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Dois Anos de “Vestindo o Filme”

Mais ano ano passou voando e a coluna Vestindo o Filme, que escrevo para o Cinema em Cena, completa seu segundo aniversário hoje, dia 8 de julho de 2015. Ao longo desse segundo ano, foram dezoito textos escritos, contendo análises de trinta e dois filmes (contra vinte e cinco textos e quarenta e um filmes durante o primeiro ano). Houve uma diminuição no ritmo motivada pelo meu mestrado, mas vou continuar escrevendo conforme a possibilidade.

Para comemorar, vou novamente escolher os dez textos que mais gostei de escrever. Como no ano passado, não são necessariamente aqueles que tiveram os melhores comentários, mas os que o processo de escrita foi mais divertido ou interessante. A escolha é subjetiva. A ordem deles é cronológica, pois sou incapaz de ranqueá-los. Eis os meus preferidos:

Silêncio dos Inocentes e Hannibal

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Atendendo ao pedido de um leitor, revi boa parte dos filmes que contam com Hannibal Lecter em seus personagens e escolhi dois para escrever a respeito. Foi muito bom me colocar novamente nessas histórias e perceber o quão mais ricas elas eram do que a percepção que eu tinha quando era mais nova. Dos figurinos, passando pelas composições de cenas, ao uso de closes, tudo funciona, especialmente no primeiro filme.

Drácula de Bram Stocker 

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Sou apaixonada por esse filme e sua estética. Elementos teatrais, utilizados devido ao baixo orçamento, o gótico vitoriano aliado a influências orientais: tudo funciona para que seja uma obra única. Claro que o talento da figurinista Eiko Ishioka é indispensável para que assim seja.

… E o Vento Levou

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O eterno clássico, que conta a história da mimada belle do sul Scarlett O’Hara sobrevivendo à penúria e relações turbulentas, conta com vestidos memoráveis desenhados por Walter Plunkett. Mesmo quem nunca o viu facilmente conhecerá o famoso vestido de cortina. Com uma ligação a essas roupas que vem da infância, foi um prazer escrever sobre o filme.

Amadeus

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Cores! Excentricidade! Estampas! Nada como uma pitada de glam, aliada ao rococó da corte vienense do século XVII. O protagonista do filme, Mozart, é apresentado como um homem genial, de pendores artísticos e com gostos vistosos, e aqui cabe a mistura entre referências históricas e anacrônicas, compondo um grande filme, sem jamais perder o senso de humor.

Yuppies e feminismo no cinema dos anos 80

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Falar de feminismo é sempre bom e necessário, ainda que às vezes ele seja vendido em uma forma mais branda pela indústria. Isso aconteceu com frequência nos anos 80 e escolhi dois filmes do tipo para analisar. De qualquer forma, eles possuem roupas que marcaram época. Destaque para o figurino e maquiagem de Joan Cusack, que quase merecia um texto só para ela.

Oldboy

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O uso de cor tem papel essencial nesse filme coreano e o figurino de Sang-gyeong Jo é capaz de criar camadas e simbolismos impressionantes.

Dublê de Anjo

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Eiko Ishioka ataca novamente. Sim, ela realizou poucos trabalhos no cinema, infelizmente, mas todos são de uma beleza intricada. Seu figurino, aliado ao visual fantástico, beirando o surrealista, do diretor Tarsem Singh, compõe uma estética que casa perfeitamente com o tom da narrativa. Há muitas críticas à respeito do roteiro desse filme, mas, problemas à parte, assisti-lo é uma experiência visual das mais prazerosas.

Precisamos Falar Sobre o Kevin

Redes sociais

O padrão estético vai muito além do figurino criado por Catherine George, embora ele tenha papel importante. Talvez os motivos visuais presentes no filme possam ser considerados muito pesados ou muito óbvios. Ainda assim, são padrões interessantes, que ampliam sensações na hora de assisti-lo. E tem Tilda Swinton.

Amantes Eternos

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Como Tilda Swinton nunca é demais na vida de ninguém, mais um filme incrível estrelado por ela. Nele, a figurinista Bina Daigeler experimenta com conceitos de ocidental e oriental, novo e antigo, criando identidades para esses seres que se amam há tantos séculos.

Anna Karenina

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A figurinista Jacqueline Durran é uma das minhas preferidas entre os profissionais contemporâneos. Transitando com tranquilidade entre períodos, ela domina como poucos o uso de cores e formas. Dentro de um contexto de teatralidade específico, construiu a imagem de Anna, uma mulher que está desmoronando em meio a sociedade conservadora. Anna Karenina, apesar do moralismo de Tolstoi em alguns aspectos, é um de meus livros preferidos e foi divertido buscar nele referências sobre os trajes e as reações que eles despertam. Acho que esse foi o texto que deu mais trabalho em dois anos de coluna, mas o resultado final me deixou bastante feliz.

É isso! Espero que venham mais alguns anos de textos para escrever pela frente. Obrigada a todos que tem lido e acompanhado tanto este blog quanto a coluna Vestindo o Filme.

 

 

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Figurino: Oldboy- Uso simbólico de cores

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 10/12/2014.

“Apesar de não ser mais que um monstro não tenho, também, direito de viver?”

Um jovem clássico do cinema coreano, Oldboy, dirigido por Chan-wook Park, possui o visual marcante e com elementos estrategicamente controlados característico do diretor. O figurino fica a cargo da então estreante Sang-gyeong Jo, e essa parceria se repetiu em duas obras posteriores: Lady Vingança e Sede de Sangue. O uso de cores no filme é feito de forma estilizada e esquemática. Assim como em Segredos de Sangue (cuja análise pode ser lida aqui), as cores são utilizadas de forma marcadamente simbólica, não apenas no figurino, mas nos cenários e objetos que os compõem, criando uma atmosfera artificial que nos faz facilmente perceber o que o autor quer que seja lido na narrativa.
Logo na sequência de abertura vemos o protagonista, Oh Dae-su (Min-sik Choi) no topo de um prédio segurando pela gravata um homem que tenta se matar. Tanto a gravata quanto a camisa são em tons de roxo. A cor tem relação com uma pessoa chave do passado, o que é indicado pela própria cena através de uma referência visual explícita, como ficará claro mais para frente.
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Ela volta a se repetir na sobrinha abandonada após o sumiço de Oh Dae-su, ainda nos créditos de abertura.
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Em seu cativeiro de quinze anos, ele é rodeado pelas outras duas cores que se repetem: o verde e um tom escuro de vermelho. Verde aparece no piso banheiro encardido e em sua iluminação, que parece deixar a cerâmica dessa cor. Já o papel de parede do quarto e a gravura que adorna a parede vão pender para a outra cor. A decoração se divide entre os dois tons e cores neutras.
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Se o roxo lembra uma pessoa do passado, o verde se liga diretamente àquele que quer se vingar Oh Dae-Su e o vermelho se relaciona com Mi-Do (Hye-jeong Kang), que se torna sua companheira de jornada posteriormente. No dia em é posto em liberdade e a conhece, tanto ele quanto a mulher que o hipnotiza vestem vermelho.
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Significativamente ele aparece abandonado dentro de uma grande mala vermelha com forro roxo em um gramado verde. Veste paletó e camisa pretos: peças sem características, que marcam o que deveria ser seu recomeço. Depois de tantos anos que lhe foram roubados, sua roupa não demonstra nenhum tipo de identidade ou personalidade. O personagem se vestirá em preto e branco até o final, mas os elementos ao seu redor é que marcarão sua significação: sua liberdade é literalmente cercada pelas cores que remetem as múltiplas relações que se entrelaçam na trama.
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Vermelho e verde são cores complementares, o que torna sua combinação harmônica, mas também vistosa. No momento em que Oh Dae-su e Mi-do se conhecem no restaurante em que ela trabalha, todo o ambiente é sufocantemente decorado com as duas. É então que não apenas a relação entre os dois se inicia, como o plano de  06
O mesmo acontece no apartamento dela: até seu tapete e seu papel de parede são compostos pelas duas cores. Mas é o vermelho que marca sua relação com ele e é essa cor que vestirá predominantemente ao longo do filme.
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O quarto de hotel onde os dois estão após sua primeira relação sexual também será coberto pela cor. Uma exceção é a caixa roxa com a mesma padronagem de um lenço que Oh Dae-su havia obtido anteriormente de Woo-jin Lee (Ji-tae Yu), aquele que o prendeu por tantos anos. Esta estampa se repetirá em outros elementos com pistas sobre o passado, que o instigam a descobrir porque Woo-jin agiu dessa forma.
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O apartamento de Woo-jin Lee também tem tons esverdeados, com paredes de concreto e espelhos d’água na cor e uma decoração minimalista. A cor fria, a falta de detalhes e os materiais utilizados passam a sensação de severidade. O estilo de se vestir do personagem segue o mesmo minimalismo, com roupas bem cortadas um cuidado especial com a própria aparência e o corpo.
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É então que se revela o passado: quando jovem Oh Dae-su flagrou o envolvimento de Woo-jin Lee com a própria irmã e ao comentar com um amigo, causou uma reação em cadeia de difamação da garota que a levou ao suicídio. O passado mostrado em flashback é filtrado por lentes arroxeadas: cor de luto, mas também do vestido da jovem, registrada em uma última fotografia antes de morrer. É a essa cena que a abertura do filme faz referência e em virtude dela que o a cor roxa sempre aparece quando são fornecidas pistas sobre o passado.
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E se a relação com Mi-do é marcada pelo vermelho, é importante notar que ela aparece com verde (da vingança de Woo-jin) no momento em que conversa com ele em um bate-papo na internet, sem saber de quem se trata, e fala sobre Oh Dae-su. Quando ele parte sozinho para descobrir toda a verdade e eles se despedem, a sua camiseta rosa (tom esmaecido de vermelho) tem uma manga verde. Esses são momentos chaves para a concretização da vingança.
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O que Oh Dae-Su descobre dentro da última caixa é que Mi-do é sua filha, que tinha três anos quando ele desapareceu. Em sua fotografia de bebê, junto aos pais, vermelho era a cor de seu vestidinho. Incapaz de abrir mão do seu amor, ele é hipnotizado para esquecer as trágicas descobertas. Quando a reencontra, ela, que desconhece as revelações anteriores, veste o vermelho mais intenso de todo o filme, contrastando com a alvura da neve que os rodeia e deixando claro que a relação entre os dois seguirá em frente.
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Cada um dos três personagens mais importantes relacionado a Oh Dae-su possuem uma cor que se repetirá ao logo do filme, frisando essas relações através não só do figurino, mas também dos cenários, com destaque para os papéis de paredes com estampas geométricas marcantes. O figurino de Sang-gyeong Jo atende a esses requisitos que parecem ter sido traçados de maneira precisa por Chan-wook Park, demonstrando ter total controle sobre os aspectos visuais de sua obra e sobre a forma como os utiliza para transmitir mensagens e enriquecer a narrativa.

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