart), é a prosa que é pobre mesmo.  E por falar em tradução, é interessante que o título original significa “Os Homens Que Odiavam as Mulheres”, o título brasileiro atenuou para “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” e o americano fugiu totalmente do tema ao focar em Lisbeth, “A Garota Com a Tatuagem de Dragão”.

Sobre os filmes, existe uma versão de sueca de 2009 e uma americana de 2011. É interessante notar a diferença de orçamentos, já que a sueca custou apenas cerca de 13 milhões de dólares enquanto a americana custou 90 milhões de dólares. Não acho que nenhum deles seja melhor que o outro: realmente são adaptações diferentes, com pequenas alterações em relação ao livro, mas visões  próprias. Como história, a versão americana, que também foi rodada na Suécia, foi muito melhor adaptada. Eles incorporaram mais elementos do livro e a trama ficou mais fluida e fácil de entender. A direção também é muito boa e confesso que eu gostei muito dos créditos iniciais, que remetem a um 007 mais dark (o que é conveniente, já que quem interpreta Blomkvist é Daniel Craig). Considerando as partes que cada um incluiu e excluiu, ambos se complementam. Mas mesmo assim gostei mais do sueco por um motivo: Lisbeth. A personagem é sem dúvida o que há de mais interessante na história e o que mais ajuda a criar empatia. Na versão sueca ela é interpretada de forma multifacetada e com uma certa fragilidade por Noomi Rapace, o que a humaniza da maneira como a percebi no livro. Já na versão americana, Rooney Mara acentua um jeito inexpressivo e durão da personagem, tornando-a fria e distante demais e excluindo outras características. Até o visual da Lisbeth americana é mais extremo, com ela mais magra e com mais piercings. E essa frieza da personagem não consegue nem quebrar um dos finais do livro que foi incluído apenas na versão americana, em que ela pensa em fazer um gesto de demonstração de carinho, mas desiste. Em resumo, o livro e os filmes tem alguns pontos negativos, mas são muito bons. Ainda não sei dizer se pretendo seguir com a série.

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