Adoráveis Mulheres (Little Women, 2019)

Meg, Jo, Beth e Amy já foram protagonistas de diversas adaptações cinematográficas ou televisivas do livro Mulherzinhas, publicado por Louisa May Alcott em 1868. Aqui elas são interpretadas por Emma Watson, Saoirse Ronan, Eliza Scanlen e Florence Pugh, respectivamente. Greta Gerwig, que escreveu e dirigiu essa versão, tomou liberdades que se mostraram frutíferas para a história.

As quatro irmãs March vivem com sua mãe, Marmee (Laura Dern), em uma casa simples, por onde paira a lembrança de uma época em que tiveram mais dinheiro. O pai (Bob Odenkirk), está ausente, na Guerra Civil. Sua figura se materializa nas cartas que envia, mas, no final das contas, aquela é a casa das mulheres March e ele apenas pontua esse fato. Marmee é um exemplo para as meninas, abnegada e sempre preocupada com os demais. Meg, a mais velha, é ajuizada, um professora dedicada e tem grande apreço pela moda. Jo é a menina das letra, tomboy da casa, com os dedos manchados de tinta, sempre envolta em suas histórias. Beth, nas palavras delas mesmas, é a melhor de todas: doce, tímida e encantada pela música. Por fim, Amy é autocentrada, impulsiva e se interessa por desenho e pintura. Juntam-se a elas a rica Tia March (Meryl Streep), o vizinho Mr. Laurence (Chris Cooper) e seu neto Laurie (Timothée Chalamet).

O filme, como o livro, faz recortes de pequenos momentos da rotina das irmãs. E é aqui que Gerwig faz sua primeira subversão na estrutura da narrativa. Tradicionalmente o livro tem duas partes, o próprio Mulherzinhas e a segunda, que se passa 7 anos depois, chamada Good Wives (Boas Esposas, título dado na época pelo editor e não por Alcott). Ambas sempre são publicadas em um livro só e levadas as telas como tal. A diretora optou por trabalhar as duas linhas de tempo em paralelo, criando um passado que, embora não sem seus conflitos, era feliz na união de todas aquelas mulheres. No presente o que vemos são as dificuldades de cada uma já em sua vida adulta. Esse contraponto é externado esteticamente, seja na luz amarela com que os flashbacks são iluminados, em contraste com a luz fria do presente, seja pelo figurino da sempre louvável Jacqueline Durran, que concentra tons de rosa e vinho no primeiro momento e azuis e roxos no segundo, destacando cada linha temporal, também, com o contraste entre tons quentes e frios de uma mesma paleta de cores. Essa contraposição entre os dois momentos faz com que quem assiste ao filme possa entender o ponto de vista das personagens sobre seu próprio passado e ajuda a justificar determinadas escolhas. Nesse sentido, como somos apresentados a Laurie por meio de Amy, o que acontece entre os dois não parece tão abrupto, como seria em uma narrativa linear. Também permite que certas cenas do tempo presente espelhem as do passado com resultados diferentes, como quando Jo desce as escadas da casa correndo e se depara com a mãe sentada à mesa em duas situações diferentes, com uma mudança marcada de tom.

Em se tratando do já mencionado figurino, outros elementos chamam a atenção. Destaco o casaco verde militar com detalhes dourados de Jo, que remete à própria guerra que se desenrola; a cena em que a personagem, vestindo ele sobre camisola branca e calçolas vermelhas, estampa em si as cores do Natal, lembrando-nos que se trata de um filme festivo, especificamente natalino e, claro, o ostensivo uso de tricô.

A segunda das mudanças marcantes criadas por Gerwig é a abordagem metalinguística: Jo, que funciona como narradora em primeira pessoa, é escritora e a história se desenrola em sua versão dos fatos. Com o avançar do tempo, percebemos que o que vemos nos flashbacks são fruto de sua escrita, reminiscente sobre aquela época. Dessa forma os aspectos religiosos do livro podem cair fora da trama, porque seu editor afirma que “moral não vende hoje”. Por isso também se cria um embaralhamento entre a personagem e a própria autora, Alcott, que aparece refletida na trama, que por sua vez se transforma em seu próprio livro real. Sem confusão, essa camada extra celebra a capacidade criativa e o próprio exemplo da escritora, espelhando-a em Jo.

A construção das relações entre as protagonistas, desenvolvendo suas afinidades e rusgas, faz com que criemos facilmente identificação com cada uma delas. As conexões de Jo com Beth e Meg com Amy, mediadas por Marmee, se espelham e se equilibram. E se Amy poderia facilmente ocupar o papel vago de vilã, o texto mordaz, que coloca frases divertidas e sinceras em seus lábios; bem como a atuação cativante de Pugh, salvam-na de tal papel. Além disso, ela, assim como Jo em alguma medida, é a responsável por algumas análises certeiras sobre as condições e os direitos das mulheres de então, especificamente o matrimônio e, com isso, suas ações se externam adequadas à lógica da personagem.

Mas Jo, acumulando a função de narradora, acaba por ser a heroína: aquela que se emancipa e tenta a vida em Nova York, a que comemora a cada pagamento recebido por algo que escreveu, a que a princípio não tem interesse em um relacionamento amoroso como se espera dela, mas que também sente profundamente a solidão. Saoirse Ronan acerta ao não interpretá-la com dureza, como ocorreu em algumas encarnações anteriores, mas sim com uma obstinação que não deixa de permitir que alguma fragilidade se manifeste.

Por fim, o editor de Jo diz que a protagonista dela precisa ser uma mulher e estar ou casada ou morta no final, afirmando que meninas querem ver casamento e não consistência. Em se tratando de romance, Laurie é quase como uma lembrança da juventude, de quando as coisas pareciam fáceis, mas escondiam suas complexidades. Jo sempre esteve certa a esse respeito. O rejuvenescimento de pretendente do presente em relação ao livro, Professor Bhaer, vivido por Louis Garrel, ajuda a colocar em perspectiva as escolhas da personagem. Apesar disso, o romance parece isso: um anexo planejado por um editor em uma história que trata dessas mulheres.

O Adoráveis Mulheres de Greta Gerwig é encantador na forma como dispõe de suas protagonistas e nos permite imergir nas suas vidas e nas suas alegrias domésticas. Ao mesmo tempo, traz reflexões sobre independência financeira, autonomia, ambição e a busca por uma carreira que, já presentes na obra de Alcott, continuam ressoando na contemporaneidade. As decisões artísticas e narrativas da diretora fortalecem a história original, amplificando suas qualidades. Mas, no final das contas, a maior qualidade do filme talvez seja o fato de que Gerwig realizou todo esse trabalho complexo de adaptação e reconstrução do formato da narrativa de uma forma que parece sem esforço, confeccionando uma obra acessível e em certa medida familiar, de aparente simplicidade e deliciosa de assistir.

Nota: 5 estrelas de 5
Selo "Approved Bechdel Wallace Test"
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Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird, 2017)

I’m broke but I’m happy, I’m poor but I’m kind I’m short but I’m healthy, yeah I’m high but I’m grounded, I’m sane but I’m overwhelmed I’m lost but I’m hopeful, baby What it all comes down to Is that everything’s gonna be fine, fine, fine ‘Cause I’ve got one hand in my pocket And the other one is giving a high five

(Hands in My Pocket- Alanis Morissette)

O ano é 2002. Em uma casa na periferia de uma monótona cidade de interior, uma jovem de dezessete anos discute com sua mãe sobre seus planos para o futuro (ou a falta deles). Quer cursar uma universidade, quer ir para algum lugar onde as coisas são feitas e acontecem, quer respirar arte. As discussões são constantes e o seu pai vem, muito calmo, lhe dizer “não liga, você sabe como sua mãe tem ideias fortes”. Isso é Lady Bird. Mas também é a minha vida. As mesmas datas, as mesmas idades, tudo. No ano seguinte, com muitas negociações, saí do interior para fazer minha faculdade. Minha mãe chorou na despedida e disse que “era minha hora de sair do ninho, porque a gente cria os filhos pra vida”. (E para lá nunca mais voltei, mas essa é uma outra história). Greta Gerwig já é uma roteirista estabelecida, com filmes como Frances Ha e Mistress America no currículo. Agora se aventura em sua primeira experiência na direção: com grandes pitadas de autobiografia, Lady Bird- É Hora de Voar é um filme que mostra o seu talento costurando as tramas daquilo que criou. Christine “Lady Bird” McPherson é a protagonista vivida por Soirse Ronan. Como muitas adolescentes, ela vive uma rotina tediosa na escola, tem uma melhor amiga maravilhosa com quem se diverte e divide histórias e comidas, se apaixona por um menino gay, não sabe muito bem ainda o que quer fazer da vida. Ela faz seu ensino médio em uma escola particular com bolsa de estudos e não tem celular nem participa da rotina glamourosa que outras colegas tem. Suas roupas são de segunda mão (e mesmo aos domingos, a roupa de sair parece um uniforme de escola católica). A vontade de ter aquilo que não pode, como as casas dos bairros ricos ou o namorado blasé, faz parte do sonho. Para as meninas da sua escola, ficar na cidade e ser mãe é uma escolha. (Para meus colegas de ensino fundamental, na escola pública do interior, isso não era nem uma escolha, era o único caminho lógico possível). O desejo de sair de casa significa uma sobrecarga financeira para seus pais. Lady Bird não tem noção dos custos e do que aquilo implica em suas vidas. As negociações se fazem presentes e são necessárias e aí que brilham a atuação de Saoirse Ronan, cheia de méritos, mas também de Laurie Metcalf, que interpreta sua mãe, Marion. Já ouvi de algumas pessoas que sua inconsequência é egoísta e que ela não seria uma personagem exemplar. Mas como construir de maneira exemplar um personagem que ainda tenta descobrir quem é e não conhece o mundo? Em Curtindo a Vida Adoidado Ferris Bueller não é nada exemplar e até hoje possui milhões de fãs. O quinteto do Clube dos Cinco é composto de arquétipos que não só não são exemplares como são rasos (e isso não é necessariamente uma crítica negativa, uma vez que que funcionam em sua simplicidade ao retratar vários exemplares da fauna adolescente de qualquer escola). O egoísmo é um reflexo do processo de auto-descoberta: voltar-se a si e se enxergar como pessoa em formação. Talvez essas críticas em parte se devam a dificuldade de ver ser retratada a experiência da passagem do tempo na adolescência em uma personagem feminina, ainda que escrita de forma multidimensional . No primeiro exemplo citado as personagens adolescentes são pouco mais que caricaturas que rodeiam Ferris e, no segundo, uma delas é a única que é punida com uma transformação para deixar de ser como é. Existe uma tendência de enxergar as experiências masculinas como universais. Greta Gerwig constrói Lady Bird de forma sincera: ela é como ela é. Não é perfeita, pode ser irritante em certos momentos, mas é concebida através de experiências reais muito próximas, como alguém palpável. Sua história de crescimento é pautada em experiências bastante particulares, mas dialoga com realidades diversas. Sacramento poderia ser Passa-Vinte, ou Uarini ou Coruripe. Ou Blumenau. Lady Bird- É hora de Voar é engraçado, singelo, delicado, emocionante e especialmente fácil de gerar identificação. Quem não o considerou crível ou o achou genérico nunca foi uma menina de dezessete anos numa cidade de interior usando a universidade como desculpa, louca pra sair de lá e conhecer o mundo. Selo "Approved Bechdel Wallace Test" Nota: 4 de 5 estrelas
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Brooklyn (2015)

Brooklyn é uma fábula sobre migração e a busca por um lugar para si. Eilis (Saoirse Ronan) é uma jovem irlandesa de cidade pequena que, com a ajuda daqueles que a rodeiam, migra para os Estados Unidos na década de 1950 e se estabelece no Brooklyn. Padre Flood (Jim Broadbent) havia, com antecedência, conseguido uma vaga para que ela morasse na pensão da Sra. Keogh (Julie Walters) e um emprego em uma loja, sob o olhar vigilante e cuidadoso da Srta. Fortini (Jessica Parré). O filme é dirigido por John Crowley e conta com roteiro de Nick Hornby, adaptado do romance de Colm Tóibín.

No universo do filme não há conflitos entre os imigrantes e a população local, ou pelo menos eles não são o foco da trama. O que importa aqui é a sensação que Eilis tem de não fazer parte desse local e a saudade de algo que lhe fosse familiar. Esse algo começa a se delinear quando conhece Tony, (Emory Cohen) um charmoso jovem ítalo-americano que mostra a cidade a ela e a apresenta a família. Não é que ela precise de um romance para ser completa: é o companheirismo e apoio que a ajudam. O filme descortina uma Nova York bastante branca e não há espaço para explorar as diferenças. O único momento em que isso perpassa a trama é quando o irmão mais novo de Tony, Frankie (James DiGiacomo) fala sobre como não gosta de irlandeses por conta de tensões e hierarquias entre os imigrantes. A fala é logo recriminada pelos demais e a criança se cala.

Acontecimentos não previstos fazem com que Eilis precise retornar à Irlanda, onde conhece Jim Farrell (Domhnall Gleeson) Os interesses amorosos de Eilis podem ser entendidos de forma alegórica, pois representam a ligação dela com cada país e as perspectivas que lhe são oferecidas. Jim é a familiaridade de sua pátria: ao seu lado, Eilis tem a tradição, a estabilidade financeira e, para o bem ou para o mal, os velhos costumes de seu local de origem. Já Tony, que trabalha como encanador e planeja ter uma empresa de construção com seus irmãos, representa a novidade, o começar do zero e se adaptar a pessoas, empregos e costumes novos para recriar sua vida.

A trajetória da personagem é externada através do design de produção de François Séguin, que cria um mundo quase onírico, com uma paleta de cores em tons pastel que trata de estabelecer o fabulesco da trama. Os elementos de época são facilmente reconhecidos, mas a reverência com que são dispostos os distanciam do papel de retrato fiel de uma época. O figurino de Odile Dicks-Mireaux, por sua vez, diferencia três momentos da personagem, marcados também por aqueles ao seu redor: o começo na Irlanda, os Estados Unidos e o retorno ao seu país. É interessante notar como a protagonista se destaca entre os demais no momento em que se despede de sua família, já no navio.

Saoirse Ronan é uma atriz que sempre apresentou boas atuações. Já em Desejo e Reparação (2007), com apenas treze anos, roubou para si as atenções no prólogo, parte do qual participa. Aqui, compõe uma personagem doce, mas decidida e consegue gerar empatia mesmo quando questionamos suas ações. Utiliza seus olhos de forma muito expressiva. Emory Cohen se sai bem em emular um jovem Marlon Brando, o que é surpreendente, tendo em vista que poucos anos atrás interpretou de forma robótica e irritante o filho da protagonista encarnada por Debra Messing no seriado Smash. Já Domhnall Gleeson, aparece apenas no terceiro ato e está bem no papel, embora merecesse mais espaço e profundidade.

Um lar é mais que uma sensação do que algo físico. Uma casa pode ser um lar, mas é possível ter um lar sem ter uma casa. Estou na minha sexta morada em treze anos e aprendi a lidar com as mudanças: no início você leva sua vida em algumas caixas, mas com o tempo começa a perceber que não depende do conteúdo delas. Chega um momento em que você se dá conta que não tem mais raízes e no começo isso é uma constatação triste. Até que percebe que assim está livre para viver plenamente onde quer que estiver. Brooklyn é uma bela fábula, que relata de forma delicada a busca por um lugar que seja seu, que seja um lar e que traga, por fim, senso de pertencimento.

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