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Três anos de “Vestindo o Filme”

Mais um ano se passou e minha coluna no Cinema em Cena aniversaria hoje. Em 8 de julho de 2013 foi ao ar sua primeira edição, em que escrevi sobre O Grande Gatsby. Tive uma redução de ritmo considerável dessa vez: no primeiro ano foram vinte e cinco textos comentando quarenta e um filmes; no segundo dezoito e trinta e dois, respectivamente. Dessa vez foram treze artigos que abordaram trinta e duas obras. O espaçamento foi maior, mas pelo menos incluí mais filmes em cada um. Todo ano eu escolho os dez que mais gostei de escrever: não necessariamente os melhores, mas os que mais me diverti ou me interessei. Com o número reduzido, dessa vez vou escolher cinco, todos com links para o texto na íntegra. Vamos a eles:

Herói

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Nada como um uso espetacular de cores para auxiliar a narrativa. Esse filme de Yimou Zhang com figurino de Emi Wada é puro deleite para os olhos.

Garota Exemplar

Gone Girl

Figurinos de época geralmente são mais vistosos e chamam mais atenção, mas na sutileza e na minúcia de um bom figurino contemporâneo se esconde muita coisa. Trish Summerville é uma figurinista ainda com poucos filmes no currículo, mas que tem se mostrado consistente. Sua colaboração com David Fincher é uma prova da qualidade do seu trabalho.

Personagens femininas e seus figurinos em filmes de ação

Furiosa Mad Max

Nós sabemos que a representação feminina em filmes é problemática em geral, mas o que dizer das roupas pouco práticas utilizadas em filmes de ação ou aventura?

Juventude Transviada

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Roupas que marcaram época e gerações e uma direção de arte impecável em um filme clássico que eternizou James Dean como ícone que é.

Carol

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“Elegante” é o adjetivo que melhor descreve o último filme de Todd Haynes. Sandy Powell, figurinista veterana, criou para ele peças bonitas e que casam com a estética do conjunto. Como não se apaixonar por Carol (ou Therese)?

Para ler os demais textos sobre figurino no blog, acesse aqui.

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Figurino: Garota Exemplar

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme.

Aviso: esse texto contém revelações de detalhes da trama do filme.

“Sim, eu te amei e então tudo que fizemos foi nos ressentir, controlar um ao outro. Nós nos causamos dor. ”

“Isso é casamento. ”

Garota Exemplar é um filme fascinante e manipulativo, que brinca com as expectativas de quem o assiste. Dirigido por David Fincher, seu roteiro foi adaptado por Gillian Flynn do livro homônimo escrito por ela mesma. O figurino é de Trish Summerville, relativamente novata na indústria e que antes desse filme trabalhou em Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, também com Fincher, e Jogos Vorazes: Em Chamas. (Para ler a análise do figurino deste último, acesse aqui). Embora com poucos filmes creditados em seu currículo, Summerville mostra segurança em seus trabalhos. O cuidado que teve para com a narrativa de Garota Exemplar é uma prova. Figurinos confeccionados para filmes de época ou mesmo de fantasia são facilmente elogiados, uma vez que geralmente tem maior apelo visual para o público. Muitas vezes a beleza de um figurino contemporâneo pode passar despercebida, justamente por ser mais sutil. Neste filme, cada detalhe ajuda a contar a história.

Acompanhamos a história sob o ponto de vista de Amy (Rosamund Pike), que, em seu diário, relata sua vida com Nick (Ben Affleck). Eles se conhecem de uma maneira que parece saída de uma comédia romântica, com direito a diálogos afiados e literalmente uma nuvem de açúcar os envolvendo. Amy veste uma camiseta listrada branca e preta, saia, botas de cano alto e sobretudo preto. Ela é uma típica nova-iorquina urbana, que dá preferência a roupas escuras e bem cortadas. Seguindo esse padrão, no dia em que Nick a pediu em casamento, usava um vestido preto e no aniversário de 2 anos de casamento, um floral preto e branco.

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Tudo ia bem na vida do casal, até Amy perceber que Nick não se esforçava como deveria. Desempregado, não tinha ambição nem objetivos, mas mantinha um padrão de consumo bastante elevado. O ápice da decepção veio com a necessidade de se mudar para o interior, para ficar mais perto da família dele. Trabalhando em casa e sem amigos, ela troca suas roupas modernas por calças, camisetas e pulôveres confortáveis. Amy deixa de ser quem ela realmente desejava ser. É assim, vestida inteiramente de preto que ela relata a primeira agressão de Nick e o medo constante decorrente dela.

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É no aniversário de cinco anos de casamento que Amy desaparece. Nick se torna o principal suspeito. Durante a manhã, ele sai de casa vestindo uma camiseta azul e uma camisa azul claro por cima. Dois dias depois ele ainda está com a mesma roupa, já amarrotada. Ao longo dos anos as roupas dele pouco vão mudar. Sua paleta é composta de azuis e cinzas, às vezes com estampas xadrez e suas roupas são camisetas, camisas de botão, moletons e calças jeans. Lembrando que o relato é sob o ponto de vista de Amy, ele é apresentado como um homem mediano, que não ousa, não a surpreende nem desafia. É um homem comum, apesar de tudo.

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Os pais de Amy aparecem para ajudar na busca da filha. Eles são apresentados como pessoas rígidas, que acham que ela jamais era boa o suficiente. Ainda quando ela era criança, criaram a personagem de livros infantis Amazing Amy como uma versão melhorada dela. Por serem entendidos por Amy como essas pessoas insípidas e incapazes de ter laços reais com ela, eles sempre aparecem vestidos em tons de bege.

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Amy, que como é revelado, fugiu de casa, ganha peso e começa a vestir roupas desleixadas, largas e sem muito apelo estético, para passar despercebida por onde vai.

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Ao ser roubada, precisa recorrer à ajuda de seu ex-namorado Desi (Neil Patrick Harris). Ele é passivo-agressivo e controlador e por isso escolhe as roupas que ela usa e a cor e o corte de seu cabelo. Não deixa de ser irônico, após seu discurso sobre a cool girl, que se adapta aos homens ao seu redor, já que de certa forma ela fez isso, mas por sobrevivência.

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Acompanhando pela televisão as notícias e investigações a respeito de seu suposto sequestro, Amy descobre em Nick o homem que aspirava que ele fosse quando casaram. Por isso ela resolve voltar e transformar esse retorno em um verdadeiro espetáculo midiático.

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Em um primeiro momento ela vende uma imagem de fragilidade, além de uma feminilidade tradicional, com tecidos fluidos e rendas.

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Ao final, quando revela a Nick sua gravidez, ela volta a assumir o controle da situação, a despeito da violência dele, e por isso retoma sua versão nova-iorquina, com um vestido em preto e branco, com corte reto e poucos detalhes. Dessa forma ela demonstra novamente quem é de verdade.

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O trabalho de Trish Summerville é impressionante: embora minimalista, casa com perfeição com a narrativa proposta por David Fincher. Até mesmo o fato de todos os personagens principais se vestirem em tons frios ou neutros dialoga com a total ausência de tons quentes no filme. Mesmo o filtro amarelo, que é intercalado ao branco-azulado na fotografia, não é cálido. Em um filme em que a construção dos personagens e nossa percepção a respeito deles é essencial para comprarmos as justificativas de suas ações e entendermos as negociações e reviravoltas, as roupas, mesmo que pouco percebidas, são de extrema importância.

“No que você está pensando? Como está se sentindo? O que fizemos um ao outro? O que faremos?”

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Análise dos Indicados no Sindicato dos Figurinistas

No dia 17 de fevereiro o Sindicato do Figurinistas dos Estados Unidos revelou os vencedores de seu 17º prêmio anual (Costume Designer Guild Awards). A premiação tem como votantes profissionais da área, como figurinistas, assistentes de figurino e ilustradores que tenham vínculo com o sindicato e o prêmio abarca produções de cinema, televisão e publicidade. Por se tratar de uma escolha feita pelos próprios profissionais, a tendência é que avaliem mais as sutilezas da obra indicada, enquanto outros prêmios, como o Oscar, por exemplo, tendem a lembrar apenas dos figurinos mais vistosos. Isso pode ser percebido no fato de no ano passado o Sindicato ter premiado 12 Anos de Escravidão (na categoria Filme de Época) e o Oscar, a exuberância de O Grande Gatsby. (Para ler análise completa dos indicados e vencedores do ano anterior acesse aqui).
Abaixo estão as categorias, seus indicados (com o vencedor em destaque) e uma breve análise sobre cada uma:

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Excelência em Filme de Fantasia:

Jogos Vorazes: A Esperança — Parte 1 – Kurt and Bart
Caminhos da Floresta – Colleen Atwood
Malévola – Anna B. Sheppard, Jane Clive
Guardiões da Galáxia – Alexandra Byrne
O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos – Bob Buck, Lesley Burkes-Harding, Ann Maskrey

INTO THE WOODS

De antemão já aviso que não assisti ao último filme da trilogia O Hobbit, mas pelas imagens de divulgação é possível dizer que segue a mesma linha e é mais do mesmo dentro da série. Conforme falei ano passado, é difícil não ver esse trabalho como uma continuidade do que era feito em O Senhor dos Anéis, mas de maneira bem menos impressionante.

Quase o mesmo pode ser dito a respeito de Jogos Vorazes: A Esperança — Parte 1. Com figurinistas diferentes a cada filme, percebe-se que Trish Summerville, responsável pelo segundo filme, Em Chamas, ampliou e aprimorou as decisões estéticas tomadas por Judianna Makovsky no primeiro. Coube à dupla Kurt e Bert preservar o interesse com as roupas utilitárias do 13º Distrito, destacando diferenças entre as personalidades e hierarquias dos personagens, mesmo que com uso de uniformes. Quanto ao que se passa na capital, mantiveram o minimalismo do Presidente em contraste com a exuberância da moda vigente, reforçando o desconforto de quem ficou para trás através de pequenos detalhes. Não é um trabalho tão vistoso, mas cumpre muito bem seu papel. (Leia aqui a análise do figurino de Jogos Vorazes: A Esperança — Parte 1)
Já em Guardiões da Galáxia, Peter Quill precisava passar a imagem de um aventureiro, uma espécie de Indiana Jones. A dancinha inicial aliada ao sobretudo já revelam a personalidade do personagem. Posteriormente, a jaqueta vermelha vai marcar seu visual. Além dele, há Gamora, com roupas justas e que que liberam os movimentos para luta; Drax vestindo apenas calças cargo, deixando seu torso de lutador à mostra, Rocket de armadura, uma vez que sua constituição de pequeno mamífero é frágil e… Groot, que dispensa esse tipo de formalidade. Contando ainda com vilões e muitos coadjuvantes, o filme confere individualidade a eles, fazendo grande uso de vinil e armaduras e com uma profusão de detalhes e texturas.
Malévola possui um figurino muito bonito, que mostra com clareza a trajetória da personagem. De silhuetas soltas e fluidas até formas rígidas, que incluem seu adorno de cabeça, seus trajes demonstram o trauma pelo qual passou. As cores também auxiliam: de tons neutros de marrom e amarelo que a ligavam à natureza ao seu redor, durante a infância, ela chega ao negro total ao amaldiçoar Aurora. Elementos naturais, como peles, garras, ossos e penas, adornam suas roupas. E há ainda os belos trajes medievais em tons pastel da princesa. Em um ano em que nenhum dos indicados se destaca em relação aos demais, esse seria o que eu escolheria na categoria. (Leia aqui a análise do figurino de Malévola)
Apesar de gostar muito do figurino de Malévola, é inegável a beleza do trabalho de Colleen Atwood (conhecida por ser colaboradora de longa data de Tim Burton) no musical Caminhos da Floresta. Adaptado do musical da Broadway de mesmo nome, a história não se passa em nenhum momento específico da história, de maneira que o figurino foi trabalhado com grande liberdade. Os detalhes são muitos: a capuz estruturado da capa de Chapeuzinho Vermelho, bem como seu sapatinho com múltiplas fivelas; o vestido diáfano repleto de amarrações que remetem ao encarceramento, utilizado por Rapunzel; o Lobo Mau com um paletó zoot, traje com gravata curta e calças volumosas e cintura alta, utilizado nos Estados Unidos no começo do século passado. A variedade de formas e cores é imensa, mas o destaque é o misto de Fada Madrinha com Bruxa Má da personagem de Maryl Streep. Com grandes mangas bufantes e cintura marcada por um corpete oculto que estrutura a forma, sua aparência, acrescida da volumosa cabeleira azul, é vistosa e serve bem à ambiguidade da personagem. O conjunto dos personagens é diverso, colorido e repleto de elementos interessantes.
INHERENT VICE

Excelência em Filme de Época:

Vício Inerente – Mark Bridges
A Teoria de Tudo – Steven Noble
O Jogo da Imitação – Sammy Sheldon Differ
O Grande Hotel Budapeste – Milena Canonero
Selma – Ruth E. Carter

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Essa categoria costuma ser a mais disputada, mas esse ano, tanto pelo nível mediano de grande parte dos competidores quanto pela grande qualidade de um deles, o vitorioso era uma certeza. Vício Inerente ainda não estreou no Brasil, então não posso comentar a seu respeito.

Selma é um trabalho que impressiona: Ruth Carter vestiu dezenas de figurantes presentes em cena. É possível ver a preocupação com a diversidade de classes sociais representadas, a diferença no vestir entre as gerações e o uso de múltiplas camadas de casacos, que, segundo ela, os manifestantes utilizavam para se proteger em caso de violência contra eles. É um trabalho bastante bonito.
Em A Teoria de Tudo, as roupas do protagonista, Stephen Hawking, são construídas de forma desproporcional, com grandes golas e tecidos sobrando, de maneira a mostrar a sua perda de musculatura sem que o ator precisasse emagrecer ou que fosse utilizado efeitos digitais. É semelhante ao que foi feito para frisar o emagrecimento de Matthew McConaughey em Clube de Compras Dallas no ano passado. A outra protagonista, Jane, utiliza roupas de jovem comportada da classe média de então, com muito azul para ajudar na percepção de juventude e frescor. Trata-se de um figurino apenas adequado, assim como o filme.
O mesmo acontece com O Jogo da Imitação. Tanto Alan Turing quanto sua amiga Joan Clarke se vestem de forma um pouco desleixada, com muitos tweeds, marrons e azuis. O restante da equipe é suficientemente individualizado em suas aparências, com destaque para a elegância em paletós bem cortados de Hugh. O resultado final cumpre o seu papel, mas não é nada excepcional.
Já O Grande Hotel Budapeste é certamente o vencedor merecido. Como em todo filme do diretor Wes Anderson, o figurino faz parte de um conjunto maior cuidadosamente criado para compor toda a estética da obra. Cada um dos três períodos recebe tratamento diferenciado, mas coesos dentro da proposta. O uso de cores dialoga com os cenários e as roupas, peculiares, são essenciais para nossa percepção dos personagens. Veterana na indústria, Milena Canonero sem dúvida fez um belo trabalho. (Leia aqui a análise do figurino de O Grande Hotel Budapeste).

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Excelência em Filme Contemporâneo:

Birdman – Albert Wolsky
Boyhood – Kari Perkins
Garota Exemplar – Trish Summerville
Interestelar – Mary Zophres
Livre – Melissa Bruning

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Essa foi a categoria com maior número de indicados realmente interessantes e, por, isso, a mais disputada. Interestelar e Boyhood são os dois mais fracos, embora seus figurinos façam o que se propõem. O primeiro compõe o retrato de um futuro devastado, em que as roupas são muito próximas das nossas. Há ainda a criação de trajes espaciais adequadamente envelhecidos. No segundo, a figurinista Kari Perkins fez um trabalho quase intuitivo, escolhendo as peças conforme foram filmando, de acordo com a idade dos personagens e deixando marcadas as modas de cada ano.
Livre é meu segundo preferido neste grupo. O figurino recriou diversas roupas registradas em fotos da Cheryl Strayed da vida real, como as bermudas, as calças, as camisetas (das lisas às estampadas, como uma do Bob Marley) e as botas com característicos cadarços vermelhos. Cada peça foi comprada ou confeccionada em grande número, para os diferentes estágios de envelhecimento e sujeira que aparecem em cena. Além disso, com os flashbacks, há a composição dela e dos demais personagens de seu círculo de conhecidos, em épocas que variam do final dos anos 80 até meados dos anos 90, quando começou a trilha. Apesar de ter sido categorizado como “contemporâneo”, poderia ter sido considerado um filme de época.
Em Garota Exemplar Trish Summerville mostra mais uma vez porque é um nome que vem ascendendo tão rapidamente na indústria. O figurino é extremamente significativo na narrativa e esse é meu preferido da categoria. Amy passa por diversas fases: primeiro é a mulher confiante e senhora de si nos flashbacks mais antigos, vestindo roupas bem cortadas, urbanas e escuras: uma cool girl nova-iorquina. Ao longo do casamento, depois da mudança para o interior, ela altera seu jeito de vestir conforme deixa de ser quem queria. Ao fugir, ganha peso e se veste de forma desleixada para não chamar atenção para si. Quando volta para casa, começa a usar trajes que passam uma imagem mais delicada e tradicionalmente feminina. Até que, no desfecho do filme, com a última revelação para Nick, traja um vestido preto com detalhes brancos, sóbrio, que marca o corpo mas não tem detalhes. Amy fechou sua trajetória voltando a ser quem queria. Já Nick é aquele cara comum, que veste camisa azul e usa moletom com calça jeans. Ele não a desafia nem se desafia. Impressiona o nível de cuidado para que as roupas casem tão bem com a narrativa surpreendente. É uma pena que nem sempre figurinos contemporâneos tenham a atenção merecida.
Em Birdman o figurino precisa mostrar seus personagens nos palcos e fora dele. Para o teatro, há roupas dos anos 50 com cores vistosas, conforme a época que se passa a cena. Fora do personagem, o ator e agora diretor Riggan Thomson é um homem de meia idade em crise, que veste roupas monótonas e cuecas brancas. É claro que até as roupas íntimas foram planejadas para compor a falta de alinhamento do personagem com a contemporaneidade. Ele contrasta com sua filha Sam, que usa roupas modernas e descombinadas e mesmo com Mike, ator arrogante e autoconfiante que se veste de forma despojada e usa sunguinha estampada. Para coroar, há o próprio Birdman, cujo uniforme com texturas de penas, detalhes dourados no capuz, fivela do cinto, luvas e botas e cor preta azulada é suficientemente crível para poder ter sido usado de verdade em um filme, mas ainda assim mantendo um quê de ridículo.
Os indicados ao Oscar de Melhor Figurino deste ano foram os já citados Vício Inerente, Caminhos da Floresta, Malévola e O Grande Hotel Budapeste, acrescidos de Sr. Turner. Dessa vez a Academia acompanhou o Sindicato e premiou o belo trabalho de Milena Canonero em O Grande Hotel Budapeste.

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Figurino: Jogos Vorazes- Em Chamas: moda e ambiguidade na Capital

Texto originalmente publicado na coluna Vestindo o Filme em 20/11/2013.

Chegou às telonas Jogos Vorazes: Em Chamas, segundo filme adaptado da série de livros distópico-futuristas de Suzanne Collins. Entre o primeiro e este, muitas mudanças ocorreram: o orçamento quase dobrou, de 78 para 140 milhões de dólares (o que transparece no resultado final); trocou-se o diretor (de Gary Ross para Francis Lawrence) e com ele parte da equipe técnica, incluindo a figurinista, que era Judianna Makovsky (de A Princesinha) e passou a ser Trish Summerville, nome em ascensão após Millenium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres.

Summerville possui um método de trabalho que é pouco apreciado por outros figurinistas: busca parcerias com estilistas e coordena seus trabalhos. Geralmente quando isso ocorre, o nome do estilista sobressai-se ao do figurinista (como Miuccia Prada em O Grande Gatsby) ou há polêmicas em relação à autoria (como ocorreu em O Cisne Negro). (links para ambas as colunas) Ela orquestra os envolvidos e suas estéticas de uma maneira que o que sobressai ao final ainda é sua visão e o que fica gravado é o seu nome. Sabe se beneficiar como ninguém dessa prática mercadológica de explorar o mundo da moda no cinema. Em Jogos Vorazes: Em Chamas, aproveitou o universo criado por Makovsky e avançou, ampliando a escala.
Nos distritos, predominam materiais naturais, como linho, algodão e couro, em cores esmaecidas e tons de cinza e bege. A modelagem continua remetendo às décadas de 1930 e 1940, em uma clara alusão aos regimes totalitaristas que dominavam a Europa nesse período. A vida ali não é fácil e as roupas devem ser práticas, visando as atividades cotidianas.
O uniforme dos guardas pacificadores passou por pequenas alterações. Mantém-se a alvura (que contrasta com as roupas dos habitantes dos distritos), mas a bota passa a ser também branca e acrescenta-se uma placa peitoral e uma nas costas com textura de esqueleto, além de joelheiras, aumentando a organicidade do conjunto.

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Enquanto está em casa, Katniss (Jennifer Lawrence) continua usando a jaqueta de couro do primeiro filme, mas sobre ela é acrescentada uma espécie de cachecol-colete, executado pela designer de tricô Maria Dora. A peça tem um formato interessante, deixando clara a influência da Capital, ao mesmo tempo em que é confeccionada em lã (fibra natural, do distrito), e tem aparência de feita em casa.

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Ao longo da Turnê dos Vitoriosos Katniss utiliza outras peças de lã, bem como outras roupas que seguem o mesmo conceito: minimalistas, como as do distrito, mas com detalhes que despertem o interesse, remetendo à Capital. Seu estilo de se vestir amadureceu. Afinal, após ter vencido a 74ª edição dos Jogos Vorazes, ela não só não é mais a mesma garota do ano anterior, como passa a ser uma pessoa pública, de interesse coletivo e apelo televisivo.

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Um exemplo é o macacão azul-marinho com cinto marrom utilizado no dia do sorteio: ele quase parece uma roupa de trabalho, mas o corte ajustado confere-lhe elegância e demonstra haver design por trás de sua criação.
Peeta (Josh Hutcherson) também começa a usar roupas mais maduras: Summeville o veste em camadas e utiliza muitas jaquetas de maneira a destacar seu porte físico. Seu terno de casamento, feito pelo estilista coreano Juunj, tem corte estruturado, arquitetural: a lapela fendida gera tridimensionalidade à roupa. O toque futurista é acentuado pelo colarinho da camisa, seus punhos e o lenço, substituídos por versões metálicas.

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Para a festa antes dos jogos, o vestido preto com detalhes vermelhos de Katniss aproveita de forma pouco sutil seu apelido de “garota em chamas”.

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O mesmo ocorre com o vestido de casamento, utilizado na transmissão televisiva. Volumoso e com muitas camadas, ele possui uma trama metálica próxima ao ombro em forma de chama, ao mesmo tempo em que tem adornos feitos com penas, lembrando o papel de Katniss como o tordo, símbolo da revolução que ocorre nos distritos. O traje foi desenhado e confeccionado por Tex Saverio, estilista indonésio. Quando Katniss rodopia, o vestido é consumido pelas chamas, transformando-se em outro, negro e com asas. Dessa forma o papel duplo (e dúbio) da personagem é frisado: o povo da Capital a vê como entretenimento: a garota em chamas da televisão; mas sob o espetáculo, esconde-se o símbolo da esperança e da revolução nos distritos.

Croqui do vestido de casamento por Tex Saverio

Croqui do vestido de casamento por Tex Saverio

Entre os novos personagens, dois se destacam. Finnick Odair (Sam Claflin) e Johanna Manson (Jenna Malone). Finnick é do Distrito 4, responsável pela pesca, e por isso, para sua apresentação, usa uma saia de tricô dourado, para lembrar uma rede de pesca, acompanhada de um cinto e, como acessório, um colar de conchas. Já Johanna, do distrito 7, responsável pela produção de lenha e madeira, veste um longo vestido marrom, com lascas de tronco de árvore subindo pelo seu pescoço, criando uma aparência de desconforto.

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A personagem com guarda-roupa mais variado e interessante não poderia ser outra: Effie Trinket. No primeiro filme da série, Joadianna Makovsky teve como inspiração para a moda da capital a obra da estilista Elsa Schiaparelli, marcada pelo surrealismo. Agora, Summerville tem uma inspiração mais próxima de nossos tempos: a marca Alexander McQueen, conhecida pelos excessos em sua estética e que atualmente tem suas coleções criadas por Sarah Burton.

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A inspiração é patente no vestido de casamento de Katniss, mas literal no vestuário de Effie: Seus vestidos são todos retirados de coleções recentes da marca. Não deixa de ser uma escolha interessante, porque o povo da capital vive para o espetáculo e isso coloca a alta-costura como símbolo dessa futilidade.

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Ao mesmo tempo, Effie representa nós mesmos, a plateia sedenta por entretenimento e coisas bonitas aos olhos, por vezes sem perceber as implicações políticas disso. Para Effie, a primavera já chegou (por isso as borboletas monarcas em seu vestido) e não parece se dar conta de que o povo fora da Capital vive um longo inverno de fome, opressão e medo.

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Ao fazer uso de roupas de grife para compor o figurino, e levando-se em conta a temática do filme, Trish Summerville fez uma crítica (talvez inconsciente) às próprias indústrias da moda e do entretenimento. Demonstra talento ao unir trabalhos tão diversos e manter a unidade da proposta visual. Jogos Vorazes: Em Chamas evoluiu muito os conceitos utilizados no primeiro filme e apresenta-se como um produto melhor acabado. E nós, como o povo da Capital, o assistimos, sedentos por ver o desfile de belos trajes utilizados em cena, enquanto em algum lugar dos distritos, faz-se a revolução.

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Jogos Vorazes: Em Chamas (The Hunger Games: Catching Fire/ 2013)

Assistido em 15/11/2013

Post sem spoilers!

Jogos Vorazes: Em Chamas, segundo filme da franquia, teve quase o dobro do orçamento do primeiro: de 78 milhões de dólares passou para 140 milhões. Desses, 10 milhões foram o cachê de Jennifer Lawrence, pois nesse meio tempo ganhou fama e tornou-se oscarizada. Um belo salto em relação aos 500 mil que recebeu no anterior. Mas mesmo assim, a verba extra é perceptível em todas os momentos na produção.

O filme começa alguns meses depois do fim dos Jogos Vorazes. Katniss (Jennifer Lawrence) e Peeta (Josh Hutcherson) moram em casas contíguas na vila dos vencedores, onde também reside Haymitch (Woody Harrelson). Após encarnarem os amantes trágicos diante de toda a nação e saírem ambos vitorioso, agora eles mal sem falam. Ela voltou às caçadas com Gale (Liam Hemsworth) e tem visíveis sintomas de stress pós-traumático. Ninguém sabe exatamente o que está acontecendo, mas têm a percepção de que algo está mudando por conta da última edição do jogos. As consequências de seus atos são ponto central da trama. Para Katniss isso fica patente quando o Presidente Snow (Donald Sutherland) aparece em sua casa e a avisa que a turnê dos vitoriosos logo se iniciará e que nos distritos muitos não acreditam na história de amor entre ela e Peeta, vendo, sim, um desafio ao poder da Capital. Ameaçando a vida de sua mãe (Paula Malcomson)  e de Prim (Willow Shields), a sua irmã, além da de Gale, Snow quer ter certeza de que ela se esforçará para representar satisfatoriamente a sua relação com Peeta, para não causar mais levantes na turnê dos vitorioso que virá. Apenas lá Katniss e Peeta começam a ter noção da dimensão do que vem acontecendo.

Com um novo gamemaker, Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman), a 75ª edição será um Massacre Quartenário, jogo que acontece a cada vinte e cinco anos com regras diferentes. O presidente está decidido a enfraquecer a figura dos tributos vencedores. Assim Plutarch sugere que relembrem que o motivo dos jogos existirem é para mostrar aos distritos o que ocorre com quem se rebela contra a Capital. Os contornos políticos da distopia fortalecem-se.

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Katniss está fragilizada nesse ponto da história. Ela se tornou o símbolo de uma revolução sem ter querido ou percebido. Aqui ela, com o auxílio de Cinna (Lenny Krevitz), liteiralmente encarna o mockinjay. O que ela queria era sobreviver com sua família, mas se viu mergulhar em uma trama complexa que não sabe como lidar. Jennifer Lawrence encarna esse momento da personagem com precisão. Embora eu não tenha concordado com a escalação da atriz para o papel (por trata-se de um embranquecimento da personagem em relação ao livro), não há como negar seu talento.

Gale e Effie Trinket (Elizabeth Banks) tem suas participações ampliadas nesse filme. Ela tem até mesmo o nome mencionado algumas vezes, fato que não ocorreu no primeiro filme. Essa presença é bastante positiva, pois ela nos representa nesse contexto. Ela é o povo da Capital, sedento por coisas bonitas e entretenimento, assim como, ironicamente, a plateia que o assiste. Se ela não tem noção da dimensão política dos acontecimentos, não é por mal: embora alienada, tem bom coração.

Entre os novos personagens, uma surpresa positiva foi o de Finnick Odair (Sam Claflin). Ao ver as fotos do ator na escalação do elenco, não achei ele combinasse com o personagem, mas sua atuação me desmentiu. Além disso, uma cena do livro envolvendo outra personagem nova, Johanna (Jena Malone), que havia comentado no dia anterior que tinha certeza que seria cortada em virtude da classificação etária do filme, não só foi executada, como melhorada.

Aliás, em termos de adaptação, o filme como um todo se saiu muito bem. O livro Em Chamas é fortemente prejudicado por ser o meio da série, além de ter uma parte de trama repetida do primeiro livro.  Para o filme, houve a percepção de que essa parte não funcionaria e houve uma redução considerável, embora não pudesse ser extirpada da trama. (Ainda assim citaria esse como o maior ponto fraco da película). Todas as alterações feitas serviram para melhorar a história e, por vezes, dar mais impacto às ações dos personagens. Levando-se em conta que, como já mencionei, o aumento de recursos transparece na tela, o segundo filme parece melhor que o primeiro, mesmo sendo apenas um elo de ligação.

Sobre os aspectos técnicos, tudo mudou de escala. Os espaços da Capital estão mais grandiosos. A computação gráfica melhorou bastante, embora o fogo ainda não seja realista. Os figurinos estão ainda mais vistosos. Novamente, paguei minha língua. A figurinista do primeiro filme, Judianna Makovsky (de A Princesinha), foi substituída nesse por Trish Summerville (que já havia feito Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, onde abusou de uma estética exagerada que caricaturou a personagem Lisbeth). Aqui ela novamente cometeu excessos, mas que casaram com o contexto da Capital. A fotografia está muito melhor, sem o uso de câmeras tremidas.

wedding dress katniss

O final do filme deixa claro que muito mais está por vir. Embora tenha escrito para jovens, Suzanne Collins não diluiu os conceitos que norteiam sua trama. A Esperança, o terceiro e mais forte dos livros, será dividido em dois filmes e se o nível da produção permanecer o mesmo, tudo indica que será algo memorável em termos de produto para o público infanto-juvenil (e, porque não, adulto). Em Chamas provou que o aumento da escala da produção apenas beneficiou-a. A verba extra não se perdeu em efeitos especiais vazios, mas possibilitou a execução aprimorada das ideias e a ampliação do senso de urgência e do suspense, pois algo se agita abaixo aparente calmaria.

Quem só queria ler meu comentário sobre o filme, pode encerrar por aqui. Agora vou relatar a experiência antropológica que foi assistir a ele no dia de estreia. O cinema que geralmente frequento abriu uma sala dublada e uma legendada. Dirigi-me sozinha até ele no início da tarde. Todas as sessões dessas salas já estavam esgotadas, mas havia sido aberta uma terceira sala, legendada. Consegui ingresso para o segundo horário, 15:20. Passei nas Americanas para comprar um salgadinho e percebi que o shopping estava lotado de grupinhos de pré-adolescentes e adolescentes. Faltando meia hora para a sessão segui para a sala. Para minha surpresa, era muito pequena: provavelmente a menor sala de cinema que já frequentei na vida. Quando entrei a maioria dos lugares já estavam ocupados e muitos estavam reservados com bolsas e pipocas. Sentei-me próxima ao corredor, no alto, e agucei os ouvidos. À minha esquerda um grupos composto por duas meninas e um menino, com aproximadamente catorze anos, relatavam o segundo livro inteiro! Fiquei com pena de quem assiste o filme sem ler os livros. À minha direita, do outro lado do corredor, um grupelho de cinco meninos com em torno de 10 anos faziam algazarra. Atrás de mim, algumas adolescentes e uma criança muito pequena, que mau sabia pronunciar palavras ainda. Em algum ponto da sala um bebê chorava. (Porque as pessoas levam bebês para sessões que sabem que serão tumultuadas?). Uma das meninas do meu lado tecia comentários apaixonados a respeito de Peeta. A segunda negou veementemente cada frase dela. Alegou que preferia Gale, porque foi o único que lutou pela revolução. Segundo ela, Katniss lutou pela Prim, Peeta, (mais ou menos) lutou pela Katniss e Gale foi o único que lutou por todos. “Você não lembra no primeiro filme, que no começo ele já sugere pra Katniss?”. A primeira, a contragosto, concordou com os argumentos, mas diz ainda preferir Peeta. Os trailers começaram mas foram interrompidos por problema na projeção, que estava sem foco e com som estourado. Alguém no fundo grita “liga pra Net!” e a sala toda cai na gargalhada. Eu já estava meio tensa, pensando que ia me incomodar horrores com essa plateia. Acontece que, assim como eu, a maior parte era composta por fãs. Fãs um tanto mais efusivos e sem controle do que essa quase balzaca que vos escreve, claro, mas fãs. Irritei-me e soltei palavrões quando a menina ao meu lado ATENDEU o celular não uma, mas três vezes! Sua mãe estava a sua procura, aparentemente. Além disso a criança pequena atrás de mim simplesmente não sabia o que estava acontecendo. A cada meia dúzia de cenas ela perguntava “ela morreu? ele morreu?”. Mas no final estava mais engraçado que irritante. O grupo de meninos chamou Ceasar de gay algumas vezes. Fora isso, foi até muito interessante, quase como uma experiência além do filme. É claro que beijos despertaram risinhos. Mas em dois momentos importantes em que eu me contraía com um sentimento de “fuck yeah” na cadeira, o pessoalzinho menos reprimido aplaudiu fervorosamente, o que contribuiu com o clima da cena. Em outros dois momentos, pelo menos metade do cinema ergueu os braços e até mesmo alguém talentoso atrás de mim fez o assovio do mockinjay. Perguntaram-me se eu achava que esse público entendia que não era só uma aventura ou um triângulo amoroso, se percebiam o aspecto político, ainda que leve, na obra. Pelo que ouvi ao meu redor, os mais novos estão alheios e estão lá pela diversão, mas a política certamente faz parte das discussões entre os mais velhos. Geralmente eu sou chata, muito chata, em relação ao comportamento das pessoas no cinema. Quero ver meu filme com silêncio total em torno de mim. Mas nesse caso, em que os próprios livros (e a Jennifer Lawrence) me transformam em fangirl adolescente, em minha opinião, essa experiência coletiva foi extremamente válida, porque é um filme que desperta essa empolgação. É uma geração sortuda (essa e a anterior com Harry Potter), pois a minha não teve nenhum produto cultural para gerar esse tipo de paixão.

Para ler minha análise do figurino de Jogos Vorazes: Em Chamas, acesse aqui.

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