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O 20 melhores filmes de 2017 que não são de 2017

Essa lista, que faço todos os anos, são dos melhores filmes que eu vi pela primeira vez no ano e que não são lançamentos. Como sempre, para facilitar, escolhi apenas filmes ficcionais de longa metragem. Além disso, para abrir espaço à variedade, diretoras e diretores com mais de um filme que preenchessem esse critério tiveram só um listado. Outros filmes com avaliação alta vistos esse ano, mas com direção repetida, serão colocados abaixo. Geralmente a lista tem 30 filmes e esse ano tem apenas 20. Isso é reflexo do pouco tempo que tive para me dedicar a ver os filmes mais antigos. Eu costumava fazer meses temáticos, assistindo a diversos filmes de algum país, escola ou diretor, mas esse ano, com o doutorado, acabei não tendo tempo e assistindo quase que exclusivamente a filmes que são pauta de algum podcast. Isso se refletiu no resultado final, já que nem meus queridinho da Metro ou amados pré-código pude ver com carinho. A lista também pode ser conferida no letterboxd. Filmes sobre os quais escrevi ou gravei podcast tem links no título e a ordem da disposição é cronológica.

Rua 42 (42nd Street, 1933)

Direção: Lloyd Bacon

★★★★

A Viúva Alegre (The Merry Widow, 1934)

Direção: Ernst Lubitsch

★★★★

À Meia Luz (Gaslight, 1944)

Direção: George Cukor

★★★★

O Mundo Odeia-Me (The Hitch-Hiker, 1953)

Direção: Ida Lupino

★★★★

Anjos Rebeldes (The Trouble With Angels, 1966) ★★★★

Os Desajustados (The Misfits, 1961)

Direção: John Huston

★★★★

O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962)

Direção: John Ford

★★★★1/2

Funny Girl: A Garota Genial (Funny Girl, 1968)

Direção: William Wyler

★★★★1/2

O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled, 1971)

Direção: Don Siegel

★★★★

Victor ou Victoria (Victor/Victoria, 1982)

Direção: Blake Edwards

★★★★

Chocolat (1988)

Direção: Claire Denis

★★★★1/2

Bom Trabalho (Beau Travail, 1999) ★★★★1/2

35 Doses de Rum (35 Rhums, 2008) ★★★★

Faça a Coisa Certa (Do the Right Thing, 1989)

Direção: Spike Lee

★★★★★

Garotos de Programa (My Own Private Idaho, 1991)

Direção: Gus Van Sant

★★★★

Earth (1998)

Direção: Deepa Mehta

★★★★1/2

Fogo e Desejo (Fire, 1996) ★★★★

Frágil como o Mundo (2002)

Direção: Rita Azevedo Gomes

★★★★1/2

Primavera, Verão, Outono, Inverno… E Primavera (Bom yeoreum gaeul gyeoul geurigo bom, 2003)

Direção: Kim Ki-Duk

★★★★1/2

Caramelo (Sukkar banat, 2007)

Direção: Nadine Labaki

★★★★

E agora onde vamos? (Et maintenant on va où?, 2011) ★★★★

Entre o Amor e a Paixão (Take This Waltz, 2011)

Direção: Sarah Polley

★★★★★

Trabalhar Cansa (2011)

Direção: Juliana Rojas, Marco Dutra

★★★★

Sinfonia da Necrópole (2014, dir. Juliana Rojas) ★★★★

The Fits (2015)

Direção: Anna Rose Holmer

★★★★1/2

Docinho da América (American Honey, 2016)

Direção: Andrea Arnold

★★★★1/2

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Chi-Raq (2015)

Chi-Raq é dirigido por Spike Lee e escrito por ele em parceria com Kevin Willmott, inspirados pela peça Lisístrata, de Aristófanes. Na comédia, a personagem de mesmo nome é uma ateniense que, cansada da prolongada Guerra do Peloponeso, propõe que as mulheres se abstenham de sexo com seus maridos e amantes até que eles negociem a paz. No filme, Lisístrata é interpretada por Teyonah Parris e a guerra passa a ser a violência urbana nas periferias de Chicago, encarnada na ficção pelas gangues de Espartanos (de roupas roxas) e Troianos (de laranja). A cidade tem estatísticas de morte piores do que as das guerras no Oriente Médio, conforme é explicado logo no começo, e por isso detém o apelido de Chi-Raq. Os diálogos são proferidos através de rimas e é interessante acompanhá-los, pois partem da ideia de uma poesia clássica e se estabelecem como um rap fluido e cadenciado.

Além da protagonista, também se destacam no ótimo elenco Nick Cannon interpretando um rapper fictício e espartano chamado Chi-Raq; Wesley Snipes como Ciclope, o líder dos troianos; e Angela Basset como Miss Helen, uma mulher que guia as mais jovens com seu conhecimento. O narrador, Dolmedes, vivido por Samuel L. Jackson é um dos pontos fortes do filme, enquanto John Cusack e seu Padre Mike parecem meio perdidos na narrativa.

A violência urbana é retratada como aquela que tolhe a vida dos jovens e crianças. Ela é mostrada apenas como originada na guerra entre gangues, sem mencionar policiais, acesso a armas e mesmo o contexto sócio-econômico. Os momentos de dor são realistas e tocantes. Mas o tom do filme é inconsistente, uma vez que o drama real faz um contraste por vezes incômodo com a abordagem farsesca. E se na peça, uma comédia, a abstinência das mulheres funciona, aqui, em contraste com o luto de determinados personagens, ela parece despropositada e ingênua.

Foi difícil não traçar paralelos com Mad Max: Estrada da Fúria, dada a proximidade temática e da data de lançamento dos dois filmes. Ambos são produtos de um homem roteirista-diretor. Ambos são protagonizados por mulheres lutando por algo melhor em um mundo que foi destruído pelos homens (e o questionamento “quem matou o mundo?”, presente em Mad Max, é bastante impactante nesse sentido). Mas no filme de George Miller as mulheres-protagonistas, que haviam sido reduzidas a propriedades devido a seu potencial reprodutivo, rebelam-se cortando seus cintos de castidade enquanto clamam por seu status de seres humanos, e não objetos. Já em Chi-Raq, as mulheres literalmente colocam em si mesmas os cintos de castidade e se apresentam como objetos do desejo masculino, quase sempre alheias aos seus próprios. A agência das personagens (duplamente escrita por homens, na fonte original e na adaptação) existe, mas ela é limitada à negação do que é apresentado como um direito masculino. Além disso, a greve de sexo só funcionaria em um contexto heteronormativo e o único momento em que isso é contestado, é em tom de piada.

Ainda que tenha seus problemas na forma em que tentou encaixar a farsa no drama real, o filme é impactante e marcado pela força de suas protagonistas. O peso emocional é maior justamente quando ela é deixada de lado e as histórias dos personagens emergem de forma mais natural. No contexto atual da violência nos Estados Unidos (e no Brasil, diga-se de passagem) contra populações negras e pobres, com o verdadeiro genocídio de todo uma juventude, Chi-Raq aparece como um necessário grito de dor e de raiva e um pedido por união de forças pungente e bem intencionado. O espírito combativo do filme, juntamente com a direção de Spike Lee e a atuação de Teyonah Parris ajudam carregá-lo.

3,5estrelas chi-raq

 

 

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