Upstream Color (2013)

Assistido em 15/12/2013.

O diretor Shane Caruth, de Prime, novamente entrega um filme de ficção científica bem executado, com frescor de novidade e orçamento enxuto. Enquanto eu havia falado que Prime se preocupa mais com a matemática do que com as motivações e sentimentos de seus personagens, tal erro se corrige em Upstream Color, em que as emoções são amplamente exploradas e os aspectos da ficção são contrabalançados com menos preocupação em explicar o que acontece, flertando, até mesmo, com elementos de fantasia.

A trama envolve um Ladrão (Thiago Martins) que controla suas vítimas através de larvas coletadas em plantas, colhidas à beira de um rio, em que cadáveres de porcos, criados por um Captador de Som (Andrew Sensenig), são despejados, criando um ciclo de vida para esses animais que tem relação com as vidas humanas. Obviamente nada disso deve ser entendido de forma literal. Os protagonistas, Kris (Amy Seimetz) e Jeff (Shane Caruth) mal parecem se dar conta de que nada em suas vidas é feito por escolha própria. Sempre há uma força maior os guiando e ambos tentam juntar seus cacos de consciência em uma vivência comum, uma relação de apoio e companheirismo. Os sentimentos importam mais que os truques narrativos. Matar o criador/ controlador pode ser necessário para seguir com suas vidas.

Os aspectos sonoros do filme são bastante interessantes.  A trilha sonora cacofônica cria o clima de maneira efetiva. Mas o que mais chama a atenção é perceber o trabalho meticuloso de captação de som feito pelo personagem que trabalha com isso, que é mostrado gravando pedras deslizando por superfícies metálicas, por exemplo, e depois perceber de que forma isso é utilizado no filme. Em certo momento papel amassado tem barulhos de folhas secas e em outros pode-se perceber o uso de ruídos apresentados anteriormente, deslocados de seu contexto. Graças ao trabalho de edição e mixagem também temos determinada cena em que não é preciso mostrar o que acontece: apenas ouvindo entende-se. É a suspensão do “visual” em função do “áudio”, realizada de forma fantástica.

Independentemente de gostar-se ou não do resultado do trabalho de Caruth, o cinema precisa de mais pessoas como ele, com ideias novas e vontade de realizá-las.

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Primer (2004)

Assistido em 27/05/2013

Um dos maiores méritos de Primer é contar com qualidade a sua história com um orçamento pra lá de enxuto de sete mil dólares. Os créditos entregam: além do diretor Shane Carruth ter roteirizado, produzido e estrelado, vários outros participantes tiveram créditos por múltiplos papéis nos bastidores. Destaque para os pais de Carruth que forneceram toda a alimentação durante as filmagens. Com essas restrições nem sempre a qualidade da filmagem é boa, mas a força do filme está em sua narrativa.

Prime é um filme de ficção científica que envolve viagem no tempo. Aaron e Abe, dois amigos que nas horas vagas trabalham juntos, conseguem desenvolver um aparelho que à princípio gera energia sem precisar de um combustível para manter-se produzindo-a. Depois, adaptando a invenção, descobrem que há uma distorção no tempo que se passa dentro do aparelho. Abe monta um protótipo em tamanho maior, para caber uma pessoa dentro. Para cada hora que a pessoa quer voltar no tempo, ela tem que ficar outra dentro da caixa e vai retornar sempre ao momento inicial. Aaron e Abe começam, então, um jogo de desconfianças e, literalmente, corridas no tempo. A história é bastante intrigante e confesso que deveria assistir mais uma vez para captar todas as camadas. Esse é porém: não tenho vontade de assistir mais uma vez. Não me levem a mal, é um ótimo filme. Mas os personagens não parecem ter motivações o suficiente em suas ações, ou pelo menos elas e o próprio background deles não ficam explícitos na narrativa. A história parece girar mais em torno da matemática do que dos seus sentimentos. Aliás, há um quê de O Grande Truque no filme, mas esse explora muito melhor seus personagens. Looper parece, também, ter alguma relação com a história e isso fica claro porque Shane Carruth é citado nos agradecimentos dele. Embora tudo seja muito bem elaborado e a complexidade das linhas do tempo seja intrigante, a sensação é que a história, no final, trata apenas de um quebra-cabeça muito bem desenvolvido. Apesar disso, fiquei satisfeita por ter assistido.

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