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Missão: Impossível- Efeito Fallout (Missão: Impossível- Fallout, 2018)

É comum se dizer que Tom Cruise é um dos últimos astros à moda antiga: carrega consigo sua persona dentro e fora das telonas e ainda é capaz de atrair bilheteria apenas com seu nome. Apesar das notícias relacionadas à sua religião, a cientologia, como o afastamento de sua filha mais nova, Suri, seu sucesso não se abala. E com Missão: Impossível- Efeito Fallout, sexto filme da franquia que chega a vinte e dois anos de idade, mostra que continua carregando Ethan Hunt, seu protagonista, com carisma, mostrando porque os filmes de ação são onipresentes em sua carreira nos últimos anos.

O filme é dirigido por Christopher McQuarrie,o primeiro diretor a trabalhar duas vezes na série, retornando após Missão: Impossível – Nação Secreta (Mission: Impossible – Rogue Nation, 2015). Com isso ele dá continuidade de maneira direta àquela trama. Solomon Lane (Sean Harris), terrorista anarquista preso no filme anterior, aparece novamente, mas dessa vez o Sindicato, como se chama o grupo que lidera, é comandado pelo anônimo John Lark que afirma que “quanto maior o sofrimento, maior a paz”. Por isso pretende matar cerca de um terço da população mundial com a detonação de uma bomba nuclear na divisa entre China e Paquistão. Política não é a força do roteiro e é utilizada apenas para dar sentido às reviravoltas mirabolantes.

O humor continua sendo, justamente, um ponto forte, marcado na presença recorrente dos personagens Luther (Ving Rhames) e Benji (Simon Pegg). A eles soma-se August Walker (Henry Cavill), simpático em seu bigode mas muitas vezes bastante inabilidoso ao ler suas falas. O absurdo manifestado nas máscaras de borracha que imitam perfeitamente o rosto de outra pessoa, apenas para revelar a identidade real por trás delas continua sendo utilizado com sucesso. É uma estratégia que lembra as tramas rocambolescas de Scooby Doo, mas que é efetivo, resgatando o clima de espionagem exagerado, pautado na Guerra Fria, que permeava o seriado de televisão que originou os filmes. Em certo momento é falado que eles agem como se fosse Halloween: adultos mascarados falando “gostosuras ou travessuras”. Mas, como a própria trama trata de assegurar, essa é parte da sua graça.

É uma pena que o carinho dedicado à equipe masculina não se estenda às mulheres do elenco. A vilã Viúva Branca (Vanessa Kirby) é desperdiçada em subtramas que ao final são descartadas. Erica Sloan (Angela Basset) é responsável por algumas das piores decisões do filme, ao não confiar na IMF. E mesmo Ilsa Faust (Rebecca Ferguson), que foi introduzida na película anterior como uma personagem de destaque, aqui se divide entre o papel de antagonista inexplicável, interesse amoroso e até mesmo donzela em perigo (por mais que ela mesma se salve). Pelo menos se manteve o cuidado em relação ao seu figurino e é possível vê-la de paletó e sapatilha, perfeitamente confortável para lutar em uma sequência de ação movimentada em uma casa noturna. A volta à cena da primeira esposa de Ethan, Julia (Michelle Monaghan) desvela a escrita fraca e preguiçosa por trás de ambas, que, em uma construção genérica de destreza e destemor, acabam por serem praticamente intercambiáveis.

Como nos demais filmes da franquia, as set pieces chamam atenção e entre elas há uma cena de luta em um banheiro particularmente frenética. Tom Cruise corre, como sempre, e segue fazendo suas cenas sem dublês. Mas nem tudo funciona. Uma longa perseguições de carros em Paris se torna rapidamente repetitiva. Um veículo preso em um lugar alto ameaçando cair sobre as pessoas abaixo e uma luta perto de um desfiladeiro já foram feitos melhor em Jurassic Park: Parque dos Dinossauros (1993) e Pantera Negra (2018), por exemplo. Mas a sequência que se destaca é a que tem sido utilizada para divulgar o filme: uma perseguição de helicópteros que bailam entrem penhascos e montanhas.

Apesar dos deslizes, Missão: Impossível – Efeito Fallout é um filme que diverte e entretém, mostrando que a franquia não só se mantem consistente, como ainda tem fôlego para seguir em frente, enquanto o físico e disposição de seu astro permitirem.

Nota: 3,5 de 5 estrelas

 

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Figurino: A Lenda

Publicado originalmente na coluna Vestindo o Filme em 06/11/2015.

O que é Luz sem Escuridão?

Ridley Scott é sempre lembrado pelos seus dois grandes filmes: Alien, o Oitavo Passageiro (1979) e Blade Runner, o Caçador de Androides (1982). Mas na esteira desses veio um filme muito menos lembrado: A Lenda (1985). Trata-se de um filme de fantasia feito em uma época em que o gênero reapareceu com força e, como outros filmes do diretor, possui diversas versões, incluindo a sua própria. A história se constrói através de arquétipos ligeiramente distorcidos, com metáforas míticas e em um mundo em que nada é preto e branco, embora possa parecer na aparência. Há um grande cuidado com a direção de arte e o figurino de  , bem como a maquiagem, indicada ao Oscar, se destacam.
A princesa Lili (Mia Sara) encarna a inocência, mas uma inocência constantemente pronta a desafiar. Seu vestido nunca chega a ser completamente branco, ressaltando isso: off-white e creme compõem suas cores no começo da história. As mangas longas e partidas, a saia reta e a amarração frontal são detalhes que o levam para uma versão fantasiosa do que seria a nossa Idade Média. Seus cetins contrastam com os trajes de algodão utilizados pelos aldeões que visita. Na casa de uma delas, tem uma visão do relógio cuco congelando com a Dona Morte para fora, numa previsão dos acontecimentos que se seguiriam.

Seu amigo Jack (Tom Cruise) é um ser da floresta, vestido com trapos verdes e rasgados. Embora a inocência de Lili é sempre reafirmada, ela instiga os sentimentos dele, desafiando-o a beijá-la, como numa brincadeira de provocação. Essa mesma brincadeira é utilizada para que Jack faça algo que sabe ser errado e mesmo proibido: levá-la para ver as criaturas mais sagradas, um casal de unicórnios que habita a floresta.

Lili desafia Jack a encontrar seu anel, adornado com um sol e uma lua, para que possa casar-se com ela. Os dois elementos são a oposição entre o dia e a noite, mas se completam, como a princesa e o garoto da floresta, mas também como a Luz e a Escuridão, como o próprio Senhor da Escuridão (Tim Curry) afirma.

Em paralelo, o Senhor da Escuridão envia seus goblins para matar os unicórnios. Lili e Jack mal sabiam que o seu contato com os animais míticos facilitou o trabalho daqueles, que conseguem acertar um dardo envenenado no unicórnio macho. Um goblin fala a respeito do unicórnio sobrevivente que este é “apenas uma fêmea, sem poder”. Mas o Senhor da Escuridão responde que ela possui o poder da criação. A partir daí o mundo cai em um grande inverno de tristeza. Nesse momento o filme funciona como uma parábola da perda da inocência. Isso já fica patente na relação entre Lili e Jack. Quando se aproxima dos unicórnios, Jack, encantado pela beleza de Lili, arranca dois lírios (lily, em inglês) que estão em sua frente, flor constantemente utilizada para simbolizar pureza e castidade. Paralelos podem ser traçado entre Adão e Eva e a expulsão do paraíso, após Eva incentivar Adão a comer do fruto da Árvore do Conhecimento; e Lili incentivando Jack a levá-la aos unicórnios e a posterior desolação desse mundo.

Lili vaga pela neve cheia de culpa e acaba por chegar ao palácio do Senhor da Escuridão, com seu vestido em frangalhos, como se muito tempo tivesse se passado.

Lili não agiu guiada pela maldade: foi a curiosidade que a levou a fazer o que fez. Sua predominante inocência atrai o vilão. Mas para conquistá-la efetivamente, precisa que ela se aproxime dele em intensões e por isso a seduz através do desejo. “Tente-a, ganhe-a, faça-a um de nós”, diz uma voz. O desejo é manifestado na Cobiça pelos objetos de seu salão, cheios de riqueza, mas culmina na Luxúria, através dança sedutora com a mulher de sombras, que a atrai e acaba por transformá-la em uma rainha vestida em ricos tecidos negros, com uma gola de dimensões exageradas, para efeito dramático e com um profundo decote até a cintura e meias arrastão. A maquiagem é escura e pesada. A maior exposição do corpo da personagem, como que manifestando a sua sexualidade, marca sua passagem para a Escuridão. O próprio Senhor da Escuridão apresenta-se com peito nu e uma longa capa.


Talvez por Lili encarnar essa inocência dual, o foco do filme tantas vezes se volte para seus olhos.

Além de Lili, o filme não poupa a outra personagem feminina que tem papel ativo na trama. Blix, a fada que auxilia Jack juntamente com os elfos, é retratada de forma a acentuar o mundo de cinzas que compõe o filme. Envolta em gazes da cor da sua pele finas como o tecido de suas asas, com seus cabelos finos eriçados, sua aparência evoca uma fragilidade que é oposta ao seu verdadeiro caráter. Ela não é estritamente boa e por causa de seu egoísmo tenta enganar o herói, iludindo-o com visões de seus desejos, para satisfazer os dela. A maneira como sua explosão de raiva é retratada com labaredas de fogo ao fundo é no mínimo sugestiva. De toda forma, por mais que a personagem demonstre suas vontades e seu egoísmo, ela é capaz de pensar em um contexto maior e abrir mão de tudo pelo bem de terceiros.

Ao final do filme, Jack literalmente aparece com uma armadura dourada, uma cota em escamas, pronto para salvar Lili, mas com as pernas desnudas como a criatura da floresta que sempre será. Mas Lili demostra ter controle sobre seus desejos e ser capaz de se posicionar contra o Senhor da Escuridão. Ela é quem salva o unicórnio, o que restaura a ordem do mundo.

É possível que a temática aparentemente infantil tenha prejudicado a recepção desse filme na época em que foi lançado. Mas de qualquer forma pode-se dizer que tecnicamente sua execução é muito boa: as maquiagens, bem como os efeitos práticos e os cenários são muito bonitos. Charles Knode, que já havia trabalhado com Ridley Scott em Blade Runner (que já foi comentado aqui), criou um figurino conciso, com poucas trocas de roupa, mas que se encaixa perfeitamente com o clima necessário para a história. A Lenda pode não ser um dos filmes consagrados de Ridley Scott, mas ainda assim é capaz de encantar.

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Personagens Femininas e Seus Figurinos em Filmes de Ação

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Esse espaço sempre foi utilizado para discutir figurinos no cinema, oras partindo para interpretações subjetivos, oras pensando em termos de contexto histórico ou social. Invariavelmente escapam análises que vão para além do figurino e se estendem para a direção de arte como um todo, mas também para temas relacionados à representação, especialmente em se tratando de gênero. Dessa vez a proposta desse texto vai ser um pouco diferente: ao invés de focar em um filme, vou levantar alguns pontos a respeito dos figurinos utilizados por personagens femininas em filmes que envolvem ação e aventura, especialmente a falta de praticidade e de conforto proporcionada por eles. O foco é o cinema, mas como muitas vezes as mídias dialogam entre si, quadrinhos, videogame e televisão serão citados também.

Star Wars: Episódio VII- O Despertar da Força não estreou ainda, mas muitas pessoas já o esperam ansiosamente. Há poucos dias, na página de facebook do Star Wars, um fã da série deixou um comentário a respeito de uma nova personagem, Capitã Phasma, também chamada de Chrome Trooper, cuja imagem já havia sido divulgada. Ele afirmou o que pode ser traduzido como: “Não quero ser sexista, mas é realmente difícil para mim dizer que essa é uma armadura feminina”. O “não quero ser sexista, mas…” já era sintomático, mas a equipe de social media da página respondeu de forma clara: “É uma armadura. Em uma mulher. Ela não precisa parecer feminina”.

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Imagem do comentário deixado na página do Star Wars e resposta da mesma.

 

Capitã Phasma, em foto divulgada pela revista Vanity Fair.

Capitã Phasma, em foto divulgada pela revista Vanity Fair.

O figurino de Star Wars é desenhado por Michael Kaplan, que começou sua carreira em Blade Runner (cujo figurino já foi analisado aqui) e essa personagem em particular tem o visual claramente inspirado nas roupas de stormtroopers dos outros filmes da franquia. Mas mesmo que não fosse o caso, a questão aqui é a sua proteção. Independente do gênero, essa é (ou deveria ser) a função de uma armadura. Uma armadura tradicional, feita para uma narrativa que se passa em um contexto medieval, de ficção científica ou de fantasia, vai ter, basicamente, as mesmas características. As placas principais vão cobrir cada parte das pernas e braços, um elmo ou capacete para a cabeça e uma grande placa peitoral para o tronco. As juntas sempre são o ponto fraco em se tratando da segurança, pois não podem ser rígidas, para preservar a mobilidade.

Mas o mais importante é: quem veste a armadura não está nu por baixo. Aparentemente, pela expectativa de certa parte do público, esse fato pode parecer inacreditável, mas a verdade é que seios no peitoral não fazem sentido, uma vez que a placa não está em contato direto com o corpo, seguindo suas formas. Uma mulher ou homem não só utilizarão pelo menos um tipo de camisa por baixo da armadura, como também algum material acolchoado, para evitar o impacto, de maneira que suas formas se perdem dentro da proteção. Mas, mais que isso, o ideal é que as laterais do peitoral tenham uma angulação maior que o peito da pessoa, para que lanças, flechas e outras armas arremessadas sobre ele deslizem sobre a superfície. Uma placa que tivesse o formato de seios faria sua portadora correr o risco de fraturar o esterno, pois a depressão entre eles funcionaria como uma cunha sob o impacto de um golpe.

Com seus impressionantes 1,91m de altura, a atriz Gwendoline Christie, que interpreta a Capitã Phasma, também encarna Brienne de Tarth, na série de televisão Game of Thrones. Lá a figurinista Michele Clapton também providenciou a ela uma armadura funcional e adequada às atividades da personagem. Percebe-se que a peça tem uma linha central no peitoral, marcando a inclinação para as laterais que ajuda na proteção.

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Existem bons exemplos de mulheres vestindo armaduras funcionais no cinema. A rainha Elizabeth I da Inglaterra, interpretada por Cate Blanchett com figurino de Alexandra Byrne no filme Elizabeth: A Era de Ouro, de 2007 é uma delas. A Branca de Neve de Kristen Stewart em Branca de Neve e o Caçador, de 2012 é outra. Nesse caso o figurino fica por conta de Colleen Atwood, que também foi responsável por O Silêncio dos Inocentes, cuja análise pode ser lida aqui. Ambas as personagens contam com proteções nos ombros e usam cotas de malha. A rainha veste uma peça decorada e talvez a cintura marcada não seja uma boa decisão, mas o peitoral tem um formato adequado. Branca de Neve ainda conta com calças de couro, bem como o braço de segurar o escudo no mesmo material.

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Entre os lançamentos dessa última temporada do verão americano, Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros também gerou muitos comentários a respeito de sua protagonista, Claire (Bryce Dallas Howard). Ela é retratada como uma pessoa rígida, focada no trabalho de administradora do parque e incapaz de se conectar com os sobrinhos que a estão visitando. Essas características são externadas pelo figurino impecavelmente claro, acompanhado de sapatos de salto alto beges, que destoam das roupas de lazer dos visitantes e das práticas dos demais trabalhadores dos bastidores do funcionamento. A personagem passa por todas as desventuras retratadas no filme sem jamais remover os fatídicos sapatos dos pés.

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A ideia parece ser de mostrar que ela é capaz de tudo: administrar o parque, correr na mata e atrair um tiranossauro sem jamais tirar o salto, como se isso fosse empoderador. Não que se deva cobrar realismo em um filme repleto de dinossauros vivos, mas exigir resistência sobre-humana de uma personagem (que, como tal, foi escrita e idealizada dessa maneira por alguém) reflete apenas os padrões irreais com que as mulheres são retratadas no cinema. E isso é válido mesmo que a ideia tenha partido da atriz, afinal, esse é o meio em que ela está envolvida. Uma pessoa que tenha passado pela experiência de andar sobre um salto sabe que é humanamente impossível correr como Claire corre e por tanto tempo. O contraste com a Doutora Ellie Sattler (Laura Dern) não poderia ser maior. A paleobotânica foi representada à vontade com sua roupa adequada ao trabalho de campo no primeiro Jurassic Park, de 1993.

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Não é à toa que, em Tudo Por uma Esmeralda, de 1984, dirigido por Robert Zemeckis, o aventureiro John T. Colton (Michael Douglas) quebra o salto dos sapatos de Joan Wilder (Kathleen Turner), quando ambos estão na selva.

gif esmeralda

Quando uma personagem é construída para ser uma profissional que tem que lidar com ação cotidianamente, isso tem que ser levado em conta. Por isso a construção de Ilsa Faust, interpretada por Rebecca Ferguson no novo Missão Impossível- Nação Secreta funciona quase como uma resposta a Claire. Espiã experiente, em determinado momento da trama Ilsa se veste com vestido longo e fluido, que não impede seus movimentos, além de sandálias de salto alto. O conjunto é necessário como disfarce, uma vez que ela está em uma ópera, o que pede traje de gala. Ainda assim, quando ela precisa fugir ao lado de Ethan Hunt (Tom Cruise), prontamente pede que ele retire seus calçados, pois sabe que eles não são ideais. Essa sequência pode ser vista no vídeo abaixo. No restante do filme a espiã sempre utiliza botas sem salto, adequadas para corrida.

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Há pouco tempo foi revelada a aparência da nova Mulher Maravilha (Gal Gadot), que vai participar do filme Batman vs Superman: A Origem da Justiça, previsto para o ano que vem; e de Liga da Justiça e do filme solo Mulher Maravilha, ambos previstos para 2017. O figurino é desenhado por Michael Wilkinson, que também já trabalhou em Noé e Trapaça, cujos figurinos podem ser conferidos aqui e aqui.

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Em primeiro lugar a bota possui um salto bastante alto, disfarçado como anabela. Também é possível perceber que o corpete da personagem é feito de um material rígido, como uma carapaça. Ora, detentora de super-força garantida pela deusa Deméter e multiplicada por dez vezes pelo seu bracelete de Atlas, a heroína não tem necessidade de uma roupa com armadura. Se fosse o caso, uma com o contorno dos seios, como essa, seria mais perigosa do que segura, conforme já explicado. Além disse ela necessitaria proteger braços e pernas também.

Como não precisa desse tipo de proteção, poderia se pensar em algum tipo de roupa mais prática para a movimentação. Os saltos definitivamente não se encaixam nesse quesito. É possível que sua hot pant tradicional também não seja a melhor opção e talvez calças confeccionadas em tecido com boa elasticidade o fossem. Foi assim que ela foi vestida no seriado de 2011 Wonder Woman, nunca lançado, quando foi interpretada por Adrianne Palicki.

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Mesmo assim, ambas contam com outro ponto de desconforto: o corpete tomara-que-caia. Novamente, qualquer pessoa que já teve a experiência de usar essa peça de vestuário sabe que ela não é a ideal para correr e pular e provavelmente a personagem levaria a mão mecanicamente ao decote, puxando-o para cima de tempos em tempos.

Ainda que o tomara-que-caia faça parte do visual clássico da personagem, em se tratando de uma adaptação de cinema, tudo é possível. Os uniformes dos heróis nos quadrinhos foram originalmente inspirados pelas roupas de artistas circenses, mas cada um passou por diversos modelos e formas ao longo dos anos e a pessoa responsável pelo figurino tem liberdade para tomar decisões a respeito do resultado final que almeja. Tanto é que que as cores escuras dessa versão cinematográfica, nesse caso, em nada correspondem ao azul e vermelho abertos comumente associados à heroína. E de toda forma, em sua última encarnação nos quadrinhos ela já aparece com calças e uma blusa fechada, que jamais teimariam em cair.

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Mesmo a Supergirl (Melissa Benoist), da série homônima que deve estrear esse ano, mantem o uniforme tradicional, mas com botas sem salto, saia mais longa e camiseta simples, com punhos presos aos dedos, passando a ideia de que nenhum tecido atrapalha seus movimentos. As meias-calças provavelmente vão puxar um fio e desfiar na primeira atividade física, mas, no geral, é o tipo de roupa que não é imprópria à ação. O figurino, aqui, também é desenhado por Colleen Atwood.

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As expectativas em termos de representação dos gêneros são bastante diferentes quando se leva em consideração o cinema de ação e aventura em geral. Tomemos um exemplo que talvez possa ser visto como extremo, mas que ilustra tal fato. Os dois personagens abaixo têm a mesma profissão, ainda que à primeira vista pareçam ter pouco em comum: ambos são arqueólogos.

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Indiana Jones (Harrison Ford) teve seu visual, com chapéu e jaqueta de couro, estabelecida em Os Caçadores da Arca Perdida, de 1981, pela figurinista Deborah Nadoolman (que também trabalhou no clássico da sessão da tarde Um Príncipe em Nova York). Enquanto busca por suas relíquias entre as décadas de 1930 e 1950, o personagem tem as pernas resguardadas de qualquer eventual arranhão, enquanto a jaqueta protege seus braços e tronco.

Já Lara Croft (Angelina Jolie), personagem contemporânea adaptada dos videogames, apareceu em dois filmes: Lara Croft: Tomb Raider, de 2001 e Lara Croft: Tomb Raider – A Origem da Vida, de 2003. Em ambos ela foi vestida pela figurinista Lindy Hemming. O que mais chama atenção é que suas pernas estão completamente desprotegidas para qualquer tipo de impacto que possa receber. Novamente optou-se por manter a aparência que ela possuía nos jogos, ignorando que uma nova mídia permitiria a alteração desta. Vale notar que em 2013 a personagem passou por uma remodelação, deixando seu físico mais realista e trocando os shorts por calças.

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Muitas vezes figurinistas, diretores e demais responsáveis pela aparência de personagens femininas em filmes que envolvem cenas de ação e aventura as colocam em um papel fetichizado, desnecessário para o desenvolvimento da trama e especialmente das próprias personagens. Outras vezes esse pode até não ser o caso, mas o retrato é preguiçoso e parece não levar em conta o ambiente em que elas estão inseridas e suas ações. As roupas de qualquer personagem, independente de gênero, deveriam ser pensadas de maneira a refletir as atividades que ele precisa desempenhar em cena. Personagens como Sarah Connor (Linda Hamilton)  e Ripley (Sigourney Weaver) sempre são lembradas quando os gêneros de seus filmes são citados e vestem uma roupa prática  e um macacão de uniforme, respetivamente.

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Ainda esse ano Imperatriz Furiosa, interpretada por Charlize Theron, roubou a cena em Mad Max: Estrada da Fúria, vestindo figurino de Jenny Beavan. A personagem fácil e rapidamente se transformou em um novo ícone feminista, tudo isso com uma roupa que não só não a objetifica, como faz todo sentido estética e conceitualmente no cenário distópico proposto pelo filme. Pelo menos metade do público consumidor de cinema é composto por mulheres, mas a quantidade de pessoas não deveria importar quando o que está em jogo é a construção de personagens. Todos os grupos deveriam ter direito de verem na tela constructos que façam sentido e não sejam meras caricaturas, fabricadas para o olhar de um público específico. Sim, trata-se de ficção e muitas vezes em mundos fantásticos, mas ainda assim, a representação de personagens femininas importa, e muita. Com um pouco mais de empatia por parte dos responsáveis é possível fazer filmes melhores.

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De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut/ 1999)

Assistido em 10/05/2013

Esquema de cores retirado do blog Movies in Color

De Olhos Bem Fechados é um filme prejudicado pela publicidade mal feita. Propagandeado (e, na época, polemizado) como um suspense erótico, o erotismo passa longe de sua história, embora a nudez esteja lá o tempo todo. Trata-se de uma história de dominação e certa obsessão, protagonizada pelo casal queridinho de Hollywood naquele momento. Possivelmente eles nunca estiveram tão bonitos como nesse filme (embora a atuação de Nicole Kidman esteja longe de ser boa). O personagem principal, Dr. William”Bill” Harford (Tom Cruise) e sua esposa Alice Harford (Nicole Kidman), são convidados para uma festa da alta sociedade, como é habitual. Alice está linda e é elogiada por todos menos pelo próprio marido, que sequer se vira para olhá-la quando ela pergunta se está bonita. Na festa, ele a deixa sozinha e ela bebe demais. Um figurão pede para dançar com ela e flerta abertamente. Ela vê seu marido entretido com duas jovens. Ao chegar em casa os dois discutem. Segundo Bill, ele não tem ciúmes dela porque é mãe de sua filha. Sua presença ao seu lado é garantida, mulheres não possuem esse tipo de desejo e ele não faz sexo com outras pessoas em sua consideração. Em resposta ela fala que nas férias, por muito pouco não largou tudo e foi embora com outro homem que só a havia olhado. Bill recebe um telefonema avisando que um paciente havia morrido e sai de casa durante a madrugada. E o que se segue são seus os desvarios de controle. Ele não aceita que Alice tenha desejos próprios, que não envolvam a pessoa dele. Afinal, conforme seu pensamento, mulheres não vêm sexo da mesma forma que os homens. Tudo que acontece desse momento em diante são seus desejos ( sexo com prostituta, com menor de idade, em grupo) e seus medos (homofobia, doenças venéreas, a descoberta da sua identidade, violência e morte). No seu olhar, todas as mulheres são submissas, daquela que vai casar com um homem que não ama as que usam máscaras e se despem diante de todos em um ritual. Mesmo uma moça morta é referida apenas como um objeto de desejo, “com belos seios”. Em sua própria imaginação a visão de Alice fazendo sexo com o desconhecido militar das férias o atormentam. Certas partes do filme funcionam de forma quase onírica, deixando o público decidir o que e real e o que não é. Embora a nudez e o sexo apareçam constantemente em cena, sempre são de forma distanciada e fria. O filme se fecha na negação do desejo. Falar que a fotografia e a escolha de cores de Kubrick são certeiras é chover no molhado. As cenas, especialmente na mansão onde se passa a orgia, são lindas. Os tons de vermelho e dourado permeiam o filme de maneira marcante. É um ótimo desfecho para sua carreira.

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Negócio Arriscado (Risky Business/ 1983)

Assistido em 01/05/2013

Decidi ver esse filme só por causa da cena abaixo. Já a conhecia por causa de uma “comédia romântica clássica” (ou não) da minha geração, Nunca Fui Beijada. (Pois é…). Qual não foi minha surpresa quando descubro que a dita cena acontece com menos de dez minutos de filme! Os pais do protagonista, Joel (Tom Cruise) viajam e ele resolve aproveitar a casa num momento Esqueceram de Mim. As semelhanças com Curtindo a Vida Adoidado também são grandes, embora ele seja anterior.

E daí pra frente o filme é um desastre com roteiro saído do sonho onanístico de um rapaz de 16 anos. Muitos filmes nos 80 abordaram a obsessão de adolescentes (homens) por perder a virgindade. Esse é mais um deles. Joel está preocupado com seu futuro, a universidade e também com a virgindade. Depois de uma secessão de acontecimentos acaba com uma jovem garota de programa, Lana, em sua casa. Lana só pode ter saído de uma fantasia masculina: é bonita, educada, pode tranquilamente ser apresentada aos pais e ainda gosta suficientemente do com rapaz para não cobrar dele os valores devidos. Eles resolvem faturar em cima dos amigos dele (e dela), trazendo dez colegas de trabalho dela para trabalhar ao longo da noite para os adolescentes. Impressiona que com os valores citados no filme, após a noite inteira, cada moça ganhou apenas 200 dólares. Vamos falar sobre exploração de seres humanos… O final aberto dá a entender que abusando outros seres humanos, Joel tem um futuro brilhante pela frente. Embora tente parecer uma versão séria e intimista desses filmes da época, no final é só um bocado deprimente. Mas a trilha sonora de Tangerine Dream é muito boa.

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