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Invocação do Mal 2 (The Conjuring 2, 2016)

Em Invocação do Mal 2 o diretor James Wan retoma a narrativa supostamente real do casal Ed (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga), famosos investigadores de fenômenos sobrenaturais. Dessa vez eles partem para investigar o Poltergeist de Enfield, como ficou conhecido o caso que aconteceu na Inglaterra no final dos anos 70. Janet Hodgson (Madison Wolfe), uma menina de 11 anos ouvia a voz de Bill Wilkins, um homem que dizia ter morado (e morrido) na casa em que ela morava com a mãe, Peggy (Frances O’Connor), a irmã mais velha, Margaret (Lauren Sposito) e Billy (Benjamin Haigh) e Johnny (Patrick McBurney), seus dois irmão pequenos. Lorraine não queria mais que eles se envolvessem com esse tipo de fenômeno, em virtude da grande exposição midiática que receberam com o que ocorreu em Amityville e da crença de que estavam prejudicando suas vidas pessoais, permitindo que entidades malignas se aproximassem de sua casa. À contragosto, aceitam investigar se o caso é forjado, à pedidos da Igreja. Dessa vez a trama gira em torno da fé e dos questionamentos dos protagonistas, bem como daqueles que os rodeiam. Em se tratando dos fenômenos abordados, não há nada de novo na película, mas ela ganha pontos quando se trata de estilo.

Como no filme anterior, aqui o design de produção é um dos pontos fortes. A recriação dos figurinos da família à partir de registros fotográficos e filmagens nos transportam para a época retratada e ainda acrescentam muito à narrativa em termos visuais, como o uso recorrente de vermelhos pelas meninas, causando um constante senso de perigo e dramaticidade, em contraste com os verdes e azuis calmos dos Warren e mesmo o roxo de sua mãe. O telefone amarelo, os bibelôs de porcelana e o sofá de couro surrado, por exemplo, são elementos comuns na decoração do período e também reforçam esse cuidado com os detalhes na cenografia e ajudam a construir a sensação de uma casa fria, embora cheia de vida.

Esse esmero é reflexo da elegância com que James Wan trabalha o gênero. Seus enquadramentos são cuidadosos, assim como uso de planos médios e longos. Destaco o plano-sequência em que a câmera passeia pelos cômodos da casa, apresentando o quartos das crianças e dando ao espectador a noção completa do espaço a ser explorado. Além disso, a forma como as entrevistas realizadas com Janet são recriadas para película, em comparação com as que ocorreram na realidade, acrescentam a elas a seriedade e a credibilidade necessárias para a narrativa. Em determinado momento todos estão de costas para Janet, que está falando com a voz de Bill Wilkins e cuja silhueta parece crescer no foco raso da câmera. Esse tipo de detalhe contribui para a construção de uma atmosfera repleta de tensão.

Outro ponto forte é a química entre o casal Warren, proporcionada pelo charme e boa atuação de seus intérpretes, além de Madison Wolfe, que também demonstra talento como protagonista.

Na sessão a que assisti o filme, houve um esforço de criar interação da sala de cinema com o que acontecia na tela: em uma cena específica, as luzes da sala se acenderam e piscaram de modo coordenado com o que se passava na história. Apesar de ser uma ideia interessante, o efeito geral foi de remover o espectador da trama, causando burburinho na plateia. Saí da sessão me perguntando se foi algo praticado com todas as cópias ou foi uma iniciativa local, mas não encontrei mais nenhum relato como esse, portanto parece ser a segunda opção.

James Wan mais uma vez entrega um filme de gênero elegante e bem construído, que se pauta em uma composição cuidadosa de cenários e figurinos, bem como no talento de seus atores principais. Com o sucesso desse filme, do mesmo modo como do anterior, e a quantidade de histórias envolvendo os Warrens da vida real disponíveis para adaptação, é fácil imaginar que outros filmes virão.

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P.S. Se você ainda não foi assistir ao filme, preste muita atenção aos detalhes: uma palavra de grande importância na história aparece de maneira velada pelo menos três vezes na casa dos Warren, duas vezes na cozinha e uma na biblioteca.

Boa Noite, Mamãe (Ich Seh Ich Seh, 2014)

Boa Noite, Mamãe chega ao Brasil acompanhado de muita repercussão em sua trajetória em festivais no exterior. O suspense austríaco é roteirizado e dirigido pela dupla Severin Fiala e Veronika Franz e trata de dois irmão gêmeos Lukas e Elias (vividos pelos ótimos Lukas e Elias Schwarz) que se sentem desconfiados da própria Mãe (Susanne Wuest) quando esta retorna para casa após uma cirurgia. O seu comportamento causa estranhamento e ele desconfiam que ela pode não ser quem parece.

A primeira metade do filme trabalha fortemente a construção de atmosfera e o suspense psicológico. Os elementos visuais chamam a atenção: em sua primeira aparição, a mãe emerge das sombras com o rosto coberto de bandagens e por um momento parece um palhaço macabro com um sorriso estranho. A casa, seus móveis, os quadros na parede com modelos desfocados e o espaço construído e natural que parecem abarcar todas as brincadeiras dos dois garotos são fotografados de maneira bonita e compõem o clima do filme. Também de destacam as músicas infantis, que soam macabras dentro do contexto.

O grande problema está na reviravolta, que é facilmente prevista logo nos primeiros minutos do filme. Todos os detalhes chamam atenção a ela e é possível pensar que talvez essa fosse uma escolha para despistar o espetador e entregar um revelação diferente, mas não é o que ocorre. Isso não seria problemático se o filme não pautasse a tensão em torno do momento em que a revelação ocorre, contando realmente com a surpresa do espectador.

E é justamente em sua segunda metade que ele desperdiça seu potencial. Se até então os diretores compuseram um suspense psicológico, ele é abandonado em prol de um torture porn nada instigante, com elementos que já vimos repetidos em outros filmes e melhor explorados neles.

Boa Noite, Mamãe é um filme com um visual bonito, com uma boa construção de atmosfera, mas com um roteiro que não se preocupa em criar um clímax condizente com o que parece ser sua proposta inicial. São dois filmes em um e, afinal, tem seu potencial desperdiçado.

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A Bruxa (The Witch: A New-England Folktale, 2015)

A Bruxa é o primeiro longa escrito e dirigido por Robert Eggers. Antes desse filme, o cineasta havia trabalhado em curtas próprios e como diretor de arte, designer de produção e figurinista em outras obras. Essa experiência transparece no cuidado dado à construção de mundo em A Bruxa. Cenografia e figurino críveis nos transportam diretamente para o modo de viver dos colonos da Nova Inglaterra no começo do século XVII. De fato, realmente se trata de um conto popular, conforme o título original, pautado em crenças de então. Vendido como história de terror, o filme pode não satisfazer as expectativas de quem o encarar dessa forma.

A história começa com o julgamento de William (Ralph Ineson), o patriarca da família de protagonistas. Calvinistas puritanos, que já haviam deixado a Inglaterra em virtude de suas crenças religiosas, são expulsos da comunidade onde se instalaram por razões não reveladas. Por isso mudam-se para uma fazenda afastada, localizada nas bordas de uma floresta. Além do pai, compõem a família a mãe, Katherine (Kate Dickie); a filha mais velha, Tomasin (Anya Taylor-Joy); o filho do meio, Caleb (Harvey Scrimshaw); os gêmeos Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawson) e o bebê Samuel. A floresta é o limite do espaço a ser explorado pelas crianças: o desconhecido é perigoso. Thomasin brinca com o bebê justamente nas proximidades da mata, fecha os olhos e ao abri-los ele não está mais lá. Um vulto de capa corre por entre as árvores carregando-o.

O sumiço da criança traz a tona conflitos até então imperceptíveis na rotina familiar. As omissões e mentiras começam a aparecer, mas o maior embate é entre as crenças. A religiosidade rigorosa é externada ao espectador através das orações e dos pedidos de perdão. Mas diante da possibilidade de bruxaria, a desconfiança cresce e a hostilidade torna-se inquisitória, ainda que alguns anos antes de julgamentos como o de Salém. A tensão crescente se alimenta da paranoia.

Como boa história de bruxaria que é, a temática da vilificação da feminilidade não poderia deixar de aparecer. Katherine se ressente de Thomasin por ter perdido o bebê e deseja leva-la para a cidade, para servir na casa de outra família, pois a menina já está crescida. O pintinho encontrado morto em um ovo de galinha e a temática do sangue que repetidamente aparece indicam a chegada da menarca de Thomasin. Dentro do rigor do fanatismo religioso, o corpo da mulher cisgênero atingindo a puberdade precisa ser mantido sob controle. Assim, como a floresta, ele é natureza e, logo, temido e oculto. Também é entendido como fonte de pecado e como uma ameaça. Esta se manifesta até mesmo na confusão expressa por Caleb, pré-adolescente isolado do contato com outros de sua idade e sem acesso à instrução, ao vislumbrar partes da pele desnuda da irmã. É o desejo carnal pelo corpo feminino que o faz se perder. Não é a toa que em determinada cena próxima ao final, o menino, delirante e tomado pelo temor religioso, cospe uma maçã, o fruto proibido ofertado por Eva. A aparição constante de animais liga a bruxaria à animalidade e Black Phillip, um bode, tem alguns dos melhores momentos do filme.

Além da tensão fruto da desconfiança, o clima macabro do filme se constrói através de um marcado formalismo estético. A fotografia é particularmente bonita, especialmente quando capta o cotidiano da família no interior da cabana filtrado pela luz que vaza do exterior. Egger tem total controle sobre os aspectos visuais da obra. Pela temática e abordagem é fácil comparar o resultado a Anticristo, de Lars von Trier.

Ao longo do filme, as crenças e as dúvidas foram usadas de forma a abrir margem para interpretações ambíguas interessantes. Caso seja levado em conta que se trata realmente de um conto popular, o desfecho pode ser entendido como uma possibilidade metafórica de libertação feminina do jugo repressor. Como um filme de estreia, A Bruxa não é aterrorizante, como tem sido dito, mas demonstra o potencial criativo e dramático, bem como a estética elegante de Robert Eggers.

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Figurino: A Colina Escarlate

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Fantasmas são reais, isso eu sei. Eu os vi toda a minha vida …

Em cartaz nos cinemas, A Colina Escarlate é um romance gótico que se disfarça de história de terror. A protagonista, uma escritora chamada Edith Cushing (Mia Wasikowska), fala sobre suas obras algo que também se estende ao filme: são histórias com fantasmas, não histórias de fantasmas, pois eles representam o passado. O diretor Guillermo del Toro confeccionou a trama entremeada de elementos visualmente marcantes. A figurinista é Kate Hawley, que já havia trabalhado com ele em seu filme anterior, Círculo de Fogo.
Edith, filha única de um homem rico, é cortejada por Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), um misterioso baronete vindo da Inglaterra. Quase nada se sabe sobre ele, mas sua situação financeira precária é percebida através de suas roupas. Isso é ressaltado pela própria Edith, que fala para seu pai que elas, embora bem cortadas, são de pelo menos uma década atrás.
A história se passa na segunda metade da década de 1890. Os trajes femininos deixavam de ter anquinhas e faziam a transição para as saias em forma de sino e os bustos volumosos que iriam caracterizar a primeira década de 1900.

Exemplos de vestidos utilizados na época.

 

As cinturas são marcadas e os ombros são destacados, o que pode ser percebido nos vestidos de Edith. Apesar disso, eles não restringem seu corpo: as camisas sempre são folgadas e os tecidos fluídos. Em um flashback, a vemos ainda criança, no enterro de sua mãe, trajada totalmente de preto, com um chapéu com uma textura rugosa na parte inferior, semelhante a um cogumelo visto por baixo. Essas rugosidades ou ranhuras são a textura que predominará nos tecidos usados em seus trajes, que também são por vezes adornados com dobras, como origamis.

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É possível ligar a personagem ao amarelo e outros tons claros. Na mesma cena de infância já mencionada, os botões frontais de seu vestidinho são de pérolas. Elas aparecem posteriormente em botões e outros detalhes, como nas mangas do vestido que utiliza para ir a um baile com Thomas. Mas não é apenas isso: o tom perolado, como do vestido citado, bem como o branco, vai dominar sua paleta de cores, garantindo sua imagem de inocência. A parte da trama que transcorre nos Estados Unidos é fotografada com uma cálida iluminação amarela. Essa é outra cor que vai marcar a personagem, nesse momento em elementos como saias e acessórios, ligando-a a sua terra.

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Para destacar o amarelo, as paredes da casa de seu pai são predominantemente vermelhas. Já as figurantes na cena do baile formam uma massa em tons acobreados e de verde e amarelo pastel, compondo um degradê que emoldura a valsa dos dois enamorados.

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A leveza dos trajes de Edith contrasta com a restrição dos trajes de Lucille Sharpe (Jessica Chastain), irmã de Thomas. Seus vestidos são justos, com corpetes marcados, gola alta e mangas longas, confeccionados em veludo ou cetim. Não há um só movimento em Lucille que seja espontâneo. Tudo precisa ser calculado e sua roupa conota isso. Ainda nos Estados Unidos, vermelho vivo e preto são as cores que utiliza. Elas transmitem um senso de morbidez e perigo adequado à personagem.

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Edith e Thomas se casam rapidamente e se mudam para a mansão dos dois irmãos, na Inglaterra. A construção é um personagem por si só, responsável por criar a atmosfera adequada para o encaminhamento da trama. A falta do telhado no saguão principal traz para dentro da casa o clima de fora, seja as folhas secas ou a neve caindo. As paredes, manchadas e predominantemente verdes destacam o vermelho que aparecerá recorrentemente. A casa foi construída sobre uma mina de argila vermelha, que no inverno vem à tona manchando a neve e conferindo o nome ao cenário: a colina escarlate.

Lucille, em casa, prioriza o uso de cores escuras. Se nos Estados Unidos vestiu preto e seu irmão também, aqui ela usa frios tons fechados de azul e novamente é acompanhada por ele. Essa estratégia trata de ligar os dois. 007

No dia de sua chegada, Edith veste um casaco longo cinza, adornado com violetas e segura uma espécie de buquê da mesma flor. Tradicionalmente a violeta e sua cor são usados como símbolo de luto. Mas por baixo do casaco, ela usa um vestido de cor amarela.

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Desse momento em diante, os trajes de Edith seguem esse padrão: o amarelo cada vez mais intenso, beirando a cor de mostarda, ligando-a a sua casa, e elementos em tons escuros de luto, que a trazem para a casa nova.

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Quando está despida, utiliza uma longa camisola branca, com mangas bufantes, de tecido vaporoso e novamente com textura enrugada. A peça destaca a fragilidade da personagem, que se torna pequena em contraste com detalhes da cenografia, como os longos corredores, os grandes cômodos e a enorme poltrona da sala. A casa por si só parece ameaçadora, pois os adornos e esculturas projetam-se como estacas das paredes ou estalactites dos tetos.

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Comparar A Colina Escarlate com outros filmes, em virtude de sua temática ou estética, não é difícil. Thomas, com seus óculos escuros, remete facilmente ao personagem título de Drácula de Bram Stocker, de Francis Ford Coppola, especialmente por também se tratar de um romance gótico.
Edith, que não deseja ser uma Jane Austen, mas sim uma Mary Shelley, nada fala sobre as irmãs Brontë, responsáveis por clássicos da literatura gótica. Mas sua própria história guarda grande semelhança com Jane Eyre, livro escrito por Charlotte Brontë. Talvez Edith não seja tão decidida quanto Jane para manter distância daquele que ama, mas o clima fantasmagórico e sobrenatural, o romance trágico e mesmo a temática da mulher louca no sótão podem, em maior ou menor grau, ter paralelos em sua história. Coincidentemente Mia Wasikowska também encarnou a última versão de Jane Eyre, de 2011, dirigida por Cary Fukunaga. Ela e Tom Hiddleston também interpretaram cunhados em outro romance com clima trágico, Amantes Eternos, de Jim Jamursch, com figurino também analisado aqui.
Por fim, é fácil ver semelhanças entre Lucille e a Sra. Denvers, governanta do filme Rebecca de Alfred Hitchcock, bem como entre as casas de ambos os filmes. E se Lucille é contida pelos seus trajes, é a partir de quando tira seu corpete e liberta o próprio corpo que deixa de restringir suas ações e dá início ao ato final.

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Apesar de todas essas possíveis comparações, a estética de A Colina Escarlate é bastante única. Del Toro demonstra todo o cuidado com a criação de ambientação que case com a atmosfera fantasmagórica que deve emanar da história. O figurino de Kate Hawley não só é adequado para a época retratada, como, através de suas formas e paleta de cores, acrescenta camadas de interpretação aos personagens principais. O perigo, o trágico, o calor do pertencimento, a fragilidade, a sintonia: todos esses elementos são externados através das roupas dos personagens, tornando A Colina Escarlate uma narrativa ainda mais interessante visualmente.

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Corrente do Mal (It Follows, 2014)

Corrente do Mal parte de uma premissa bastante simples e eficiente: uma pessoa pode passar para outra uma espécie de maldição, através de uma relação sexual. A maldição consiste um uma coisa (it) que assume a forma humana e persegue sua vítima até mata-la, tornando o transmissor sua vítima seguinte e assim por diante. A morte transmitida como uma DST funciona como uma ironia em relação aos filmes slasher tradicionais, em que o sexo e sua expressão sempre são punidos. Mas, mais que isso, implica em uma questão moral extra para os personagens perseguidos: passar ou não passar a maldição adiante, sabendo o que vai acontecer com quem recebê-la?

O desespero da primeira vítima, já no começo do filme, planta a atmosfera que vai se estender ao longo dele. Aqui não há sustos criados apenas para o espectador pular cadeira, nem um banho de sangue de grandes proporções: há uma ameaça constante que rodeia a protagonista em um crescendo e transmite a tensão a quem a testemunha.

Jay (Maika Monroe) é uma jovem que adquire a maldição de maneira bastante traumática do rapaz com quem estava saindo. Após ser dopada, ele lhe explica os mecanismos de funcionamento do que vai acontecer, para que ela possa passar adiante e distanciar o perigo dele mesmo. Ela é acompanhada em suas desventuras por sua irmã, Kelly (Lili Sepe); a melhor amiga desta, Yara (Olivia Luccardi); seu namorico de infância, Paul (Keir Gilchrist) e seu vizinho Greg (Daniel Zovatto). Os jovens não são céticos em relação aos relatos de Jay e por isso prontamente formam uma equipe para ajudá-la.

A direção de arte compõe um universo atemporal, composto por tecnologias de épocas diferentes e outras que ainda não existem. Os carros e televisões são das décadas de 60 a 80, mas existem celulares e mesmo um inédito e-reader em forma de concha. Os aparelhos de TV exibem filmes B em preto e branco sobre ameaças externas, enquanto no cinema está em cartaz Charada, filme de Stanley Donen de 1963 sobre uma mulher que não sabe em quem confiar após ter herdado uma grande fortuna. São pequenas intervenções que ao mesmo tempo fornecem pistas sobre a temática do filme e tornam ainda mais ambígua a época em que se passa.

A eficiência do suspense está no fato de que a criatura pode vir de qualquer lugar e adquirir a forma de qualquer pessoa. Se por um lado o andar característico delata sua presença, por outro a sensação de proximidade e perigo são constantes. Com uma motivação sexual, a criatura ainda traz a tona a possibilidade de relações pautadas em complexos de Édipo ou de Electra, assumindo a forma dos pais sempre ausentes dos personagens.

A fotografia é belíssima e capta metáforas visuais relacionadas à inocência e sua perda: uma flor branca em contraste com uma unha vermelha  ou uma roupa casual em oposição a um scarpin vermelho dizem muito em termos visuais. Vermelho e rosa são cores constantemente utilizadas como alerta. A trilha sonora, bastante eficaz, remete ao trabalho de John Carpenter.

O subúrbio, com sua aparente calmaria, esconde o moralismo e o medo. Dirigido por David Robert Mitchell, Corrente do Mal é uma surpresa agradável dentro de um gênero que muitas vezes apela para o formulaico.

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