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Figurino: A Época da Inocência

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 27/03/2014.

“O que você ganharia, passando por um escândalo?”
“Minha liberdade.”

A Época da Inocência é um filme que se destaca pela curiosa temática na filmografia do diretor Martin Scorsese. Após filmes como Taxi Driver, Touro Indomável e Os Bons Companheiros, aqui ele nos entrega uma história de amor trágica, que dizem ter clamado ser seu filme mais violento. Baseado no livro homônimo de Edith Wharton, a trama é realmente brutal no retrato de sentimentos intensos que não podem ser revelados. A figurinista Gabriella Pescucci opta pela composição realista do período, criando ambientação perfeita para o drama., na Nova York da década de 1870.
A história começa, muito apropriadamente, em uma ópera. Todos no teatro usam seus binóculos, mas não para ver melhor a peça e sim para observar uns aos outros. Newland Archer (Daniel Day-Lewis) quer anunciar seu noivado com May Welland (Winona Ryder). A prima desta, Condessa Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer) acabara de chegar da Europa, separada do marido, gerando grande escândalo e por isso ele precisa apoiar a família da noiva, para que a reputação deles não seja manchada, garantindo que seu próprio casamento seja menos escandaloso. Trata-se de um mundo de regras, aparências e falsidades. Newland segue todas elas à risca, embora intimamente goste de pensar em desafiá-las.
May é jovem, bonita, não possui muitas opiniões próprias e é a esposa perfeita, moldada pela mãe e pela sociedade em torno dela. Ao início do filme, como moça solteira que é, tende a dar preferência às cores claras no seu vestir. Por vezes seus vestidos serão acrescidos de um detalhe em tule ao redor dos ombros, funcionando como uma espécie de véu que cria efeito etéreo, ressaltando sua inocência.

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Era costume que moças solteiras vestissem branco ou cores muito claras em ocasiões sociais formais. Pode-se perceber isso na cena do baile na casa dos Beaufort.

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Logo na primeira aparição, sabemos que Ellen será um contraponto a May: o contraste entre seu vestido azul vivo contra a alvura virginal do traje daquela já deixa tal fato patente. Ellen não está acostumada aos costumes conservadores de Nova York. Em certo momento a narração fala que ela não sabia que em uma festa, por exemplo, uma mulher não podia se levantar para ir conversar com um homem, ato comum na Europa e inofensivo para ela.

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Após ser apresentada a Newland, este passa a se sentir atraído pela sua forte personalidade e presença. Ela começa a vestir-se predominantemente em tons de vermelho, o que é sugestivo não só por ser uma cor que significa paixão, como também por ser bastante ousada para o período. Como frisou uma senhora em certo momento do filme, Ellen vestiu cetim preto no baile de sua apresentação à sociedade. Ela jamais se importou com as convenções sociais.

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O cinema já possui um certo histórico de vestidos vermelhos usados como retrato de audácia de mulheres à frente de seu tempo e que foram punidas por isso. Jezebel (no filme homônimo de 1938), Scarlett O’hara (em … E o Vento Levou, de 1939) e Anna Karenina (no filme de mesmo nome, de 2012) foram algumas, apenas para exemplificar.
Jezebel em imagem colorizada do filme de 1938, Scarlett O’Hara, em 1939 e Anna Karenina, em 2012: mulheres que ousaram querer ser livres em suas respectivas histórias.

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Jezebel em imagem colorizada do filme de 1938, Scarlett O’Hara, em 1939 e Anna Karenina, em 2012: mulheres que ousaram querer ser livres em suas respectivas histórias.

É interessante notar que Anna Karenina e A Época da Inocência acontecem no mesmo período. Assim, percebemos a diferença entre um figurino estilizado (o primeiro) e um fiel à época ( o segundo), com saia mais estreita, jaquetas justas e anquinhas.
Detalhe de quadro de Tissot de 1873 e croquis representando a moda do período.

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Detalhe de quadro de Tissot de 1873 e croquis representando a moda do período.

Passado o período de aproximação, quando Newland admite suas intenções, Ellen utiliza um vestido verde-água com detalhes em renda quase jovial. Muitas coisas se passam no plano do desejo e quase tudo fica subentendido com delicadeza e certo erotismo, como quando ele desabotoa a luva dela para beijar seu pulso, no interior de uma carruagem. Desde Gilda uma luva não era tão significativa.

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May pode parecer alheia a tudo que acontece, mas isso não reflete a realidade. A narração explica que era costume que as mulheres usassem seus vestidos de casamento durante um ou dois anos depois de casadas, em eventos sociais. Ela nunca havia feito isso, até a noite decisiva em que garantiu a continuidade deste. Assim, o vestido acabou por marcar a estabilidade da instituição que representou.

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“Dava menos trabalho seguir as tradições: não havia necessidade de tentar emancipar uma esposa que não tinha a menor noção de que não era livre.”

Ao decidir voltar para a Europa, Ellen aparece, pela primeira e única vez trajada em negro, como faria uma senhora casada mais velha, segundo os costumes. Assim, também, se marca o fim de sua liberdade.

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O design de produção do filme como um todo é extremamente caprichado e destacam-se os quadros presentes nas casas de todos os personagens, que falam muito a respeitos deles. Ellen, por exemplo, possui muitos quadros impressionistas, muitos dos quais sequer haviam sido pintados à época, mostrando, mais uma vez, seu senso de vanguarda.

Cena ao ar livre comparada com quadro pós-impressionista Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, de George Seurat

Cena ao ar livre comparada com quadro pós-impressionista Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, de George Seurat

A pintura, aliás, parece ser de grande influência na composição das cenas e na fotografia: cenas internas se aproximam da estética do Romantismo, enquanto externas referenciam (por vezes até mesmo diretamente) pinturas impressionistas. O figurino é apenas um elemento a mais nessa obra intensa, que conta com direção competente e execução primorosa.

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A Personal Journey with Martin Scorsese Through American Movies (1995)

Assistido em 03/12/2013.

Não me prolongarei falando a respeito desse filme, apenas deixo a recomendação. No documentário, estrelado, escrito e dirigido por Martin Scorsese, ele fala a respeito da história do cinema americano, abordando os diretores que considera importantes para sua formação, pincelando os mais conhecidos, mas, merecidamente, aprofundando-se naqueles que não ficaram famosos. Trata-se de uma verdadeira aula de cinema, que começa com os filmes mudos e vai até a década de 1960. Scorsese não avança pois diz não ser capaz de julgar isenção o trabalho de seus colegas de geração. (Embora, passados quase vinte anos, bem que ele poderia fazer uma parte dois…). Trata-se de um belo material para quem quer conhecer mais sobre cinema. E como ele sabe!

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Cabo do Medo (Cape Fear/ 1991)

Assistido em 02/11/2013

A década de 1980 não foi um período fácil para o cinema. Embora, obviamente,  possa ter saudosismo em relação a muitos filmes da minha infância, não dá para negar o estrago. Até 1968 a produção de cinema era feita sob o Código Hays, que proibia uma série de itens expostos na trama, como relações interraciais, tráfico de drogas, ridicularização de religião, doenças venéreas, entre outros. Por isso é comum termos a impressão que filmes antigos eram mais “limpos”, embora violência e sexualidade ainda assim fossem assuntos abordados, mas de forma velada (alô, Gilda!). Dizem que a iniciativa de criação do código veio após o lançamento de Scarface, que chocou com sua violência explícita (e incesto velado) no contexto da época.  Nos anos 70, com a desencantamento que veio após os movimentos dos anos 60 (contracultura, hippies, black power, feminismo, etc) e a escalada da violência urbana nas grandes cidades americanas, uma geração de cineastas surgiu com filmes “sujos” e desiludidos (Taxi Driver, agora estou falando de você). Aí vieram os anos 80 e um forte sentimento de escapismo. Diretores como George Lucas, Steven Spielberg e Robert Zemeckis criaram um formato de filme que deixava de ter um ponto de vista, história, ou abordagem adultos para criar uma visão infantil de mundo, voltada para o modelo de blockbuster. Os diretores de filmes com temática adulta ficaram um tanto quanto perdidos nesse período. A erotização da violência passou a ser uma ferramenta bastante utilizada, basta ver a quantidade de thrillers eróticos e filmes de terror slasher feitos até o começo dos anos 90.

E então chegamos a Cabo do Medo, de 1991, dirigido por Martin Scorsese. Scorsese não parece ter se perdido na década de 80. Seus dois trabalhos anteriores a esse foram A Última Tentação de Cristo e Os Bons Companheiros. Cabo do Medo é uma regravação de um filme de 1962, Círculo do Medo, e possui elementos muito problemáticos. Trata-se de uma história de vingança: Max Cady (Robert De Niro) saiu da prisão após catorze anos de pena (por estupro e agressão de uma menina de dezesseis anos) e pretende vingar-se de seu advogado, Sam Bowden (Nick Nolte), pois acredita que ele o prejudicou ocultando documentos quando do julgamento. A família Bowden apresenta-se como uma família de comercial de margarina, mas Max o tempo todo afirma que eles são infelizes. É fato que Sam flerta com uma colega de trabalho e sua esposa, Leigh (Jessica Lange) o acusa de já ter feito isso antes. Já a filha de quinze anos, Danielle (Juliette Lewis) é uma das piores criações de adolescente que já vi. Max espreita a vida deles como uma ameaça constante, criando terror em Sam. Ao mesmo tempo a família demonstra ter sérios problemas de comunicação, pois ele jamais explica plenamente o que está acontecendo para a esposa e a filha. Mantem-se no seu papel superior de dominância, acreditando que conseguiria dar conta do problema sozinho.

A montagem com cortes rápidos e a trilha sonora espalhafatosa envelheceram bastante mal. O figurino vistoso de Max frisa seu tempo de prisão, pois ele continua usando suas roupas do final da década de 70. As atuações são mistas: Jessica Lange faz um overact que não funciona, ao passo que o de De Niro convence, embora quanto mais próximo do final do filme, menos crível e mais sobrenatural parece seu personagem. Nick Nolte está apenas satisfatório no papel e Juliette Lewis interpretou muito bem o que parece ter sido decisão da direção: a falta de noção da realidade de sua personagem.

A esse respeito, devo dizer que a maneira como é abordada toda a temática do estupro é muito incômoda. A liberdade sexual feminina é vista como passível de punição. Embora essa seja a visão de Max, ela acaba por dominar toda a trama. A advogada que flerta com um homem casado e que sai para beber em um bar é agredida por aceitar sair com outro. Opta por não prestar queixa “pois conhece os sistema” e sabe que seria humilhada se o fizesse. A respeito da adolescente que foi sua primeira vítima, fala-se diversas vezes que mantinha “comportamento promíscuo”, como se de alguma forma isso justificasse o mal que lhe foi impingido.

O tratamento mais perturbador é dado à Danielle, retratada com extrema inocência, beirando a estupidez (de uma forma que dificilmente uma menina de quinze anos seria) quando o assunto é sexualidade, ao mesmo tempo em que sempre aparece em situações erotizadas, seja com as alças da blusa displicentemente caídas, desnudando os ombros, seja aparecendo de calcinha. A maneira como ela parece não saber nada relacionado a sexo e ao mesmo tempo aparece como objeto de desejo quase infantil em tela é no mínimo reprovável.

Em alguns momentos fica patente que o filme é dirigido por mãos competentes, mas o resultado final é muito aquém do esperado, não fazendo jus ao diretor, mas condizente com o zeitgeist.

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A Época da Inocência (The Age of Innocence/ 1993)

Assistido em 03/04/2013

Depois de ter feito filmes como Touro Indomável, Taxi Driver e Os Bons Companheiros, Scorsese nos estrega um filme que, segundo ele, é o seu mais violento. Violento na paixão e nos sentimentos. Piegas? Talvez, mas há que se perceber que se trata de um melodrama, com os sentimentos à flor da pele e uma beleza no visual como há algum tempo não via.

A temática do filme já fica clara nos créditos de abertura, quando com certa sutileza vemos, acompanhadas pela bela música orquestrada, flores desabrochando e se abrindo, numa metáfora clara à perda da inocência. A cena inicial se passa em uma ópera na Nova York de 1870. Newland Archer (Daniel Day-Lewis) encontra com sua noiva, May Welland (Winona Ryder) e a lembra que eles precisam avisar o resto da sociedade a respeito de seu noivado. É um mundo de regras e convenções e ele as segue da maneira adequada. Ao mesmo tempo a plateia comenta a ousadia da família de May ao trazer junto sua prima, Ellen Olenska (Michelle Pfeiffer), recém-chegada da Europa  separada de seu marido. Todos no teatro usam seus binóculos, mas não para ver melhor a peça e sim para observar uns aos outros. Newland, que é advogado, sabe que tem que apoiar Ellen, para minimizar os estragos da sua imagem e, consequentemente, poder casar com menos escândalo, em uma família com uma imagem menos manchada. Com a convivência entre eles, ele passa a perceber que May é aquela esposa ideal inventada pela mãe e pela sociedade e que Ellen tem a personalidade e a originalidade que o atraem. Muitas coisas se passam no plano do desejo, quase tudo fica subentendido com delicadeza e certo erotismo velado por parte do diretor. Decisões difíceis têm que ser tomadas, especialmente quando May demonstra não estar tão alheia ao que acontece ao seu redor.

Ellen e Newland no parque

Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, de George Seurat

Tanto a fotografia como todo o design de produção do filme são fantásticos! Há uma cena lindíssima em que homens vestidos de preto andam na rua em um dia de vento, todos com as cabeças abaixadas, segurando seus chapéus. Ela não possui conexão direta com nada na história. Parece que Scorsese nos lembra que ele também conhece os clássicos e sabe como utilizá-los. Os cenários são exuberante e o figurino é riquíssimo em cores e detalhes. Ellen ousa vestir roupas com cores vivas, às vezes puxando para o vermelho sem perceber como isso fere o decoro que deveria ter, dada a sua situação, enquanto May veste-se quase sempre de branco. Assim como na cena inicial vemos uma ópera, o teatro em geral pontua momentos do filme, deixando claro que todos naquele ambiente estão atuando. As cartas e bilhetes trocados entre os personagens também sempre aparecem, com closes e efeitos de iluminação, transmitindo a importância das palavras. Mas o mais interessante de tudo são os quadros que enchem as paredes das casas de todos os personagens. Cada um transmite a personalidade de seus moradores, do conservador ao excêntrico ao arrojado. É interessante como Newland fica intrigado com a pintura de uma moça sem rosto num quadro impressionista (um tanto quanto anacrônico, mas serve ao propósito do filme) na casa de Ellen. É o tipo de modernidade expressa que contrasta com os quadros românticos, rebuscados que vemos em outras casas. Nesse post no flickr há uma série de screenshots de alguns quadros. Recomendo: é muito interessante. O impressionismo ainda se manifesta em várias cenas, como uma à beira do mar, perto de um farol, com o sol batendo na água e outra sequência no parque em que a câmera desliza para mostrar o entorno e temos a impressão de ver um quadro de Seurat.

Eu sei que na época o filme teve recepção mista e confusa, por se tratar de uma mudança de temática do diretor. Mas devo dizer que pelo menos eu achei uma experiência visualmente impressionante e um filme que não deve passar batido.

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