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Figurino: A Colina Escarlate

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Fantasmas são reais, isso eu sei. Eu os vi toda a minha vida …

Em cartaz nos cinemas, A Colina Escarlate é um romance gótico que se disfarça de história de terror. A protagonista, uma escritora chamada Edith Cushing (Mia Wasikowska), fala sobre suas obras algo que também se estende ao filme: são histórias com fantasmas, não histórias de fantasmas, pois eles representam o passado. O diretor Guillermo del Toro confeccionou a trama entremeada de elementos visualmente marcantes. A figurinista é Kate Hawley, que já havia trabalhado com ele em seu filme anterior, Círculo de Fogo.
Edith, filha única de um homem rico, é cortejada por Thomas Sharpe (Tom Hiddleston), um misterioso baronete vindo da Inglaterra. Quase nada se sabe sobre ele, mas sua situação financeira precária é percebida através de suas roupas. Isso é ressaltado pela própria Edith, que fala para seu pai que elas, embora bem cortadas, são de pelo menos uma década atrás.
A história se passa na segunda metade da década de 1890. Os trajes femininos deixavam de ter anquinhas e faziam a transição para as saias em forma de sino e os bustos volumosos que iriam caracterizar a primeira década de 1900.

Exemplos de vestidos utilizados na época.

 

As cinturas são marcadas e os ombros são destacados, o que pode ser percebido nos vestidos de Edith. Apesar disso, eles não restringem seu corpo: as camisas sempre são folgadas e os tecidos fluídos. Em um flashback, a vemos ainda criança, no enterro de sua mãe, trajada totalmente de preto, com um chapéu com uma textura rugosa na parte inferior, semelhante a um cogumelo visto por baixo. Essas rugosidades ou ranhuras são a textura que predominará nos tecidos usados em seus trajes, que também são por vezes adornados com dobras, como origamis.

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É possível ligar a personagem ao amarelo e outros tons claros. Na mesma cena de infância já mencionada, os botões frontais de seu vestidinho são de pérolas. Elas aparecem posteriormente em botões e outros detalhes, como nas mangas do vestido que utiliza para ir a um baile com Thomas. Mas não é apenas isso: o tom perolado, como do vestido citado, bem como o branco, vai dominar sua paleta de cores, garantindo sua imagem de inocência. A parte da trama que transcorre nos Estados Unidos é fotografada com uma cálida iluminação amarela. Essa é outra cor que vai marcar a personagem, nesse momento em elementos como saias e acessórios, ligando-a a sua terra.

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Para destacar o amarelo, as paredes da casa de seu pai são predominantemente vermelhas. Já as figurantes na cena do baile formam uma massa em tons acobreados e de verde e amarelo pastel, compondo um degradê que emoldura a valsa dos dois enamorados.

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A leveza dos trajes de Edith contrasta com a restrição dos trajes de Lucille Sharpe (Jessica Chastain), irmã de Thomas. Seus vestidos são justos, com corpetes marcados, gola alta e mangas longas, confeccionados em veludo ou cetim. Não há um só movimento em Lucille que seja espontâneo. Tudo precisa ser calculado e sua roupa conota isso. Ainda nos Estados Unidos, vermelho vivo e preto são as cores que utiliza. Elas transmitem um senso de morbidez e perigo adequado à personagem.

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Edith e Thomas se casam rapidamente e se mudam para a mansão dos dois irmãos, na Inglaterra. A construção é um personagem por si só, responsável por criar a atmosfera adequada para o encaminhamento da trama. A falta do telhado no saguão principal traz para dentro da casa o clima de fora, seja as folhas secas ou a neve caindo. As paredes, manchadas e predominantemente verdes destacam o vermelho que aparecerá recorrentemente. A casa foi construída sobre uma mina de argila vermelha, que no inverno vem à tona manchando a neve e conferindo o nome ao cenário: a colina escarlate.

Lucille, em casa, prioriza o uso de cores escuras. Se nos Estados Unidos vestiu preto e seu irmão também, aqui ela usa frios tons fechados de azul e novamente é acompanhada por ele. Essa estratégia trata de ligar os dois. 007

No dia de sua chegada, Edith veste um casaco longo cinza, adornado com violetas e segura uma espécie de buquê da mesma flor. Tradicionalmente a violeta e sua cor são usados como símbolo de luto. Mas por baixo do casaco, ela usa um vestido de cor amarela.

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Desse momento em diante, os trajes de Edith seguem esse padrão: o amarelo cada vez mais intenso, beirando a cor de mostarda, ligando-a a sua casa, e elementos em tons escuros de luto, que a trazem para a casa nova.

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Quando está despida, utiliza uma longa camisola branca, com mangas bufantes, de tecido vaporoso e novamente com textura enrugada. A peça destaca a fragilidade da personagem, que se torna pequena em contraste com detalhes da cenografia, como os longos corredores, os grandes cômodos e a enorme poltrona da sala. A casa por si só parece ameaçadora, pois os adornos e esculturas projetam-se como estacas das paredes ou estalactites dos tetos.

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Comparar A Colina Escarlate com outros filmes, em virtude de sua temática ou estética, não é difícil. Thomas, com seus óculos escuros, remete facilmente ao personagem título de Drácula de Bram Stocker, de Francis Ford Coppola, especialmente por também se tratar de um romance gótico.
Edith, que não deseja ser uma Jane Austen, mas sim uma Mary Shelley, nada fala sobre as irmãs Brontë, responsáveis por clássicos da literatura gótica. Mas sua própria história guarda grande semelhança com Jane Eyre, livro escrito por Charlotte Brontë. Talvez Edith não seja tão decidida quanto Jane para manter distância daquele que ama, mas o clima fantasmagórico e sobrenatural, o romance trágico e mesmo a temática da mulher louca no sótão podem, em maior ou menor grau, ter paralelos em sua história. Coincidentemente Mia Wasikowska também encarnou a última versão de Jane Eyre, de 2011, dirigida por Cary Fukunaga. Ela e Tom Hiddleston também interpretaram cunhados em outro romance com clima trágico, Amantes Eternos, de Jim Jamursch, com figurino também analisado aqui.
Por fim, é fácil ver semelhanças entre Lucille e a Sra. Denvers, governanta do filme Rebecca de Alfred Hitchcock, bem como entre as casas de ambos os filmes. E se Lucille é contida pelos seus trajes, é a partir de quando tira seu corpete e liberta o próprio corpo que deixa de restringir suas ações e dá início ao ato final.

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Apesar de todas essas possíveis comparações, a estética de A Colina Escarlate é bastante única. Del Toro demonstra todo o cuidado com a criação de ambientação que case com a atmosfera fantasmagórica que deve emanar da história. O figurino de Kate Hawley não só é adequado para a época retratada, como, através de suas formas e paleta de cores, acrescenta camadas de interpretação aos personagens principais. O perigo, o trágico, o calor do pertencimento, a fragilidade, a sintonia: todos esses elementos são externados através das roupas dos personagens, tornando A Colina Escarlate uma narrativa ainda mais interessante visualmente.

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Corrente do Mal (It Follows, 2014)

Corrente do Mal parte de uma premissa bastante simples e eficiente: uma pessoa pode passar para outra uma espécie de maldição, através de uma relação sexual. A maldição consiste um uma coisa (it) que assume a forma humana e persegue sua vítima até mata-la, tornando o transmissor sua vítima seguinte e assim por diante. A morte transmitida como uma DST funciona como uma ironia em relação aos filmes slasher tradicionais, em que o sexo e sua expressão sempre são punidos. Mas, mais que isso, implica em uma questão moral extra para os personagens perseguidos: passar ou não passar a maldição adiante, sabendo o que vai acontecer com quem recebê-la?

O desespero da primeira vítima, já no começo do filme, planta a atmosfera que vai se estender ao longo dele. Aqui não há sustos criados apenas para o espectador pular cadeira, nem um banho de sangue de grandes proporções: há uma ameaça constante que rodeia a protagonista em um crescendo e transmite a tensão a quem a testemunha.

Jay (Maika Monroe) é uma jovem que adquire a maldição de maneira bastante traumática do rapaz com quem estava saindo. Após ser dopada, ele lhe explica os mecanismos de funcionamento do que vai acontecer, para que ela possa passar adiante e distanciar o perigo dele mesmo. Ela é acompanhada em suas desventuras por sua irmã, Kelly (Lili Sepe); a melhor amiga desta, Yara (Olivia Luccardi); seu namorico de infância, Paul (Keir Gilchrist) e seu vizinho Greg (Daniel Zovatto). Os jovens não são céticos em relação aos relatos de Jay e por isso prontamente formam uma equipe para ajudá-la.

A direção de arte compõe um universo atemporal, composto por tecnologias de épocas diferentes e outras que ainda não existem. Os carros e televisões são das décadas de 60 a 80, mas existem celulares e mesmo um inédito e-reader em forma de concha. Os aparelhos de TV exibem filmes B em preto e branco sobre ameaças externas, enquanto no cinema está em cartaz Charada, filme de Stanley Donen de 1963 sobre uma mulher que não sabe em quem confiar após ter herdado uma grande fortuna. São pequenas intervenções que ao mesmo tempo fornecem pistas sobre a temática do filme e tornam ainda mais ambígua a época em que se passa.

A eficiência do suspense está no fato de que a criatura pode vir de qualquer lugar e adquirir a forma de qualquer pessoa. Se por um lado o andar característico delata sua presença, por outro a sensação de proximidade e perigo são constantes. Com uma motivação sexual, a criatura ainda traz a tona a possibilidade de relações pautadas em complexos de Édipo ou de Electra, assumindo a forma dos pais sempre ausentes dos personagens.

A fotografia é belíssima e capta metáforas visuais relacionadas à inocência e sua perda: uma flor branca em contraste com uma unha vermelha  ou uma roupa casual em oposição a um scarpin vermelho dizem muito em termos visuais. Vermelho e rosa são cores constantemente utilizadas como alerta. A trilha sonora, bastante eficaz, remete ao trabalho de John Carpenter.

O subúrbio, com sua aparente calmaria, esconde o moralismo e o medo. Dirigido por David Robert Mitchell, Corrente do Mal é uma surpresa agradável dentro de um gênero que muitas vezes apela para o formulaico.

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Os Primeiros Longas de von Trier

Dando continuidade à análise da filmografia do diretor Lars von Trier, do qual já escrevi sobre os primeiros curtas de sua carreira, chego agora aos primeiros longas que produziu.

Pode-se dizer que Befrielsesbilleder (1982) é uma obra de transição e por isso também foi citado no texto anterior. Encaixa-se na proposta de seus curtas, mas já se relaciona estética e tematicamente com os filmes seguintes. Pode-se dizer que o começo de sua filmografia será marcada pelo monocromatismo, já aqui presente. O filme é dividido em três fases: vermelho, amarelo e verde. A história, sobre a Europa na II Guerra Mundial, indica o tema que vai marcar sua primeira trilogia, como falarei adiante.

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Fase vermelha de Befrielsesbilleder.

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Fase vermelha de Befrielsesbilleder.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fase amarela de Befrielsesbilleder

Fase amarela de Befrielsesbilleder.

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Fase amarela de Befrielsesbilleder.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Fase verde de Befrielsesbilleder

Fase verde de Befrielsesbilleder.

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Fase verde de Befrielsesbilleder.

 

 

 

 

 

 

 

O próximo filme é Elemento de um Crime (1984), o primeiro da Trilogia Europa, que trata dos traumas do continente no passado e no futuro. Esse noir em sépia se passa em uma Europa distópica em que um detetive investiga assassinatos de um serial killer com auxílio de um veterano autor de um livro sobre como solucionar crimes. A chuva cai o tempo inteiro, criando um clima melancólico. Existe um desnível de hierarquia entre os personagens masculinos e os femininos, sendo que os primeiros são os que perpetram a violência. Em determinada cena essa diferença é salientada pelo fato de o protagonista estar completamente vestido, enquanto a mulher que lhe faz companhia está vulnerável, nua, sem nada para proteger-se. Há muita experimentação com o movimento de câmera e com os enquadramentos. Como em muitos filmes do diretor, ele faz uma pequena participação. Algumas rimas visuais perpassam a história e destaco o momento chave em que uma mulher quebra uma janela para fugir e posteriormente, uma garotinha faz o mesmo, ressaltando o papel de vilão daquele que lhes faz companhia.

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Elemento de um Crime e seu tom sépia.

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Lars von Trier, à direita, fazendo uma ponta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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As duas mulheres quebrando o vidro da janela, em momentos distintos, para fugir de quem se revela o vilão do filme.

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As duas mulheres quebrando o vidro da janela, em momentos distintos, para fugir de quem se revela o vilão do filme.

 

 

 

 

 

 

 

O filme seguinte, Epidemic (1987) cria uma meta-trama interessante, em preto e branco, com elementos de história, ficção científica e terror. Dois jovens roteiristas, Lars e Niels, interpretados por Lars von Trier e o roteirista Niels Vørsel, perdem o roteiro em que estavam trabalhando há um ano e meio e se fecham no apartamento por alguns dias para criar algo novo para mostrar aos investidores. Quando Niels datilografa o título “Epidemic” na folha de papel em branco, as letras aparecem uma a uma na tela, formando uma marca d’água que permanecerá até o fim do filme. A história por ele proposta é a respeito de um jovem idealista, em uma Europa medieval, que abandona sua fortificação pensando em buscar a cura para a praga que se espalha e, dessa forma, acaba por condenar sua cidade. Enquanto a narrativa avança, sinais apontados para o avanço da praga aparecem no momento contemporâneo aos autores, com consequências extremas ao final. Em se tratando de roteiro é o que se estrutura de forma mais arrojada dentre seus primeiro trabalhos.

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Niels escrevendo.

Marca d'água com o nome do roteiro e do filme

Marca d’água com o nome do roteiro e do filme.

 

 

 

 

 

 

Após Epidemic, vem um filme que não faz parte da trilogia Europa, uma fez que foi feito para televisão. Trata-se de Medea, baseado na personagem mítica grega que foi companheira de Jasão (dos Argonautas) e foi abandonada por ele com seus dois filhos, pois ele pretendia tornar-se rei ao casar-se com Glaucia, a filha de um rei. O roteiro é de Carl Theodor Dreyer e apesar das limitações técnica da mídia então, von Trier consegue construir um filme intenso e que utiliza a paisagem como ambiente mental da protagonista, da maneira como Dreyer fazia em seus filmes, como A Palavra. O sofrimento feminino, que aparece em obras posteriores de von Trier, aqui é derramado nas palavras da trágica protagonista: “Silenciosamente submissas em corpo e dever, que direitos tem as mulheres?” e “Se pelo menos os homens pudessem ter filhos sem mulheres”. O filme faz uso de projeções ao fundo da imagem, o que vai marcar seu trabalho seguinte.

A última parte da trilogia Europa é composta por Europa (1991), outro noir, dessa vez em preto e branco. A sua história se passa na Alemanha em 1945, logo após o fim da guerra e tem mais um protagonista idealista, que pretende ajudar mas se vê impotente. O jovem veio dos Estados Unidos para o país pensando em ajudar nesse período conturbando e acreditando, erroneamente, que conseguiria fazê-lo sem se envolver com a situação política. O clima é tão carregado de irrealidade que quase parece se tratar de uma distopia. Utilizando projeções, o diretor acrescenta cor em cenas que se mostram chave para a narrativa; e marca em vermelho elementos de grande importância. Em determinada cena, o casal conversa e apenas o homem é colorido quando ele está no controle do diálogo. No equilíbrio, ambos se apresentam em cor e quando, por fim, a mulher passa a dominar a negociação de poder, apenas ela se colore. Em outro momento, um personagem se corta e as gotas de seu sangue caem vermelhas na água da banheira, antecedendo uma sequência em que tudo adquire cor (apesar do cenário e figurinos preto e branco, antecipando uma enchente de vermelho.

Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores

Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores.

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Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores.

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Negociação de poder no diálogo representada através do uso de cores.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue

Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue.

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Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue.

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Transição do preto e branco para o colorido, visando destacar o sangue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aliás, o uso de personagens agitando a placidez da água parada para se verem refletidos no espelho irregular que se forma, refletindo a sua própria agitação mental, é outro elemento visual recorrente desses filmes, presente em Elemento de um Crime, Medea e neste Europa. 

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Elemento de um Crime.

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Elemento de um Crime.

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Medea.

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Medea.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Europa.

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Europa.

 

 

 

 

 

 

 

 

O que todos estes filmes tem em comum, além da temática relacionada ao continente europeu, é um grande rigor estético por parte de Lars von Trier, bem como grande experimentação em termos técnicos, típica de um jovem diretor em busca de uma linguagem própria.

Para saber mais sobre a obra de Lars von Trier, ouça o podcast do Cinema em Cena sobre o diretor.

 

 

 

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The Babadook (2014)

O filme de terror australiano The Babadook, apesar de ainda não ter chegado oficialmente no Brasil (e não ter data para isso acontecer), tem gerado burburinho nas redes sociais. Nos últimos anos temos percebido um grande número de trabalhos criativos e bem realizados no gênero, que permitem que diretores menos experientes e com menos verba explorem a criação de clima e a produção de imagens interessantes. Experimentar com os medos humanos pode ser tarefa ingrata. As pessoas costumam ter medos primordiais do desconhecido: do escuro, da morte ou do que pode haver depois dela. Mas lidar com esses medos pode gerar reações defensivas no espectador, que se fecha para a trama, ridicularizando-o e negando essa a possibilidade de existência do que é apresentado.

Em Babadook isso não acontece. Primeiro longa dirigido por Jennifer Kent, o filme apresenta um sentimento comum como fonte de terror: o luto. Na trama, Amelia (Essie Davis) é uma viúva que cuida sozinha de seu filho. Seu companheiro morreu em um acidente de carro levando-a ao hospital para ter o bebê. Samuel (Noah Wiseman) agora tem quase 7 anos e é uma criança difícil, extremamente ativa e com problemas de relacionamento na escola. A mãe não consegue descansar e desde o começo da história é possível ver claramente os conflitos entre os dois.

O filho nutre uma relação profundamente edipiana com a mãe. Falas como “nunca sairei do seu lado, mamãe”, seu extremo apego e cenas como uma em que ele entra no quarto dela no momento em que ela se masturba, interrompendo-a sem perceber apenas ilustram esse fato. A mãe é mostrada como uma mulher que, ao trocar o companheiro pelo filho, teve sua vida sexual podada e a frustração é demonstrada em uma cena em que observa um casal ficando dentro de um carro. O garoto tem medo de um monstro que possa viver debaixo de sua cama ou dentro do armário. Após um misterioso livro aparecer, contando a historinha do Senhor Babadook (uma espécie de monstro do armário) seu medo parece se materializar na forma dele. Aterrorizando o menino e mudando o comportamento da mãe, o monstro não pode ser entendido como algo literal: ele significa o luto com que a mãe lida nos últimos anos. Os problemas de relacionamento com o filho, o desejo secreto de que seu pai tivesse sobrevivido ao invés dele, a saudade que tem deste: tudo isso se manifesta na forma do medo do filho, como uma forma de externar a raiva secreta que Amelia sente dele. Por isso a historinha diz que senhor Babadook entra na casa porque você deixa entrar e ele cresce dentro de você.

The Babadook não é um filme exatamente assustador e esse é um de seus maiores problemas. Mas ele é bem sucedido em criar momentos de grande tensão fazendo uso de imagens muito bonitas e atuações intensas dos dois protagonistas. Não se pode se livrar do Babadook. Pode-se fingir que ele foi embora e continuar alimentando-o em algum porão de sua mente.

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Figurino: Drácula- orientalismo, uso de cores e sexualidade

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 30/07/2014.

I have crossed oceans of time to find you.

Como figurinos atendem a demandas específicas para a composição dos personagens, demandas estas que se encaixam na visão geral que o diretor tem sobre a obra, raramente um figurinista consegue ser autoral. Eiko Ishioka é uma profissional a quem se pode aplicar esse rótulo: com pouquíssimos filmes em sua filmografia, suas peças são facilmente identificáveis. É nítida sua preferência por cores sólidas, as suas referências, como o barroco e o vestuário tradicional japonês e as formas esculturais bem como o cuidado em relação a detalhes e acessórios complementares.
Drácula de Bram Stoker, dirigido por Francis Ford Copolla, foi uma produção que não contou com vasta verba para locações e criações de cenários. A figurinista atendeu a essa necessidade, além de a de ter um clima de terror dramático, baseado no estranho. Por isso seu trabalho brilhou e foi agraciada com o único Oscar de sua carreira.
Conforme já informado no título, o filme é baseado no livro Drácula, escrito por Bram Stoker. O romance gótico sobre o famoso vampiro é traduzido de uma forma que reflete o temor vitoriano em torno da sexualidade, especialmente a feminina, temática essa que se reflete em outro filme inspirado pela obra e já aqui analisado: Segredos de Sangue.
Sexo, perigo, paixão e sangue: todos esses elementos podem ser identificados pela cor vermelha. Não é à toa que Eiko Ishioka escolheu-a para representar Drácula (Gary Oldman). Ainda em 1562, quando jovem e humano, lutando pelo cristianismo, utiliza uma armadura na cor, com desenho intrigante de feixes que lembram um corpo humano sem a pele, desnudando os músculos.

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Após o suicídio, sua amada Elisabeta (Winona Ryder), em contrapartida, traja um vestido verde com bordados em dourado compondo ramos. No peito traz bordado um dragão, animal símbolo da ordem de Dracul, de onde o personagem principal tomou o nome. O traje vai sei ser referenciado outras vezes ao longo do filme.

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Já em 1897, quando conhecemos Mina (Winona Ryder), esta usa trajes em tons claros de azul, para realçar sua aura virginal. Em conversas com sua amiga Lucy (Sadie Frost), demonstra ao mesmo tempo interesse e desconforto em relação à ideia da consumação de seu futuro matrimônio com o jovem advogado Jonathan Harker (Keanu Reeves). Além da cor azul, os vestidos de Mina sempre apresentam alguma forma de bordado de galhos ou ramos, conectando-a a Elisabeta.

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Já quando Lucy é apresentada, veste-se de branco, como o fazem as noivas de Drácula, que veremos mais à frente. Em certa cena em que as duas amigas conversam no jardim e uma tempestade causada por Drácula está se formando, o vestido de Lucy é confeccionado com tecido tão fino que é possível enxergar a estrutura de sua anquinha e vislumbrar que sob ele não utiliza nenhum tipo de anágua. No filme a personagem lida com sua sexualidade forma aberta, brincando com seus três pretendentes.

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Estes, aliás, embora não sejam personagens particularmente desenvolvidos, são suficientemente diferenciados através do seu vestir: o nobre que se veste com uma elegância tradicional e afetada; o médico, com a forma de vestir discreta da pequena burguesia; e o americano novo rico, exagerado e bufão.

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Em suas terras na Transilvânia, envelhecido, Drácula se veste com uma túnica clara e sobre ela uma capa vermelha, ambas com bordados em dourado. Na capa o padrão que aparece é novamente de dragões. Suas mangas que se estreitam; sua gola, alta e rígida como de um quimono; e sua extensão exagerada conferem-lhe dramaticidade.

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Drácula não se aproxima de Mina imediatamente. Primeiramente, em sua forma animalesca, seduz Lucy. Ela sai de seus aposentos já vestida de vermelho. O vampirismo é como uma punição pelo seu comportamento. Quando seu quadro se agrava e fica de cama, sua camisola também é vermelha, ligando-a a Drácula.

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Quando ela morre, é enterrada com seu vestido de noiva. O traje exagerado, com gola alta e mangas longas, cobre todo seu corpo e esconde suas formas, não marcando sequer sua cintura. A jovem deveria levar o casamento que nem chegou a acontecer junto consigo para seu túmulo. Nessa lógica da moral vitoriana, o casamento marcaria a relação sexual permitida dentro de normas de comportamento, bem como o controle sobre o corpo feminino.

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As noivas de Drácula vestem-se de branco e dourado de uma forma que remete a trajes gregos da antiguidade.

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A formas também recebem inspiração da moda europeia das décadas de 1910 e 1920, quando o continente foi invadido por influências do assim chamado Oriente. Os trajes de então receberam cortes, elementos de adorno e bordados para lembrar de elementos das culturas chinesa, japonesa, indiana e mesmo do da antiguidade egípcia.

Exemplos de roupas do início do século XX que tem influência de uma visão do “Oriente” como origem de exotismo.

Exemplos de roupas do início do século XX que tem influência de uma visão do “Oriente” como origem de exotismo.

Mina troca o azul claro pelo verde quando é avistada por Drácula pela primeira vez nas ruas de Londres. Bordados de ramos adornam o traje, mas dessa vez de forma mais perceptível, em tom contrastante, ligando-a a Elisabeta e captando a atenção de Drácula irremediavelmente.

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Quando ambos bebem absinto juntos, ela aparece com os cabelos soltos pela primeira vez, como um sinal de que está liberta da repressão que a envolvia até então. Também utiliza um vestido em vermelho vibrante, deixando claro sua inclinação em relação a ele. Drácula, por sua vez, veste uma casaca com ramos dourados bordados de maneira que há uma troca recíproca de elementos visuais que marcam o interesse amoroso.

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Mina retrocede e volta a vestir azul claro quando recebe uma carta de Jonathan relatando que está vivo. Mais que isso, não é qualquer vestido azul claro: é o mesmo de quando havia se despedido dele, de forma que a sua relação é retomada daquele momento.

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Ela se casa de cinza e passa então a adotar essa cor em seus trajes. Toda a efusividade de sentimentos que compartilhava com Drácula inexiste em seu casamento com Jonathan. Este, inclusive, jamais é mostrado tendo com ela o mesmo tipo de experiência arrebatadora que compartilhou com as noivas de Drácula. Não há nenhum lampejo de desejo entre os dois.

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Quando foge para o lado de Drácula, Mina veste um traje em verde, demonstrando que é definitivamente sua amada.

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Já ele traja uma túnica dourada que parece ter como inspiração os quadros de Gustav Klimt e os mosaicos bizantinos (estes últimos de forma bastante adequada tendo em vista que ele havia lutado na queda de Constantinopla).

Túnica de Drácula; O Beijo, de Gustav Klimt; e mosaico da Basílica de Santa Sofia, em Istambul.

Túnica de Drácula; O Beijo, de Gustav Klimt; e mosaico da Basílica de Santa Sofia, em Istambul.

Drácula de Bram Stoker funciona um conto de advertência sobre a sexualidade feminina, carregado de espírito gótico vitoriano e de grotesco, cheio de vitalidade e belíssimo em sua forma. Obtido com o talento de seus realizadores mesmo em meio à falta de recursos, o visual do filme é talvez sua maior qualidade. A narrativa é marcada pelas cores e elementos que se repetem, sem que isso jamais seja feito de forma simplista. Mais que uma figurinista, Eiko Ishioka era uma artista que esculpia trajes que contavam histórias e intrigavam o observador.

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